The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Cames, Tomo II, by 
Lus de Cames

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Title: Obras Completas de Luis de Cames, Tomo II

Author: Lus de Cames

Release Date: March 5, 2010 [EBook #31509]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS COMPLETAS--LUIS DE CAMOES ***




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Notas de transcrio:

O texto aqui transcrito,  uma cpia integral e inalterada do livro
impresso em 1843.

Mantivemos a grafia usada na edio impressa, tendo sido corrigidos alguns
pequenos erros tipogrficos evidentes, que no alteram a leitura do texto,
e que por isso no considermos necessrio assinal-los. Mantivemos
inclusivamente as eventuais incoerncias de grafia de algumas palavras, em
particular quanto  acentuao.

Nesta verso electrnica, em texto simples, no  possvel representar
alguns caracteres usados no livro impresso. Usamos como substituto desses
caracteres os seguintes marcadores:

[~e] = e com til por cima, corresponde aproximadamente a "em";

[~u] = u com til por cima, corresponde aproximadamente a "um";


      *      *      *      *      *





                          CLASSICOS PORTUGUEZES.

                                 TOMO II.

                                  CAMES.

                                    II.



PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,
Rua Racine, 28, junto ao Odeon.



OBRAS COMPLETAS

DE

LUIS DE CAMES,

CORRECTAS E EMENDADAS

PELO CUIDADO E DILIGENCIA

DE

J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.


TOMO SEGUNDO.


LISBOA.

ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,
NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,
3, quai Malaquais, prs le pont des Arts.

1843




PREFAO.


Os que so versados na historia tero feito esta observao, que em todos
os povos que no mundo tem figurado, as armas precedro sempre s letras.
Para haver Homeros, necessario foi que houvesse primeiro Achilles. O amor
da patria e da liberdade, e aquelle innato desejo, que mais ou menos
violento segundo as diversas indoles, arde no corao de todo homem, de se
elevar acima de seus iguaes por meio de aces grandiosas e sublimes,
excitro as almas nobres a tentar grandes empresas; e as faanhas dos
heroes impelliro depois os bons engenhos a transmitti-las aos vindouros,
elegantemente escrevendo em prosa ou verso. E nunca vimos que prosperassem
muito as letras n'um povo indigno de historia. Assim que bem se pde dizer
que sempre a penna dos Escritores foi aparada pela espada dos Guerreiros:
testimunhas Grecia e Roma.

Portugal, des de o bero educado para as armas e endurecido na guerra, a
todas as naes modernas se avantajou em gloria militar. Com poucas foras
e meios no somente sustentou longas e terriveis guerras, mas no contente
de reconquistar e manter gloriosamente a sua independencia, emprehendeo
mores cousas: devassou mares virgens, descobrio novas regies, venceo e
sujeitou a seu jugo muitos e mui poderosos Reis e povos; e tendo estendido
o seu imperio at aos ultimos confins da terra, excitando a admirao das
gentes com nunca vistos prodigios de industria, de valor, e de constancia
por espao de quasi cinco seculos, longo tempo se manteve no apice da
grandeza e gloria humana: at que o ultimo Henrique, dessemelhante em tudo
do primeiro, preparada ja nos dous antecedentes reinados a encosta por onde
a illustre nao devia descer da altura a que subira; reunindo em si o Bago
e o Sceptro e manchando as mos sagradas nas cousas temporaes, a despenhou
no abysmo, donde at hoje no ha podido mais levantar-se.

Tendo, pois, florescido tanto nas armas, razo era que florescesse tambem
nas letras. E com effeito, despertados os engenhos com o estrondo dos
feitos militares, um pouco mais tarde comero ellas de nascer, e achando
o cho propicio, pouco a pouco se foro arraigando de maneira, que ja no
decimo terceiro seculo, reinando ElRei Dom Denis, desabrochro suas
primeiras flores; tendo aquelle grande Rei a gloria de lhes haver dado o
primeiro impulso, escrevendo elle mesmo com summa elegancia para o tempo
algumas obras, como um Tratado entitulado _Dos principaes deveres da
Milicia_, e dous Cancioneiros, um dos quaes appareceo em Roma, reinando em
Portugal Joo III. E no decimo quarto produzro ja um to sazonado fructo,
como o Amadis de Gaula, obra de Vasco de Lobeira, que traduzida por
Bernardo Tasso, pae do Epico Italiano, tamanho brado deo na Italia, e da
qual o mesmo Epico diz (Defens. di Goffredo): _Per giudizio di molti e mio
particularmente  la pi bella che si legga fra quelle di queste genere....
Perche nell'affetto e nei costumi se lascia addietro tutte l'altre, e nella
variet de gli accidenti non cede ad alcuna, che dapoi n daprima fosse
stato scritta._ E como tal a exceptuou Miguel de Cervantes na revista que
fez o Cura dos livros de Dom Quixote, dizendo: _Este livro fu el primero
de Caballaras que se escrevi en Espaa, y todos los demas han tenido
principio y origen deste.... Es el mijor de todos los que deste genero se
han compuesto._

No decimo quarto se escreveo a Chronica do Condestavel e grande capito
Dom Nuno Alvares Pereira (primeiro ensaio historico de que temos
noticia) que se imprimio em Lisboa em 1520.

No decimo quinto escreveo ElRei Dom Duarte _O Leal Conselheiro_, que se
conserva na bibliotheca Real de Pars, e dous tratados entitulados, um _Da
Misericordia_, outro _Do Regimento da justia e Officiaes della etc_. Seu
irmo o Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, que veio a ser depois Regente
do Reino durante a menoridade de Affonso 5., tambem escreveo algumas obras
politicas e moraes em prosa e verso, algumas das quaes se imprimro em
Leiria 6 annos depois da inveno da imprensa, e traduzio do Latim e
dedicou a seu irmo Dom Duarte _Cicero de Officiis_, e _Vegetius de re
militari_. Ayres Telles de Menezes, que por esse mesmo tempo floresceo, foi
elegante poeta; e delle nos conservou Rezende no seu Cancioneiro algumas
poesias; e para que se veja a que estado de cultura e perfeio havia ja
ento chegado a nossa bella lingua, transcreveremos aqui a seguinte

                      ODE

      De pungentes estimulos ferido
    O Regedor dos ceos e humilde terra,
    Sbre ti manda, desastrada Lysia,
            Effeitos da sua ra.

      A peste armada destruir teu povo
    A um seu leve aceno va logo:
    Estraga, fere, mata sanguinosa,
            Despiedada e crua.

      Despenhada no abysmo da ruina,
    Fugir pretendes aos accesos raios,
    Qual horrida phantasma, porm logo
            Desfallecida cahes.

      O aoute do Ceo lamenta,  Lysia,
    Mas inda muito mais os teus errores
    Que provocar fizero contra ti
            Contagio mortal.

      Dos Ceos apagar cuida a justa sanha
    Da penitencia com as bastas goas,
    Ja que revel e surda te mostraste

            A seus mudos avisos.
      Ento vers ornada a nobre frente,
    Como nos priscos tempos que passro,
    De esclarecidos louros, sinal certo
            De teus almos triumphos.

Por esse mesmo tempo Ferno Lopes, Duarte Galvo, Gomes Eanes de Zurara
comero a encommendar  memoria as faanhas dos Portuguezes,
escrevendo regularmente as Chronicas dos nossos Reis des de a fundao
da monarchia.

No principio do decimo sexto seculo Bernardim Ribeiro e Gil Vicente
introduzro, aquelle o estilo bucolico, este as representaes theatraes.
Francisco de Moraes escreveo o seu excellente Romance de Cavalleria, _O
Palmeirim de Inglaterra_, do qual o mesmo Cervantes (que erradamente o
attribue a ElRei Dom Duarte) faz o seguinte elogio: _Esta palma de
Inglaterra se guarde y se conserve, como cosa unica; y se haga para ella
otra caja de oro como la que hall Alejandro en los despojos de Dario, que
la diput para guardar en ella las obras del poeta Homero. Este libro,
Seor compadre, tiene autoridad por dos cosas; la una porque l por si es
muy bueno, y la otra porque es fama que le compuso un Rey de Portugal.
Todas las aventuras del castillo de Miraguarda son bonisimas y de grande
arteficio, las razones cortesanas y claras, que guardan y miran el decoro
dei que habla con mucho entendimiento. Digo pues.... que este y Amadis de
Gaula queden libres del fuego; y todos los demas, sin hacer mas cala ni
cata, perescan_. Ferno Lopes de Castanheda e Joo de Barros, cognominado o
Livio Portuguez, escrevro a historia das nossas descobertas e conquistas
d'Asia. S de Miranda introduzio a verdadeira Comedia e a Satyra dos
costumes, em que sobretudo he insigne. E finalmente, quando ja Portugal se
avizinhava  fatal epocha da sua decadencia, veio tambem a produzir, como
Roma, o seu Virgilio, dando s letras um Cames; genio criador e sublime,
que nascido para ser grande em tudo, se com soberano alento embocou a
trombeta heroica, no pulsou com menor destreza a lyra, nem tirou da frauta
sons menos harmoniosos e suaves.

Do seu Poema Epico ja n'outro lugar dissemos, no o que poderiamos dizer,
mas o que julgmos bastante. Diremos tambem agora alguma cousa de suas
poesias lyricas. E comearemos por observar que se nenhum escritor foi mais
desprezado e perseguido de seus compatriotas, tambem nenhuma nao ha sido
to castigada, como a Portugueza das perseguies e desprezos, que soffreo
este grande homem, no della, mas do seu governo, e dos grandes e
poderosos, de cujos crimes he quasi sempre o povo quem vem a pagar as
penas. Porque no lhe tendo sido possivel, pela miseria em que viveo, dar 
luz as suas poesias sltas, no as polio nem limou, nem deixou colleco
dellas; e assim as mais se perdro, e as outras, espalhadas por mos de
muitos, se foro corrompendo nas copias, de sorte que inda as que menos
damno soffrro, ando hoje nas impresses mui diversas do que ero, quando
sahro da penna de seu autor. E assim veio esta culpa de alguns a ter para
ns as mesmas consequencias, que teve a de Adam para a humanidade; isto he,
cahir dos culpados sbre os innocentes e estender-se a todas as geraes. E
se no foi mais amplo este castigo, a Ferno Rodrigues Lobo Surrupita o
devemos. Este, com incansavel diligencia juntando algumas obras varias, que
pde alcanar, as deo pela primeira vez  luz no anno de 1595, assim
desfiguradas como as achou: com o que no s evitou perderem-se estas, mas
com o seu exemplo instigou outros a proseguir na mesma diligencia: e assim
se foro descobrindo mais algumas, que pelo tempo adiante se foro dando ao
prelo. De modo que podemos dizer que em todos os estilos nos ficou do nosso
poeta apenas uma pequena amostra, para que pelo dedo se conhecesse o
gigante. Porm de tal quilate he o ouro, que essas pequenas reliquias
bsto para elevar o cume do nosso Parnaso a tal altura, que lhe no fique
superior o de nenhuma outra nao estranha.

Porque nos Sonetos he eminente o nosso poeta; e para lhe obter a palma
sbre quantos neste genero de composio se tem exercido, bastaria,
quando outros muitos no tivesse de igual belleza, s este, que he o 72:

                        SONETO

      Quando de minhas mgoas a comprida
    Maginao os olhos me adormece,
    Em sonhos aquella alma me apparece,
    Que para mim foi sonho nesta vida.

      L n'uma soidade, onde estendida
    A vista pelo campo desfallece,
    Corro apos ella; e ella ento parece
    Que de mim mais se alonga, compellida.

      Brado: No me fujais, sombra benina.
    Ella, os olhos em mim co'um brando pejo
    Como quem diz que ja no pode ser,

      Torna a fugir-me: trno a bradar: _Dina_...
    E antes que diga _mene_, acordo, e vejo
    Que nem um breve engano posso ter.

Diante deste desapparece toda a caterva de Sonetos que tem inundado Italia
e Hespanha. Impossivel parece que com palavras to vulgares se podesse
pintar to bella imagem, exprimir tal sentimento. Da outra banda do Lethes,
confinando com os Elysios, descortinou a imaginao de Virgilio umas
dilatadas campinas, a que na sua Lingua Latina chamou _Lugentes campi_, que
o nosso Franco Barreto traduzio: _Campos sem luz_, e ns diremos: _Campos
da Saudade_. Nestes campos e pela mesma Saudade parece que foi ditado este
maravilhoso Soneto, que em nossa fraca opinio inda no foi igualado, nem
ser nunca excedido. E como este puderamos citar muitos.

Nas Canes deixou a perder de vista a Petrarca, Bembo, e a quantos a
este genero de composio se tem dado: o que melhor poder ver quem
quizer comparar umas com outras.

Nas Odes, como em todo outro genero de poesia, todos sabem que ha diversos
estilos para os diversos assumptos. O que a cada um destes convem, a mesma
natureza delle o indica; e tanto erraria o que descrevesse um prado
florido, um ribeiro socegado, as graas de uma pastora, ou Diana exercendo
as dansas e choreas de suas nymphas pelos cabeos do monte Cynthio, no
mesmo estilo em que se deve descrever o mar impetuoso, o combate dos
Athletas, ou Jove fulminando os gigantes, como vice versa. Pindaro,
Anacreonte, e Horacio so os tres poetas que neste genero se nos prope por
modelos. Mas que differena de estilo entre Horacio, Anacreonte, e Pindaro!
Certamente no he menor que a que vai do bucolico ao lyrico, ou do lyrico
ao epico. O nosso Cames, profundo conhecedor da natureza, e mestre em
todos os estilos, habilmente soube escolher aquelle que mais convinha s
materias que tratava, sempre natural e facil, sempre elegante e florido, e
muitas vezes sublime. E as suas Odes, ainda que no tenho o requisito, que
hoje se tem por essencial, de serem inintelligiveis, so pelos entendedores
summamente louvadas, e at no falta quem as prefira s Canes; mas desta
opinio no somos, ainda que pensamos com Faria e Sousa, que a 4., 6.,
9. e 10. tarde sero excedidas; e o mesmo diriamos da 1. se no andra
viciada.

No estilo bucolico, de que o poeta parece mais se aprazia, e em que des de
a puericia exerceo a sua Musa, he onde alguns lhe querem negar a palma,
para a concederem a Bernardes. Verdade he que Bernardes, depois da morte de
Cames, appareceo em publico mui bem ataviado; mas os que lhe conhecio os
cabedaes, admirados de o verem to ricamente vestido, logo dissero uns
para os outros: _Donde vem a Pedro fallar gallego?_ e Manoel de Faria e
Sousa o chamou a juizo, e convencendo-o de furto, o condemnou a despir na
praa e restituir a seu dono parte dos vestidos roubados; sendo justo e de
razo que quem o alheio veste, na praa o dispa. Mas deixando a Bernardes
para outro processo, que intentamos fazer-lhe sobre estes mesmos roubos,
passemos a examinar se he ou no exacto o juizo, que Luis de Cames se no
mostrra to grande poeta no genero pastoril, como no lyrico e heroico.

Surropita no seu prologo  primeira edio das Rimas foi o primeiro que
emittio esta opinio desfavoravel ao poeta, quanto ao estilo bucolico,
dizendo, depois de o louvar devidamente nos mais: _Oxal pudera humilhar
a grandeza do seu engenho, conformando-se mais com o estilo bucolico!_
Da mesma sorte o julgou Faria e Sousa, a quem seguro depois o Padre
Thomaz de Aquino e outros, que sem se darem ao trabalho de profundar as
cousas, querem decidir de tudo, sem appellao nem aggravo. Vejamos se
tem razo.

Assenta este juizo principalmente sobre a Egloga 1., que o poeta reputava
pela melhor de quantas havia feito, e sobre a 6., que elle de certo no
tinha pela peor. E este voto do mesmo autor, que era to grande homem, e no
julgar de suas proprias obras nenhum interesse podia ter em exaltar umas
para abater outras, ja he de algum momento. Porque, sendo a poesia, como a
pintura, uma imitao da natureza, segue-se necessariamente que os melhores
poetas e pintores so os mais profundos observadores e conhecedores da
natureza, porque ninguem a pde perfeitamente imitar, sem que profundamente
a conhea. Grandes imitadores, e portanto profundos conhecedores da
natureza foro na poesia Homero, Virgilio, Cames etc., e na pintura
Apelles, Raphael e Miguel Angelo; e mais val o voto de qualquer destes
poetas ou pintores, que o de muitos milhes de versejadores ou borradores.
Disse Cames que a sua Egloga de Umbrano e Frondelio, que Surropita e Faria
tachro de lavantada no estilo mais do que convinha ao genero bucolico,
lhe parecia a elle a melhor de quantas fizera, isto he, que nella estava
melhor imitada a natureza, que em todas as mais; e ns (se tambem nos he
permittido interpor nossa humilde opinio) a temos no s pela melhor de
quantas o poeta escreveo, mas de quantas havemos lido. E diremos o porque.

Preceito he, ditado pela mesma natureza, que tenha cada genero de poesia
seu estilo particular, e que o som da frauta se no confunda com o da lyra
ou da trombeta; mas tambem he preceito da natureza que, pois a choa e o
throno esto igualmente sujeitos aos revezes da fortuna, e na vida pastoril
pdem occorrer varios casos que dem assumpto ao poeta; se levante ou abaixe
o estilo segundo for mais ou menos alto o assumpto, e que se o pastor se
prope louvar o Consul se tornem as florestas dignas delle.

    _Si canimus sylvas, sylvae sint Consule dignae._

Assim o entendeo e fez Virgilio, assim o entendeo e fez Cames, e assim
o estabeleceo depois em preceito o judicioso Boileau na sua arte poetica.

                     _L'glogue quelquefois
    Rend dignes du Consul la campagne et les bois._

E contra estas autoridades e a razo em que se ellas fundo mal podem
sustentar-se em campo os que pretendem que neste genero de poesia se no
possa tratar seno assumptos de lana caprina na lingoagem dos trivios.

Na sua Egloga 1. lamenta o nosso poeta as mortes de Dom Antonio de Noronha
e do Principe Dom Joo, que profundamente sentio, aquella como verdadeiro
amigo, esta como optimo cidado, que ja de longe previa as consequencias de
to desastrado acontecimento. E como o forte sentir produz o forte e
elevado pensar, algumas vezes se eleva, assim na sentena como na dico,
at tocar as raias prescriptas a esta especie de poesia, mas no as
transcende nunca; nem as figuras e imagens de que se serve, as estranha o
estilo bucolico; e muito mais n'uma lingua, em que essas mesmas imagens e
figuras de tal sorte esto recebidas, que at os mais rudos camponezes rara
vez se exprimem sem ellas. Mas inda quando fossem alheias da linguagem
vulgar, quem as estranharia na poesia, que de sua natureza se deve levantar
do uso commum de fallar? Permitte-se a Virgilio dizer n'uma Egloga:

                         _Ipsae te, Tityre, pinus,
      Ipsae te fontes, ipsae haec arbusta vocabant._

      Estes pinheiros, Tityro, estas fontes,
      Estes mesmos arbustos te chamavo.

e no se hade consentir a Cames dizer:

    Canta agora, pastor, que o gado pasce
    Entre as humidas hervas socegado,
    E l nas altas serras onde nasce,
    O sacro Tejo  sombra recostado
    Com seus olhos no cho, a mo na face,
    Est para te ouvir apparelhado;
    E com silencio triste esto as Nymphas
    Dos olhos destillando claras lymphas?

Emfim nesta admiravel Egloga nada falta da parte do poeta; se alguma
cousa faltar, ser da parte do leitor. Passemos agora  6.

Nesta Egloga mistura o poeta o estilo pastoril e o piscatorio, de que elle
foi entre ns o primeiro introductor, e que levou a tal perfeio, que
desanimou os que depois se seguro a ponto, que ficou quasi de todo
esquecido. He o seu argumento uma contenda entre um pastor e um pescador
sobre qual dos estilos deve ter a preferencia, cantando cada um a belleza
da sua amada. E ja daqui se v que um e outro deve levantar o estilo quanto
puder, e pr nesta porfia todo o seu cabedal, para no ficar vencido. Esta
Egloga he onde Faria mais se funda para dizer que o poeta se no podia
domar na fora do seu enthusiasmo. Mas to longe est de justificar este
juizo, que della mesma nos queremos servir para mostrar a pasmosa
facilidade, com que o poeta sabia variar de tom e passar de um estilo a
outro. E sem gastar mais palavras, passemos a analysar cada uma de suas
Estancias, porque a verdade he facil de ver-se, e por si mesma saltar aos
olhos.

D o pastor princpio  contenda, invocando as divindades campestres
deste modo:

                        AGRARIO.

      Vs, semicapros deoses do alto monte,
    Faunos longevos, Satyros, Sylvanos;
    E vs, deosas do bosque e clara fonte,
    E dos troncos que vivem largos anos;
    Se tendes prompta um pouco a sacra fronte
    A nossos versos rusticos e humanos,
    Ou me dai ja a capella de loureiro,
    Ou penda a minha lyra d'um pinheiro.

Sublime e admiravel invocao! Mas ouamos agora o pescador

                        ALICUTO.

      Vs, humidas deidades deste pgo,
    Trites ceruleos, Prteo, com Palemo;
    Vs, Nereidas do sal em que navego,
    Por quem do vento a furia pouco temo;
    Se a vossas sacras aras nunca nego
    O congro nadador na p do remo,
    No consintais que a musica marinha
    Vencida seja aqui na lyra minha.

Que tero que dizer esses Senhores a estas duas Estancias? Diro que so
demasiado sublimes, e que esto fra do natural, porque a este simples,
a este natural, a este sublime no podem elles chegar. Mas no lhes
demos ouvidos, e continuemos a prestar atteno aos nossos contendores.
Vejamos com que despejo entro na lide.

                        AGRARIO.

      Pastor se fez um tempo o moo louro
    Que do pae as carretas move e guia;
    Ouvio o rio Amphryso a lyra d'ouro,
    Que o seu claro inventor alli tangia.
    Io foi vacca, Jupiter foi touro
    Mansas ovelhas junto d'goa fria
    Guardou formoso Adonis, e tornado
    Em bezerro Neptuno foi ja achado.

A esta formosa Estancia em louvor da vida campestre oppe o pescador a
seguinte, exaltando a sua profisso.

                        ALICUTO.

      Pescador ja foi Glauco, e deos agora
    He do mar, e Proto phocas guarda;
    Nasceo no pgo a deosa, qu'he senhora
    Do amoroso prazer, que sempre tarda.
    Se foi bezerro o deos que c se adora,
    Tambem ja foi delphim. Se se resguarda,
    V-se que os moos pescadores ero,
    Que o escuro enigma ao primo vate dero.

Agora passa o vaqueiro a queixar-se da frieza com que a sua pastora
recebe as suas finezas.

                        AGRARIO.

      Formosa Dinamene, se dos ninhos
    Os implumes penhores ja furtei
     doce philomela, e dos murtinhos
    Para ti (fera!) as flores apanhei;
    E se os crespos madronhos nos raminhos
    Com tanto gosto ja te presentei,
    Porque no ds a Agrario desditoso
    Um s revolver d'olhos piedoso?

Responde-lhe o seu adversario com uma Estancia do mesmo genero, segundo
os preceitos do canto amebeo, ou alternado.

                        ALICUTO.

      Para quem trago d'goa em vaso cavo
    Os curvos camares vivos saltando?
    Para quem as conchinhas ruivas cavo
    Na praia, os brancos buzios apanhando?
    Para quem de mergulho no mar bravo
    Os ramos de coral vou arrancando,
    Seno para a formosa Lemnoria,
    Que co'um s riso a vida me daria?

Agora vo descrever, um as furias do ciume, outro as da desesperao de
ver galardoado o seu amor. Vejamos como sahem da empresa.

                        AGRARIO.

      Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno,
    D'tras nuvens vestido, horrido e feio,
    Ennegrecendo  vista o ceo superno,
    Quando os troncos arranca o rio cheio;
    Raios, chuvas, troves, um triste inferno
    Que ao mundo mostra um pallido receio:
    Tal o amor he cioso a quem suspeita
    Que outrem de seu trabalho se aproveita.

                        ALICUTO.

      Se alguem v, se alguem ouve o sibilante
    Furor lanando flammas e bramidos,
    Quando as pasmosas serras traz diante,
    Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos;
    A braos derribando o ja nutante
    Mundo co'os elementos destruidos;
    Assim me representa a phantasia
    A desesperao de ver um dia.

Estas Estancias diz Faria que as estranha o estilo bucolico. Mas se as
estranha necessariamente ha de ser ou pelos pensamentos ou pela dico.
Pelos pensamentos seguramente no he, porque ninguem dir que est fra do
alcance de um pastor ou de um pescador o sentir a semelhana que tem as
furias do ciume, ou da desesperao com as tempestades do inverno, ou com o
mar agitado pelos ventos. Pela dico tambem no, porque se o pensamento
no he estranho, tambem esta o no pde ser, quando to perfeitamente se
lhe accommoda e ajusta, como aqui se observa; e muito mais quando as mesmas
figuras e imagens de que o poeta aqui usa, ando na boca do povo de sorte,
que nada he mais ordinario que ouvir dizer a um camponez _que o ceo est
toldado de negras nuvens etc._, ou a um marinheiro ou pescador _que o vento
traz todo o mar em serras diante de si; que parece querer destruir a terra
etc._ A differena est em que onde o pastor diria _coberto_ ou _toldado_,
diz o poeta _vestido_, e onde o marinheiro diria _abalado_, diz o poeta
_nutante_, para se levantar um pouco do uso commum de fallar. E portanto
no ha aqui impropriedade alguma; antes summa conveniencia de pensamentos e
palavras. E desta mutua conveniencia e propriedade resulta esta viveza de
pintura, esta sublimidade, de que se espanta Faria. Porm sem razo se
espanta, porque fra do natural no ha sublime, e o que he natural no se
estranha. Nem se persuada ninguem que se o poeta aqui se elevou, foi porque
no podia domar-se; que mui de proposito o fez, por assim julgar que o
devia fazer. Porque no ha poeta, que melhor soubesse variar de tom, pintar
os objectos com propriedade e viveza, e seguir com a phrase o pensamento.
Seno veja-se nas Estancias logo seguintes como ja serpeia manso regato o
que inda ha pouco era rio caudaloso.

                        AGRARIO.

      Minha alva Dinamene, a primavera
    Que os deleitosos campos pinta e veste,
    E rindo-se uma cr aos olhos gera,
    Que em terra lhes faz ver o Arco celeste;
    As aves, as boninas, a verde hera,
    E toda a formosura amena agreste
    No he para os meus olhos to formosa,
    Como a tua, que abate o lirio e rosa.

                        ALICUTO.

      As conchinhas da praia, que presento
    A cr das nuvens, quando nasce o dia;
    O canto das Sirenas, que adormento;
    A tinta que no murice se cria;
    O navegar por ondas, que se assento
    Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria,
    No podem, Nympha minha, assi aprazer-me,
    Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me.

                        AGRARIO.

      A deosa, que na Lybica laga
    Em frma virginal appareceo,
    Cujo nome tomou, que tanto sa,
    Os olhos bellos t[~e]e da cr do ceo:
    Garos os tem; mas uma, que a cora
    Das formosas do campo mereceo,
    Da cr do campo os mostra graciosos.
    Quem no diz que so estes os formosos?

                        ALICUTO.

      Perdoem-me as deidades, mas tu diva
    Que no liquido marmore es gerada,
    A luz dos olhos teus, celeste e viva,
    Tens por vicio amoroso atravessada:
    Ns petos lhe chammos: mas quem priva
    De luz o dia, baixa e socegada
    Traz a dos seus nos meus, qu'eu o no nego,
    E com toda esta luz sempre estou cego.

Agora diga quem nasceo para sentir as bellezas da natureza, se ha em
Theocrito ou Virgilio, ou algum outro poeta antigo ou moderno, um desafio
igual a este, ou se pde chegar a mais a perfeio humana. E eis-aqui as
duas Eglogas com que alguns individuos, que tendo olhos e tempo para ler
muito, os no tivero para observar a natureza, e conhecer com que
ampliaes ou restrices se devem entender e applicar os preceitos de
Aristoteles e Horacio, pretendro provar que o nosso poeta no possuia o
estilo bucolico. Certo que no ha na republica das Letras sevandijas mais
nojentas, que certos homens de espirito acanhado, que enfatuados com graos
de Doutores e titulos de Academicos, sem nunca terem produzido nem serem
capazes de produzir cousa alguma, se arrogo o direito de taxar o
merecimento e preo das obras dos grandes homens.

Mas inda quando fosse verdade que da frauta se no podesse tirar mais que
um som unico, e a respeito destas Eglogas a razo da parte delles, e no da
nossa estivesse, ousario esses Aristarchos dizer que em todas as mais, e
com especialidade na 8., 9., 10., 11., 13., 14. se no encontra o
verdadeiro estilo bucolico, e em tal perfeio que nenhuma inveja podemos
ter a Theocrito ou Virgilio? E se estes dous poetas que neste genero se
recommendo como modelos, julgro no offender os preceitos d'arte,
aquelle em levantar o estilo a ponto de poder celebrar na humilde avena os
louvores de Ptolomeo Philadelpho e alguns dos trabalhos de Hercules, que
parecio mais proprio assumpto para uma Ode Pindarica, este de tornar a
selvas dignas do Consul, sem que por isso deixassem de ser olhados como
oraculos; por que lei ou com que autoridade pretendem esses guarda-portes
do Parnaso expulsar o nosso poeta do lugar que ao lado desses primeiros
mestres, lhe assinou o mesmo Apollo.

Doze Elegias temos do nosso poeta, (porque as que nas edies posteriores 
de Faria se foro introduzindo, assim como os tres Cantos da Criao do
homem e alguns Sonetos, que atqui andavo com o titulo de _Obras
Attribuidas_, evidentemente no so delle, e por isso os rejeitamos nesta
edio) e ainda que destas doze apenas quatro ou cinco se podem
propriamente chamar Elegias; dellas se v que tambem neste estilo era
excellente.

Temos tambem tres Comedias suas, a de ElRei Seleuco, que he um pequeno
Drama, daquelles a que os nossos antigos chamavo Autos, a dos Amphytries,
que no he, como diz Severim de Faria, uma traduco de Plauto, mas sim uma
composio sua, e a de Filodemo, ambas em cinco actos: as quaes se no
podem appresentar-se como modelos de verdadeira Comedia, todavia he preciso
confessar que ha nellas muito que admirar. E muito mais se considerarmos
que foro escritas nos seus primeiros annos, antes de sahir do Reino, e no
para se representarem em Theatro publico, que nesse tempo no havia, mas
para divertimento particular.

E se nos versos maiores deixou a perder de vista todos os mais poetas
peninsulares, tambem nas Redondilhas e outras composies de verso menor
(nas que de impulso proprio escreveo; que muitas ando impressas, que elle,
se fosse vivo, no dera  luz) se lhes avantajou muito. E assim por
consenso universal lhe foi conferido o titulo de Principe dos poetas
heroicos e lyricos de Hespanha.

Emfim poucas naes se podem gloriar de haverem produzido um homem como
Luis de Cames; raras vezes se vro reunidos n'um s sujeito tantos
talentos e dotes da natureza, to vasta erudio e doutrina, tanta
facilidade em exprimir seus pensamentos. Igualmente versado nas artes da
paz e da guerra, Achilles e ao mesmo tempo Homero, com a espada e com a
penna toda a vida trabalhou por illustrar a sua patria: e se a Fortuna lhe
impedio igualar a fama dos grandes capites, no lhe pde estorvar (porque
nas obras de engenho no tem imperio a Fortuna) igualar a dos summos
escritores, e levar a nossa gloria literaria a ponto de hombrear com a
militar.

Porm desgraadamente, quando uma ia emparelhando com a outra, confundio
tudo a Fortuna, que a seu arbitrio dispe das cousas humanas; e ambas
desapparecro com a nossa liberdade e independencia. Se nenhuma nao
subio mais alto, tambem nenhuma deo maior quda. Cumprida est a primeira
parte da prophecia do fundador da monarchia: resta cumprir-se a segunda;
que tambem se ha de cumprir. Quando expurgados os vicios que nos ficro da
antiga prosperidade, e reformados nossos costumes na frgoa da desgraa,
tiver renascido no corao de todos os Portuguezes aquelle amor de patria,
que tanto distinguio nossos maiores, brilharemos outra vez nas armas,
brilharemos nas letras; tornaremos a ser o que ja fomos. E para isso nada
pde tanto contribuir, como a contnua e reflectida lio das obras do
nosso immortal Cames, que, se foi grande escritor, inda foi melhor
cidado. Por isso com tanto cuidado as estamos alimpando dos muitos erros e
vicios das primeiras edies, para que melhor sejo entendidas e gostadas:
na esperana de que o seu poema dos Lusiadas vir a ser uma trombeta, que
assim mesmo enrouquecida como est pela abominavel Censura, fara um dia
resurgir os mortos.




VIDA DE LUIS DE CAMES.


Muitos tempos se esteve em duvida cerca do anno e do lugar em que
nasceo Luis de Cames; o que deo causa a que algumas villas e cidades
disputassem entre si a gloria de lhe haverem dado o bero, para que em
tudo o Lusitano Homero corresse a sorte do Grego. Pedro Mariz, o
primeiro que nos deo algumas noticias da vida do poeta, pela maior parte
mal averiguadas e falsas, nada nos diz a este respeito; e Severim de
Faria o deo primeiramente nascido em 1517, porm depois reparando que o
poeta quando escrevia a Estancia 9. do Canto X, ia caminhando para os
seus cincoenta (que isso quer dizer o passar do estio para o outono) e
computando melhor o tempo, veio a concluir que devia ter quando morreo
55 de idade, e que portanto havia nascido em 1524: o que depois
comprovou Faria e Sousa com um assento, que descobrio no livro de
Registo da Casa da India, onde o mesmo poeta, allistando-se para passar
a servir naquelle Estado no anno de 1550, declarou, estando alli
presente seu pae, ter 25 de idade. E do mesmo assento constava serem
seus paes moradores em Lisboa no bairro da Mouraria: com o que se
tirro todas as duvidas assim cerca do anno, como do lugar do seu
nascimento.

Quem fossem seus ascendentes, cousa he que aos olhos do philosopho mui
pouco importa saber-se, porque o homem he filho das proprias obras, e
verdadeiramente nasce para os outros, quando lhes principia a ser util;
como o sol, que ento dizemos que nasce, quando comea a raiar por cima
do horizonte. Mas, pois vivemos no mundo, e forado he conformarmo-nos
com os prejuizos delle, daremos tambem aqui a nossos leitores a sua
genealogia.

A familia dos Cames, uma das mais antigas de Hespanha, tinha o seu
Solar na Galiza, onde era senhora de muitas terras e gozava de muitas
regalias. Vasco Pires de Cames, ultimo representante desta familia,
fra um dos fidalgos que Dom Fernando, 9. Rei de Portugal, trouxera a
seu partido, quando aspirava  coroa de toda a Hespanha. Mas, como se
malograsse a empresa, teve este fidalgo de abandonar a antiga patria e
passar-se a Portugal, onde aquelle Rei, em recompensa do muito que por
seu respeito perdra, lhe fez merc das villas do Sardoal e Punhete,
Marvo e Amendoa, com o Concelho Gstao e as terras e herdades, que em
Estremz e Avs foro da Infanta Dona Beatriz; e o fez Alcaide mor de
Portalegre e membro do seu conselho.

Casou Vasco Pires neste Reino com uma filha de Gonalo Tenreiro, capito
mor das armadas, a quem Dom Joo 1., sendo ainda Defensor do Reino, deo
depois a capitania de Lisboa, pola muita confiana que tinha ha sua
honra e valor. E della houve a Gonalo e Joo Vas de Cames. Mas a
inconstancia do pae cortou depois a fortuna aos filhos. Porque na
guerra, que por morte de Dom Fernando veio a ter lugar por causa da
successo, como Vasco Pires seguisse a voz de Castella, como antes
segura a de Portugal, e na batalha de Aljubarrota fosse tomado com as
armas na mo, lhe foro tiradas todas as terras e fortalezas que Dom
Fernando lhe dera, deixando-lhe apenas a clemencia do vencedor as
herdades de Estremz e Avs, com algumas propriedades que tinha em
Alemquer.

Joo Vas de Cames, que era o segundo genito, e veio depois a ser
Vassallo de Affonso 5. (titulo ento mui honorifico) pelos relevantes
servios que lhe fez nas guerras de Africa e contra Castella, casou com
Ignez Gomes da Silva, filha bastarda de Jorge da Silva, filho de Gonalo
Gomes da Silva e irmo de Joo Gomes da Silva, que em tempo de Dom Joo
1., fra Alferes mor do Reino e Senhor de muitas terras: e deste
matrimonio houve a Anto Vas de Cames, que, desposando a Guiomar da
Gama (da familia do Descobridor) della teve a Simo Vas de Cames, que
casou com Anna de Macedo, pessoa mui illustre da villa de Santarem. E
destes nasceo o nosso poeta.

Robusto e agil de corpo, e dotado de grande engenho e de uma prodigiosa
memoria, logo des de os primeiros annos deo mostras de que viria a ser
insigne, assim nas armas, como nas letras. Pelo que seus paes se
empenhro em lhe dar uma boa educao, com tanto maior desvelo, quanto
se vio faltos de meios, na esperana de que viria a ser o bordo de sua
velhice. Instruido nas primeiras letras e habilitado para maiores
estudos, de mui tenra idade o mandro para a Universidade que de
Lisboa (para onde a trouxera Dom Fernando) acabava de ser ento
restituida a Coimbra por Joo III, e florescia em todas as sciencias sob
a direco e disciplina de homens doutos, naturaes e estrangeiros, que
este Rei com largos premios de toda a parte attrahra. Com to felizes
disposies e to sabios preceptores, no podia Luis de Cames deixar de
fazer agigantados progressos, e de vir a ser o que foi.

Aqui teve elle os seus primeiros amores, e se comeou a dar ao commercio
das Musas, que encantadas de to gentil alumno, o prendro des de logo
com aquella doce lyra, que depois lhe adquirio mais fama que ventura. E
desse tempo de Coimbra he a sua Egloga 5., que parece ter sido o seu
primeiro ensaio no estilo pastoril, pois que nas primeiras edies se
entitula da sua puericia, por se haver encontrado com esse titulo em
todos os manuscriptos, e tambem o Soneto 111, que segundo delle se
infere, foi feito quando voltava de frias, ja ferido de outra paixo.

Concluidos os seus estudos, voltou  Corte: e com que saudade se
apartasse daquella deliciosa habitao, onde lhe ficava o doce emprgo
de seus cuidados, se pde ver do Soneto 133, feito nesta despedida.
Restituido  patria, cheio de to saudosas lembranas, ahi escreveo
aquella maviosa Cano que principia:

    Vo as serenas goas
    Do Mondego descendo etc.

Mas em quanto ao som da lyra entoava este harmonioso canto, lhe estava
Amor preparando novo assumpto. Fazia ento o principal ornamento
do pao uma Dama, illustre por nascimento, e mais ainda por sua rara
belleza, Dona Catharina de Ataide, que estava destinada a ser Laura de
maior Petrarca. Vio-a Luis de Cames em um templo, que dos Sonetos 77 e
123 se infere ser o das Chagas; e o mesmo foi v-la, que ficar perdido
de amores. Des de ento no soube mais parte de si; e ufano de se ver
vencido de to peregrina formosura, divinamente inspirado, compoz a
maravilhosa Cano 7.; e como quem desejava que este passo, o mais
notavel da sua vida, ficasse dignamente celebrado; com ser aquella
Cano uma das mais sublimes produces do espirito humano, inda no
satisfeito della, a procurou reformar na 8.: mas, no sendo possivel
subir-se a mais, uma e outra sahro to iguaes, que no he possivel
saber-se qual dellas seja melhor, ou a qual dava o poeta a preferencia.
Cansa-se Faria e Sousa em nos provar que estes amores ero puramente
Platonicos; mas disso no ficamos por fiadores, porque o poeta rara vez
se afastou do natural; e se usava desta lingoagem, era para melhor
insinuar-se a fim de obter seu intento, porque o lascivo desejo, que
manifesta na Cano 15 onde diz:

    Des que com gentil arte
    Vests de flores bellas
    A terra, que tocais co'a bella planta,
    Quantas vezes com v-las,
    Quiz n'uma dessas flores transformar-me!
    Porque vendo pisar-me
    Desse candido pe, que a neve espanta,
    Pde ser que na flor mudado fra
    Que deo a Juno irada a linda Flora.

no deixa a este respeito duvida alguma a quem tiver noticia da maneira
por que Marte foi gerado.

Aos extremos e finezas do seu amor no foi a Nympha insensivel: e assim,
amante e amado, se reputava o mais feliz dos homens: quando, por pouco
acautelado em occultar esta fatal paixo (como elle mesmo confessa,
Egloga 3.) que lhe occasionou depois todas as desgraas da sua vida,
foi desterrado da Corte para Santarem, ou outra povoao das que fico
sobre o Tejo, como se colhe da Elegia 1. E que neste meio tempo
estivesse tambem alguns dias hospedado em casa de um seu amigo, nas
vizinhanas do Zezere, se infere da Cano 13. Depois ou porque este
desterro se lhe tornasse insoffrivel, ou porque tivesse ja fallecido
Dona Catharina (que segundo affirma Faria e Sousa, pouco tempo viveo
depois do princpio destes amores) determinou passar a Africa, onde seu
pae ento militava; e ahi, peleijando a seu lado, em um combate naval
com os Mouros junto a Ceuta perdeo o olho direito. E porque no fogo de
Amor trazia sempre o corao abrazado, e agora do fogo de Marte recebra
aquella offensa; no escudo que trazia em branco, como cavalleiro donzel,
mandou pintar por divisa a ave Phenix ardendo sobre as chammas, como
elle mesmo diz, Cano XI, Estancia 10.

    Agora exprimentando a furia rara
    De Marte, que nos olhos quiz que logo
    Visse e tocasse o acerbo fructo seu.
    E neste escudo meu
    A pintura vero do infesto fogo.

Depois de alli servir algum tempo, voltou  patria, onde por travessuras
amorosas e brigas com seus rivaes se lhe movro taes perseguies, que
para fugir aos laos que se lhe ormavo, no encontrou melhor meio, que
o de passar a servir na India. No anno de 1550 se alistou, como
dissemos, para sahir na mesma nao, em que ia o Viso-Rei Dom Affonso de
Noronha: mas esta nao, pelo mao estado em que ia, depois de sahir,
arribou ao porto de Lisboa para se concertar, e o poeta, se acaso estava
a seu bordo, tornou a desembarcar; e ou por falta de saude, ou por outro
impedimento se deixou ficar em terra; e no veio a sahir para o seu
destino, seno dous annos depois, no de 1553, como consta de outro
assento do ja citado livro de Registo, tambem achado por Faria e Sousa:
e foi na mesma nao, em que ia Ferno Alvares Cabral, capito mor de
quatro, que ento sahro do Tejo, das quaes s esta pde chegar no
mesmo anno a Goa, depois de haver soffrido grandes tormentas. E to
anojado ia o poeta contra a patria, que as derradeiras palavras que
disse na despedida, foro (como se ve de uma carta que de Goa escreveo)
as de Scipio Africano: _Ingrata patria, non possidebis ossa mea_.

Na occasio da sua chegada a Goa, como o Viso-Rei Dom Affonso estivesse
aprestando uma grossa armada para ir em soccorro do Rei de Porc, nosso
alliado, a quem o da Pimenta ou Chemb havia tomado uma ilha, o
acompanhou o poeta nesta expedio, cujo successo elle mesmo brevemente
refere na Elegia 3.; e com elle voltou a Goa. Em Setembro do
seguinte anno de 1554 chegro as naos do Reino, em que ia Dom Pedro
Mascarenhas succeder a Dom Affonso; e ento se divulgou a triste noticia
das mortes de Dom Antonio de Noronha, sobrinho do Viso-Rei, e do
Principe Dom Joo, as quaes o poeta profundamente sentio; aquella como
verdadeiro amigo, esta como optimo cidado, que ja de longe previa as
consequencias de to funesto acontecimento: e a este assumpto escreveo a
Egloga 1. e o Soneto 12 que enviou a um seu amigo de Lisboa em uma
carta com data de Janeiro de 1555.

E to bem-quisto e estimado de todos estava ento alli o poeta, que
nessa mesma carta se dava por feliz em haver passado  India, dizendo:
_Emfim, Sr., eu no sei com que me pague saber to bem fugir aos laos
que nessa terra me armavo os acontecimentos, como com vir para esta,
onde vivo mais venerado que os touros de Merciana, e mais quieto que a
cella de um frade prgador_. Mas esta felicidade e socego no lhe durou
muito, porque logo no anno seguinte, vindo a fallecer Dom Pedro
Mascarenhas, e succedendo-lhe no governo Francisco Barreto, que no era
affecto ao poeta, o desterrou de Goa. Sobre a causa deste procedimento e
tempo em que teve lugar, no concordo os autores. Manoel Correa no seu
commento  Est. 128 do Canto X diz que tendo Luis de Cames exercido na
China o Officio de Provedor mor dos defuntos, em que fra provido pelo
Viso-Rei, quando voltra a Goa, fra preso por Francisco Barreto, pela
fazenda dos defuntos que trazia comsigo e perdra em um naufragio, que
miseravelmente soffrra na costa de Camboja. Pedro Mariz he da mesma
opinio, e acrescenta que Fransisco Barreto o mandra preso e capitulado
para o reino. E nem um nem outro fazem meno do desterro. Manoel
Severim nega que o Viso-Rei Dom Pedro Mascarenhas o provesse em tal
Officio, e he de parecer, que tendo o poeta ido na armada que este
Viso-Rei mandra ao Estreito do mar roxo a cargo de Manoel de
Vasconcellos, voltando a Goa, fizera aquella Satyra contra os que havio
festejado a successo de Francisco Barreto; do que este resentido, ou
por zelo da justia, ou por queixas dos motejados, o desterrou no anno
de 1556: e a este parecer se encosta Manoel de Faria e Sousa. Mas em
tudo isto no ha de verdadeiro, seno que Luis de Cames foi desterrado
por Francisco Barreto, como passmos a demonstrar.

Chegou Luis de Cames a Goa em Setembro de 1553; acompanhou o Viso-Rei
Dom Affonso de Noronha na expedio contra o Rei de Chemb, e com elle
voltou a Goa; em Janeiro de 1555 ahi estava, porque ahi escreveo a
Egloga, Soneto e Carta que dissemos; em 16 de Junho do mesmo anno, em
que succedeo no governo Francisco Barreto, ainda ahi estava, como se
prova com a mesma Satyra, em que descreve as festas que por essa
occasio se fizero, como testimunha ocular. Logo no foi Luis de Cames
provido pelo Viso-Rei Pedro Mascarenhas no cargo de Provedor mor dos
defuntos para a China, como affirmo Manoel Correa e Pedro Mariz, nem
sahio para o Estreito de Meca na armada de Manoel de Vasconcellos, como
conjectura Severim de Faria, porque essa armada voltou a Goa em
Outubro, e Francisco Barreto entrou no governo em Junho do mesmo anno,
como dissemos. Tambem he falso que Luis de Cames, voltando de Macao a
Goa, fosse preso por Francisco Barreto, pelo dinheiro das partes que
perdra no naufragio, porque nem isso lhe podia ser imputado a crime,
no estando em sua mo evitar um tal desastre, nem Francisco Barreto o
podia mandar prender, porque em Setembro de 1558 entregou elle o governo
ao Viso-Rei Dom Constantino, e Cames voltou a Goa depois do anno de
1560. E a falsidade da assero de Mariz, que o poeta viera preso e
capitulado para o Reino, se prova com a outra sua assero, que Pedro
Barreto, indo por governador de ofala, e desejando levar a Luis de
Cames na sua companhia, lhe fizera largas promessas e o movra a isso,
dando-lhe logo duzentos cruzados para os seus arranjos de viagem, porque
se tudo isto foi necessario para o mover, certo he que estava em sua
plena liberdade.

Vejamos agora se este desterro do poeta seria, como penso Manoel
Severim e Manoel de Faria e Sousa, em consequencia da Satyra ou das
Redondilhas, que ando nas suas Rimas com o titulo de _Disparates na
India_.

Pelas Redondilhas no podia ser, porque se o poeta alguns vicios ahi
reprehende, o faz de um modo to geral, que ninguem em particular se
poderia dar por offendido; e pela Satyra tambem no; e as razes em que
nos fundamos so estas: O desterro de Cames foi uma cousa notoria a
seus contemporaneos, assim porque muitos havio sido testimunhas do
mesmo facto, como porque o poeta em seus escritos o publicou ao
mundo inteiro; e se o motivo delle tivesse sido esta satyra, com a pena
constra juntamente a culpa. Mas nem Manoel Correa, nem Pedro Mariz, que
para desculpar a Barreto no poupou a Cames, lhe assinro esta causa;
prova evidente de que no tivero della noticia alguma, porque, se a
tivessem, no andro inventando outras. Domingos Fernandes descobrio um
fragmento della, com duas cartas em prosa, que ajuntou na 3. edio das
Rimas em 1607; e logo Manoel Severim, por achar sem fundamento as causas
que se davo deste desterro, o attribuio a esta; que to innocente foi a
vida de Cames, que com ter tantos inimigos, nenhum delles lhe pde
descobrir crime ou falta, sbre que recahisse um tal castigo. Mas alm
desta razo, que nos parece mui ponderosa, para acreditarmos que esta
Satyra no havia sido publicada, nem para isso tinha sido escrita, temos
ainda outra, e he, que na carta 2., a que ella andava unida, comea
Luis de Cames por pedir ao amigo a quem a dirigio, o mais inviolavel
segredo, dizendo: _Esta vai com a candeia na mo morrer nas de V. M.; e
se dah passar seja em cinzas etc._ donde se deve suppor que vai a fazer
alguma revelao de alta importancia; e em todo o seu conteudo no
apparece cousa, que se no podesse dizer em publico: por onde nos
inclinmos a crer que nella vinha incluso algum outro papel, que fazia
necessaria aquella recommendao; e no podia ser seno a Satyra. Ajuda
esta conjectura a grande probabilidade que ha, de serem uma e outra
escritas na mesma occasio; porque s duas teve o poeta, de
escrever para o Reino depois da sua chegada  India, e antes de ser
desterrado: em 1555 pelas naos que trouxero a carta que tratava das
mortes de Dom Antonio de Noronha e do Principe Dom Joo, ou pelas que de
l viero em 1556, governando ja Francisco Barreto; e na primeira
occasio de certo no foi escrita, nem tambem depois do desterro, por
ser em estilo jocoso e no fazer meno alguma destes acontecimentos,
que tanto o magoro. Acresce mais que na mesma carta parece alludir 
enfatuao e soberba do governador, quando diz: _Principes de condio,
ainda que o sejo de sangue, so mais enfadonhos que a pobreza: fazem
com suas fidalguias, com que lhe cavemos fidalguias de seus avs, onde
no ha trigo to joeirado, que no tenha alguma hervilhaca_. Ora se o
segredo que o poeta recommendava ao seu amigo, era (como parece) por
causa desta Satyra, no he verosimil que elle mesmo fizesse publico em
Goa o que to secreto queria a tantas mil legoas de distancia. Alm de
que se Luis de Cames quizesse publicamente satyrizar a Francisco
Barreto, certo he que lhe assentra mais de rijo a espada do ridiculo,
que melhor que ninguem sabia manejar. E tambem he certo que, se
Francisco Barreto alcanasse este papel, ou tivesse algum outro crime de
que arguir o poeta, no deixra de o mandar julgar conforme as leis; nem
um homem to comedido, como Luis de Cames, quando tivesse merecido um
tal castigo, se queixra to amargamente deste desterro em tantos
lugares das suas obras, como nos Lusiadas, Canto VII, Est. 81.

    E ainda, Nymphas minhas, no bastava
    Que tamanhas miserias me cercassem,
    Seno que aquelles que eu cantando andava
    Tal premio de meus versos me tornassem!
    A trco dos descansos que esperava,
    Das capellas de Louro que me honrassem,
    Trabalhos nunca usados me inventro,
    Com que em to duro estado me deitro.

e na Cano XI:

    Emfim, no houve trance de fortuna,
    Nem perigos nem casos duvidosos,
    Injustias daquelles, que o confuso
    Regimento do mundo, antigo abuso,
    Faz sobre os outros homens poderosos,
    Que eu no passasse, atado  fiel columna
    Do soffrimento meu, que a importuna
    Perseguio de males em pedaos
    Mil vezes fez  fora de seus braos.

e naquellas admiraveis Redondilhas, em que paraphraseando o Psalmo 136,
compara as suas calamidades s que padecro os Israelitas no captiveiro
de Babylonia:

    A pena deste desterro,
    Que eu mais desejo esculpida
    Em pedra ou em duro ferro etc.

Nem com tanta vehemencia pedra aos Ceos vingana, como ahi mesmo:

    No gro dia singular
    Que na lyra em douto som
    Hierusalem celebrar,
    Lembrai-vos de castigar
    Os ruins filhos de Edom.
    Aquelles que tintos vo
    No pobre sangue innocente,
    Soberbos co'o poder vo,
    Arraz-los igualmente:
    Conheo que humanos so.

Emfim, que foi arbitrario e injusto este procedimento, no ha duvida,
porque se esta pena lhe houvesse sido imposta judicialmente; na mesma
sentena lhe fra limitado o tempo e o lugar do desterro, segundo as
leis do Reino e a prtica de todos os tribunaes: e o poeta andou
peregrinando por varias terras, como elle mesmo diz, Canto VII, Est. 79,
fallando com as Tagides:

    Olhai que ha tanto tempo que cantando
    O vosso Tejo e os vossos Lusitanos
    A fortuna me traz peregrinando,
    Novos trabalhos vendo e novos danos.

e Est. 80:

    Agora com pobreza aborrecida
    Por hospicios alheios degradado.

Primeiro esteve no monte Feliz, na Arabia do mesmo nome, como se v da
Cano X, que o poeta escreveo ja no desterro, e no andando em
expedio, como suppe Manoel Severim, e Manoel de Faria e Sousa, porque
se assim fosse no diria elle, nem teria razo para dizer:

    Aqui me achei gastando uns tristes dias,
    Tristes, forados, maos e solitarios,
    De trabalho, de dor, e de ira cheios.

porquanto nem os dias que em servio da sua patria gastasse, serio
_forados_, porque a servia por gsto, nem _solitarios_, porque no
havia de ir s  guerra, nem _cheios de ira_, porque esta s pde
nascer de alguma injria ou violencia soffrida.

Dalli passou  Ilha de Ternate, uma das Molucas, onde militou alguns
annos e recebeo algumas feridas, como consta da Cano 6.

    Aqui minha ventura
    Quiz qu'uma grande parte
    Da vida que no tinha se passasse,
    Para que a sepultura
    Nas mos do fero Marte
    De sangue e de lembranas matizasse.

E que tambem esta foi escrita no desterro, he fra de toda a duvida, no
s porque isso mesmo consta do remate della

    Cano, neste desterro vivers,
    Voz nua e descoberta,
    At que o tempo em eco te converta.

mas muito principalmente porque o no podia ser antes; sendo certo, como
ja fizemos ver, que at ao anno de 1556 no sahio de Goa o poeta, ou se
sahio em alguma expedio, no foi longa a sua ausencia.

De Ternate passou emfim a Macao, do que ainda hoje faz f uma gruta que ahi
existe, chamada a gruta de Cames. Com o que julgmos ter demonstrado que o
poeta foi arbitrariamente expulso de Goa, e portanto sem haver commettido
crime, sbre que recahisse uma tal pena. Donde se segue ser falso quanto a
este respeito tem dito os que nos precedro neste trabalho. E assim se ha
de ter por certo que a unica e verdadeira causa das perseguies e
trabalhos, que soffreo este grande homem, foi a mesma grandeza do seu
merecimento e virtude. E a Satyra, unica aco reprehensivel que na sua
vida se encontra, no serve seno para provar que entre Cames e Barreto
havia inimizade. Nem em tal disparidade de sentir e de pensar podia haver
perfeita concordia. Francisco Barreto, homem soberbo e mediocre, posto que
no desajudado da Fortuna, que sempre se inclina mais a esta especie de
gente, no podia amar nem soffrer um homem to superior, como Luis de
Cames: desejava-o longe de si, para que no fosse testimunha e juiz das
suas aces; e apenas se vio com o poder na mo, o prendeo e desterrou,
deixando-se arrastar da sua paixo, ou dando ouvidos a mexericos e
calumnias, como affirma o commentador Manoel Correa, que o ouvio da propria
boca do poeta: o que perfeitamente se ajusta com o que elle mesmo nos diz
nos ultimos dous versos da ja citada Estancia 81 do Canto VII:

    Trabalhos nunca usados me inventro,
    Com que em to duro estado me deitro.

Nem este foi o s acto despotico do governador Francisco Barreto. Porque,
tendo mandado destruir por Pedro Barreto Rolim a florescente e populosa
cidade de Tat no reino de Cinde, que tinha grande trato de commercio com a
nossa praa de Ormus, como o governador della, Dom Joo de Ataide,
censurasse esta medida cruel, assim por humanidade, como pela deminuio
que dahi resultava nos rendimentos daquella Alfandega, e isto chegasse aos
ouvidos de Barreto; o mandou autoar por um Desembargador e conduzir preso a
Goa para ser julgado, no obstante haver sido provido por ElRei no governo
daquella fortaleza, e ter grande valimento na Corte. E se isto ousou fazer
a um poderoso, como teria mais respeito a um desvalido?

Depois de tantos trabalhos, parece que, chegado a Macao, ahi encontrou
algum descanso; e ahi concluio o seu Poema: e tambem he tradio que
exercra o Officio de Provedor dos defuntos, em que adquirra alguma
fortuna. O certo he que Luis de Cames das ilhas Molucas passou a Macao, e
que de l voltou a Goa, depois do anno de 1558, quando ja governava aquelle
Estado o Viso-Rei Dom Constantino de Bragana; trazendo algum cabedal,
fosse adquirido no exercicio daquelle cargo, ou por outros meios, porque
isso mesmo se entende da Est. 80 do Canto VII onde diz:

    Agora da esperana ja adquirida
    De novo mais que nunca derribado.

Porem, chegando  costa de Camboja, de fronte da foz do rio Mecom, deo a
nao em uns baixos, onde se fez em pedaos; e deste naufragio, perdida toda
a sua fortuna, pde apenas salvar a vida e o seu Poema, ganhando, como
Cesar, a praia a nado. E deste infortunio e da humanidade, com que foi
recebido e agasalhado por aquelles povos, se lembra elle no Canto X, Est.
128, onde diz, fallando do rio Mecom:

    Este receber placido e brando
    No seu regao os Cantos, que molhados
    Vem do naufragio triste e miserando,
    Dos procellosos baixos escapados,
    Das fomes, dos perigos grandes, quando
    Ser o injusto mando executado[1]
    Naquelle, cuja lyra sonorosa
    Ser mais affamada, que ditosa.

Neste porto se demorou algum tempo, ou convidado da boa hospitalidade, ou
por no achar embarcao em que seguir viagem: e aqui escreveo a paraphrase
do Psalmo que dissemos, e talvez, inserio no seu Poema as Estancias que
trato deste naufragio: depois, quando achou opportunidade, partio para
Goa, onde chegou no principio do anno de 1561. E como quem se via cercado
de inimigos, e tinha exprimentado quo fragil escudo he por si s a
innocencia, para captar a benevolencia do Viso-Rei Dom Constantino, cuja
administrao, com razo ou sem ella, havia sido censurada de alguns, lhe
dirigio a Epistola que comea: _Como nos vossos hombros to constantes
etc._, em que, exaltando as virtudes e boas intenes deste Principe, o
exhorta com o exemplo dos grandes homens (e pudera tambem juntar o seu
proprio) a desprezar com animo igual as envenenadas settas da inveja e da
calumnia: e a Dom Antonio de Noronha (o que depois veio a ser Viso-Rei da
India, e no, como suppe Faria e Sousa, o que foi morto em Africa)
escreveo outra sobre o desconcerto do mundo.

Neste vice-reinado chegou Luis de Cames a tal miseria, que se vio na
preciso de pedir uma camisa para cobrir o corpo. Que espectaculo!

    O Valor e o Saber pedindo vo
    s portas da cubia e da vileza!

Todavia muito deveo a Dom Constantino, porque no foi inquietado. Mas no do
Conde do Redondo Dom Francisco Coutinho, que lhe succedeo, e que se dizia
amigo do poeta, e por elle havia sido louvado em umas Redondilhas, se lhe
movro novos trabalhos, e foi lanado em to estreita e rigorosa priso,
que nem espao tinha para mover-se, nem ar para respirar, como consta da
Cano XI, onde fallando desta perseguio, e da que havia soffrido no
governo de Francisco Barreto, diz:

    A piedade humana me faltava
    A gente amiga ja contraria via
    No perigo primeiro; e no segundo
    Terra em que pr os ps me fallecia,
    Ar para respirar se me negava.

Qual fosse a natureza da accusao no consta; necessario he que fosse mui
grave, pois que a este chama elle o seu segundo perigo. Seus perseguidores
tambem ignormos quem fossem; mas he de presumir fossem homens poderosos, e
que no numero destes entrasse um Miguel Rodrigues Fios Seccos, homem
fidalgo e rico; pois que tendo o poeta mostrado a sua innocencia, e estando
a ponto de ser slto, o embargou na cadeia por certa somma que lhe
emprestra, e que muito bem sabia que elle lhe no podia pagar. Neste novo
embarao, rindo-se como Democrito, da loucura e extravagancia dos homens,
recorreo Luis de Cames ao Viso-Rei, dirigindo-lhe aquelle jocoso
requerimento, que anda entre as suas Rimas; e teve por despacho a soltura.

Livre desta priso, ainda que de seus servios no tirava seno
perseguies e trabalhos, continuou a servir ainda por alguns annos, sem
nunca despir as armas, e portando-se em todas as aces e combates de
maneira, que seus proprios inimigos ero os maiores pregoeiros do seu
valor: at que, vendo-se ja sobre a idade, e com as fras quebradas de
tantas privaes e fadigas, tomou a resoluo de voltar  patria, para
terminar a carreira da sua vida no mesmo ponto, onde a havia comeado. E
nestes pensamentos andava, quando Pedro Barreto se lhe appresentou, como
dissemos, e com rogos e promessas o persuadio a que fosse com elle para
ofala. Mas de tal maneira cumprio o promettido, que o poeta chegando a
Moambique, assentou resgatar-se daquelle captiveiro; e andava procurando
meios de se transportar ao Reino, quando, mui a proposito para o seu
intento, alli aportou a nao Santa Fe, em que vinho alguns amigos seus,
como Heitor da Silveira e o Chronista Diogo do Couto e outros, que pela
honra de trazerem na sua companhia to grande homem, lhe offerecro
passagem franca para Lisboa. Mas Pedro Barreto, como lhe chegasse isto aos
ouvidos, a exemplo do Fios Seccos, o mandou prender por duzentos cruzados,
que na India lhe dera para sua matalotagem, e agora lhe pedia como divida:
do que indignados aquelles generosos amigos se fintro entre si, e
satisfazendo a somma exigida, resgastro o poeta. Assim que (observa Faria
e Sousa) a pessoa de Luis de Cames e a honra de Pedro Barreto por duzentos
cruzados foi vendida.

Nesta viagem vinha elle escrevendo muito n'um livro entitulado _Parnaso
de Luis de Cames_, que trazia ja mui adiantado: do qual diz Diogo do
Couto, a quem o poeta o mostrou, que era obra de inestimavel preo,
cheia de erudio e philosophia.

No anno de 1569 chegou emfim a Lisboa, onde ento ardia o contagio, que
chamro a grande peste. E no obstante este flagello do Ceo, que tinha
todos os animos occupados de terror, tal foi o seu contentamento em ver-se
restituido  patria, que escrevendo a um seu amigo do Porto, lhe dizia _que
ainda no podia crer tanta ventura_. Pensava Luis de Cames que nella
encontraria a felicidade e socego, que fra della em vo procurra; mas
succedeo-lhe bem ao contrario, porque seus inimigos lhe movro to crua
guerra, que todas as tormentas passadas lhe parecro bonana, como elle
expressamente nos diz (Egloga XI):

      Tinha l para mim que a vida tinha
    Mais socegada c e mais segura
    Entre os meus, que com gosto a buscar vinha.
      Foi de outro parecer minha ventura:
    Discordias sos achei, achei dureza
    Em lugar de socgo e de brandura.
      Achei as boas leis da natureza
    Vencidas do interesse, e a gente cega
    Tanto, que mais que o sangue, o gado prza.
      Dizem que quando o mar bonana nega,
    Correndo vai aquella nao mor p'rigo.
    Que  desejada terra mais se chega.
      Assi me aconteceo a mi comigo:
    Seguro sempre ao longe, sempre ledo;
    Triste ao perto, e tratado como imigo.

E a razo por que assim foi tratado Cames no he difficil de achar. O
escrever dos modernos foi sempre cousa arriscada: todos querem boa fama,
poucos fazem pola merecer; todos commettem erros, poucos, depois de os
commetterem, gosto de os ouvir contar. E assim para no ser perseguido
necessario he ou adular, ou callar. Mas o nosso Cames, que nunca voltou
cara aos perigos, se propoz no s fallar dos modernos, mas dos mesmos
contemporaneos; fazendo juramento solemne (que religiosamente guardou) de
no louvar seno quem o merecesse. Donde resultou que censurados e
no-louvados se unro para o desgraarem e perderem. E se antes de
publicar o seu poema, ja na India o perseguro, muito peor lhe havia de
succeder depois; e isso mui bem prevo elle, quando o estava ordindo; pois
que, tendo invocado no principio da obra somente as Nymphas do Tejo; no fim
do Canto VII, quando ia concluir a narrao dos feitos antigos para passar
aos contemporaneos, pede auxilio tambem s do Mondego, dizendo (Est. 78):

                   Mas oh cego!
    Eu que commetto insano e temerario
    Sem vs, Nymphas do Tejo e do Mondego,
    Por caminho to arduo longo e vario!
    Vosso favor invoco, que navego
    Por alto mar com vento to contrario,
    Que, se no me ajudais, hei grande medo
    Que o meu fraco batel se alague cedo.

e depois (Estancia 83):

    Pois logo em tantos males he forado
    Que se vosso favor me no fallea,
    Principalmente aqui, que sou chegado
    Onde feitos diversos engrandea.
    Dai-mo vs ss, que eu tenho ja jurado
    Que no o empregue em quem o no merea,
    Nem por lisonja louve algum subido,
    Sob pena de no ser agradecido.

Mas no obstante conhecer a quanto se expunha, respeitando mais a fama
posthuma, que a ira dos poderosos, como se vio restituido  patria,
cuidou em imprimir o seu Poema. Porm algum obstaculo encontrou, porque
dous annos esteve sem sahir com elle  luz.

Ora, lendo ns muitas vezes e meditando attentamente esta produco divina,
sempre nos pareceo que em alguns lugares no estava como seu autor a havia
originalmente escrito; e agora achamos confirmada nossa suspeita. Porque,
estando ja concluida esta nossa edio, como obtivessemos um exemplar da de
1613 commentada pelo Licenciado Manoel Correa, contemporaneo e amigo do
poeta, ahi encontrmos na exposio  Estancia 81 do Canto 9 a seguinte
revelao: _Se o poeta (diz elle) se no alargra em algumas palavras, que
poderia escusar, o fingimento, este he poetico e excellente, como so todas
suas cousas. Por isso se lhe emendro e declarro algumas Oitavas._ E no
mesmo Canto, Estancia 71: _E assim como aqui vo impressas, as tinha elle
emendadas por conselho dos Religiosos de S. Domingos, com quem tinha grande
familiaridade_. E aqui temos que o Poema achou embarao na censura da
Inquisio, e que para poder passar, foi preciso que seu autor por conselho
dos frades de S. Domingos, isto he, por ordem dos mesmos Inquisidores lhe
fizesse as alteraes e emendas por elles exigidas. E portanto he fra de
toda a duvida que a explicao da allegoria delle posta na boca de Tethys,
e o dizer ella mesma (Canto X, Estancia 82):

              Porque eu, Saturno e Jano,
    Jupiter, Juno, somos fabulosos,
    Fingidos de mortal e cego engano;

a historia do milagre e martirio do Apostolo S. Thom (Estancias 108 e
seguintes do mesmo Canto); e Baccho adorando a Christo (Canto II,
Estancia 12) so obra dos Senhores Inquisidores. Que felicidade no
he (dizia o grande Tacito) nascer o homem em tempos, em que lhe he
permittido sentir como quizer, e exprimir o que sente!

Compradas por um tal preo as licenas, e obtido privilegio, em 1572
sahio finalmente  luz este maravilhoso e desgraado Poema, no como
queria o poeta, mas como os sabios Censores quizero que apparecesse; e
pde ser que os muitos e notaveis erros de impresso que desfiguro as
duas edies que nesse mesmo anno se fizero, procedessem de que
desgostado o autor de ver assim estragada a sua obra, no quizesse
cansar-se com a reviso das provas.

Achamos em escritores contemporaneos que ElRei por esta publicao lhe
fizera merc de uma tena de 15$ reis mensaes, com a clausula inaudita
de tirar para a sua cobrana proviso cada tres annos, e de residir na
Corte. Mas se assim foi, no foi logo, seno alguns annos depois, porque
no de 1575 em uma Epistola que o poeta lhe dirigio, juntamente (ao que
parece) com um exemplar do seu Poema, por occasio de uma setta que o
Papa Gregorio XIII enviou a este Rei, ainda elle lhe supplicava se
dignasse dar-lhe algum premio, se no por justia, ao menos por
caridade, como se v dos seguintes versos:

    Estes humildes versos, que prego
    So destes vossos Reinos com verdade,
    Tenho, se no merecem galardo,
    Favor sequer da Regia Magestade:
    Assim tenhais de quem ja tendes tanto,
    Com o nome e reliquia, favor santo.

E esta graa, depois de concedida, veio a ser de nenhum effeito; porque os
monstros[2] que se havio apoderado da menoridade daquelle fatal Rei, e
pouco depois o arrastro a sepultar comsigo a patria nos campos de
Alcacerquivir, to clebres por essa desgraa nossa, se enraivecro contra
o poeta, porque tivera o nobre arrojo de aconselhar quelle Principe,
tomasse as redeas do govrno, e mandasse os frades rezar no cro, e tivero
arte para inutilizar a merc feita; de sorte que o infeliz, cansado de
andar de Herodes para Pilatus, costumava dizer que o s requerimento, que
jagora tinha a fazer a S. Magestade, era que lhe commutasse a merc dos 15$
reis em 15$ aoutes nos ministros a cujo cargo estava o pagamento della.
Por outra parte os fidalgos, que estavo acostumados a desfrutar os
commodos da inercia e os premios da virtude, vendo que ousra quebrar seus
foros submettendo-os a uma rigorosa censura, lhe movro guerra de morte,
no obstante haver elle supprimido algumas Estancias em que os fustigava
mais forte: das quaes Faria e Sousa nos conservou a seguinte:

    Oh inimigos maos da natureza,
    Que injuriais a propria gerao!
    Degenerantes, baixos! Que fraqueza
    De esforo, de saber e de razo
    Vos fez que a clara estirpe, que se prza
    De leal, fido e limpo corao,
    Esqueais dessa sorte? Mas respeito,
    Que este dos nobres he o menor defeito.

E assim no ultimo quartel da vida se vio desamparado de todos e reduzido
a to esqualida miseria, que um escravo (antes verdadeiro amigo) que de
Java trouxera, por nome Antonio, sahia de noute a pedir esmola para o
sustentar; e [~u]a mulata (Barbara se chamava ella) que pelas ruas de
Lisboa andava vendendo mexilhes, condoida do seu desamparo, lhe ia
todos os dias levar um pratinho do que trazia a vender, e de quando em
quando lhe deixava tambem algum vintem do que havia vendido. Que
desengano! De tantos que outrora se dizio seus amigos, s estes
achou fieis na sua adversa fortuna. _Tempora si fuerint nubila, solus
eris._ E neste estado de desesperao parece que foi escrita aquella
incomparavel Cano 11, que he um gemido da natureza, que retumbar no
mundo em quanto nelle houver quem falle ou entenda a lingua Portugueza.

Um s da classe dos fidalgos, Rui da Camara, dizem escritores
contemporaneos se dignra entrar na sua pobre morada: cuidaro nossos
Leitores que iria para o soccorrer? Pois no; foi para o reprehender. Ha
tanto (lhe disse o bom do fidalgo) que vos pedi me traduzisseis os sete
Psalmos Penitenciaes, e ainda os no traduzistes? Nenhuma desculpa
tendes que dar: tendo feito tantos versos e um to formoso Poema, se me
no servis, no he porque no possais; he, sim, porque no quereis.
_Senhor_ (lhe respondeo o poeta) _quando eu fiz esse Poema e esses
versos, era moo e favorecido das Damas, e tinha o necessario  vida; e
agora no tenho espirito nem contentamento para nada, porque tudo isso
me falta, e em tal miseria me vejo, que ahi est o meu Antonio a
pedir-me um vintem para carvo, e no o tenho para lho dar_. Saba este
Cavalheiro que Luis de Cames era poeta, para lhe pedir a traduco dos
sete Psalmos Penitenciaes, e no sabia que era pobre, para lhe dar uma
esmola.

Uma insigne affronta lhe fizero ainda os Cortezos: quando ElRei Dom
Sebastio ia partir para a sua fatal jornada de Africa, lhe lembrro
levasse comsigo a Diogo Bernardes, para que este novo Tityro fosse
testimunha ocular de suas proezas, e sahindo das selvas, onde andava
homiziado, as celebrasse depois na tuba heroica. Mas to generoso e
magnanimo era Luis de Cames, que, no obstante esta injuria, affirma
Severim de Faria, estava ja traando outro poema, que pelos principios
promettia no ser inferior ao primeiro, se o resultado da empresa no
convertesse o canto em chro.

Assim foi tratado este grande homem emquanto reinou Dom Sebastio, e muito
peor ainda depois que subio ao throno o Cardial Dom Henrique: e como pouco
depois viesse a cahir n'uma longa infirmidade, e por cmulo de desgraa lhe
morresse o seu verdadeiro amigo Antonio, que era o unico esteio de seus
dias; opprimido de tantos males, o seguio elle poucos mezes depois 
sepultura, no anno de 1579, com cincoenta e cinco de idade. Querem uns que
morresse na mesma pobre casa onde morava, na rua de S. Anna, a qual depois
da sua morte nunca mais foi habitada, outros que no Hospital; mas como
todos concordo em que de casa de Dom Francisco Manoel lhe mandro por
caridade um lenol para lhe servir de mortalha, he fra de toda a duvida
que no morreo no hospital, porque todos os que morrem naquella piedosa
casa, ahi acho mortalha e sepultura.

Em todos os povos, qualquer que fosse a forma de seu govrno, ho sido
sempre odiados e mais ou menos perseguidos, segundo as conjuncturas dos
tempos, os summos e verdadeiros Escritores; isto he, os que  fora do
pensar e  elegancia do dizer unro em summo grao o amor da verdade e da
justia. No pudero as leis de Athenas proteger a innocencia de Socrates
contra as calumnias de um Melito, Seneca em Roma no pde evitar a morte
debaixo da tyrannia de um Nero; e a estes puderamos ajuntar uma infinidade
de escritores desta classe, philosophos, poetas e oradores, que em diversos
tempos e por diversos modos soffrro a mesma sorte. Mas Luis de Cames foi
mais infeliz que todos: se lhe no fizero beber a cicuta, se lhe no
abrro as veias, amarguraro-lhe a vida com toda a especie de desgosto, e
depois de o haverem trazido de masmorra em masmorra, e de degredo em
degredo envolto na mais esqualida miseria, com um refinamento de tyrannia,
cuja descoberta estava reservada aos tempos modernos, o obrigro a
submetter seus escritos a uma junta de idiotas e hypocritas, e escurecer
elle mesmo sua propria fama, rejeitando o que lhe agradava, para adoptar o
que elles querio; e por fim de tudo o condemnro a morrer de fome; morte
muito mais cruel. E o mais he que, no costumando a inveja apascentar-se em
cadaveres, ainda na sepultura no tem cessado de lhe inquietar as cinzas,
conspirando-se contra todos os que tem querido levantar o vo que encobre o
merecimento deste Escritor insigne. Primeiramente ao poema dos Lusiadas
pretendro os da faco perseguidora antepor o da Ulyssea que, ainda que
no destituido de merecimento, est mui longe no s de se lhe poder
comparar em cousa alguma, mas at de dever ser classificado entre as obras
de primeira ordem neste genero: depois como tivessem noticia que Manoel de
Faria e Sousa estava imprimindo em Madrid os seus commentarios, tivero a
impudencia de lhe escrever, pedindo-lhe com todo o empenho desacreditasse a
Cames; e como este no dsse ouvidos a to infames supplicas, o
denunciro ao Tribunal da SANTA INQUISIO; o que constando ao pobre
Faria, se foi valer dos Santos Inquisidores de Hespanha, para que
mitigassem a santa raiva dos de Portugal, escudando com o seu parecer um
folheto que escreveo em sua defesa delle, entitulado:

_Informacion en favor de Manuel de Faria y Sousa, Caballero de la Orden
de Christo, y de la Casa Real, sobre la acusacion que se hizo en el
Tribunal del Santo Oficio de Lisboa,  los Commentarios que docta y
judiciosa y Catolicamente escrevi  Las Lusiadas del doctissimo y
profundissimo y solidissimo Poeta Christiano Luis de Camoens, unico
ornamento de la Academia Espaola en este genero de Letras._

Deste folheto, que foi impresso em Madrid, anno de 1640, transcreveremos
aqui na sua mesma lingua adoptiva a seguinte passagem, para que se veja
com quanto encarniamento foi perseguido pelo odio e pela inveja este
grande homem e todos os que o ousro louvar:

_De los Acusadores, los mas declarados son dos, de cuya calidad y talento
no diremos algo, asi por ser notorio, como porque nos deban esta piadosa
cortesia. Diremos solo (por ser preciso  nuestra justicia) que son
enemigos patentes del Acusado, contra quien se levantaron, porque no los
celebr en estos Escritos, y les di en ellos, y por cartas y de palabra 
entender su engao..... Y tambien son enemigos notorios de la luz del
Poeta, como aves escuras, pues publican dilatados libelos difamatorios
contra l, sobre que tambien el Comentador los abomina en varios lances: y
 uno dellos doctrin libremente por carta en respuesta de otra, con que le
persuadia  escrivir contra el proprio Poeta, al tiempo que comenzaba 
imprimir los Comentarios. De manera que lo que estos y otros pretenden
viendose ofendidos y alcanzados con la luz del Poeta, que de nuevo les di
en los ojos, por haverla el Comentador sacado de la linterna en que estaba
escondida, no es vedar este libro por quitar de los ojos Catolicos la
representacion de las deidades, y lo osado de algunos discursos; sino por
quitar de sus mismos ojos el resplandor que se los hostija y de los de los
Letores aquellas clusulas que descubren su flaquesa de vista._

_Ambos ellos son asistidos de personas mayores en nacimiento y fortuna (si
bien no mayores en el conocimiento destos estudios) que tambien se dan por
ofendidos de que no siguiese el Comentador su parecer en afrentar  un
Hombre, que hoy se v reconocido por admirable de toda la Clase literaria
de Europa; porque en toda ella solo ellos deshonran  Luis de Camoens. Solo
ellos (ellos solo lo creen) saben mas que las Academias universales, que 
una mano publican la excelencia de sus obras._

Tal foi o odio que sobre elle e seus escritos attrahio a justissima
censura, que o poeta faz do infame comportamento daquelles, que, tendo
mais razo que ninguem para amar e defender sua patria, nos campos
de Aljubarrota ousro tomar as armas contra ella. Mas a maior de todas
as insolencias foi a que teve lugar em nossos dias. O notorio Padre
Macedo, que nestes ultimos tempos assalariado por estrangeiros e
inimigos da patria, como assassino publico, se occupava em denegrir com
calumnias a reputao de todo o Portuguez honrado, tomou a si (no
sabemos se de seu moto proprio, se instigado) a louca empresa de
derribar a Cames, tratando o mesmo assumpto da descoberta da India: fez
umas Oitavas ao Gama, e, como a ra da fbula, perguntou a seus sequazes
se sera maior que Cames. Respondro-lhe que no. Tornou a fazer
outras, e repetindo a mesma pergunta, como lhe dessem a mesma resposta,
cheio de raiva pizou aos ps a corneta; e, considerando melhor sua
natureza e foras, dos heroes passou a cantar os burros. Com tudo o seu
Oriente deve conservar-se como monumento de orgulho, e tambem as suas
cartas a Attico, ainda que no seja seno pelo quinao, que ahi deo a
Cames naquelles versos da Est. 37 do Canto V:

    Quando uma noute estando descuidados
    Na cortadora pra vigiando.

Se estavo descuidados, (diz elle) como estavo vigiando? Que ignorancia!
Estavo descuidados, porque o ceo estava limpo e o ar sereno, e no vio
indicio de tempestade, nem cousa que lhes dsse cuidado; e estavo
vigiando, porque navegavo por mares desconhecidos, e porque era costume
dos nossos mareantes (o qual inda hoje se conserva, porque os bons costumes
no se devem perder) ter sempre de noute vigias de pra. E quem assim sabia
a sua lingua, queria ser maior poeta que Cames?

Assim foi tratado em vida e depois de morto este Pregoeiro eterno da gloria
nacional por aquelles que no fundo da alma se conhecio reos de lesa-nao,
e por uns poucos de fanaticos e hypocritas. Mas da gente popular to bem
recebida e apreciada foi a sua obra, que no mesmo anno se fizero duas
impresses, e os soldados nas batalhas entoavo algumas Estancias della
como seu canto de guerra, e elle mesmo to admirado e respeitado, que
quando apparecia em publico (o que era raro, porque nos ultimos tempos
vivia em grande retiro) paravo todos, sem tirar os olhos delle, at o
perderem de vista. E se morreo em tal desamparo (faa-se esta justia aos
Portuguezes, que em serem compadecidos e generosos a nenhum outro povo
cedem) foi no s porque nessa desgraada epocha se achavo todos os animos
possuidos de terror com a recente catastrophe, e as calamidades publicas
que se previo futuras, no davo lugar ao sentimento de males
particulares, mas muito principalmente porque a sua miseria no era
conhecida; pois que se mandava o seu Jao pedir esmola, era de noute, e sem
dizer para quem. Este e outros casos taes, no raros n'uma to grande e
populosa cidade, dero causa  instituio de uma piedosa irmandade de
homens plebeos, (em quem ordinariamente se encontro mais virtudes que nos
Grandes) a qual inda hoje existe, cujo fim he indagar pelos bairros se ha
algum pobre envergonhado, e apregoar de noute pelas ruas sua morada, para
que os cidados que puderem o mandem soccorrer. E o traductor infiel
(Mickle) que ousou arremendar Cames com trapos da sua fbrica, e deste
desastrado acontecimento tirou pretexto para desafogar o seu odio contra os
Portuguezes, que nenhum mal lhe fizero, tratando-os de _nao barbara e
inculta_, devra lembrar-se, que serem os bons sacrificados pelos maos, por
lhe conhecerem o merecimento, cousa he, que em toda a parte todos os dias
se v; mas que no seculo desasete um Escritor insigne, com que hoje seus
compatriotas tanto blasono, fosse igualmente infeliz, polo no saberem
apreciar, e que o seu livro, antes de impresso, fosse vendido pelo vil
preo de cinco Libras, e depois de impresso, jazesse tantos tempos
ignorado, de sorte que para saberem que o tinho, fosse preciso haver quem
lho mostrasse, he caso que s em Inglaterra nos consta que succedesse.

Foi Luis de Cames de mediana estatura; cabellos (quando moo) to louros,
que tiravo a aafroados; olhos vivissimos; nariz comprido, alto no meio, e
grosso na ponta; rosto cheio, beios grossos, e um tanto carregado da
fronte; pelo que ao primeiro aspecto inculcava severidade; mas na
conversao e trato era summamente affavel e jovial. Era liberal com os
amigos, honrador dos benemeritos, rigido censor dos vicios, intrepido nos
perigos, constante nas adversidades. Em todos os trances de fortuna
conservou sempre a mesma serenidade de alma: de maneira que ja no leito da
morte escrevendo a um seu amigo, lhe dizia gracejando: _Quem ouvio dizer,
que em to pequeno theatro, como o de um pobre leito, quizesse a fortuna
representar to grandes desventuras? E eu, como se ellas no bastassem, me
ponho ainda da sua parte; porque procurar resistir a tantos males,
pareceria especie de desavergonhamento._ Emfim, de todas as virtudes foi
ornado este grande homem; e a que nelle mais sobresahia, era um extremoso e
desinteressado amor de patria, que da maneira mais evidente se manifestou
em todo o discurso da sua trabalhosa vida, e nos ultimos momentos della,
como lampada moribunda, inda despedio de si maior claro: pois ja nos
parocismos da morte, passando em resenha todas as suas aces, parece que
nenhuma outra mgoa sentia, seno a de haver soltado n'um transporte d'ira
aquellas palavras: _Ingrata patria, no possuirs meus ossos_. Porque
julgava elle, que por maiores aggravos que um cidado haja recebido da sua
patria, nunca, nem por pensamento, deve procurar vingana. E querendo na
sua derradeira hora deixar-nos um testimunho deste seu arrependimento,
vendo-se em tal desamparo, sem ter ninguem a seu lado, escreveo a Dom
Francisco de Almeida, que na comarca de Lamego andava allistando gente, uma
carta onde se lio estas memoraveis palavras: _Emfim, acabarei a vida; e
aqui vero todos que to amante fui da minha patria, que no contente de
morrer nella, quiz tambem morrer com ella._

Foi enterrado sem distinco alguma na Igreja das Religiosas de S.ta
Anna da Ordem de S. Francisco; e assim jazro seus ossos confundidos
com os do vulgo sem nome at ao anno de 1595, em que Dom Gonalo
Coutinho lhe mandou pr sobre a sepultura uma campa lisa de marmore, e
nella gravar este letreiro:

                  AQUI JAZ LUIS DE CAMES,
                         PRINCIPE
                  DOS POETAS DE SEU TEMPO.
               VIVEO POBRE E MISERAVELMENTE,
                      E ASSI MORREO
                     ANNO DE MDLXXIX.
              ESTA CAMPA LHE MANDOU AQUI PR
             DOM GONALO COUTINHO, NA QUAL SE
               NO ENTERRAR PESSOA ALGUMA.

Alguns annos depois lhe mandou abrir na mesma campa Martim Gonalves da
Camara o seguinte Epitaphio:

    _Naso Elegis, Flaccus Lyricis, Epigrammate Marcus,
      Hic jacet heroe carmine Virgilius.
    Ense simul calamoque auxit tibi, Lysia, famam.
      Unam nobilitant Mars et Apollo manum.
    Castalium fontem traxit modulamine: at Indo
      Et Gangi telis obstupefecit aquas.
    India mirata est, quando aurea carmina, lucrum
      Ingenii, haut gazas, ex Oriente tulit.
    Sic bene de patria meruit, dum fulminat ense:
      At plus, dum calamo bellicosa facta refert.
    Hunc Itali, Galli, Hispani vertere poetam:
      Quaelibet hunc vellet terra vocare suum.
    Vertere fas, aequare nefas: aequabilis uni
      Est sibi: par nemo, nemo secundus erit._

Achamos em Pedro Mariz que um fidalgo Alemo escrevra a um seu
correspondente de Lisboa que lhe soubesse que sepultura tinha Cames, e
quando a no tivesse sumptuosa, tratasse com a cidade lhe dsse
licena para trasladar seus ossos para Alemanha, onde lhe faria um
tumulo superbissimo, igual aos dos mais famosos antigos. Mas o Senado da
Camara attendendo  dignidade da nao, no consentio na proposta,
talvez porque tivesse em vista fazer essa mesma honra s cinzas de to
grande homem. Mas este projecto ficou depois em esquecimento at ao anno
de 1775, em que o grande terremoto, sovertendo aquella Igreja, confundio
os ossos debaixo das ruinas. Mas tempo vir em que a patria agradecida
erija  sua memoria um pomposo monumento, que seja digno della, digno de
to insigne varo.




RIMAS.




RIMAS.


SONETOS.


I.

    Em quanto quiz fortuna que tivesse
    Esperana de algum contentamento,
    O gosto de hum suave pensamento
    Me fez que seus effeitos escrevesse.
      Porm temendo Amor que aviso dsse
    Minha escriptura a algum juizo isento,
    Escureceo-me o engenho co'o tormento,
    Para que seus enganos no dissesse.
       vs, que Amor obriga a ser sujeitos
    A diversas vontades! quando lerdes
    N'hum breve livro casos to diversos;
      (Verdades puras so, e no defeitos)
    Entendei que segundo o amor tiverdes,
    Tereis o entendimento de meus versos.


II.

    Eu cantarei de amor to docemente,
    Por huns termos em si to concertados,
    Que dous mil accidentes namorados
    Faa sentir ao peito que no sente.
      Farei que Amor a todos avivente,
    Pintando mil segredos delicados,
    Brandas iras, suspiros magoados,
    Temerosa ousadia, e pena, ausente.
      Tambem, Senhora, do desprzo honesto
    De vossa vista branda e rigorosa,
    Contentar-me-hei dizendo a menor parte.
      Porm para cantar de vosso gesto
    A composio alta e milagrosa,
    Aqui falta saber, engenho, e arte.


III.

    Com grandes esperanas ja cantei,
    Com que os deoses no Olympo conquistra;
    Depois vim a chorar porque cantra,
    E agora chro ja porque chorei.
      Se cuido nas passadas que ja dei,
    Custa-me esta lembrana s to cara,
    Que a dor de ver as mgoas que passra,
    Tenho por a mr mgoa que passei.
      Pois logo, se est claro que hum tormento
    D causa que outro na alma se accrescente,
    Ja nunca posso ter contentamento.
      Mas esta phantasia se me mente?
    Oh ocioso e cego pensamento!
    Ainda eu imagino em ser contente?


IV.

    Despois que quiz Amor que eu s passasse
    Quanto mal ja por muitos repartio,
    Entregou-me  Fortuna, porque vio
    Que no tinha mais mal que em mi mostrasse.
      Ella, porque do Amor se avantajasse
    Na pena a que elle s me reduzio,
    O que para ninguem se consentio,
    Para mim consentio que se inventasse.
      Eis-me aqui vou com vrio som gritando.
    Copioso exemplario para a gente
    Que destes dous tyrannos he sujeita;
      Desvarios em versos concertando.
    Triste quem seu descanso tanto estreita,
    Que deste to pequeno est contente!


V.

    Em prises baixas fui hum tempo atado;
    Vergonhoso castigo de meus erros:
    Inda agora arrojando levo os ferros,
    Que a morte, a meu pezar, t[~e]e ja quebrado.
      Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
    Que Amor no quer cordeiros nem bezerros;
    Vi mgoas, vi miserias, vi desterros:
    Parece-me que estava assi ordenado.
      Contentei-me com pouco, conhecendo
    Que era o contentamento vergonhoso,
    S por ver que cousa era viver ledo.
      Mas minha Estrella, que eu ja agora entendo,
    A Morte cega, e o Caso duvidoso
    Me fizero de gostos haver medo.


VI.

    Illustre e digno ramo dos Menezes,
    Aos quaes o providente e largo Ceo
    (Que errar no sabe) em dote concedeo,
    Rompessem os Maometicos arnezes;
      Desprezando a Fortuna e seus revezes,
    Ide para onde o Fado vos moveo;
    Erguei flammas no mar alto Erythreo,
    E sereis nova luz aos Portuguezes.
      Opprimi com to firme e forte peito
    O Pirata insolente, que se espante
    E trema Taprobana e Gedrosia.
      Dai nova causa  cr do Arabo Estreito;
    Assi que o Roxo mar, daqui em diante
    O seja s com sangue de Turquia.


VII.

    No tempo que de amor viver sohia,
    Nem sempre andava ao remo ferrolhado;
    Antes agora livre, agora atado,
    Em vrias flammas variamente ardia.
      Que ardesse n'hum s fogo no queria
    O Ceo porque tivesse exprimentado
    Que nem mudar as causas ao cuidado
    Mudana na ventura me faria.
      E se algum pouco tempo andava isento,
    Foi como quem co'o pzo descansou
    Por tornar a cansar com mais alento.
      Louvado seja Amor em meu tormento,
    Pois para passatempo seu tomou
    Este meu to cansado soffrimento!


VIII.

    Amor, que o gesto humano na alma escreve,
    Vivas faiscas me mostrou hum dia,
    Donde hum puro crystal se derretia
    Por entre vivas rosas e alva neve.
      A vista, que em si mesma no se atreve,
    Por se certificar do que alli via,
    Foi convertida em fonte, que fazia
    A dor ao soffrimento doce e leve.
      Jura Amor, que brandura de vontade
    Causa o primeiro effeito; o pensamento
    Endoudece, se cuida que he verdade.
      Olhai como Amor gera, em hum momento,
    De lagrimas de honesta piedade
    Lagrimas de immortal contentamento.


IX.

    Tanto de meu estado me acho incerto,
    Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
    Sem causa juntamente chro e rio;
    O mundo todo abarco, e nada aprto.
      He tudo quanto sinto hum desconcrto:
    Da alma hum fogo me sahe, da vista hum rio;
    Agora espero, agora desconfio;
    Agora desvaro, agora acrto.
      Estando em terra, chego ao ceo voando;
    N'hum'hora acho mil annos, e he de geito
    Que em mil annos no posso achar hum'hora.
      Se me pergunta alguem, porque assi ando,
    Respondo, que no sei: porm suspeito
    Que s porque vos vi, minha Senhora.


X.

    Transforma-se o amador na cousa amada,
    Por virtude do muito imaginar:
    No tenho logo mais que desejar,
    Pois em mim tenho a parte desejada.
      Se nella est minha alma transformada,
    Que mais deseja o corpo de alcanar?
    Em si somente pde descansar,
    Pois com elle tal alma est liada.
      Mas esta linda e pura semidea,
    Que como o accidente em seu sojeito,
    Assi com a alma minha se confrma;
      Est no pensamento como idea;
    E o vivo e puro amor de que sou feito,
    Como a materia simples busca a frma.


XI.

    Passo por meus trabalhos to isento
    De sentimento grande nem pequeno,
    Que s por a vontade com que peno
    Me fica Amor devendo mais tormento.
      Mas vai-me Amor matando tanto a tento,
    Temperando a triaga co'o veneno,
    Que do penar a ordem desordeno,
    Porque no mo consente o soffrimento.
      Porm se esta fineza o Amor sente
    E pagar-me meu mal com mal pretende,
    Torna-me com prazer como ao sol neve.
      Mas se me v co'os males to contente,
    Faz-se avaro da pena, porque entende
    Que quanto mais me paga, mais me deve.


XII.

    Em flor vos arrancou, de ento crescida,
    (Ah Senhor Dom Antonio!) a dura sorte
    Donde fazendo andava o brao forte
    A fama dos antiguos esquecida.
      Huma s razo tenho conhecida
    Com que tamanha mgoa se conforte:
    Que se no Mundo havia honrada morte,
    No podieis vs ter mais larga vida.
      Se meus humildes versos podem tanto
    Que co'o desejo meu se iguale a arte,
    Especial materia me sereis.
      E celebrado em triste e longo canto,
    Se morrestes nas mos do fero Marte,
    Na memoria das gentes vivireis.


XIII.

    N'hum jardim adornado de verdura,
    Que esmaltavo por cima vrias flores,
    Entrou hum dia a deosa dos amores,
    Com a deosa da caa e da espessura.
      Diana tomou logo h[~u]a rosa pura,
    Venus hum roxo lyrio, dos melhores;
    Mas excedio muito s outras flores
    As violas na graa e formosura.
      Pergunto a Cupido, que alli estava,
    Qual de aquellas tres flores tomaria
    Por mais suave e pura, e mais formosa.
      Sorrindo-se o menino lhes tornava:
    Todas formosas so; mas eu queria
    Viola antes que lyrio, nem que rosa.


XIV.

    Todo animal da calma repousava,
    S Liso o ardor della no sentia;
    Que o repouso do fogo, em que elle ardia,
    Consistia na Nympha que buscava.
      Os montes parecia que abalava
    O triste som das mgoas que dizia:
    Mas nada o duro peito commovia,
    Que na vontade de outro posto estava.
      Cansado ja de andar por a espessura,
    No tronco de huma faia, por lembrana,
    Escreve estas palavras de tristeza:
      Nunca ponha ninguem sua esperana
    Em peito feminil, que de natura
    Somente em ser mudavel t[~e]e firmeza.


XV.

    Busque Amor novas artes, novo engenho
    Para matar-me, e novas esquivanas;
    Que no pde tirar-me as esperanas,
    Pois mal me tirar o que eu no tenho.
      Olhai de que esperanas me mantenho!
    Vde que perigosas seguranas!
    Pois no temo contrastes nem mudanas,
    Andando em bravo mar, perdido o lenho.
      Mas com quanto no pde haver desgsto
    Onde esperana falta, l me esconde
    Amor hum mal, que mata e no se v.
      Que dias ha que na alma me t[~e]e posto
    Hum no sei que, que nasce no sei onde;
    Vem no sei como; e doe no sei porque.


XVI.

    Quem v, Senhora, claro e manifesto
    O lindo ser de vossos olhos bellos,
    Se no perder a vista s com vellos,
    Ja no paga o que deve a vosso gesto.
      Este me parecia preo honesto;
    Mas eu, por de vantagem merecellos,
    Dei mais a vida e alma por querellos;
    Donde ja me no fica mais de resto.
      Assi que alma, que vida, que esperana,
    E que quanto for meu, he tudo vosso:
    Mas de tudo o intersse eu s o levo.
      Porque he tamanha bem-aventurana
    O dar-vos quanto tenho, e quanto posso,
    Que quanto mais vos pago, mais vos devo.


XVII.

    Quando da bella vista e doce riso
    Tomando esto meus olhos mantimento,
    To elevado sinto o pensamento,
    Que me faz ver na terra o Paraiso.
      Tanto do bem humano estou diviso,
    Que qualquer outro bem julgo por vento:
    Assi que em termo tal, segundo sento,
    Pouco vem a fazer quem perde o siso.
      Em louvar-vos, Senhora, no me fundo;
    Porque quem vossas graas claro sente,
    Sentir que no pde conhecellas.
      Pois de tanta estranheza sois ao mundo,
    Que no he de estranhar, Dama excellente,
    Que quem vos fez, fizesse ceo e estrellas.


XVIII.

    Doces lembranas da passada gloria,
    Que me tirou fortuna roubadora,
    Deixai-me descansar em paz hum'hora,
    Que comigo ganhais pouca victoria.
      Impressa tenho na alma larga historia
    Deste passado bem, que nunca fra;
    Ou fra, e no passra: mas ja agora
    Em mi no pde haver mais que a memoria.
      Vivo em lembranas, morro de esquecido
    De quem sempre devra ser lembrado,
    Se lhe lembrra estado to contente.
      Oh quem tornar pudra a ser nascido!
    Soubera-me lograr do bem passado,
    Se conhecer soubera o mal presente.


XIX.

    Alma minha gentil, que te partiste
    To cedo desta vida descontente,
    Repousa l no Ceo eternamente,
    E viva eu c na terra sempre triste.
      Se l no assento Ethereo, onde subiste,
    Memoria desta vida se consente,
    No te esqueas de aquelle amor ardente,
    Que ja nos olhos meus to puro viste.
      E se vires que pde merecer-te
    Alg[~u]a cousa a dor que me ficou
    Da mgoa, sem remedio, de perder-te;
      Roga a Deos que teus annos encurtou,
    Que to cedo de c me leve a ver-te,
    Quo cedo de meus olhos te levou.


XX.

    N'hum bosque, que das Nymphas se habitava,
    Sibella, Nympha linda, andava hum dia;
    E subida em huma rvore sombria,
    As amarellas flores apanhava.
      Cupido, que alli sempre costumava
    A vir passar a ssta  sombra fria,
    Em hum ramo arco e settas, que trazia,
    Antes que adormecesse, pendurava.
      A Nympha, como idoneo tempo vra
    Para tamanha empresa, no dilata;
    Mas com as armas foge ao moo esquivo.
      As settas traz nos olhos, com que tira.
     Pastores! fugi, que a todos mata,
    Seno a mim, que de matar-me vivo.


XXI.

    Os Reinos e os Imperios poderosos,
    Que em grandeza no mundo mais crescro;
    Ou por valor de esfro florecro,
    Ou por Bares nas letras espantosos.
      Teve Grecia Themistocles famosos;
    Os Scipies a Roma engrandecro;
    Doze Pares a Frana gloria dero;
    Cides a Hespanha, e Laras bellicosos.
      Ao nosso Portugal, que agora vemos
    To differente de seu ser primeiro,
    Os vossos dero honra e liberdade.
      E em vs, gro successor e novo herdeiro
    Do Bragano Estado, ha mil extremos
    Iguaes ao sangue, e mres que a idade.


XXII.

    De vs me parto,  vida, e em tal mudana
    Sinto vivo da morte o sentimento.
    No sei para que he ter contentamento,
    Se mais ha de perder quem mais alcana.
      Mas dou-vos esta firme segurana:
    Que postoque me mate o meu tormento,
    Por as aguas do eterno esquecimento
    Segura passar minha lembrana.
      Antes sem vs meus olhos se entristeo,
    Que com cousa outra alguma se contentem:
    Antes os esqueais, que vos esqueo.
      Antes nesta lembrana se atormentem,
    Que com esquecimento desmereo
    A gloria que em soffrer tal pena sentem.


XXIII.

    Chara minha inimiga, em cuja mo
    Poz meus contentamentos a ventura,
    Faltou-te a ti na terra sepultura,
    Porque me falte a mi consolao.
      Eternamente as guas lograro
    A tua peregrina formosura:
    Mas em quanto me a mim a vida dura,
    Sempre viva em minha alma te acharo.
      E se meus rudos versos podem tanto,
    Que posso prometter-te longa historia
    De aquelle amor to puro e verdadeiro;
      Celebrada sers sempre em meu canto:
    Porque em quanto no mundo houver memoria,
    Ser a minha escriptura o teu letreiro.


XXIV.

    Aquella triste e leda madrugada,
    Cheia toda de mgoa e de piedade,
    Em quanto houver no mundo saudade
    Quero que seja sempre celebrada.
      Ella s, quando amena e marchetada
    Sahia, dando  terra claridade,
    Vio apartar-se de huma outra vontade,
    Que nunca poder ver-se apartada;
      Ella s vio as lagrimas em fio,
    Que de huns e de outros olhos derivadas,
    Juntando-se, formro largo rio;
      Ella ouvio as palavras magoadas,
    Que pudero tornar o fogo frio,
    E dar descano s almas condemnadas.


XXV.

    Se quando vos perdi, minha esperana,
    A memoria perdra juntamente
    Do doce bem passado e mal presente,
    Pouco sentira a dor de tal mudana.
      Mas Amor, em quem tinha confiana,
    Me representa mui miudamente
    Quantas vezes me vi ledo e contente,
    Por me tirar a vida esta lembrana.
      De cousas de que apenas hum signal
    Havia, porque as dei ao esquecimento,
    Me vejo com memorias perseguido.
      Ah dura estrella minha! Ah gro tormento!
    Que mal pde ser mor, que no meu mal
    Ter lembranas do bem que he ja passado?


XXVI.

    Em formosa Lethea se confia,
    Por onde vaidade tanta alcana,
    Que, tornada em soberba a confiana,
    Com os deoses celestes competia.
      Porque no fosse avante esta ousadia,
    (Que nascem muitos erros da tardana)
    Em effeito puzero a vingana
    Que tamanha doudice merecia.
      Mas Oleno, perdido por Lethea,
    No lhe soffrendo Amor que supportasse
    Duro castigo em tanta formosura,
      Quiz a pena tomar da culpa alhea:
    Mas, porque a Morte Amor no apartasse,
    Ambos tornados so em pedra dura.


XXVII.

    Males, que contra mim vos conjurastes,
    Quanto ha de durar to duro intento?
    Se dura, porque dure meu tormento,
    Baste-vos quanto ja me atormentastes.
      Mas se assi porfiais, porque cuidastes
    Derribar o meu alto pensamento,
    Mais pde a causa delle, em que o sustento,
    Que vs, que della mesma o ser tomastes.
      E pois vossa teno com minha morte
    He de acabar o mal destes amores,
    Dai ja fim a tormento to comprido.
      Assi de ambos contente ser a sorte;
    Em vs por acabar-me, vencedores,
    Em mim porque acabei de vs vencido.


XXVIII.

    Est-se a Primavera trasladando
    Em vossa vista deleitosa e honesta;
    Nas bellas faces, e na boca e testa,
    Cecens, rosas, e cravos debuxando.
      De sorte, vosso gesto matizando,
    Natura quanto pde manifesta,
    Que o monte, o campo, o rio, e a floresta,
    Se esto de vs, Senhora, namorando.
      Se agora no quereis que quem vos ama
    Possa colher o fructo destas flores,
    Perdero toda a graa os vossos olhos.
      Porque pouco aproveita, linda Dama,
    Que semeasse o Amor em vs amores,
    Se vossa condio produze abrolhos.


XXIX.

    Sete annos de pastor Jacob servia
    Labo, pae de Raquel, serrana bella:
    Mas no servia ao pae, servia a ella,
    Que a ella s por premio pertendia.
      Os dias na esperana de hum s dia
    Passava, contentando-se com vella:
    Porm o pae, usando de cautella,
    Em lugar de Raquel lhe deo a Lia.
      Vendo o triste Pastor que com enganos
    Assi lhe era negada a sua Pastora,
    Como se a no tivera merecida;
      Comeou a servir outros sete annos,
    Dizendo: Mais servra, seno fra
    Para to longo amor to curta a vida.


XXX.

    Est o lascivo e doce passarinho
    Com o biquinho as pennas ordenando;
    O verso sem medida, alegre e brando,
    Despedindo no rustico raminho.
      O cruel caador, que do caminho
    Se vem callado e manso desviando,
    Com prompta vista a setta endireitando,
    Lhe d no Estygio Lago eterno ninho.
      Desta arte o corao, que livre andava,
    (Postoque ja de longe destinado)
    Onde menos temia, foi ferido.
      Porque o frecheiro cego me esperava,
    Para que me tomasse descuidado,
    Em vossos claros olhos escondido.


XXXI.

    Pede o desejo, Dama, que vos veja:
    No entende o que pede; est enganado.
    He este amor to fino e to delgado,
    Que quem o t[~e]e, no sabe o que deseja.
      No ha cousa, a qal natural seja,
    Que no queira perptuo o seu estado.
    No quer logo o desejo o desejado,
    S porque nunca falte onde sobeja.
      Mas este puro affecto em mim se dana:
    Que, como a grave pedra t[~e]e por arte
    O centro desejar da natureza;
      Assi meu pensamento por a parte,
    Que vai tomar de mi, terreste e humana,
    Foi, Senhora, pedir esta baixeza.


XXXII.

    Porque quereis, Senhora, que offerea
    A vida a tanto mal como padeo?
    Se vos nasce do pouco que eu mereo,
    Bem por nascer est quem vos merea.
      Entendei que por muito que vos pea,
    Poderei merecer quanto vos peo;
    Pois no consente amor que em baixo preo
    To alto pensamento se conhea.
      Assi que a paga igual de minhas dores
    Com nada se restaura; mas devsma
    Por ser capaz de tantos desfavores.
      E se o valor de vossos amadores
    Houver de ser igual comvosco mesma,
    Vs s comvosco mesma andai de amores.


XXXIII.

    Se tanta pena tenho merecida
    Em pago de soffrer tantas durezas;
    Provai, Senhora, em mi vossas cruezas,
    Que aqui tendes huma alma offerecida.
      Nella experimentai, se sois servida,
    Desprezos, desfavores e asperezas;
    Que mres soffrimentos e firmezas
    Sustentarei na guerra desta vida.
      Mas contra vossos olhos quaes sero?
    He preciso que tudo se lhes renda;
    Mas porei por escudo o corao.
      Porque em to dura e aspera contenda
    He bem que, pois no acho defenso,
    Com meter-me nas lanas me defenda.


XXXIV.

    Quando o sol encoberto vai mostrando
    Ao mundo a luz quieta e duvidosa,
    Ao longo de huma praia deleitosa
    Vou na minha inimiga imaginando.
      Aqui a vi os cabellos concertando;
    Alli co'a mo na face, to formosa;
    Aqui fallando alegre, alli cuidosa;
    Agora estando quda, agora andando.
      Aqui esteve sentada, alli me vio,
    Erguendo aquelles olhos, to isentos;
    Commovida aqui hum pouco, alli segura.
      Aqui se entristeceo, alli se rio:
    E, em fim, nestes cansados pensamentos
    Passo esta vida va, que sempre dura.


XXXV.

    Hum mover de olhos, brando e piedoso,
    Sem ver de que; hum riso brando e honesto,
    Quasi forado; hum doce e humilde gesto,
    De qualquer alegria duvidoso:
      Hum despejo quieto e vergonhoso;
    Hum repouso gravissimo e modesto;
    Huma pura bondade, manifesto
    Indicio da alma, limpo e gracioso:
      Hum encolhido ousar; huma brandura;
    Hum medo sem ter culpa; hum ar sereno;
    Hum longo e obediente soffrimento:
      Esta foi a celeste formosura
    Da minha Circe, e o magico veneno
    Que pde transformar meu pensamento.


XXXVI.

    Tomou-me vossa vista soberana
    Adonde tinha as armas mais  mo,
    Por mostrar a quem busca defenso
    Contra esses bellos olhos, que se engana.
      Por ficar da victoria mais ufana,
    Deixou-me armar primeiro da razo.
    Bem salvar-me cuidei, mas foi em vo,
    Que contra o Ceo no val defensa humana.
      Com tudo, se vos tinha promettido
    O vosso alto destino esta victoria,
    Ser-vos ella bem pouca est entendido.
      Pois, indaque eu me achasse apercebido,
    No levais de vencer-me grande gloria,
    Eu a levo maior de ser vencido.


XXXVII.

    No passes, caminhante. Quem me chama?
    H[~u]a memoria nova e nunca ouvida,
    De hum que trocou finita e humana vida
    Por divina, infinita, e clara fama.
      Quem he, que to gentil louvor derrama?
    Quem derramar seu sangue no duvida,
    Por seguir a bandeira esclarecida
    De hum capito de Christo que mais ama.
      Ditoso fim, ditoso sacrificio,
    Que a Deos se fez e ao mundo juntamente!
    Pregoando direi to alta sorte.
      Mais poders contar a toda a gente
    Que sempre deo na vida claro indicio
    De vir a merecer to santa morte.


XXXVIII.

    Formosos olhos, que na idade nossa
    Mostrais do Ceo certissimos signais,
    Se quereis conhecer quanto possais,
    Olhai-me a mim, que sou feitura vossa.
      Vereis que do viver me desapossa
    Aquelle riso com que a vida dais:
    Vereis como de Amor no quero mais,
    Por mais que o tempo corra, o damno possa.
      E se ver-vos nesta alma, emfim, quizerdes,
    Como em hum claro espelho, alli vereis
    Tambem a vossa angelica e serena.
      Mas eu cuido que, s por me no verdes,
    Ver-vos em mim, Senhora, no quereis:
    Tanto gsto levais de minha pena!


XXXIX.

    O fogo que na branda cera ardia,
    Vendo o rosto gentil, que eu na alma vejo,
    Se accendeo de outro fogo do desejo
    Por alcanar a luz que vence o dia.
      Como de dous ardores se encendia,
    Da grande impaciencia fez despejo,
    E remettendo com furor sobejo,
    Vos foi beijar na parte onde se via.
      Ditosa aquella flamma que se atreve
    A apagar seus adores e tormentos
    Na vista a quem o sol temores deve!
      Namoro-se, Senhora, os Elementos
    De vs, e queima o fogo aquella neve
    Que queima coraes e pensamentos.


XL.

    Alegres campos, verdes arvoredos,
    Claras e frescas guas de crystal,
    Que em vs os debuxais ao natural,
    Discorrendo da altura dos rochedos:
      Sylvestres montes, asperos penedos
    Compostos de concrto desigual;
    Sabei que sem licena de meu mal
    Ja no podeis fazer meus olhos ledos.
      E pois ja me no vdes como vistes,
    No me alegrem verduras deleitosas,
    Nem guas que correndo alegres vem.
      Semearei em vs lembranas tristes,
    Regar-vos-hei com lagrimas saudosas,
    E nascero saudades de meu bem.


XLI.

    Quantas vezes do fuso se esquecia
    Daliana, banhando o lindo seio,
    Outras tantas de hum aspero receio
    Salteado Laurenio a cr perdia.
      Ella, que a Sylvio mais que a si queria,
    Para pod-lo ver no tinha meio.
    Ora como curra o mal alheio
    Quem o seu mal to mal curar podia?
      Elle, que vio to clara esta verdade,
    Com soluos dizia (que a espessura
    Inclinavo, de mgoa, a piedade):
      Como pde a desordem da natura
    Fazer to differentes na vontade
    Aos que fez to conformes na ventura?


XLII.

    Lindo e subtil tranado, que ficaste
    Em penhor do remedio que mereo,
    Se s comtigo, vendo-te, endoudeo,
    Que fra co'os cabellos que apertaste?
      Aquellas tranas de ouro que ligaste,
    Que os raios do sol t[~e]e em pouco preo,
    No sei se ou para engano do que peo,
    Ou para me matar as desataste.
      Lindo tranado, em minhas mos te vejo,
    E por satisfao de minhas dores,
    Como quem no t[~e]e outra, hei de tomar-te.
      E se no for contente o meu desejo,
    Dir-lhe-hei que nesta regra dos amores
    Por o todo tambem se toma a parte.


XLIII.

    O cysne quando sente ser chegada
    A hora que pe termo  sua vida,
    Harmonia maior, com voz sentida,
    Levanta por a praia inhabitada.
      Deseja lograr vida prolongada,
    E della est chorando a despedida:
    Com grande saudade da partida,
    Celebra o triste fim desta jornada.
      Assi, Senhora minha, quando eu via
    O triste fim que davo meus amores,
    Estando posto ja no extremo fio;
      Com mais suave accento de harmonia
    Descantei por os vossos desfavores
    _La vuestra falsa fe, y el amor mio._


XLIV.

    Por os raros extremos que mostrou
    Em sbia Pallas, Venus em formosa,
    Diana em casta, Juno em animosa,
    Africa, Europa e Asia as adorou.
      Aquelle saber grande que juntou
    Esprito e corpo em liga generosa,
    Esta mundana mchina lustrosa,
    De ss quatro elementos fabricou.
      Mas fez maior milagre a natureza
    Em vs, Senhoras, pondo em cada h[~u]a
    O que por todas quatro repartio.
      A vs seu resplandor deo sol e l[~u]a:
    A vs com viva luz, graa e pureza,
    Ar, Fogo, Terra e Agua vos servio.


XLV.

    Tomava Daliana por vingana
    Da culpa do pastor que tanto amava,
    Casar com Gil vaqueiro; e em si vingava
    O rro alheio, e perfida esquivana.
      A discrio segura, a confiana
    Das rosas que o seu rosto debuxava,
    O descontentamento lhas mudava;
    Que tudo muda huma aspera mudana.
      Gentil planta disposta em scca terra;
    Lindo fructo de dura mo colhido;
    Lembranas de outro amor, e f perjura,
      Tornro verde prado em serra dura;
    Intersse enganoso, amor fingido,
    Fizero desditosa a formosura.


XLVI.

    Gro tempo ha ja que soube da Ventura
    A vida que me tinha destinada;
    Que a longa experiencia da passada
    Me dava claro indicio da futura.
      Amor fero e cruel, Fortuna escura,
    Bem tendes vossa fra exprimentada:
    Assolai, destrui, no fique nada;
    Vingai-vos desta vida, que inda dura.
      Soube Amor da Ventura, que a no tinha,
    E porque mais sentisse a falta della,
    De imagens impossiveis me mantinha.
      Mas vs, Senhora, pois que minha estrella
    No foi melhor, vivei nesta alma minha;
    Que no t[~e]e a Fortuna poder nella.


XLVII.

    Se somente hora alguma em vs piedade
    De to longo tormento se sentra,
    Amor sofrra mal que eu me partra
    De vossos olhos, minha Saudade.
      Apartei-me de vs, mas a vontade,
    Que por o natural na alma vos tira,
    Me faz crer que esta ausencia he de mentira;
    Porm venho a provar que he de verdade.
      Ir-me-hei, Senhora; e neste apartamento
    Lagrimas tristes tomaro vingana
    Nos olhos de quem fostes mantimento.
      Desta arte darei vida a meu tormento;
    Que, em fim, c me achar minha lembrana
    Sepultado no vosso esquecimento.


XLVIII.

    Oh como se me alonga de anno em ano
    A peregrinao cansada minha!
    Como se encurta, e como ao fim caminha
    Este meu breve e vo discurso humano!
      Mingoando a idade vai, crescendo o dano;
    Perdeo-se-me hum remedio, que inda tinha:
    Se por experiencia se adivinha,
    Qualquer grande esperana he grande engano.
      Corro apoz este bem que no se alcana;
    No meio do caminho me fallece;
    Mil vezes caio, e perco a confiana.
      Quando elle foge, eu tardo; e na tardana,
    Se os olhos ergo a ver se inda apparece,
    Da vista se me perde, e da esperana.


XLIX.

    Ja he tempo, ja, que minha confiana
    Se desa de huma falsa opinio:
    Mas Amor no se rege por razo;
    No posso perder, logo, a esperana.
      A vida si; que huma aspera mudana
    No deixa viver tanto hum corao,
    E eu s na morte tenho a salvao:
    Si: mas quem a deseja no a alcana.
      Forado he logo que eu espere e viva.
    Ali dura lei de Amor, que no consente
    Quietao n'hum'alma que he captiva!
      Se hei de viver, em fim, foradamente,
    Para que quero a gloria fugitiva
    De huma esperana va que me atormente?


L.

    Amor, com a esperana ja perdida
    Teu soberano templo visitei:
    Por signal do naufragio que passei,
    Em lugar dos vestidos, puz a vida.
      Que mais queres de mi, pois destruida
    Me t[~e]es a gloria toda que alcancei?
    No cuides de render-me; que no sei
    Tornar a entrar-me onde no ha sahida.
      Vs aqui a vida, e a alma, e a esperana,
    Doces despojos de meu bem passado,
    Em quanto o quiz aquella que eu adoro.
      Nellas podes tomar de mi vingana:
    E se te queres inda mais vingado,
    Contenta-te co'as lagrimas que chro.


LI.

    Apollo e as nove Musas, descantando
    Com a dourada lyra, me influio
    Na suave harmonia que fazio,
    Quando tomei a penna, comeando:
      Ditoso seja o dia e hora, quando
    To delicados olhos me ferio!
    Ditosos os sentidos que sentio
    Estar-se em seu desejo traspassando!
      Assi cantava, quando Amor virou
    A roda  esperana, que corria
    To ligeira, que quasi era invisibil.
      Converteo-se-me em noite o claro dia;
    E se alguma esperana me ficou,
    Ser de maior mal, se for possibil.


LII.

    Lembranas saudosas, se cuidais
    De me acabar a vida neste estado,
    No vivo com meu mal to enganado,
    Que no espere delle muito mais.
      De longo tempo ja me costumais
    A viver de algum bem desesperado:
    Ja tenho co'a Fortuna concertado
    De soffrer os tormentos que me dais.
      Atada ao remo tenho a paciencia
    Para quantos desgostos der a vida;
    Cuide quanto quizer o pensamento.
      Que pois no posso ter mais resistencia
    Para to dura quda, de subida,
    Aparar-lhe-hei debaixo o soffrimento.


LIII.

    Apartava-se Nise de Montano,
    Em cuja alma, partindo-se, ficava;
    Que o pastor na memoria a debuxava,
    Por poder sustentar-se deste engano.
      Por huma praia do Indico Oceano
    Sbre o curvo cajado se encostava,
    E os olhos por as guas alongava,
    Que pouco se doio de seu dano.
      Pois com tamanha mgoa e saudade,
    (Dizia) quiz deixar-me a que eu adoro,
    Por testimunhas tmo ceo e estrellas.
      Mas se em vs, ondas, mora piedade,
    Levai tambem as lagrimas que chro,
    Pois assi me levais a causa dellas.


LIV.

    Quando vejo que meu destino ordena
    Que, por me exprimentar, de vs me aparte,
    Deixando de meu bem to grande parte,
    Que a mesma culpa fica grave pena;
      O duro desfavor, que me condena,
    Quando por a memoria se reparte,
    Endurece os sentidos de tal arte
    Que a dor da ausencia fica mais pequena.
      Mas como pde ser que na mudana
    D'aquillo que mais quero, est to fra
    De me no apartar tambem da vida?
      Eu refrearei to aspera esquivana:
    Porque mais sentirei partir, Senhora,
    Sem sentir muito a pena da partida.


LV.

    Despois de tantos dias mal gastados,
    Despois de tantas noites mal dormidas,
    Despois de tantas lagrimas vertidas,
    Tantos suspiros vos vamente dados,
      Como no sois vs ja desenganados,
    Desejos, que de cousas esquecidas
    Quereis remediar mortaes feridas.
    Que Amor fez sem remedio, o Tempo, os Fados?
      Se no tivereis ja longa exp'riencia
    Das semrazes de Amor a quem servistes,
    Fraqueza fra em vs a resistencia.
      Mas pois por vosso mal seus males vistes,
    Que o tempo no curou, nem larga ausencia,
    Qual bem delle esperais, desejos tristes?


LVI.

    Naiades, vs que os rios habitais,
    Que os saudosos campos vo regando,
    De meus olhos vereis estar manando
    Outros que quasi aos vossos so iguais.
      Dryades, que com setta sempre andais
    Os fugitivos cervos derribando,
    Outros olhos vereis, que triumphando
    Derribo coraes, que valem mais.
      Deixai logo as aljavas e guas frias,
    E vinde, Nymphas bellas, se quereis,
    A ver como de huns olhos nascem mgoas.
      Notareis como em vo passo os dias;
    Mas em vo no vireis, porque achareis
    Nos seus as settas, e nos meus as goas.


LVII.

    Mudo-se os tempos, mudo-se as vontades,
    Muda-se o ser, muda-se a confiana:
    Todo o mundo he composto de mudana,
    Tomando sempre novas qualidades.
      Continuamente vemos novidades,
    Differentes em tudo da esperana:
    Do mal fico as mgoas na lembrana,
    E do bem (se algum houve) as saudades.
      O tempo cobre o cho de verde manto,
    Que ja coberto foi de neve fria,
    E em mi converte em chro o doce canto.
      E afora este mudar-se cada dia,
    Outra mudana faz de mor espanto,
    Que no se muda ja como sohia.


LVIII.

    Se as penas com que Amor to mal me trata
    Permittirem que eu tanto viva dellas,
    Que veja escuro o lume das estrellas,
    Em cuja vista o meu se accende e mata;
      E se o tempo, que tudo desbarata,
    Seccar as frescas rosas, sem colhellas,
    Deixando a linda cr das tranas bellas
    Mudada de ouro fino em fina prata;
      Tambem, Senhora, ento vereis mudado
    O pensamento e a aspereza vossa,
    Quando no sirva ja sua mudana.
      Ver-vos-heis suspirar por o passado,
    Em tempo quando executar-se possa
    No vosso arrepender minha vingana.


LIX.

    Quem jaz no gro sepulchro, que descreve
    To illustres signaes no forte escudo?
    Ninguem; que nisso, em fim se torna tudo:
    Mas foi quem tudo pde e tudo teve.
      Foi Rei? Fez tudo quanto a Rei se deve:
    Poz na guerra e na paz devido estudo.
    Mas quo pezado foi ao Mouro rudo,
    Tanto lhe seja agora a terra leve.
      Alexandro ser? Ninguem se engane:
    Mais que o adquirir, o sustentar estima.
    Ser Hadriano gro Senhor do mundo?
      Mais observante foi da Lei de cima.
    He Numa? Numa no, mas he Joane.
    De Portugal Terceiro sem segundo.


LX.

    Quem pde livre ser, gentil Senhora,
    Vendo-vos com juizo socegado,
    Se o menino, que de olhos he privado,
    Nas meninas dos vossos olhos mora?
      Alli manda, alli reina, alli namora,
    Alli vive das gentes venerado;
    Que o vivo lume, e o rosto delicado,
    Imagens so adonde Amor se adora.
      Quem v que em branca neve nascem rosas
    Que crespos fios de ouro vo cercando,
    Se por entre esta luz a vista passa,
      Raios de ouro ver, que as duvidosas
    Almas esto no peito traspassando,
    Assi como hum crystal o sol traspassa.


LXI.

    Como fizeste,  Porcia, tal ferida?
    Foi voluntaria, ou foi por innocencia?
    He que Amor fazer s quiz exp'riencia
    Se podia eu soffrer tirar-me a vida.
      E com teu proprio sangue te convida
    A que faas  morte resistencia?
    He que costume fao da paciencia,
    Porque o temor morrer me no impida.
      Pois porque ests comendo fogo ardente,
    Se a ferro te costumas? He que ordena
    Amor que morra, e pene juntamente.
      E t[~e]es a dor do ferro por pequena?
    Si; que a dor costumada no se sente;
    E no quero eu a morte sem a pena.


LXII.

    De to divino accento em voz humana,
    De elegancias que so to peregrinas,
    Sei bem que minhas obras no so dinas;
    Que o rudo engenho meu me desengana.
      Porm da vossa penna illustre mana
    Licor que vence as guas Caballinas;
    E comvosco do Tejo as flores finas
    Faro inveja  cpia Mantuana.
      E pois, a vs de si no sendo avaras,
    As filhas de Mnemosine formosa
    Partes dadas vos t[~e]e ao mundo claras;
      A minha Musa, e a vossa to famosa,
    Ambas se podem nelle chamar raras,
    A vossa de alta, a minha de invejosa.


LXIII.

    Debaixo desta pedra est metido,
    Das sanguinosas armas descansado,
    O Capito illustre e assinalado
    Dom Fernando de Castro esclarecido.
      Este por todo o Oriente to temido,
    Este da propria inveja to cantado,
    Este, em fim, raio de Mavorte irado,
    Aqui est agora em terra convertido.
      Alegra-te,  guerreira Lusitania,
    Por est'outro Viriato que criaste,
    E chora a perda sua eternamente.
      Exemplo toma nisto de Dardania;
    Que se a Roma com elle anniquilaste,
    Nem por isso Carthago est contente.


LXIV.

    Que venais no Oriente tantos Reis,
    Que de novo nos deis da India o Estado,
    Que escureais a fama que ho ganhado
    Aquelles, que a ganhro de infieis;
      Que vencidas tenhais da morte as leis,
    E que vencesseis tudo, em fim, armado,
    Mais he vencer na patria, desarmado,
    Os monstros e as Chimeras que venceis.
      Sbre vencerdes, pois, tanto inimigo,
    E por armas fazer que sem segundo
    No mundo o vosso nome ouvido seja;
      O que vos d mais fama inda no mundo,
    He vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
    Tantas ingratides, to grande inveja.


LXV.

    Vossos olhos, Senhora, que competem
    Com o sol em belleza e claridade,
    Enchem os meus de tal suavidade,
    Que em lagrimas de v-los se derretem.
      Meus sentidos prostrados se submetem
    Assi cegos a tanta magestade;
    E da triste priso, da escuridade,
    Cheios de medo, por fugir, remetem.
      Porm se ento me vdes por acrto,
    Esse aspero desprzo com que olhais
    Me torna a animar a alma enfraquecida.
      Oh gentil cura! Oh estranho desconcrto!
    Que dareis co'hum favor que vs no dais,
    Quando com hum desprzo me dais vida?


LXVI.

    Formosura do Ceo a ns descida,
    Que nenhum corao deixas isento,
    Satisfazendo a todo pensamento,
    Sem que sejas de algum bem entendida;
      Qual lingoa pde haver to atrevida,
    Que tenha de louvar-te atrevimento,
    Pois a parte melhor do entendimento,
    No menos que em ti ha se v perdida?
      Se em teu valor contemplo a menor parte,
    Vendo que abre na terra hum paraiso,
    Logo o engenho me falta, o esprito mngoa.
      Mas o que mais me impede inda louvar-te,
    He que quando te vejo perco a lingoa,
    E quando no te vejo perco o siso.


LXVII.

    Pois meus olhos no canso de chorar
    Tristezas no cansadas de cansar-me;
    Pois no se abranda o fogo em que abrazar-me
    Pde quem eu jamais pude abrandar;
      No canse o cego Amor de me guiar
    Onde nunca de l possa tornar-me;
    Nem deixe o mundo todo de escutar-me,
    Em quanto a fraca voz me no deixar.
      E se em montes, se em prados, e se em valles
    Piedade mora alguma, algum amor
    Em feras, plantas, aves, pedras, agoas;
      Ouo a longa historia de meus males,
    E curem sua dor com minha dor;
    Que grandes mgoas podem curar mgoas.


LXVIII.

    Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vos,
    Porque a guarde sobpena de enojar-vos;
    Pois a f que me obriga a tanto amar-vos
    Fara que fique em lei de obedecer-vos.
      Tudo me defendei, seno s ver-vos
    E dentro na minha alma contemplar-vos;
    Que se assi no chegar a contentar-vos,
    Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos.
      E se essa condio cruel e esquiva
    Que me deis lei de vida no consente,
    Dai-ma, Senhora, ja, seja de morte.
      Se nem essa me dais, he bem que viva,
    Sem saber como vivo, tristemente;
    Mas contente estarei com minha sorte.


LXIX.

    Ferido sem ter cura perecia
    O forte e duro Tlepho temido
    Por aquelle que na agua foi metido,
    E a quem ferro nenhum cortar podia.
      Quando a Apollineo Oraculo pedia
    Conselho para ser restituido,
    Respondeo-lhe, tornasse a ser ferido
    Por quem o ja ferira, e sararia.
      Assi, Senhora, quer minha ventura;
    Que ferido de ver-vos claramente,
    Com tornar-vos a ver Amor me cura.
      Mas he to doce vossa formosura,
    Que fico como o hydropico doente,
    Que bebendo lhe cresce mr seccura.


LXX.

    Na metade do ceo subido ardia
    O claro, almo Pastor, quando deixavo
    O verde pasto as cabras, e buscavo
    A frescura suave da agua fria.
      Com a folha das rvores, sombria,
    Do raio ardente as aves se amparavo:
    O mdulo cantar, de que cessavo,
    S nas roucas cigarras se sentia.
      Quando Liso pastor n'hum campo verde
    Natercia, crua Nympha, s buscava
    Com mil suspiros tristes que derrama.
      Porque te vs de quem por ti se perde,
    Para quem pouco te ama? (suspirava)
    E o eco lhe responde: Pouco te ama.


LXXI.

    Ja a roxa e branca Aurora destoucava
    Os seus cabellos de ouro delicados,
    E das flores os campos esmaltados
    Com crystallino orvalho borrifava;
      Quando o formoso gado se espalhava
    De Sylvio e de Laurente por os prados;
    Pastores ambos, e ambos apartados,
    De quem o mesmo amor no se apartava.
      Com verdadeiras lagrimas Laurente,
    No sei, (dizia)  Nympha delicada,
    Porque no morre ja quem vive ausente;
      Pois a vida sem ti no presta nada.
    Responde Sylvio: Amor no o consente:
    Que offende as esperanas da tornada.


LXXII.

    Quando de minhas mgoas a comprida
    Maginao os olhos me adormece,
    Em sonhos aquella alma me apparece,
    Que para mi foi sonho nesta vida.
      L n'huma soidade, onde estendida
    A vista por o campo desfallece,
    Corro apoz ella; e ella ento parece
    Que mais de mi se alonga, compellida.
      Brado: No me fujais, sombra benina.
    Ella (os olhos em mi co'hum brando pejo,
    Como quem diz, que ja no pde ser)
      Torna a fugir-me: torno a bradar: _Dina_...
    E antes que diga _mene_, acrdo, e vejo
    Que nem hum breve engano posso ter.


LXXIII.

    Suspiros inflammados que cantais
    A tristeza com que eu vivi to ledo,
    Eu morro e no vos levo, porque hei medo
    Que ao passar do Letheio vos percais.
      Escriptos para sempre ja ficais
    Onde vos mostraro todos co'o dedo,
    Como exemplo de males; e eu concedo
    Que para aviso de outros estejais.
      Em quem, pois, virdes largas esperanas
    De Amor e da Fortuna, (cujos danos
    Alguns tero por bem-aventuranas)
      Dizei-lhe, que os servistes muitos anos,
    E que em Fortuna tudo so mudanas,
    E que em Amor no ha seno enganos.


LXXIV.

    Aquella fera humana que enriquece
    A sua presunosa tyrannia
    Destas minhas entranhas, onde cria
    Amor hum mal, que falta quando crece;
      Se nella o Ceo mostrou (como parece)
    Quanto mostrar ao mundo pretendia,
    Porque de minha vida se injuria?
    Porque de minha morte se ennobrece?
      Ora, em fim, sublimai vossa victoria,
    Senhora, com vencer-me e captivar-me:
    Fazei della no mundo larga historia.
      Pois, por mais que vos veja atormentar-me,
    Ja me fico logrando desta gloria
    De ver que tendes tanta de matar-me.


LXXV.

    Ditoso seja aquelle que somente
    Se queixa de amorosas esquivanas;
    Pois por ellas no perde as esperanas
    De poder n'algum tempo ser contente.
      Ditoso seja quem estando ausente
    No sente mais que a pena das lembranas;
    Porqu'inda que se tema de mudanas,
    Menos se teme a dor quando se sente.
      Ditoso seja, em fim, qualquer estado,
    Onde enganos, desprezos e iseno
    Trazem hum corao atormentado.
      Mas triste quem se sente magoado
    De erros em que no pde haver perdo
    Sem ficar na alma a mgoa do peccado.


LXXVI.

    Quem fosse acompanhando juntamente
    Por esses verdes campos a avezinha,
    Que despois de perder hum bem que tinha,
    No sabe mais que cousa he ser contente!
      E quem fosse apartando-se da gente.
    Ella por companheira e por vizinha,
    Me ajudasse a chorar a pena minha,
    E eu a ella tambem a que ella sente!
      Ditosa ave! que ao menos, se a natura
    A seu primeiro bem no d segundo,
    D-lhe o ser triste a seu contentamento.
      Mas triste quem de longe quiz ventura
    Que para respirar lhe falte o vento,
    E para tudo, em fim, lhe falte o mundo!


LXXVII.

    O culto divinal se celebrava
    No templo donde toda criatura
    Louva o Feitor divino, que a feitura
    Com seu sagrado sangue restaurava.
      Amor alli, que o tempo me aguardava
    Onde a vontade tinha mais segura,
    Com huma rara e angelica figura
    A vista da razo me salteava.
      Eu crendo que o lugar me defendia
    De seu livre costume, no sabendo
    Que nenhum confiado lhe fugia;
      Deixei-me captivar: mas hoje vendo,
    Senhora, que por vosso me queria,
    Do tempo que fui livre me arrependo.


LXXVIII.

    Leda serenidade deleitosa,
    Que representa em terra hum paraiso;
    Entre rubis e perlas doce riso,
    Debaixo de ouro e neve cr de rosa;
      Presena moderada e graciosa,
    Onde ensinando esto despejo e siso
    Que se pde por arte e por aviso,
    Como por natureza, ser formosa;
      Falla de que ou ja vida, ou morte pende.
    Rara e suave, em fim, Senhora, vossa,
    Repouso na alegria comedido;
      Estas as armas so com que me rende
    E me captiva Amor; mas no que possa
    Despojar-me da gloria de rendido.


LXXIX.

    Bem sei, Amor, que he certo o que receio;
    Mas tu, porque com isso mais te apuras,
    De manhoso mo negas, e mo juras
    Nesse teu arco de ouro; e eu te creio.
      A mo tenho metida no meu seio,
    E no vejo os meus damnos s escuras:
    Porm porfias tanto e me asseguras,
    Que me digo que minto, e que me enleio.
      Nem somente consinto neste engano,
    Mas inda to agradeo, e a mi me nego
    Tudo o que vejo e sinto de meu dano.
      Oh poderoso mal a que me entrego!
    Que no meio do justo desengano
    Me possa inda cegar hum moo cego?


LXXX.

    Como quando do mar tempestuoso
    O marinheiro todo trabalhado,
    De hum naufragio cruel sahindo a nado,
    S de ouvir fallar nelle est medroso:
      Firme jura que o v-lo bonanoso
    Do seu lar o no tire socegado;
    Mas esquecido ja do horror passado,
    Delle a fiar se torna cobioso:
      Assi, Senhora, eu que da tormenta
    De vossa vista fujo, por salvar-me,
    Jurando de no mais em outra ver-me;
      Com a alma que de vs nunca se ausenta,
    Me trno, por cobia de ganhar-me,
    Onde estive to perto de perder-me.


LXXXI.

    Amor he hum fogo que arde sem se ver;
    He ferida que doe e no se sente;
    He hum contentamento descontente;
    He dor que desatina sem doer;
      He hum no querer mais que bem querer;
    He solitario andar por entre a gente;
    He hum no contentar-se de contente;
    He cuidar que se ganha em se perder;
      He hum estar-se preso por vontade;
    He servir a quem vence o vencedor;
    He hum ter com quem nos mata lealdade.
      Mas como causar pde o seu favor
    Nos mortaes coraes conformidade,
    Sendo a si to contrrio o mesmo Amor?


LXXXII.

    Se pena por amar-vos se merece,
    Quem della estar livre? quem isento?
    E que alma, que razo, que entendimento
    No instante em que vos v no obedece?
      Qual mor gloria na vida ja se offrece,
    Que a de occupar-se em vs o pensamento?
    No s todo rigor, todo tormento
    Com ver-vos no maga, mas se esquece.
      Porm se heis de matar a quem amando,
    Ser vosso de amor tanto s pretende,
    O mundo matareis, que todo he vosso.
      Em mi podeis, Senhora, ir comeando,
    Pois bem claro se mostra e bem se entende
    Amar-vos quanto devo e quanto posso.


LXXXIII.

    Que levas, cruel Morte? Hum claro dia.
    A que horas o tomaste? Amanhecendo.
    E entendes o que levas? No o entendo.
    Pois quem to faz levar? Quem o entendia.
      Seu corpo quem o goza? A terra fria.
    Como ficou sua luz? Anoitecendo.
    Lusitania que diz? Fica dizendo...
    Que diz? No mereci a gr Maria.
      Mataste a quem a vio? Ja morto estava.
    Que discorre o Amor? Fallar no ousa.
    E quem o faz callar? Minha vontade.
      Na Corte que ficou? Saudade brava.
    Que fica l que ver? Nenhuma cousa.
    Que gloria lhe faltou? Esta beldade.


LXXXIV.

    Ondados fios de ouro reluzente,
    Que agora da mo bella recolhidos,
    Agora sbre as rosas esparzidos
    Fazeis que a sua graa se accrescente;
      Olhos, que vos moveis to docemente,
    Em mil divinos raios incendidos,
    Se de c me levais a alma e sentidos,
    Que fra, se eu de vs no fra ausente?
      Honesto riso, que entre a mr fineza
    De perlas e coraes nasce e apparece;
    Oh quem seus doces ecos ja lhe ouvisse!
      Se imaginando s tanta belleza,
    De si com nova gloria a alma se esquece,
    Que ser quando a vir? Ah quem a visse!


LXXXV.

    Foi ja n'hum tempo doce cousa amar,
    Em quanto me enganou huma esperana:
    O corao com esta confiana
    Todo se desfazia em desejar.
      Oh vo, caduco e debil esperar!
    Como, em fim, desengana huma mudana!
    Que quanto he mor a bem-aventurana,
    Tanto menos se cr que ha de durar.
      Quem ja se vio com gostos prosperado,
    Vendo-se brevemente em pena tanta,
    Razo t[~e]e de viver bem magoado.
      Mas quem ja t[~e]e o mundo exprimentado,
    No o maga a pena, nem o espanta;
    Que mal se estranhra o costumado.


LXXXVI.

    Dos antigos Illustres, que deixro
    Hum nome digno de immortal memoria,
    Ficou por luz do tempo a larga historia
    Dos feitos em que mais se avantajro.
      Se com suas aces se cotejro
    Mil vossas, cada huma to notoria,
    Vencra a menor dellas a mor gloria
    Que elles em tantos annos alcanro.
      A gloria sua foi: ninguem lha tome:
    Seguindo cada qual varios caminhos
    Estatuas mereceo no heroico Templo.
      Vs honra Portugueza e dos Coutinhos,
    Clarissimo Dom Joo, com melhor nome
    A vs encheis de gloria, a ns de exemplo.


LXXXVII.

    Conversao domstica affeioa,
    Ora em frma de limpa e sa vontade,
    Ora de huma amorosa piedade,
    Sem olhar qualidade de pessoa.
      Se despois, por ventura, vos maga
    Com desamor e pouca lealdade,
    Logo vos faz mentira da verdade
    O brando Amor, que tudo, em fim, perdoa,
      No so isto que fallo conjecturas
    Que o pensamento julga na apparencia,
    Por fazer delicadas escripturas.
      Metida tenho a mo na consciencia,
    E no fallo seno verdades puras
    Que me ensinou a viva experiencia.


LXXXVIII.

    Esfro grande, igual ao pensamento,
    Pensamentos em obras divulgados,
    E no em peito timido encerrados,
    E desfeitos despois em chuva e vento;
      nimo da cobia baixa isento,
    Digno por isto s de altos estados,
    Fero aoute dos nunca bem domados
    Povos do Malabar sanguinolento;
      Gentileza de membros corporaes
    Ornados de pudica continencia,
    Obra por certo da celeste altura:
      Estas virtudes raras e outras mais,
    Dignas todas da Homerica eloquencia,
    Jazem debaixo desta sepultura.


LXXXIX.

    No mundo quiz o Tempo que se achasse
    O bem que por acrto, ou sorte vinha;
    E por exprimentar que dita tinha,
    Quiz que a Fortuna em mi se exprimentasse.
      Mas porque o meu destino me mostrasse
    Que nem ter esperanas me convinha,
    Nunca nesta to longa vida minha
    Cousa me deixou ver que desejasse.
      Mudando andei costume, terra, estado,
    Por ver se se mudava a sorte dura;
    A vida puz nas mos de hum leve lenho.
      Mas, segundo o que o Ceo me t[~e]e mostrado,
    Ja sei que deste meu buscar ventura
    Achado tenho ja que no a tenho.


XC.

    A perfeio, a graa, o doce geito,
    A Primavera cheia de frescura,
    Que sempre em vs florece; a que a ventura,
    E a razo entregro este peito;
      Aquelle crystallino e puro aspeito,
    Que em si comprehende toda a formosura;
    O resplandor dos olhos e a brandura,
    Donde Amor a ninguem quiz ter respeito;
      S'isto que em vs se v, ver desejais,
    Como digno de ver-se claramente,
    Por muito que de Amor vos isentais;
      Traduzido o vereis to fielmente
    No meio deste espirito onde estais,
    Que vendo-vos sintais o que elle sente.


XCI.

    Vs, que de olhos suaves e serenos,
    Com justa causa a vida captivais,
    E que os outros cuidados condemnais
    Por indevidos, baixos e pequenos;
      Se de Amor os domesticos venenos
    Nunca provastes, quero que sintais
    Que he tanto mais o amor despois que amais,
    Quanto so mais as causas de ser menos.
      E no presuma alguem que algum defeito,
    Quando na cousa amada se apresenta,
    Possa diminuir o amor perfeito:
      Antes o dobra mais; e se atormenta,
    Pouco a pouco desculpa o brando peito;
    Que Amor com seus contrarios se accrescenta.


XCII.

    Que poderei do mundo ja querer,
    Pois no mesmo em que puz tamanho amor,
    No vi seno desgsto e desfavor,
    E morte, em fim; que mais no pde ser?
      Pois me no farta a vida de viver,
    Pois ja sei que no mata grande dor,
    Se houver cousa que mgoa d maior,
    Eu a verei; que tudo posso ver.
      A Morte, a meu pezar, me assegurou
    De quanto mal me vinha: ja perdi
    O que a perder o medo me ensinou.
      Na vida desamor somente vi,
    Na morte a grande dor que me ficou:
    Parece que para isto s nasci.


XCIII.

    Pensamentos, que agora novamente
    Cuidados vos em mi resuscitais,
    Dizei-me: E ainda no vos contentais
    De ter a quem vos t[~e]e to descontente?
      Que phantasia he esta, que presente
    Cad'hora ante os meus olhos me mostrais?
    Com huns sonhos to vos inda tentais
    Quem nem por sonhos pde ser contente?
      Vejo-vos, pensamentos, alterados,
    E no quereis, de esquivos, declarar-me
    Que he isto que vos traz to enleados?
      No mo negueis, se andais para negar-me;
    Porque se contra mi 'stais levantados,
    Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.


XCIV.

    Se tomo a minha pena em penitencia
    Do error em que cahio o pensamento,
    No abrando, mas dbro meu tormento,
    Que a tanto, e mais, obriga a paciencia.
      E se huma cr de morto na apparencia,
    Hum espalhar suspiros vos ao vento
    No faz em vs, Senhora, movimento,
    Fique o meu mal em vossa consciencia.
      Mas se de qualquer aspera mudana
    Toda vontade isenta Amor castiga,
    (Como eu vejo no mal que me condena)
      E se em vs no se entende haver vingana,
    Ser forado (pois Amor me obriga)
    Que eu s da culpa vossa pague a pena.


XCV.

    Aquella que, de pura castidade,
    De si mesma tomou cruel vingana
    Por huma breve e subita mudana
    Contrria  sua honra e qualidade;
      Venceo  formosura a honestidade,
    Venceo no fim da vida a esperana,
    Porque ficasse viva tal lembrana,
    Tal amor, tanta f, tanta verdade.
      De si, da gente e do mundo esquecida,
    Ferio com duro ferro o brando peito,
    Banhando em sangue a fra do tyrano.
      Oh ousadia estranha! estranho feito!
    Que dando breve morte ao corpo humano,
    Tenha sua memoria larga vida!


XCVI.

    Os vestidos Elisa revolvia,
    Que Eneas lhe deixra por memoria;
    Doces despojos da passada gloria;
    Doces quando seu fado o consentia.
      Entre elles a formosa espada via,
    Que instrumento, em fim, foi da triste historia;
    E como quem de si tinha a victoria,
    Fallando s com ella, assi dizia:
      Formosa e nova espada, se ficaste
    S porque executasses os enganos
    De quem te quiz deixar, em minha vida;
      Sabe que tu comigo te enganaste;
    Que para me tirar de tantos danos
    Sobeja-me a tristeza da partida.


XCVII.

    Oh quo caro me custa o entender-te,
    Molesto Amor que, s por alcanar-te,
    De dor em dor me tens trazido a parte
    Donde em ti odio e ra se converte!
      Cuidei que para em tudo conhecer-te
    Me no faltava experiencia e arte;
    Mas na alma vejo agora accrescentar-te
    Aquillo que era causa de perder-te.
      Estavas to secreto no meu peito,
    Que eu mesmo, que te tinha, no sabia
    Que me senhoreavas deste geito.
      Descubriste-te agora; e foi por via
    Que teu descobrimento e meu defeito,
    Hum me envergonha e outro me injuria.


XCVIII.

    Se despois de esperana to perdida,
    Amor por causa alguma consentisse
    Que inda algum'hora breve alegre visse
    De quantas tristes vio to longa vida;
      Hum'alma ja to fraca e to cahida
    (Quando a sorte mais alto me subisse)
    No tenho para mi que consentisse
    Alegria to tarde consentida.
      Nem tamsomente o Amor me no mostrou
    Hum'hora em que vivesse alegremente,
    De quantas nesta vida me negou;
      Mas inda tanta pena me consente,
    Que co'o contentamento me tirou
    O gsto de algum'hora ser contente.


XCIX.

    O raio crystallino se estendia
    Por o mundo da Aurora marchetada,
    Quando Nise, pastora delicada,
    Donde a vida deixava se partia.
      Dos olhos, com que o sol escurecia,
    Levando a luz em lagrimas banhada,
    De si, do fado, e tempo magoada,
    Pondo os olhos no Ceo, assi dizia:
      Nasce, sereno sol, puro e luzente;
    Resplandece, purpurea e branca aurora,
    Qualquer alma alegrando descontente;
      Que a minha, sabe tu que desde agora
    Jamais na vida a podes ver contente,
    Nem to triste nenhuma outra pastora.


C.

    No mundo poucos annos e cansados
    Vivi, cheios de vil miseria e dura:
    Foi-me to cedo a luz do dia escura,
    Que no vi cinco lustros acabados.
      Corri terras e mares apartados,
    Buscando  vida algum remedio ou cura:
    Mas aquillo que, em fim, no d ventura
    No o do os trabalhos arriscados.
      Criou-me Portugal na verde e chara
    Patria minha Alemquer; mas ar corruto,
    Que neste meu terreno vaso tinha,
      Me fez manjar de peixes em ti, bruto
    Mar, que bates a Abssia fera e avara,
    To longe da ditosa patria minha.


CI.

    Vs, que escuitais em Rimas derramado
    Dos suspiros o som que me alentava
    Na juvenil idade, quando andava
    Em outro em parte do que sou mudado;
      Sabei que busca s do ja cantado
    No tempo em que ou temia ou esperava,
    De quem o mal provou, que eu tanto amava,
    Piedade, e no perdo, o meu cuidado.
      Pois vejo que tamanho sentimento
    S me rendeo ser fbula da gente,
    (Do que comigo mesmo me envergonho)
      Sirva de exemplo claro meu tormento,
    Com que todos conheo claramente
    Que quanto ao mundo apraz he breve sonho.


CII.

    De amor escrevo, de amor trato e vivo;
    De amor me nasce amar sem ser amado;
    De tudo se descuida o meu cuidado,
    Quanto no seja ser de amor captivo:
      De amor que a lugar alto voe altivo,
    E funde a gloria sua em ser ousado;
    Que se veja melhor purificado
    No immenso resplandor de hum raio esquivo.
      Mas ai que tanto amor s pena alcana!
    Mais constante ella, e elle mais constante,
    De seu triumpho cada qual s trata.
      Nada, em fim, me aproveita; que a esperana,
    Se anima alguma vez a hum triste amante,
    Ao perto vivifica, ao longe mata.


CIII.

    Se da clebre Laura a formosura
    Hum numeroso cysne ufano escreve,
    Huma angelica penna se te deve,
    Pois o Ceo em formar-te mais se apura.
      E se voz menos alta te procura
    Celebrar, (oh Natercia!) em vo se atreve:
    De ver-te ja a ventura Liso teve,
    Mas de cantar-te falta-lhe a ventura.
      No ceo nasceste, certo, e no na terra:
    Para gloria do mundo c desceste:
    Quem mais isto negar, muito mais erra.
      E eu imagino que de l vieste
    Para emendar os vicios que elle encerra,
    Co'os divinos poderes que trouxeste.


CIV.

    Esses cabellos louros e escolhidos,
    Que o ser ao aureo sol esto tirando;
    Esse ar immenso, adonde naufragando
    Esto continuamente os meus sentidos;
      Esses furtados olhos to fingidos
    Que minha vida e morte esto causando;
    Essa divina graa, que em fallando
    Finge os meus pensamentos no ser cridos;
      Esse compasso certo, essa medida
    Que faz dobrar no corpo a gentileza;
    A divindade em terra, to subida;
      Mostrem ja piedade, e no crueza,
    Que so laos que Amor tece na vida,
    Sendo em mi sofrimento, em vs dureza.


CV.

    Quem pudra julgar de vs, Senhora,
    Que huma tal f pudesse assi perder-vos?
    Se por amar-vos chego a aborrecer-vos,
    Deixar no posso o amar-vos algum'hora.
      Deixais a quem vos ama, ou vos adora,
    Por ver a quem qui no sabe ver-vos?
    Mas eu sou quem no soube merecer-vos,
    E esta minha ignorancia entendo agora.
      Nunca soube entender vossa vontade,
    Nem a minha mostrar-vos verdadeira,
    Indaque clara estava esta verdade.
      Esta, em quanto eu viver, vereis inteira;
    E se em vo meu querer vos persuade,
    Mais vosso no querer faz que vos queira.


CVI.

    Quem, Senhora, presume de louvar-vos
    Com discurso que baixe de divino,
    De tanto maior pena ser dino,
    Quanto vs sois maior ao contemplar-vos.
      No aspire algum canto a celebrar-vos,
    Por mais que seja raro, ou peregrino;
    Pois de vossa belleza eu imagino
    Que s comvosco o Ceo quiz comparar-vos.
      Ditosa esta alma vossa, a que quizestes
    Pr em posse de prenda to subida,
    Qual esta que benigna, em fim, me dstes.
      Sempre ser anteposta  mesma vida:
    Esta estimar em menos me fizestes,
    Se antes que ess'outra a quero ver perdida.


CVII.

    Moradoras gentis e delicadas
    Do claro e aureo Tejo, que metidas
    Estais em suas grutas escondidas,
    E com doce repouso socegadas;
      Agora esteis de amores inflammadas,
    Nos crystallinos paos entretidas;
    Agora no exercicio embevecidas
    Das tlas de ouro puro matizadas;
      Movei dos lindos rostos a luz pura
    De vossos olhos bellos, consentindo
    Que lagrimas derramem de tristura.
      E assi com dor mais propria ireis ouvindo
    As queixas que derramo da Ventura,
    Que com penas de Amor me vai seguindo.


CVIII.

    Brandas guas do Tejo que, passando
    Por estes verdes campos que regais,
    Plantas, hervas, e flores, e animais,
    Pastores, Nymphas, ides alegrando;
      No sei, (ah doces guas!) no sei quando
    Vos tornarei a ver; que mgoas tais,
    Vendo como vos deixo, me causais,
    Que de tornar ja vou desconfiando.
      Ordenou o destino, desejoso
    De converter meus gostos em pezares,
    Partida que me vai custando tanto.
      Saudoso de vs, delle queixoso,
    Encherei de suspiros outros ares,
    Turbarei outras guas com meu pranto.


CIX.

    Novos casos de Amor, novos enganos,
    Envoltos em lisonjas conhecidas;
    Do bem promessas falsas e escondidas,
    Onde do mal se cumprem grandes danos;
      Como no tomais ja por desenganos
    Tantos ais, tantas lagrimas perdidas,
    Pois que a vida no basta, nem mil vidas,
    A tantos dias tristes, tantos anos?
      Hum novo corao mister havia,
    Com outros olhos menos aggravados,
    Para tornar a crer o que eu vos cria.
      Andais comigo, enganos, enganados;
    E se o quizerdes ver, cuidai hum dia
    O que se diz dos bem acutilados.


CX.

    Onde porei meus olhos que no veja
    A causa de que nasce o meu tormento?
    A qual parte me irei co'o pensamento,
    Que para descansar parte me seja?
      Ja sei como se engana quem deseja
    Em vo amor fiel contentamento;
    E que nos gostos seus, que so de vento,
    Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.
      Mas inda, sbre o claro desengano,
    Assi me traz esta alma sobjugada,
    Que delle est pendendo o meu desejo.
      E vou de dia em dia, de anno em ano,
    Apoz hum no sei que, apoz hum nada,
    Que quanto mais me chego, menos vejo.


CXI.

    Ja do Mondego as guas apparecem
    A meus olhos, no meus, antes alheios,
    Que de outras differentes vindo cheios,
    Na sua branda vista inda mais crecem.
      Parece que tambem foradas decem,
    Segundo se detem em seus rodeios.
    Triste! por quantos modos, quantos meios,
    As minhas saudades me entristecem!
      Vida de tantos males salteada,
    Amor a pe em termos, que duvida
    De conseguir o fim desta jornada.
      Antes se d de todo por perdida,
    Vendo que no vai da alma acompanhada,
    Que se deixou ficar onde t[~e]e vida.


CXII.

    Que doudo pensamento he o que sigo?
    Apos que vo cuidado vou correndo?
    Sem ventura de mi! que no me entendo;
    Nem o que callo sei, nem o que digo.
      Pelejo com quem trata paz comigo;
    De quem guerra me faz no me defendo.
    De falsas esperanas que pertendo?
    Quem do meu proprio mal me faz amigo?
      Porque, se nasci livre, me captivo?
    E pois o quero ser, porque o no quero?
    Como me engano mais com desenganos?
      Se ja desesperei, que mais espero?
    E se inda espero mais, porque no vivo?
    E se vivo, que accuso mortaes danos?


CXIII.

    Hum firme corao posto em ventura;
    Hum desejar honesto, que se engeite
    De vossa condio, sem que respeite
    A meu to puro amor, a f to pura;
      Hum ver-vos de piedade e de brandura
    Sempre inimiga, faz-me que suspeite
    Se alguma Hyrcana fera vos deo leite,
    Ou se nascestes de huma pedra dura.
      Ando buscando causa, que desculpe
    Crueza to estranha; porm quanto
    Nisso trabalho mais, mais mal me trata.
      Donde vem, que no ha quem nos no culpe;
    A vs, porque matais quem vos quer tanto,
    A mim, por querer tanto a quem me mata.


CXIV.

    Ar, que de meus suspiros vejo cheio;
    Terra, cansada ja com meu tormento;
    Agua, que com mil lagrimas sustento;
    Fogo, que mais accendo no meu seio;
      Em paz estais em mim; e assi o creio,
    Sem esse ser o vosso proprio intento;
    Pois em dor onde falta o soffrimento,
    A vida se sostem por vosso meio.
      Ai imiga Fortuna! ai vingativo
    Amor! a que discursos por vs venho,
    Sem nunca vos mover com minha mgoa!
      Se me quereis matar, para que vivo?
    E como vivo, se contrarios tenho
    Fogo, Fortuna, Amor, Ar, Terra e Agoa?


CXV.

    Ja claro vejo bem, ja bem conheo
    Quanto augmentando vou o meu tormento;
    Pois sei que fundo em gua, escrevo em vento,
    E que o cordeiro manso ao lobo peo;
      Que Arachne sou, pois ja com Pallas teo;
    Que a tigres em meus males me lamento;
    Que reduzir o mar a hum vaso intento,
    Aspirando a esse ceo que no mereo.
      Quero achar paz em hum confuso inferno;
    Na noite do sol puro a claridade;
    E o suave vero no duro inverno.
      Busco em luzente Olympo escuridade,
    E o desejado bem no mal eterno,
    Buscando amor em vossa crueldade.


CXVI.

    De c, donde somente o imaginar-vos
    A rigorosa ausencia me consente,
    Sbre as azas de Amor, ousadamente
    O mal soffrido esprito vai buscar-vos.
      E se no recera de abrazar-vos
    Nas chammas que por vossa causa sente,
    L ficra comvosco e, vs presente,
    Aprendra de vs a contentar-vos.
      Mas, pois que estar ausente lhe he forado,
    Por senhora, de c, vos reconhece,
    Aos ps de imagens vossas inclinado.
      E pois vdes a f que vos offrece,
    Ponde os olhos, de l, no seu cuidado,
    E dar-lhe-heis inda mais do que merece.


CXVII.

    No ha louvor que arribe  menor parte
    De quanto em vs se v, bella Senhora:
    Vs sois vosso louvor: quem vos adora
    Reduz somente a este o engenho e arte.
      Quanto por muitas damas se reparte
    De bello e de formoso, em vs agora
    Se junta em modo tal, que pouco fra
    Dizer que sois o todo, ellas a parte.
      Culpa, logo, no he, se vou louvar-vos,
    Ver incapazes todos os louvores,
    Pois tanto quiz o Ceo avantajar-vos.
      Seja a culpa de vossos resplandores;
    E a que elles t[~e]e vos dou, s para dar-vos
    O mor louvor de todos os maiores.


CXVIII.

    No vs ao monte, Nise, com teu gado;
    Que l vi que Cupido te buscava:
    Por ti somente a todos perguntava,
    No gesto menos placido que irado.
      Elle publca, em fim, que lhe has roubado
    Os melhores farpes da sua aljava;
    E com hum dardo ardente assegurava
    Traspassar esse peito delicado.
      Fuge de ver-te l nesta aventura,
    Porque se contra ti o tens iroso,
    Pde ser que te alcance com mo dura.
      Mas ai! que em vo te advirto temeroso,
    Se  tua incomparavel formosura
    Se rende o dardo seu mais poderoso!


CXIX.

    A violeta mais bella que amanhece
    No valle por esmalte da verdura,
    Com seu pallido lustre e formosura,
    Por mais bella, Violante, te obedece.
      Perguntas-me porque? Porque apparece
    Em ti seu nome, e sua cr mais pura;
    E estudar em teu rosto s procura
    Tudo quanto em beldade mais florece.
      Oh luminosa flor! Oh sol mais claro!
    Unico roubador de meu sentido,
    No permittas que Amor me seja avaro.
      Oh penetrante setta de Cupido!
    Que queres? Que te pea por reparo
    Ser neste valle Eneas desta Dido?


CXX.

    Tornae essa brancura  alva assucena,
    E essa purpurea cr s puras rosas;
    Tornae ao sol as chammas luminosas
    De essa vista que a roubos vos condena.
      Tornae  suavissima sirena
    D'essa voz as cadencias deleitosas:
    Tornae a graa s Graas, que queixosas
    Esto de a ter por vs menos serena:
      Tornae  bella Venus a belleza;
    A Minerva o saber, o engenho, e a arte;
    E a pureza  castissima Diana.
      Despojae-vos de toda essa grandeza
    De des; e ficareis em toda parte
    Comvosco s, que he s ser inhumana.


CXXI.

    De mil suspeitas vas se me levanto
    Trabalhos e desgostos verdadeiros.
    Ai que estes bens de Amor so feiticeiros,
    Que com hum no sei que toda alma encanto!
      Como seras docemente canto
    Para enganar os tristes marinheiros:
    Os meus assi me attrahem lisongeiros,
    E despois com horrores mil me espanto.
      Quando cuido que tomo porto ou terra,
    Tal vento se levanta em hum instante,
    Que subito da vida desconfio.
      Mas eu sou quem me faz a maior guerra,
    Pois conhecendo os riscos de hum amante
    Fiado a ondas de Amor, dellas me fio.


CXXII.

    Mil vezes determino no vos ver,
    Por ver se abranda mais o meu penar:
    E se cuido de assi me magoar,
    Cuidai o que ser, se houver de ser.
      Pouco me importa ja muito soffrer,
    Despois que Amor me poz em tal lugar;
    E o que inda me doe mais he s cuidar,
    Que mal sem esta dor posso viver.
      Assi no busco eu cura contra a dor,
    Porque, buscando alguma, entendo bem
    Que nesse mesmo ponto me perdi.
      Quereis que viva, em fim, neste rigor?
    Somente o querer vosso me convem.
    Assi quereis que seja? Seja assi.


CXXIII.

    A chaga que, Senhora, me fizestes,
    No foi para curar-se em hum s dia;
    Porque crescendo vai com tal porfia,
    Que bem descobre o intento que tivestes.
      De causar tanta dor vos no doestes?
    Mas a doer-vos, dor me no sera,
    Pois ja com esperana me veria
    Do que vs que em mi visse no quizestes.
      Os olhos com que todo me roubastes
    Foro causa do mal que vou passando;
    E vs estais fingindo o no causastes.
      Mas eu me vingarei. E sabeis quando?
    Quando vos vir queixar porque deixastes
    Ir-se a minha alma nelles abrazando.


CXXIV.

    Se com desprezos, Nympha, te parece
    Que podes desviar do seu cuidado
    Hum corao constante, que se offrece
    A ter por gloria o ser atormentado.
      Deixa a tua porfia, e reconhece
    Que mal sabes de amor desenganado;
    Pois no sentes, nem vs que em teu mal crece,
    Crescendo em mi de ti mais desamado.
      O esquivo desamor, com que me tratas,
    Converte em piedade, se no queres
    Que cresa o meu querer, e o teu desgosto.
      Vencer-me com cruezas nunca esperes:
    Bem me podes matar, e bem me matas;
    Mas sempre ha de viver meu presupposto.


CXXV.

    Senhora minha, se eu de vs ausente
    Me defendra de hum penar severo,
    Suspeito que offendra o que vos quero,
    Esquecido do bem de estar presente.
      Traz este, logo sinto outro accidente,
    E he ver que se da vida desespero,
    Perco a gloria que vendo-vos espero;
    E assi estou em meus males differente.
      E nesta differena meus sentidos
    Combatem com to aspera porfia,
    Que julgo este meu mal por deshumano.
      Entre si sempre os vejo divididos;
    E se acaso concordo algum dia,
    He s conjurao para meu dano.


CXXVI.

    No regao de me Amor estava
    Dormindo to formoso, que movia
    O corao que mais isento o via;
    E a sua propria me de amor matava.
      Ella, co'os olhos nelle, contemplava
    A quanto estrago o mundo reduzia:
    Elle porm, sonhando, lhe dizia
    Que todo aquelle mal ella o causava.
      Soliso que, graduado em seus amores,
    De saber de ambos mais teve a ventura,
    Assi soltou a dvida aos pastores:
      Se bem me ferem sempre sem ter cura
    Do menino os ardentes passadores,
    Mais me fere da me a formosura.


CXXVII.

    Este terreste caos com seus vapores
    No pde condensar as nuvens tanto,
    Que o claro sol no rompa o negro manto
    Cum suas bellas e luzentes cres.
      A ingratido esquiva de rigores
    Opposta nuvem he, que dura em quanto
    Nos no converte o Ceo em triste pranto
    Suas vas esperanas, seus favores.
      Pde-se contrapr ao ceo a terra,
    E estar o sol por horas eclipsado;
    Mas no pde ficar escurecido.
      Pde prevalecer a vossa guerra;
    Mas, a pezar das nuvens, declarado
    Ha de ser vosso sol, e obedecido.


CXXVIII.

    Huma admiravel herva se conhece,
    Que vai ao sol seguindo de hora em hora,
    Logo que elle do Euphrates se v fra,
    E quando est mais alto, ento florece.
      Mas quando ao Oceano o carro dece,
    Toda a sua belleza perde Flora,
    Porque ella se emmurchece e se descora:
    Tanto co'a luz ausente se entristece!
      Meu sol, quando alegrais esta alma vossa,
    Mostrando-lhe esse rosto que d vida,
    Cria flores em seu contentamento.
      Mas logo, em no vos vendo, entristecida
    Se murcha e se consume em gro tormento:
    Nem ha quem vossa ausencia soffrer possa.


CXXIX.

    Crescei, desejo meu, pois que a Ventura
    Ja vos t[~e]e nos seus braos levantado;
    Que a bella causa de que sois gerado
    O mais ditoso fim vos assegura.
      Se aspirais por ousado a tanta altura,
    No vos espante haver ao sol chegado;
    Porque he de aguia Real vosso cuidado,
    Que quanto mais o soffre, mais se apura.
      nimo, corao; que o pensamento
    Te pde inda fazer mais glorioso,
    Sem que respeite a teu merecimento.
      Que cresas inda mais he ja foroso;
    Porque se foi de ousado o teu intento,
    Agora de atrevido he venturoso.


CXXX.

    He o gozado bem em gua escrito;
    Vive no desejar, morre no effeito:
    O desejado sempre he mais perfeito,
    Porque t[~e]e parte alguma de infinito.
      Dar a huma alma immortal gzo prescrito,
    Em verdadeiro amor, fra defeito:
    Por modo sup'rior, no imperfeito,
    Sois excepo de quanto aqui limito.
      De huma esperana nunca conhecida,
    Da f do desejar no alcanada,
    Sereis mais desejada, possuida.
      No podeis da esperana ser amada;
    Vista podereis ser, e ento mais crida;
    Porm no, sem aggravo, comparada.


CXXXI.

    De quantas graas tinha a natureza
    Fez hum bello e riquissimo thesouro;
    E com rubis e rosas, neve e ouro,
    Formou sublime e angelica belleza.
      Poz na boca os rubis, e na pureza
    Do bello rosto as rosas, por quem mouro;
    No cabello o valor do metal louro;
    No peito a neve, em que a alma tenho accesa.
      Mas nos olhos mostrou quanto podia,
    E fez delles hum sol, onde se apura
    A luz mais clara que a do claro dia.
      Em fim, Senhora, em vossa compostura,
    Ella a apurar chegou quanto sabia
    De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.


CXXXII.

    Nunca em amor damnou o atrevimento;
    Favorece a Fortuna a ousadia;
    Porque sempre a encolhida covardia
    De pedra serve ao livre pensamento.
      Quem se eleva ao sublime Firmamento,
    A estrella nelle encontra, que lhe he guia;
    Que o bem que encerra em si a phantasia
    So humas illuses que leva o vento.
      Abrir se devem passos  ventura:
    Sem si proprio ninguem ser ditoso:
    Os principios somente a sorte os move.
      Atrever-se he valor, e no loucura.
    Perder por covarde o venturoso
    Que vos v, se os temores no remove.


CXXXIII.

    Doces e claras guas do Mondego,
    Doce repouso de minha lembrana,
    Onde a comprida e perfida esperana
    Longo tempo apos si me trouxe cego,
      De vs me aparto, si; porm no nego
    Que inda a longa memoria, que me alcana,
    Me no deixa de vs fazer mudana,
    Mas quanto mais me alongo, mais me achego
      Bem poder a Fortuna este instrumento
    Da alma levar por terra nova e estranha,
    Offerecido ao mar remoto, ao vento.
      Mas a alma, que de c vos acompanha,
    Nas azas do ligeiro pensamento
    Para vs, guas, va, e em vs se banha.


CXXXIV.

    Senhor Joo Lopes, o meu baixo estado
    Hontem vi posto em grao to excellente,
    Que sendo vs inveja a toda a gente,
    S por mi vos quizereis ver trocado.
      O gesto vi suave e delicado,
    Que ja vos fez contente e descontente,
    Lanar ao vento a voz to docemente,
    Que fez o ar sereno e socegado.
      Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto
    Ninguem diria em muitas: mas eu chego
    A espirar s de ouvir a doce fala.
      Oh mal o haja a Fortuna, e o moo cego!
    Elle, que os coraes obriga a tanto;
    Ella, porque os estados desiguala.


CXXXV.

    A Morte, que da vida o n desata,
    Os ns, que d o Amor, cortar quizera
    Co'a ausencia, que he sbre elle espada fera,
    E co'o tempo, que tudo desbarata.
      Duas contrrias, que huma a outra mata,
    A Morte contra Amor junta e altera;
    Huma, Razo contra a Fortuna austera;
    Outra, contra a Razo Fortuna ingrata.
      Mas mostre a sua imperial potencia
    A Morte em apartar de hum corpo a alma,
    O Amor n'hum corpo duas almas una;
      Para que assi triumphante leve a palma
    Da Morte Amor a gro pesar da ausencia,
    Do tempo, da Razo, e da Fortuna.


CXXXVI

    rvore, cujo pomo bello e brando
    Natureza de leite e sangue pinta,
    Onde a pureza, de vergonha tinta,
    Est virgineas faces imitando;
      Nunca do vento a ira, que arrancando
    Os troncos vai, o teu injria sinta;
    Nem por malcia de ar te seja extinta
    A cr que est teu fructo debuxando.
      E pois emprestas doce e idoneo abrigo
    A meu contentamento, e favoreces
    Com teu suave cheiro a minha gloria;
      Se eu no te celebrar como mereces,
    Cantando-te, se quer farei comtigo
    Doce nos casos tristes a memoria.


CXXXVII.

    O filho de Latona esclarecido,
    Que com seu raio alegra a humana gente,
    Matar pde a Phytonica serpente
    Que mortes mil havia produzido.
      Ferio com arco, e de arco foi ferido,
    Com ponta aguda de ouro reluzente:
    Nas Thessalicas praias docemente
    Por a nympha Penea andou perdido.
      No lhe pde valer contra seu dano
    Saber, nem diligencias, nem respeito
    De quanto era celeste e soberano.
      Pois se hum deos nunca vio nem hum engano
    De quem era to pouco em seu respeito,
    Eu qu'espero de hum ser, qu'he mais que humano?


CXXXVIII.

    Presena bella, angelica figura,
    Em quem quanto o Ceo tinha nos t[~e]e dado;
    Gesto alegre de rosas semeado,
    Entre as quaes se est rindo a Formosura:
      Olhos, onde t[~e]e feito tal mistura
    Em crystal puro o negro marchetado,
    Que vemos ja no verde delicado
    No esperana, mas inveja escura:
      Brandura, aviso, e graa, que augmentando
    A natural belleza co'hum desprezo,
    Com que mais desprezada mais se augmenta:
      So as prizes de hum corao, que przo,
    Seu mal ao som dos ferros vai cantando,
    Como faz a sera na tormenta


CXXXIX.

    Por cima destas guas forte e firme
    Irei aonde os Fados o ordenro,
    Pois por cima de quantas derramro
    Aquelles claros olhos pude vir-me.
      Ja chegado era o fim de despedir-me;
    Ja mil impedimentos se acabro,
    Quando rios de amor se atravessro
    A me impedir o passo de partir-me.
      Passei-os eu com nimo obstinado,
    Com que a morte forada gloriosa
    Faz o vencido ja desesperado.
      Em qual figura, ou gesto desusado,
    Pde ja fazer medo a morte irosa
    A quem t[~e]e a seus ps rendido e atado?


CXL.

    Tal mostra de si d vossa figura,
    Sibela, clara luz da redondeza,
    Que as fras e o poder da natureza
    Com sua claridade mais apura.
      Quem confiana ha visto to segura,
    To singular esmalte da belleza,
    Que no padea mal de mais graveza,
    Se resistir a seu amor procura?
      Eu, pois, por escusar tal esquivana,
    A razo sujeitei ao pensamento,
    A quem logo os sentidos se entregro.
      Se vos offende o meu atrevimento,
    Inda podeis tomar nova vingana
    Nas reliquias da vida que ficro.


CXLI.

    Na desesperao ja repousava
    O peito longamente magoado,
    E, com seu damno eterno concertado,
    Ja no temia, ja no desejava;
      Quando huma sombra va me assegurava
    Que algum bem me podia estar guardado
    Em to formosa imagem, que o traslado
    N'alma ficou, que nella se enlevava.
      Que credito que d to facilmente
    O corao quillo que deseja,
    Quando lhe esquece o fero seu destino!
      Ah! deixem-me enganar; que eu sou contente;
    Pois, postoque maior meu damno seja,
    Fica-me a gloria ja do que imagino.


CXLII.

    Diversos des reparte o Ceo benino,
    E quer que cada huma alma hum s possua;
    Por isso ornou de casto peito a Lua,
    Que o primeiro orbe illustra crystallino;
      De graa a Me formosa do Menino,
    Que nessa vista t[~e]e perdido a sua;
    Pallas de sciencia no maior que a tua:
    T[~e]e Juno da nobreza o imperio dino.
      Mas junto agora o largo Ceo derrama
    Em ti o mais que tinha, e foi o menos
    Em respeito do Autor da natureza.
      Que a seu pezar te do, formosa dama,
    Seu peito a Lua, sua graa Venos,
    Sua sciencia Pallas, Juno sua nobreza.


CXLIII.

    Gentil Senhora, se a Fortuna imiga,
    Que contra mi com todo o Ceo conspira,
    Os olhos meus de ver os vossos tira,
    Porque em mais graves casos me persiga;
      Comigo levo esta alma, que se obriga
    Na mor pressa de mar, de fogo, e d'ra,
    A dar-vos a memoria, que suspira
    S por fazer comvosco eterna liga.
      Nesta alma, onde a fortuna pde pouco,
    To viva vos terei, que frio e fome,
    Vos no posso tirar, nem mais perigos.
      Antes, com som de voz trmulo e rouco
    Por vs chamando, s com vosso nome
    Farei fugir os ventos, e os imigos.


CXLIV

    Que modo to subtil da natureza
    Para fugir ao mundo e seus enganos!
    Permitte que se esconda em tenros anos
    Debaixo de hum burel tanta belleza!
      Mas no pde esconder-se aquella alteza
    E gravidade de olhos soberanos,
    A cujo resplandor entre os humanos
    Resistencia no sinto, ou fortaleza.
      Quem quer livre ficar de dor e pena,
    Vendo-a ja, ja trazendo-a na memoria,
    Na mesma razo sua se condena.
      Porque quem mereceo ver tanta gloria
    Captivo ha de ficar; que Amor ordena
    Que de juro tenha ella esta victoria.


CXLV

    Quando se vir com gua o fogo arder,
    Juntar-se ao claro dia a noite escura,
    E a terra collocada l na altura
    Em que se vem os ceos prevalecer;
      Quando Amor  Razo obedecer,
    E em todos for igual huma ventura,
    Deixarei eu de ver tal formosura,
    E de a amar deixarei depois de a ver.
      Porm no sendo vista esta mudana
    No mundo, porque, em fim, no pde ver-se,
    Ninguem mudar-me queira de querer-vos.
      Que basta estar em vs minha esperana,
    E o ganhar-se a minha alma, ou o perder-se,
    Para dos olhos meus nunca perder-vos.


CXLVI.

    Quando a suprema dor muito me aperta,
    Se digo que desejo esquecimento,
    He fra que se faz ao pensamento,
    De que a vontade livre desconcerta.
      Assi de rro to grave me desperta
    A luz do bem regido entendimento,
    Que mostra ser engano, ou fingimento,
    Dizer que em tal descanso mais se acerta.
      Porque essa propria imagem, que na mente
    Me representa o bem de que careo,
    Faz-mo de hum certo modo ser presente.
      Ditosa he, logo, a pena que padeo,
    Pois que da causa della em mi se sente
    Hum bem que, inda sem ver-vos, reconheo.


CXLVII.

    Na margem de hum ribeiro, que fendia
    Com liquido crystal hum verde prado,
    O triste pastor Liso debruado
    Sbre o tronco de hum freixo assi dizia:
      Ah Natercia cruel! quem te desvia
    Esse cuidado teu do meu cuidado?
    Se tanto hei de penar desenganado,
    Enganado de ti viver queria.
      Que foi de aquella f que tu me dste?
    D'aquelle puro amor que me mostraste?
    Quem tudo trocar pde to asinha?
      Quando esses olhos teus n'outro puzeste,
    Como te no lembrou que me juraste
    Por toda a sua luz que eras s minha?


CXLVIII.

    Se me vem tanta gloria s de olhar-te,
    He pena desigual deixar de ver-te;
    Se presumo com obras merecer-te,
    Gro paga de hum engano he desejar-te.
      Se aspiro por quem es a celebrar-te,
    Sei certo por quem sou que hei de offender-te;
    Se mal me quero a mi por bem querer-te,
    Que premio querer posso mais que amar-te?
      Porque hum to raro amor no me soccorre?
    Oh humano thesouro! oh doce gloria!
    Ditoso quem  morte por ti corre!
      Sempre escrita estaras nesta memoria;
    E esta alma viver, pois por ti morre,
    Porque ao fim da batalha he a victoria.


CXLIX.

    Sempre a Razo vencida foi de Amor;
    Mas, porque assi o pedia o corao,
    Quiz Amor ser vencido da Razo.
    Ora que caso pde haver maior!
      Novo modo de morte, e nova dor!
    Estranheza de grande admirao!
    Pois, em fim, seu vigor perde a affeio,
    Porque no perca a pena o seu vigor.
      Fraqueza, nunca a houve no querer;
    Mas antes muito mais se esfora assim
    Hum contrrio com outro por vencer.
      Mas a razo que a luta vence, em fim,
    No creio que he razo; mas deve ser
    Inclinao que eu tenho contra mim.


CL.

    Coitado! que em hum tempo chro e rio;
    Espero e temo, quero e aborreo;
    Juntamente me allegro e me entristeo;
    Confio de huma cousa e desconfio.
      Vo sem azas; estou cego e guio;
    Alcano menos no que mais mereo;
    Enta fallo melhor, quando emmudeo;
    Sem ter contradia sempre porfio.
      Possivel se me faz todo o impossivel;
    Intento com mudar-me estar-me quedo;
    Usar de liberdade, e ser captivo;
      Queria visto ser, ser invisivel;
    Ver-me desenredado, amando o enredo:
    Taes os extremos so com que hoje vivo!


CLI.

    Julga-me a gente toda por perdido,
    Vendo-me, to entregue a meu cuidado,
    Andar sempre dos homens apartado,
    E de humanos commercios esquecido.
      Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
    E quasi que sbre elle ando dobrado,
    Tenho por baixo, rustico, e enganado
    Quem no he com meu mal engrandecido.
      V revolvendo a terra, o mar, e o vento,
    Honras busque e riquezas a outra gente,
    Vencendo ferro, fogo, frio e calma.
      Que eu por amor smente me contento
    De trazer esculpido eternamente
    Vosso formoso gesto dentro da alma.


CLII.

    Olhos, aonde o Ceo com luz mais pura
    Quiz dar de seu poder claros signais,
    Se quizerdes ver bem quanto possais,
    Vde-me a mi que sou vossa feitura.
      Em mi viva vereis vossa figura
    Mais propria que em purissimos crystais,
    Porque nesta alma he certo que vejais
    Melhor que em hum crystal tal formosura.
      De meu no quero mais que o meu desejo,
    Se acaso por querer-vos mais mereo,
    Porque o vosso poder em mi se asselle.
      Do mundo outra memoria em mi no vejo:
    Com lembrar-me de vs, delle me esqueo,
    Com triumphardes de mi, triumpharei delle.


CLIII.

    Criou a natureza Damas bellas,
    Que foro de altos plectros celebradas;
    Dellas tomou as partes mais prezadas,
    E a vs, Senhora, fez do melhor dellas.
      Ellas diante vs so as estrellas,
    Que fico com vos ver logo eclipsadas.
    Mas se ellas t[~e]e por sol essas rosadas
    Luzes de sol maior, felices ellas!
      Em perfeio, em graa e gentileza,
    Por hum modo entre humanos peregrino,
    A todo bello excede essa belleza.
      Oh quem tivera partes de divino
    Para vos merecer! Mas se pureza
    De amor vai ante vs, de vs sou dino.


CLIV.

    Que esperais, esperana?  Desespro.
    Quem disso a causa foi?  H[~u]a mudana.
    Vs, vida, como estais?  Sem esperana.
    Que dizeis, corao?  Que muito quero.
      Que sentis, alma, vs?  Que amor he fero.
    E, em fim, como viveis?  Sem confiana.
    Quem vos sustenta, logo?  Huma lembrana.
    E s nella esperais?  S nella espero.
      Em que podeis parar?  Nisto em que estou.
    E em que estais vs?  Em acabar a vida.
    E tnde-lo por bem?  Amor o quer.
      Quem vos obriga assi?  Saber quem sou.
    E quem sois?  Quem de todo est rendida.
    A quem rendida estais?  A hum s querer.


CLV.

    Se como em tudo o mais fostes perfeita,
    Foreis de condio menos esquiva,
    Fra a minha fortuna mais altiva,
    Fra a sua altiveza mais sujeita.
      Mas quando a vida a vossos ps se deita,
    Porque no a acceitais, no quer que eu viva:
    Ella propria de si ja a mi me priva;
    Que, porque me engeitais, tambem me engeita.
      Se nisso contradiz vossa vontade,
    Mandai-lhe vs, Senhora, que d fim
     minha profundissima tristeza.
      Pois ella no mo d, porque piedade
    Tenha deste meu mal, mas porque em mim
    Possais assi fartar vossa crueza.


CLVI.

    Se algum'hora essa vista mais suave
    Acaso a mi volveis, em hum momento
    Me sinto com hum tal contentamento,
    Que no temo que damno algum me aggrave.
      Mas quando com desdem esquivo e grave
    O bello rosto me mostrais isento,
    Huma dor provo tal, hum tal tormento,
    Que muito vem a ser que no me acabe.
      Assi est minha vida, ou minha morte
    No volver de esses olhos; pois podeis
    Dar co'huma volta delles morte, ou vida.
      Ditoso eu, se o Ceo quer, ou minha sorte,
    Que ou vida, para dar-vo-la, me deis,
    Ou morte, para haver morte querida!


CLVII.

    Tanto se foro, Nympha, costumando
    Meus olhos a chorar tua dureza,
    Que vo passando ja por natureza
    O que por accidente hio passando.
      No que ao somno se deve estou velando,
    E venho a velar s minha tristeza:
    O chro no abranda esta aspereza,
    E meus olhos esto sempre chorando.
      Assi de dor em dor, de mgoa em mgoa,
    Consumindo-se vo inutilmente,
    E esta vida tambem vo consumindo.
      Sbre o fogo de amor inutil goa!
    Pois eu em chro estou continuamente,
    E do que vou chorando te vs rindo.
      Assi nova corrente
    Levas de chro em foro;
    Porque de ver-te rir, de novo chro.


CLVIII.

    Eu me aparto de vs, Nymphas do Tejo,
    Quando menos temia esta partida;
    E se a minha alma vai entristecida,
    Nos olhos o vereis com que vos vejo.
      Pequenas esperanas, mal sobejo,
    Vontade que razo leva vencida,
    Presto vero o fim  triste vida,
    Se vos no trno a ver como desejo.
      Nunca a noite entretanto, nunca o dia,
    Vero partir de mi vossa lembrana:
    Amor, que vai comigo, o certifica.
      Por mais que no tornar haja tardana,
    Me faro sempre triste companhia
    Saudades do bem que em vs me fia.


CLIX.

    Vencido est de amor               Meu pensamento
    O mais que pde ser,               Vencida a vida,
    Sujeita a vos servir e             Instituida,
    Oferecendo tudo                    A vosso intento.
    Contente deste bem                 Louva o momento,
    Ou hora em que se vio              To bem perdida;
    Mil vezes desejando,               Assi ferida,
    Outras mil renovar                 Seu perdimento.
    Com esta preteno                 Est segura
    A causa que me guia                Nesta empreza
    To sobrenatural,                  Honrosa, e alta.
    Jurando no querer                 Outra ventura,
    Votando s por vs                 Rara firmeza,
    Ou ser no vosso amor               Achado em falta.


CLX.

    Divina companhia, que nos prados
    Do claro Eurotas, ou no Olympo monte,
    Ou sbre as margens da Castalia fonte
    Vossos estudos tendes mais sagrados;
      Pois por destino dos immoveis fados
    Quereis qu'em vosso nmero me conte,
    No eterno templo de Belorofonte
    Ponde em bronze estes versos entalhados:
      Soliso (porque em seculos futuros
    Se veja da belleza o que merece
    Quem de sbia doudice a mente inflama)
      Seus escritos, da sorte ja seguros,
    A estas aras em h[~u]a mo offrece,
    E a alma em outra  sua bella dama.


CLXI.

     la margen del Tajo, en claro dia,
    Con rayado marfil peinando estaba
    Natercia sus cabellos, y quitaba
    Con sus ojos la luz al sol que ardia.
      Soliso que, cual Clicie, la seguia,
    Lejos de s, mas cerca della estaba:
    Al son de su zampoa celebraba
    La causa de su ardor, y as decia:
      Si tantas, como t tienes cabellos,
    Tuviera vidas yo, me las llevaras
    Colgada cada cual del uno dellos.
      De no tenerlas t me consolaras,
    Si tantas veces mil, como son ellos,
    En ellos la que tengo me enredaras.


CLXII.

    Por gloria tuve un tiempo el ser perdido;
    Perdame de puro bien ganado;
    Gan cuando perd ser libertado;
    Libre agora me veo, mas vencido.
      Venc cuando de Nise fu rendido;
    Rendme por no ser della dejado:
    Dejme en la memoria el bien pasado;
    Paso agora  llorar lo que he servido.
      Servia al premio de la luz que amaba;
    Amndola esperbale por cierto;
    Incierto me sali cuanto esperaba.
      La esperanza se queda en desconcierto;
    El concierto en el mal que no pensaba;
    El pensamiento con un fin incierto.


CLXIII.

    Revuelvo en la incesable fantasa
    Cuando me he visto en mas dichoso estado,
    Si agora que de Amor vivo inflamado,
    Si cuando de su ardor libre vivia.
      Entonces desta llama solo huia,
    Despreciando en mi vida su cuidado;
    Agora, con dolor de lo pasado,
    Tengo por gloria aquello que temia.
      Bien veo que era vida deleitosa
    Aquella que lograba sin temores,
    Cuando gustos de Amor tuve por viento.
      Mas viendo hoy  Natercia tan hermosa,
    Hallo en esta prision glorias mayores,
    Y en perderlas por libre hallo tormento.


CLXIV.

    Las peas retumbaban al gemido
    Del misero zagal, que lamentaba
    El dolor que  su alma lastimaba,
    De un obstinado desamor nacido.
      El mar, que las batia, su bramido
    Con los retumbos dellas ayuntaba;
    Confuso son el viento derramaba,
    En cavernosos valles repetido.
      Responden a mi llanto duras peas,
    Ai de m! (dijo) la mar brama y gime;
    Los ecos suenan de tristeza llenos:
      Y t, por quien la muerte en m se imprime,
    De oir las ansias mias te desdeas;
    Y cuando lloro mas, te abrando menos.


CLXV.

    En una selva al dispuntar del dia
    Estaba Endimion triste y lloroso,
    Vuelto al rayo del sol, que presuroso
    Por la falda de un monte descendia.
      Mirando al turbador de su alegra,
    Contrario de su bien y su reposo,
    Tras un suspiro y otro, congojoso,
    Razones semejantes le decia:
      Luz clara, para mi la mas escura,
    Que con esse paseo apresurado,
    Mi sol con tu teniebla escureciste;
      Si all pueden moverte en esa altura
    Las quejas de un pastor enamorado,
    No tardes en volver  d saliste.


CLXVI.

    Orfeo enamorado que taia
    Por la perdida Ninfa que buscaba,
    En el Orco implacable donde estaba,
    Con la arpa, y con la voz la enternecia.
      La rueda de Ixion no se movia,
    Ningun atormentado se quejaba;
    Las penas de los otros ablandaba,
    Y todas las de todos l sentia.
      El son pudo obligar de tal manera,
    Que en dulce galardon de lo cantado,
    Los infernales Reyes condolidos,
      Le mandron volver su compaera,
    Y volvila  perder el desdichado;
    Con que fueron entrambos los perdidos.


CLXVII.

    Eu cantei ja, e agora vou chorando
    O tempo que cantei to confiado:
    Parece que no canto ja passado
    Se estavo minhas lagrimas criando.
      Cantei; mas se me alguem pergunta, quando?
    No sei; que tambem fui nisso enganado.
    He to triste este meu presente estado,
    Que o passado por ledo estou julgando.
      Fizero-me cantar manhosamente
    Contentamentos no, mas confianas:
    Cantava, mas ja era ao som dos ferros.
      De quem me queixarei, se tudo mente?
    Porm que culpas ponho s esperanas,
    Onde a fortuna injusta he mais qu'os erros?


CLXVIII.

    Ai amiga cruel! que apartamento
    He este que fazeis da patria terra?
    Ai! quem do amado ninho vos desterra,
    Gloria dos olhos, bem do pensamento?
      His tentar da fortuna o movimento,
    E dos ventos crueis a dura guerra?
    Ver brenhas de ondas? feito o mar em serra
    Levantado de hum vento e de outro vento?
      Mas ja que vs partis, sem vos partirdes,
    Parta comvosco o Ceo tanta ventura,
    Que se avantaje quella qu'esperardes.
      E s desta verdade ide segura,
    Que fazeis mais saudades com vos irdes,
    Do que levais desejos por chegardes.


CLXIX.

    Campo! nas syrtes deste mar da vida,
    Apos naufragios seus taboa segura;
    Claras bonanas em tormenta escura,
    Habitao da paz, de amor guarida;
      A ti fujo: e se vence tal fugida,
    E quem mudou lugar, mudou ventura,
    Cantemos a victoria; e na espessura
    Triumphe a honra da ambio vencida.
      Em flor e fructo de vero e outono;
    Utilmente murmuro claras goas;
    Alegre me acha aqui, me deixa o dia.
      Amantes rouxinoes rompem-me o sono
    Que ata o descanso: aqui sepulto mgoas
    Que ja foro sepulcros de alegria.


CLXX.

    Ah minha Dinamene! assi deixaste
    Quem nunca deixar pde de querer-te!
    Que ja, Nympha gentil, no possa ver-te!
    Que to veloz a vida desprezaste!
      Como por tempo eterno te apartaste
    De quem to longe andava de perder-te?
    Pudero essas goas defender-te
    Que no visses quem tanto magoaste?
      Nem somente fallar-te a dura morte
    Me deixou, qu'apressada o negro manto
    Lanar sbre os teus olhos consentiste.
      Oh mar! oh ceo! oh minha escura sorte!
    Qual vida perderei que valha tanto,
    Se inda tenho por pouco o viver triste?


CLXXI.

    Guardando em mi a Sorte o seu direito.
    Em verde me cortou minha alegria.
    Oh quanto feneceo naquelle dia,
    Cuja triste lembrana arde em meu peito!
      Quando mais o imagino, bem suspeito
    Que a tal bem tal desconto se devia,
    Por no dizer o mundo que podia
    Achar-se em seus enganos bem perfeito.
      Pois se a Fortuna o fez por descontar-me
    Aquelle gsto, em cujo sentimento
    A memoria no faz seno matar-me;
      Que culpas pde dar-me o pensamento,
    Se a causa qu'elle t[~e]e de atormentar-me,
    Tenho eu de soffrer mal o seu tormento?


CLXXII.

    Cantando estava hum dia bem seguro,
    Quando passava Sylvio, e me dizia:
    (Sylvio, pastor antiguo que sabia
    Por o canto das aves o futuro)
      Liso, quando quizer o fado escuro,
    A opprimir-te viro em hum s dia
    Dous lobos; logo a voz e a melodia
    Te fugiro, e o som suave e puro.
      Bem foi assi; porque hum me degolou
    Quanto gado vacum pastava e tinha,
    De que grandes soldadas esperava.
      E por mais damno o outro me matou
    A cordeira gentil, qu'eu tanto amava,
    Perptua saudade da alma minha.


CLXXIII.

    O ceo, a terra, o vento socegado,
    As ondas que se estendem por a areia,
    Os peixes que no mar o somno enfreia,
    O nocturno silencio repousado;
      O Pescador Aonio que, deitado
    Onde co'o vento a gua se meneia,
    Chorando, o nome amado em vo nomeia,
    Que no pde ser mais que nomeado,
      Ondas, (dizia) antes que Amor me mate,
    Tornae-me a minha Nympha, que to cedo
    Me fizestes  morte estar sujeita.
      Ninguem responde; o mar de longe bate;
    Move-se brandamente o arvoredo;
    Leva-lhe o vento a voz, qu'ao vento deita.


CLXXIV.

    Ah Fortuna cruel! ah duros Fados!
    Quo asinha em meu damno vos mudastes!
    Com os vossos cuidados me cansastes,
    E agora descansais co'os meus cuidados.
      Fizestes-me provar gostos passados,
    E vossa condio nelles provastes:
    Singelos em hum'hora mos levastes,
    Deixando em seu lugar males dobrados.
      Quanto melhor me fra que no vira
    Os doces bens de Amor? Ah bens suaves!
    Quem me deixa sem vs, porque me deixa?
      De queixar-te, alma minha, te retira:
    Alma, de alto cahida em penas graves,
    Pois tanto amaste em vo, em vo te queixa.


CLXXV.

    Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento
    Vos hei de ver to tristes e aggravados?
    No bsto meus suspiros inflammados,
    Que sempre em mi renovo seu tormento?
      No basta consentir meu pensamento
    Em mgoas, em tristezas e em cuidados,
    Seno que haveis de andar to maltratados,
    Que lagrimas tenhais por mantimento?
      No sei porque tomais esta vingana,
    Mostrando-vos na ausencia to saudosos,
    Se sabeis quanto pde huma esperana.
      Olhos, no aggraveis outros formosos,
    Tornando hum puro amor em esquivana,
    Pois ficais por esquivos desdenhosos.


CLXXVI.

    Lembranas, que lembrais o bem passado
    Para que sinta mais o mal presente,
    Deixae-me, se quereis, viver contente,
    Morrer no me deixeis em tal estado.
      Se de todo, comtudo, est do Fado,
    Que eu morra de viver to descontente,
    Venha-me todo o bem por accidente,
    E todo o mal me venha por cuidado.
      Que muito melhor he perder-se a vida,
    Perdendo-se as lembranas da memoria,
    Pois fazem tanto damno ao pensamento.
      Porque, em fim, nada perde quem perdida
    A esperana t[~e]e ja daquella gloria
    Que fazia suave o seu tormento.


CLXXVII.

    Quando os olhos emprgo no passado,
    De quanto passei me acho arrependido;
    Vejo que tudo foi tempo perdido,
    Que tudo emprgo foi mal empregado.
      Sempre no mais damnoso mais cuidado;
    Tudo o que mais cumpria, mal cumprido;
    De desenganos menos advertido
    Fui, quando de esperanas mais frustrado.
      Os castellos que erguia o pensamento,
    No ponto que mais altos os erguia,
    Por esse cho os via em hum momento.
      Que erradas contas faz a phantasia!
    Pois tudo pra em morte, tudo em vento,
    Triste o que espera! triste o que confia!


CLXXVIII

    Ja cantei, ja chorei a dura guerra
    Por Amor sustentada longos anos;
    Vezes mil me vedou dizer seus danos,
    Por no ver quem o segue o muito que erra.
      Nymphas, por quem Castalia se abre e cerra;
    Vs que fazeis  morte mil enganos,
    Concedei-me ja alentos soberanos
    Para que diga o mal que Amor encerra:
      Para que aquelle, que o seguir ardente,
    Veja em meus puros versos hum exemplo
    De quanto em glorias promettidas mente.
      Qu'inda qu'em triste estado me contemplo,
    Se neste assumpto me inspirais, contente
    Darei a minha lyra ao vosso templo.


CLXXIX

    Os meus alegres, venturosos dias
    Passro, como raio, brevemente;
    Movem-se os tristes mais pezadamente
    Apos das fugitivas alegrias.
      Ah falsas pretenes! vas phantasias!
    Que me podeis ja dar que me contente?
    Ja de meu triste peito a chamma ardente
    O tempo reduzio a cinzas frias.
      Nellas revolvo agora erros passados;
    Que outro fructo no deo a mocidade,
    A quem vergonha e dor minha alma deve
      Revolvo mais de toda a mais idade,
    Desejos vos, vos choros, vos cuidados,
    Para que leve tudo o tempo leve.


CLXXX.

    Horas breves de meu contentamento,
    Nunca me pareceo, quando vos tinha,
    Que vos visse mudadas to asinha
    Em to compridos annos de tormento.
      As altas trres, que fundei no vento,
    Levou, em fim, o vento que as sostinha:
    Do mal, que me ficou, a culpa he minha,
    Pois sbre cousas vas fiz fundamento.
      Amor com brandas mostras apparece,
    Tudo possivel faz, tudo assegura;
    Mas logo no melhor desapparece.
      Estranho mal! estranha desventura!
    Por hum pequeno bem que desfallece,
    Hum bem aventurar, que sempre dura!


CLXXXI.

    Onde acharei lugar to apartado,
    E to isento em tudo da ventura,
    Que, no digo eu de humana criatura,
    Mas nem de feras seja frequentado?
      Algum bosque medonho e carregado,
    Ou selva solitaria, triste e escura,
    Sem fonte clara, ou placida verdura;
    Em fim, lugar conforme a meu cuidado?
      Porque alli nas entranhas dos penedos,
    Em vida morto, sepultado em vida,
    Me queixe copiosa e livremente.
      Que, pois a minha pena he sem medida,
    Alli no serei triste em dias ledos,
    E dias tristes me faro contente.


CLXXXII.

    Aqui de longos damnos breve historia
    Vero os que se jacto de amadores:
    Reparo pde ser das suas dores
    No apartar as minhas da memoria.
      Escrevi, no por fama, nem por gloria,
    De que outros versos so merecedores,
    Mas por mostrar seus triumphos, seus rigores
    A quem de mi logrou tanta victoria.
      Crescendo foi a dor co'o tempo, tanto
    Que em nmero me fez, alheio de arte,
    Dizer do cego Amor, que me venceo.
      Se ao canto dei a voz, dei a alma ao pranto;
    E dando a penna  mo, esta s parte
    De minhas tristes penas escreveo.


CLXXXIII.

    Por sua Nympha Cphalo deixava
    A Aurora, que por elle se perdia,
    Postoque d principio ao claro dia,
    Postoque as roxas flores imitava.
      Elle, que a bella Procris tanto amava,
    Que s por ella tudo engeitaria,
    Deseja de tentar se lhe acharia
    To firme f, como ella nelle achava.
      Mudado o trage, tece hum duro engano;
    Outro se finge, preo pe diante;
    Quebra-se a f mudavel, e consente.
      Oh subtil inveno para seu dano!
    Vde que manhas busca hum cego amante
    Para que sempre seja descontente!


CLXXXIV.

    Sentindo-se alcanada a bella esposa
    De Cphalo no crime consentido,
    Para os montes fugia do marido;
    E no sei se de astuta, ou vergonhosa.
      Porque elle, em fim, soffrendo a dor ciosa,
    Da cegueira obrigado de Cupido,
    Apos ella se vai como perdido,
    Ja perdoando a culpa criminosa.
      Deita-se aos ps da Nympha endurecida,
    Que do cioso engano est aggravada;
    Ja lhe pede perdo, ja pede a vida.
      Oh fra d'affeio desatinada!
    Que da culpa contr'elle commettida,
    Perdo pedia  parte que he culpada!


CLXXXV.

    Seguia aquelle fogo, que o guiava,
    Leandro, contra o mar e contra o vento;
    Quebravo-lhe ondas o animoso alento,
    Por mais e mais que Amor lho renovava.
      Com sentir ja que quasi lhe faltava,
    Sem nada esmorecer, no pensamento
    (No podendo fallar) de seu intento
    O fim ao surdo mar encommendava.
       mar, (dizia o moo s comsigo)
    Ja te no peo a vida; s queria
    Que a d'Hero me salvasses: no me veja:
      Este defunto corpo l o desvia
    D'aquella trre: s-me nisto amigo,
    Pois no meu maior bem me houveste inveja.


CLXXXVI.

    Os olhos onde o casto Amor ardia,
    Ledo de se ver nelles abrazado;
    O rosto onde com lustre desusado
    Purpurea rosa sbre neve ardia;
      O cabello, que inveja ao sol fazia,
    Porque fazia o seu menos dourado;
    A branca mo, o corpo bem talhado,
    Tudo aqui se reduz a terra fria.
      Perfeita formosura em tenra idade,
    Qual flor, que antecipada foi colhida,
    Murchada est da mo da morte dura.
      Como no morre Amor de piedade?
    No della, que se foi  clara vida;
    Mas de si, que ficou em noute escura.


CLXXXVII.

    Ditosa penna, como a mo que a guia
    Com tantas perfeies da subtil arte,
    Que quando com razo venho a louvar-te,
    Em teus louvores perco a phantasia.
      Porm Amor, que effeitos varios cria,
    De ti cantar me manda em toda parte,
    No em plectro belligero de Marte,
    Mas em suave e branda melodia.
      Teu nome, Emmanuel, de hum n'outro plo,
    Voando se levanta e te pregoa,
    Agora que ninguem te levantava.
      E porque immortal sejas, eis Apolo
    Te offerece de flores a coroa,
    Que ja de longo tempo te guardava.


CLXXXVIII.

    Espanta crescer tanto o crocodilo
    S por seu limitado nascimento;
    Que, se maior nascra, mais isento
    Estivera de espanto o patrio Nilo.
      Em vo levantar meu baixo estilo
    Vosso Pontifical, novo ornamento;
    Pois no ventre o immortal merecimento
    Vo-lo talhou, para despois vesti-lo.
      Tardou, mas veio; que a quem mais merece
    Vir o premio mais tarde he sempre certo,
    Inda que vez alguma venha cedo.
      Os ceos, que do primeiro esto mais perto,
    Mais devagar se movem. Quem conhece,
    Sbre aquelle segredo, este segredo!


CLXXXIX.

    Ornou sublime esfro ao grande Atlante,
    Com qu'a celeste mchina sustenta;
    Honrou a Homero o engenho, com que intenta
    Grecia do quarto ceo pass-lo avante;
      Coroou claro Amor de amor constante
    A Orpheo, na paz firme e na tormenta;
    Inspirou a Fortuna, em tudo isenta,
    A Cesar, de quem foi hum tempo amante;
      Exaltaste tu, Fama, a gloria alta
    De Alcides l no monte em que resides;
    Mas Castro, em quem o Ceo seus des derrama,
      Mais orna, honra, coroa, inspira, exalta,
    Que Atlante, Homero, Orpheo, Cesar e Alcides,
    Esfro, engenho, Amor, Fortuna e Fama.


CXC.

    Despois que vio Cibele o corpo humano
    Do formoso Atys seu verde pinheiro,
    Em piedade o vo furor primeiro
    Convertido, chorava o grave dano.
      E,  sua dor fazendo illustre engano,
    A Jupiter pedio, que o verdadeiro
    Preo da nobre palma e do loureiro
    Ao seu pinheiro dsse, soberano.
      Mais lhe concede o filho poderoso
    Que, crescendo, as estrellas tocar possa,
    Vendo os segredos l do ceo superno.
      Oh ditoso pinheiro! oh mais ditoso
    Quem se vir coroar da rama vossa,
    Cantando  vossa sombra verso eterno!


CXCI.

    Pois torna por seu Rei e juntamente
    Por Christo a governar aquella parte
    Onde se t[~e]e mostrado hum Numa, hum Marte
    O famoso Luis, justo e valente;
      O Tejo espere ver de todo o Oriente,
    Onde to raros des o Ceo reparte,
    Render a tanto esfro, aviso e arte,
    Mil palmas, mil tributos novamente.
      Os que bebem no Gange, os que no Indo,
    A quem pouco valro lana e escudo,
    O render-se tero por bom partido.
      O Euphrates temer, seu nome ouvindo;
    Que para delle ver vencido tudo,
    Ja vio do brao seu tudo vencido.


CXCII.

    Agora toma a espada, agora a pena,
    Estacio nosso, em ambas celebrado,
    Sendo, ou no salso mar de Marte amado,
    Ou n'gua doce amante da Camena.
      Cysne sonoro por ribeira amena
    De mi para cantar-te he cobiado;
    Porque no podes tu ser bem cantado
    De ruda frauta, nem de agreste avena.
      Se eu, que a penna tomei, tomei a espada,
    Para poder jogar licena tenho
    Desta alta influo de dous Planetas;
      Com huma e outra luz delles lograda,
    Tu com pujante brao, ardente engenho,
    Sers pharo a Soldados e a Poetas.


CXCIII.

    Erros meus, ma Fortuna, Amor ardente
    Em minha perdio se conjurro:
    Os erros e a Fortuna sobejro;
    Que para mi bastava Amor somente.
      Tudo passei; mas tenho to presente
    A grande dor das cousas, que passro,
    Que ja as frequencias suas me ensinro
    A desejos deixar de ser contente.
      Errei todo o discurso de meus anos;
    Dei causa a que a Fortuna castigasse
    As minhas mal fundadas esperanas.
      De Amor no vi seno breves enganos.
    Oh quem tanto pudesse, que fartasse
    Este meu duro Genio de vinganas!


CXCIV.

    C nesta Babylonia donde mana
    Materia a quanto mal o mundo cria;
    C donde o puro Amor no t[~e]e valia;
    Que a Me, que manda mais, tudo profana;
      C donde o mal se affina, o bem se dana,
    E pde mais que a honra a tyrannia;
    C donde a errada e cega Monarchia
    Cuida que hum nome vo a Deos engana;
      C neste labyrintho onde a Nobreza,
    O Valor e o Saber pedindo vo
    s portas da Cobia e da Vileza;
      C neste escuro caos de confuso
    Cumprindo o curso estou da natureza.
    V se me esquecerei de ti, Sio!


CXCV.

    Correm turbas as guas deste rio,
    Que as rapidas enchentes enturbro;
    Os florecidos campos se seccro;
    Intratavel se fez o valle e frio.
      Passou, como o vero, o ardente estio;
    Humas cousas por outras se trocro:
    Os fementidos fados ja deixro
    Do mundo o regimento, ou desvario.
      Ja o tempo a ordem sua t[~e]e sabida;
    O mundo no; mas anda to confuso,
    Que parece que delle Deos se esquece.
      Casos, opinies, natura, e uso,
    Fazem que nos parea desta vida
    Que no ha nella mais do que parece.


CXCVI.

    Vs outros, que buscais repouso certo
    Na vida, com diversos exercicios;
    A quem, vendo do mundo os beneficios,
    O regimento seu fica encoberto;
      Dedicae, se quereis, ao Desconcrto
    Novas honras e cegos sacrificios;
    Que, por castigo igual de antiguos vicios,
    Quer Deos que andem as cousas por acrto.
      No cahio neste modo de castigo
    Quem poz culpa  Fortuna, quem somente
    Cr que acontecimentos ha no mundo.
      A grande experiencia he gro perigo:
    Mas o que a Deos he justo e evidente
    Parece injusto aos homens e profundo.


CXCVII.

    Para se namorar do que criou,
    Te fez Deos, sacra Phenix, Virgem pura.
    Vde que tal seria esta feitura
    Que para si o seu Feitor guardou!
      No seu alto conceito te formou
    Primeiro que a primeira criatura,
    Para que unica fosse a compostura
    Que de to longo tempo se estudou.
      No sei se digo em tudo quanto baste
    Para exprimir as raras qualidades
    Que quiz criar em ti quem tu criaste.
      Es Filha, Me, e Esposa: e se alcanaste
    Huma s, tres to altas dignidades,
    Foi porqu'a Tres de Hum s tanto agradaste.


CXCVIII.

    Desce do ceo immenso Deos benino
    Para encarnar na Virgem soberana.
    Porque desce o divino a cousa humana?
    Para subir o humano a ser divino.
      Pois como vem to pobre e to menino,
    Rendendo-se ao poder da mo tyrana?
    Porque vem receber morte inhumana
    Para pagar de Ado o desatino.
      He possivel que os dous o fructo comem
    Que de quem lhes deo tanto foi vedado?
    Si; porque o proprio ser de deoses tomem.
      E por esta razo foi humanado?
    Si; porque foi com causa decretado,
    Se quiz o homem ser Deos, que Deos fosse homem.


CXCIX.

    Dos ceos  terra desce a mor Belleza,
    Une-se  nossa carne, e a faz nobre;
    E, sendo a humanidade d'antes pobre,
    Hoje subida fica  mor riqueza.
      Busca o Senhor mais rico a mor pobreza;
    Que, como ao mundo o seu amor descobre,
    De palhas vis o corpo tenro cobre,
    E por ellas o mesmo ceo despreza.
      Como? Deos em pobreza  terra dece?
    O qu'he mais pobre tanto lhe contenta,
    Qu'este somente rico lhe parece.
      Pobreza este Presepio representa;
    Mas tanto por ser pobre ja merece,
    Que quanto mais o he, mais lhe contenta.


CC.

    Porque a tamanhas penas se offerece
    Por o peccado alheio, e rro insano,
    O Trino Deos? Porque o sogeito humano
    No pde co'o castigo que merece.
      Quem padecer as penas que padece?
    Quem soffrer deshonra, morte e dano?
    Quem ser, se no for o Soberano
    Que reina, e servos manda, e obedece?
      Foi a fra do homem to pequena,
    Que no pde soster tanta aspereza,
    Pois no sosteve a Lei que Deos ordena.
      Mas soffre-a aquella immensa Fortaleza
    Por amor puro; que a mortal fraqueza
    Foi para o rro, e no ja para a pena.


CCI.

    Despois de haver chorado os meus tormentos,
    Quer Amor que lhe cante as suas glorias.
    Canto de huma belleza os vencimentos,
    De hum longo padecer chro as memorias.
      Porm, se as minhas penas so victorias,
    Por a causa, a meus altos pensamentos;
    Dilatem-se em larguissimas historias
    Estes meus gloriosos rendimentos.
      Mova-se em todo o mundo unico espanto
    De qu'he, por a belleza qu'eu adoro,
    Do que cantado tenho premio o pranto.
      Contente offreo a amor to triste foro:
    Que se chro no ha como o meu canto,
    No sei canto melhor qu'este meu chro.


CCII.

    Onde mereci eu tal pensamento
    Nunca de ser humano merecido?
    Onde mereci eu ficar vencido
    De quem tanto me honrou co'o vencimento?
      Em gloria se converte o meu tormento,
    Quando vendo-me estou to bem perdido;
    Pois no foi tanto mal ser atrevido,
    Como foi gloria o mesmo atrevimento.
      Vivo, Senhora, s de contemplar-vos;
    E pois esta alma tenho to rendida,
    Em lagrimas desfeito acabarei.
      Porque no me faro deixar de amar-vos
    Receios de perder por vs a vida;
    Que por vs vezes mil a perderei.


CCIII.

    De frescas belvederes rodeadas
    Esto as puras guas desta fonte;
    Formosas Nymphas lhes esto defronte,
    A vencer e a matar acostumadas.
      Ando contra Cupido levantadas
    As suas graas, que no ha quem conte:
    D'outro valle esquecidas, d'outro monte,
    A vida passo neste socegadas.
      O seu poder juntou, sua valia
    Amor, ja no soffrendo este desprzo,
    Somente por se ver dellas vingado;
      Mas, vendo-as, entendeo que no podia
    De ser morto livrar-se, ou de ser przo,
    E ficou-se com ellas desarmado.


CCIV.

    Nos braos de hum Sylvano adormecendo
    Se estava aquella Nympha qu'eu adoro,
    Pagando com a boca o doce foro,
    Com que os meus olhos foi escurecendo.
      Oh bella Venus! porqu'ests soffrendo
    Que a maior formosura do teu cro
    Em hum poder to vil perca o decoro
    Que o merito maior lhe est devendo?
      Eu levarei daqui por presupposto
    Desta nova estranheza que fizeste,
    Que em ti no pde haver cousa segura.
      Que, pois o claro lume, o bello rosto
    quelle monstro to disforme dste,
    No creio qu'haja Amor, seno Ventura.


CCV.

    Quem diz que Amor he falso, ou enganoso,
    Ligeiro, ingrato, vo, desconhecido,
    Sem falta lhe ter bem merecido
    Que lhe seja cruel, ou rigoroso,
      Amor he brando, he doce, e he piedoso:
    Quem o contrrio diz no seja crido;
    Seja por cego e apaixonado tido,
    E aos homens, e inda aos deoses odioso.
      Se males faz Amor, em mi se vem;
    Em mi mostrando todo o seu rigor,
    Ao mundo quiz mostrar quanto podia.
      Mas todas suas iras so d'Amor;
    Todos estes seus males so hum bem,
    Qu'eu por todo outro bem no trocaria.


CCVI.

    Formosa Beatriz, tendes taes geitos
    N'hum brando revolver dos olhos bellos,
    Que s no contempl-los, se no ve-los,
    Se inflammo coraes e humanos peitos.
      Em toda perfeio so to perfeitos,
    Que o desengano do de merec-los:
    No pde haver quem possa conhec-los,
    Sem nelle Amor fazer grandes effeitos.
      Sentiro, por meu mal, to graves danos
    Os meus, que com os ver cegos e tristes
    Ficaro sem prazer, co'a luz perdida.
      Mas ja que vs com elles me feristes,
    Tornai-me a ver com elles mais humanos,
    E deixareis curada esta ferida.


CCVII.

    Alegres campos, verdes, deleitosos,
    Suaves me sero vossas boninas,
    Em quanto forem vistas das meninas
    Dos olhos de Ignez bella to formosos.
      Dos meus, que vos sero sempre invejosos
    Por no verem estrellas to divinas,
    Sereis regados d'guas peregrinas,
    Soprados de suspiros amorosos.
      E vs, douradas flores, por ventura
    Se Ignez quizer fazer de meus amores
    Exp'riencias na folha derradeira,
      Mostrai-lhe, para ver minha f pura,
    O bem que sempre quiz, formosas flores;
    Qu'ento no sentirei que mal me queira.


CCVIII.

    Ondados fios de ouro, onde enlaado.
    Continuamente tenho o pensamento;
    Que quanto mais vos slta o fresco vento,
    Mais preso fico ento de meu cuidado;
      Amor, d'huns bellos olhos sempre armado,
    Me combate co'as fras do tormento,
    Provando da minha alma o soffrimento
    Que  justa lei da paz trago obrigado.
      Assi que em vosso gesto mais que humano
    Amo a paz juntamente e o perigo;
    E em amar hum e outro no me engano.
      Muitas vezes dizendo estou comigo
    Que, pois he tal a causa de meu dano,
    He justa a guerra, he justa a paz que sigo.


CCIX.

    Amor, que em sonhos vos do pensamento
    Paga o zlo maior de seu cuidado,
    Em toda condio, em todo estado,
    Tributario me fez de seu tormento.
      Eu sirvo, eu canso; e o gro merecimento
    De quanto tenho a Amor sacrificado,
    Nas mos da ingratido despedaado
    Por prza vai do eterno esquecimento.
      Mas quando muito, em fim, cresa o perigo,
    A que perpetuamente me condena
    Amor, que amor no he, mas inimigo;
      Tenho hum grande descanso em minha pena,
    Que a gloria do querer, que tanto sigo,
    No pde ser co'os males mais pequena.


CCX.

    Nem o tremendo estrpito da guerra
    Com armas, com incendios espantosos
    Que despacho pelouros perigosos,
    Bastantes a abalar huma alta serra,
      Podem pr medo a quem nenhum encerra,
    Despois que vio os olhos to formosos,
    Por quem o horror nos casos pavorosos
    De mi todo se aparta e se desterra,
      A vida posso ao fogo e ferro dar,
    E perd-la em qualquer duro perigo,
    E nelle, como phenix, renovar.
      No pde mal haver para comigo,
    De qu'eu ja me no possa bem livrar,
    Seno do que me ordena Amor imigo.


CCXI.

    Fiou-se o corao, de muito isento,
    De si, cuidando mal que tomaria
    To illicito amor, tal ousadia,
    Tal modo nunca visto de tormento.
      Mas os olhos pintro to a tento
    Outros que vistos t[~e]e na phantasia,
    Que a razo, temerosa do que via,
    Fugio, deixando o campo ao pensamento.
       Hippolyto casto, que de geito
    De Phedra tua madrasta foste amado,
    Que no sabia ter nenhum respeito;
      Em mi vingou Amor teu casto peito:
    Mas est deste aggravo to vingado,
    Que se arrepende ja do que t[~e]e feito.


CCXII.

    Quem quizer ver d'amor huma excellencia
    Onde sua fineza mais se apura,
    Attente onde me pe minha ventura,
    Porque de minha f faa exp'riencia.
      Onde lembranas mata a larga ausencia,
    Em temeroso mar, em guerra dura,
    A saudade alli'st mais segura,
    Quando risco maior corre a paciencia.
      Mas ponha-me a Fortuna e o duro Fado,
    Em morte, ou nojo, ou damno, ou perdio,
    Ou em sublime e prspera ventura;
      Ponha-me, em fim, em baixo ou alto estado;
    Que at na dura morte me acharo
    Na lingua o nome, e n'alma a vista pura.


CCXIII.

    Los ojos que con blando movimiento
    Al pasar enternecen la alma mia,
    Si detener pudiera solo un dia,
    Pudiera bien libraria de tormento.
      Deste tan amoroso sentimiento
    El importuno mal se acabaria;
     tambien su accidente creceria
    Para acabar la vida en un momento.
      Oh! si ya tu esquivez me permitiese
    Que al ver, o Ninfa, tu semblante hermoso,
    A manos de tus ojos yo muriese!
      Oh si los detuvieras! cuan dichoso
    Seria aquel momento en que me viese
    Vida en ellos cobrar, cobrar reposo!


CCXIV.

    No bastaba que amor puro y ardiente
    Por trminos la vida me quitase;
    Mas que la muerte as se apresurase
    Con un deshumanisimo accidente?
      No pretendi mi alma, aunque lo siente,
    Que el riguroso curso se atajase,
    Porque nunca morir se exprimentase
    Desamado el que am tan dulcemente.
      Mas vuestra voluntad tan poderosa
    Con esas gracias vuestras ordenaron
    Crueldad asi imposible,  nunca oda.
      Aquel frio desden, y la amorosa
    Furia, de un golpe solo, me quitaron
    Con ds contrarias muertes una vida.


CCXV.

    Ayudame, Seora,  hacer venganza
    De tal selvatiquez, de tal rudeza,
    Pues de mi poquedad, de mi bajeza
    Osado  ti elevaba la esperanza.
       esa tu perfeccion, que no se alcanza,
     esas sublimes cumbres de belleza,
    Donde una vez lleg naturaleza,
    Mas de volver perdi la confianza.
      Aquello que en ti miro contemplando,
    (Que apenas contemplarlo me consiente)
    Contemplndolo mas, menos lo espero.
      Si gloria de mi pena en ti se siente,
    Derrama en m tus iras, desamando;
    Que al ofenderme mas yo mas te quiero.


CCXVI.

    O claras guas deste blando rio,
    Que en vos al natural estais pintando
    El frondfero adorno con que alzando
    Se v  los cielos este bosque umbrio;
      As las lluvias, as el Austro frio
    Jams puedan veniros enturbiando,
    Que os vais del seco estio preservando
    Con socorreros deste llanto mio.
      Y cuando en vos Marfisa se mirare,
    Mi figura, cual veis desfallecida,
    Ante sus claros ojos puesta sea.
      Y si por m de vos los apartare,
    De verme alli mostrndose ofendida,
    En pena de no verme no se vea.


CCXVII.

    Mil veces entre sueos tu figura,
    O bella Ninfa, claramente veo;
    Y cuando mas la miro, mas deseo
    Gozar libre de sueos su hermosura.
      En tanto que este dulce engao dura,
    Vivo en la vana gloria que poseo:
    Mas cuanto all se eleva mi deseo,
    Viene a caer despierto en sombra escura.
      Duleme el despertar por contemplarte;
    Que si bien s te huelgas de no verme,
    Hulgome de ser ciego por mirarte.
      Mas si quiero de engaos mantenerme,
    Y t quieres me pierda por amarte,
    Sin gran ganancia no podr perderme.


CCXVIII.

    Mi gusto y tu beldad se desposaron,
    Terceros por mi mal mis ojos fueron:
    Su logro ha sido tal, que, alfin, hicieron
    Un hijo hermoso  quien amor llamaron.
      Tan fuera de comps le regalaron,
    Que cuando mas alegres estuvieron,
    Sin entender el mal que produjeron,
    Perdidos por amores se miraron.
      La beldad desposada deste duelo,
    Vino  parir un monstro con ds alas;
    La madre es la soberbia, el nio el zelo.
      Oh madre que  tu hijo en todo igualas!
    Quien mortal hace al inmortal abuelo,
    Y al padre mortal da inmortales zalas?


CCXIX.

    Si el fuego que me enciende, consumido
    De algun mas suelto Aquario ser pudiese;
    Si el alto suspirar me convertiese
    En aire por el aire desparcido;
      Si un horrible rumor siendo sentido,
    La alma  dejar el cuerpo redujese;
     por estos mis ojos al mar fuese
    Este mi cuerpo en llanto convertido;
      Nunca podria la fortuna airada,
    Com todos sus horrores, sus espantos,
    Derrocar la alma mia de su gloria.
      Porque en vuestra beldad ya transformada,
    Ni del Estigio lago eternos llantos
    Os podrian quitar de mi memoria.


CCXX.

    Que me quereis perptuas saudades?
    Com qu'esperanas inda me enganais?
    O tempo, que se vai, no torna mais,
    E se torna, no torno as idades.
      Razo he ja,  annos, que vos vades,
    Porque estes to ligeiros que passais,
    Nem todos para hum gsto sois iguais,
    Nem sempre so conformes as vontades.
      Aquillo a que ja quiz he to mudado,
    Que quasi he outra cousa; porque os dias
    T[~e]e o primeiro gsto ja damnado.
      Esperanas de novas alegrias,
    No m'as deixa a Fortuna e o tempo irado,
    Que do contentamento so espias.


CCXXI.

    Oh rigorosa ausencia desejada
    De mi sempre, mas nunca conhecida!
    Saudade, n'outro tempo to temida,
    Como em meu damno agora exprimentada!
      Ja rigorosamente comeada
    Tendes vossa esperana em minha vida;
    Mas tanto, que ja temo que opprimida
    Sejais com ella cedo, ou acabada.
      Os dias mais alegres me entristecem;
    As noites, com cuidados as desconto,
    Em que sem vs sem conto me parecem.
      Eu desejando espero, e os annos conto;
    Mas com a vida, em fim, elles fallecem:
    Nem basta  carne enfrma esprito pronto.


CCXXII.

    Ay! quien dar  mis ojos una fuente
    De lgrimas que manen noche y dia?
    Respirara si quiera la alma mia,
    Llorando lo pasado, y lo presente.
      Quien me diera apartado de la gente,
    De mi dolor siguiendo la porfia
    Con la triste memoria y fantasia
    Del bien por quien mal tanto as se siente!
      Quien me dar palabras con que iguale
    El duro agravio que el amor me ha hecho,
    Donde tan poco el sufrimiento vale?
      Quien me abrir profundamente el pecho,
    D est escrito el secreto que no sale,
    Con tanto dolor mio,  mi despecho?


CCXXIII.

    Con razon os vais, aguas, fatigando
    Por llegar d sereis bien recebidas;
    Y en aquel mar inmenso convertidas,
    Que ya de tantos dias vais buscando.
      Triste de aquel que siempre anda llorando
    Las vanas esperanzas ya perdidas,
    Y con dolor las lgrimas vertidas
    Nunca al fin pretendido van llegando!
      Vosotras sin traer derecha via,
    Al trmino llegais tan deseado,
    Por mas que os embarace el gran rodeo;
      Mas yo siempre afligido noche y dia,
    Por un camino, que no llevo errado,
    Jams puedo llegar donde deseo.


CCXXIV.

    Oh cese ya, Seor, tu dura mano!
    No llegues tanto al cabo con mi vida;
    Baste el estar por ti tan consumida,
    Que ya no se halla en ella lugar sano.
      Ay estraa hermosura! ay deshumano
    Hado,  que nunca puedo hallar salida!
    Si t de tu piedad no eres movida,
    Roto el hilo vital vers temprano.
      Un blando desamor, un amor blando,
    Bien basta para un hombre tan perdido,
    Que de su mal ningun remedio espera.
      Y si estimas en poco el ver cual ando,
    Aqui me tienes ante ti rendido:
    Viva tu gusto, mi esperanza muera.


CCXXV.

    Dulces engaos de mis ojos tristes,
    Cuan vivo despertais mi pensamiento!
    Aquello que pudiera dar contento,
    En sombra de pintura lo volvistes.
      De blando sobresalto enternecistes
    Con vista arrebatada el sentimiento;
    Mas no le asegurastes un momento
    Aqueste vano bien que le ofrecistes.
      Veo que la figura era fingida,
    Y no aquella que en s mi alma esconde,
    Aunque en esto se llega al natural:
      As escucha mi llanto, as responde,
    As se condolece de mi vida,
    Como si fuera el propio original.


CCXXVI.

    Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste,
    Como si alguno alegre yo esperara?
    Como, o Tajo, al pasar esa tu clara
    Agua, no la alteraste, y no me hundiste?
      El paso me cerraste, el pecho abriste,
    O mi ventura, de mi bien avara!
     Dios, montaas de hermosura rara;
     Dios, mi corazon, que no partiste.
      Si adonde quedas en dichosa suerte
    No bebieres las aguas del olvido,
    En tanto bien no quieras olvidarme.
      Cantando mi dolor llora mi muerte;
    Porque hasta el hueco monte sin sentido
    Suelta su ronca voz por consolarme.


CCXXVII.

    Levantai, minhas Tagides, a frente,
    Deixando o Tejo s sombras nemorosas;
    Dourai o valle umbroso, as frescas rosas,
    E o monte com as rvores frondente.
      Fique de vs hum pouco o rio ausente,
    Cessem agora as lyras numerosas,
    Cesse vosso lavor, Nymphas formosas,
    Cesse da fonte vossa a gr corrente.
      Vinde a ver a Theodosio grande e claro,
    A quem 'st offrecendo maior canto
    Na cithara dourada o louro Apolo.
      Minerva do saber d-lhe o dom raro,
    Pallas lhe d o valor de mais espanto,
    E a Fama o leva ja de plo a plo.


CCXXVIII.

    Vs, Nymphas da Gangetica espessura,
    Cantae suavemente, em voz sonora,
    Hum grande Capito que a roxa Aurora
    Dos filhos defendeo da noite escura.
      Ajuntou-se a caterva negra e dura,
    Que na Aurea Chersoneso affouta mora,
    Para lanar do charo ninho fra
    Aquelles que mais podem que a ventura.
      Mas hum forte leo, com pouca gente,
    A multido to fera como necia,
    Destruindo castiga e torna fraca.
       Nymphas, cantai, pois; que claramente
    Mais do que Leonidas fez em Grecia,
    O nobre Leoniz fez em Malaca.


CCXXIX.

    Alma gentil, que  firme eternidade
    Subiste clara e valerosamente,
    C durar de ti perpetuamente
    A fama, a gloria, o nome e a saudade.
      No sei se he mor espanto em tal idade
    Deixar de teu valor inveja  gente,
    Se hum peito de diamante, ou de serpente,
    Fazeres que se mova a piedade.
      Invejosa da tua acho mil sortes,
    E a minha mais que todas invejosa,
    Pois ao teu mal o meu tanto igualaste.
      Oh ditoso morrer! sorte ditosa!
    Pois o que no se alcana com mil mortes,
    Tu com huma s morte o alcanaste.


CCXXX.

    Debaixo desta pedra sepultada
    Jaz do mundo a mais nobre formosura,
    A quem a morte, s de inveja pura,
    Sem tempo sua vida t[~e]e roubada,
      Sem ter respeito quella assi estremada
    Gentileza de luz, que a noite escura
    Tornava em claro dia; cuja alvura
    Do sol a clara luz tinha eclipsada.
      Do sol peitada foste, cruel morte,
    Para o livrar de quem o escurecia;
    E da lua, que ante ella luz no tinha.
      Como de tal poder tiveste sorte?
    E se a tiveste, como to asinha
    Tornaste a luz do mundo em terra fria?


CCXXXI.

    Imagens vas me imprime a phantasia;
    Discursos novos acha o pensamento;
    Com que do  minha alma gro tormento
    Cuidados de cem annos n'hum s dia.
      Se fim grande tivessem, bem sera
    Responder a esperana ao fundamento:
    Mas o fado no corre to a tento,
    Que reserve  razo sua valia.
      Caso e Fortuna pdem acertar;
    Mas se por accidente do victoria,
    Sempre o favor da Fama he falsa historia.
      Excede ao saber, determinar:
     constancia se deve toda a gloria:
    O nimo livre he digno de memoria.


CCXXXII.

    Quanta incerta esperana, quanto engano!
    Quanto viver de falsos pensamentos!
    Pois todos vo fazer seus fundamentos
    S no mesmo em qu'est seu proprio dano.
      Na incerta vida estribo de hum humano;
    Do credito a palavras que so ventos;
    Chro despois as horas e os momentos,
    Que rro com mais gsto em todo o ano.
      No haja em apparencias confianas;
    Entendei que o viver he de emprestado;
    Que o de que vive o mundo so mudanas.
      Mudai, pois, o sentido e o cuidado,
    Somente amando aquellas esperanas
    Que duro para sempre com o amado.


CCXXXIII.

    Mal, que de tempo em tempo vs crescendo,
    Quem te visse de hum bem acompanhado!
    A vida passaria descansado,
    Da morte no temra o rosto horrendo.
      Se os vos cuidados fra convertendo
    Em suspiros que do outro cuidado,
    Oh quo prudente, oh quo affortunado
    A capella do louro ir tecendo!
      Tempo he ja de esquecer contentamentos
    Passados, co'a esperana que passou,
    E de que triumphem novos pensamentos.
      A f, que viva n'alma me ficou,
    D ja fim aos caducos ardimentos
    A que o passado bem se condemnou.


CCXXXIV.

    Oh quanto melhor he o supremo dia
    Da mansa morte, que o do nascimento!
    Oh quanto melhor he hum s momento,
    Que livra de annos tantos de agonia!
      De alcanar outro bem cesse a porfia;
    Cesse todo applicado pensamento
    De tudo quanto d contentamento,
    Pois s contenta ao corpo a terra fria.
      O que do seu fez Deos seu despenseiro,
    T[~e]e mais estreita conta que lhe dar:
    Ento parece rico o ovelheiro.
      Triste de quem no dia derradeiro
    T[~e]e o suor alheio por pagar,
    Pois a alma ha de vender por o dinheiro!


CCXXXV.

    Como podes (oh cego peccador!)
    Estar em teus errores to isento,
    Sabendo que esta vida he hum momento,
    Se comparada com a eterna for?
      No cuides tu que o justo Julgador
    Deixar tuas culpas sem tormento,
    Nem que passando vai o tempo lento
    Do dia de horrendssimo pavor.
      No gastes horas, dias, mezes, anos,
    Em seguir de teus damnos a amisade
    De que despois resulto mores danos.
      E pois de teus enganos a verdade
    Conheces, deixa ja tantos enganos,
    Pedindo a Deos perdo com humildade.


CCXXXVI.

    Verdade, Amor, Razo, Merecimento,
    Qualquer alma faro segura e forte;
    Porm Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte,
    T[~e]e do confuso mundo o regimento.
      Effeitos mil revolve o pensamento,
    E no sabe a que causa se reporte:
    Mas sabe que o que he mais que vida e morte
    No se alcana de humano entendimento.
      Doctos vares daro razes subidas;
    Mas so as exp'riencias mais provadas:
    E por tanto he melhor ter muito visto.
      Cousas ha hi que passo sem ser cridas:
    E cousas cridas ha sem ser passadas.
    Mas o melhor de tudo he crer em Christo.


CCXXXVII.

    De Babel sbre os rios nos sentmos,
    De nossa doce patria desterrados,
    As mos na face, os olhos derribados,
    Com saudades de ti, Sio, chormos.
      Os orgos nos salgueiros pendurmos,
    Em outro tempo bem de ns tocados;
    Outro era elle, por certo, outros cuidados;
    Mas por deixar saudades os deixmos.
      Aquelles que captivos nos trazio
    Por cantigas alegres perguntavo:
    Cantai (nos dizem) hymnos de Sio.
      Sbre tal pena, pena tal nos do,
    Pois tyranicamente pretendio
    Que cantassem aquelles que choravo.


CCXXXVIII.

    Sbre os rios do Reino escuro, quando
    Tristes, quaes nossas culpas o ordenro,
    Lagrimas nossos olhos derramro,
    Por ti, Sio divina, suspirando,
      Os que hio nossas almas infestando,
    De contino em error, as captivro;
    E em vo por nossos Psalmos perguntro;
    Que tudo era silencio miserando.
      Dizendo estamos: Como cantaremos
    As acceitas canes a Deos benino,
    Quando a contrarios seus obedecemos?
      Mas ja, Senhor s Santo, determino,
    Deixando viciosissimos extremos,
    Os cantos proseguir de Amor Divino.


CCXXXIX.

    Em Babylonia sbre os rios, quando
    De ti, Sio sagrada, nos lembrmos,
    Alli com gr saudade nos sentmos,
    O bem perdido, miseros, chorando.
      Os instrumentos musicos deixando,
    Nos estranhos salgueiros pendurmos,
    Quando aos cantares, que ja em ti cantmos,
    Nos estavo imigos incitando.
      s esquadras dizemos inimigas:
    Como hemos de cantar em terra alhea
    As cantigas de Deos, sacras cantigas?
      Se a lembrana eu perder que me recrea
    C nestas penosissimas fadigas,
    _Oblivioni detur dextra mea._


CCXL.

    Aponta a bella Aurora, luz primeira,
    Que a gr nova nos deo do claro dia:
    Vesti-vos, coraes, ja de alegria,
    E recebei da vida a Mensageira.
      Da humana Redempo nasce a Terceira:
    Alegra-te, Divina Monarchia;
    Da terra ters cedo a companhia,
    Do ceo vers tambem a nossa feira.
      De tal obra se espanta a natureza,
    Confuso fica de temor o inferno,
    Vendo a que nasce isenta da defeza.
      Lei geral era posta desde eterno;
    Mas o Senhor da Lei toda limpeza
    Para o Sacrario seu guardou Materno.


CCXLI.

    Porque a terra no ceo agasalhasse,
    O ceo na terra Deos agasalhou:
    L no cabendo, c se accommodou,
    Porque l, de c indo, se alargasse.
      Porqu'o homem a ser Deos por Deos chegasse,
    Por o homem a ser homem Deos chegou:
    Seu divino poder tanto humanou,
    Porque o humano em divino se tornasse.
      Vde bem o que deo e recebeo:
    No se perca hum bem tanto da memoria:
    Deo-nos a vida, a morte padeceo.
      Trocou por nossa pena a sua gloria;
    Deo-nos o triumpho qu'elle mereceo;
    Porque amor foi auctor desta victoria.


CCXLII.

    Qu'estilla a Arvore sacra? Hum licor santo.
    Para quem? Para o genero he humano.
    Que faz delle? Hum remedio soberano.
    Para que? Para a culpa e triste pranto.
      E que obra? Reduzir Lusbel a espanto.
    Porque? Porque co'hum pomo fez gro dano.
    Que foi? A morte deo com hum engano.
    Tanto pde? Sem falta pde tanto.
      Quem sobe a ella? Quem do ceo desceo.
    A que desce? A subir a creatura.
    Que quiz da terra? S lev-la ao Ceo.
      He escada para ir l? E a mais segura.
    Quem o obrigou? De amor s se venceo.
    Que amava este Feitor? Sua feitura.


CCXLIII.

    Oh Arma unicamente s triumphante,
    Propugnaculo s de nossas vidas,
    Por quem foro ganhadas as perdidas
    Com que o Tartaro horrendo andava ovante!
      Sigua-se esta bandeira militante
    Por quem so taes victorias conseguidas,
    Por quantas almas, della divertidas,
    No Ponente erro c, l no Levante.
      Oh Arvore sublime, e marchetada
    De branco e carmesi, de ouro embutida,
    Dos rubis mais preciosos esmaltada,
      E de trophos mais claros guarnecida!
     vida a morte vimos em ti dada,
    Para qu'em ti se dsse  morte a vida.


CCXLIV.

    Aos homens hum s homem poz espanto,
    E o poz a toda a humana natureza;
    Que de homem teve o ser, de Anjo a pureza,
    Porqu'antes que nascesse era ja Santo.
      Propheta foi na Me; em fim, foi tanto,
    Qu'entre os nascidos houve a mor alteza;
    Que da Luz, sem a ver, vio a grandeza,
    Tendo por trompa o Verbo Sacrosanto.
      Aquella voz foi elle sonorosa,
    No concavo dos Orbes resonante,
    E que a Carne inculpavel baptizou;
      Quem do mor Pae ouvio a voz amante;
    Quem a subtil pergunta industriosa
    Com sincera resposta socegou.


CCXLV.

    Vs s podeis, sagrado Evangelista,
    Angelico abrazado Seraphim,
    E na sciencia mais alto Cherubim,
    Do que he mais sabio Amor ser Coronista.
      Divina e real Aguia, cuja vista
    Vio o qu'he sem princpio, o qu'he sem fim,
    De Jacob mais querido Benjamim,
    Quem mais campa de Joseph na lista.
      Apostolo, e Propheta, e Patriarca,
    Ao Principe dos Ceos o mais acceito,
    Qu'em seu seio dormindo ento mais via.
      A quem o mesmo Deos por irmo marca;
    Quem por filho da Me unica feito,
    Em corpo e alma goza o claro dia.


CCXLVI.

    Como louvarei eu, Seraphim santo,
    Tanta humildade, tanta penitencia,
    Castidade, e pobreza, e paciencia,
    Com este meu inculto e rudo canto?
      Argumento que s Musas pe espanto,
    Que faz muda a grandiloqua eloquencia.
    Oh imagem, qu'a Divina Providencia
    De si viva em vs fez para bem tanto!
      Fostes de Santos huma rara mina;
    Almas de mil a mil ao ceo mandastes
    Do mundo, que perdido reformastes.
      E no roubaveis s com a doutrina
    As vontades mortaes, mas a Divina;
    Pois os seus rubis cinco lhe roubastes.


CCXLVII.

    Ditosas almas, que ambas juntamente
    Ao ceo de Venus e de Amor voastes,
    Onde hum bem que to breve c lograstes,
    Estais logrando agora eternamente;
      Aquelle estado vosso to contente,
    Que s por durar pouco triste achastes,
    Por outro mais contente ja o trocastes,
    Onde sem sobresalto o bem se sente.
      Triste de quem c vive to cercado,
    Na amorosa fineza, de hum tormento
    Que a gloria lhe perturba mais crescida!
      Triste, pois me no val o soffrimento,
    E Amor para mais damno me t[~e]e dado
    Para to duro mal to larga vida!


CCXLVIII.

    Contente vivi ja, vendo-me isento
    Deste mal de que a muitos queixar via:
    Chamo-lhe amor; mas eu lhe chamaria
    Discordia e semrazo, guerra e tormento.
      Enganou-me co'o nome o pensamento:
    (Quem com tal nome no se enganaria?)
    Agora tal estou, que temo hum dia
    Em que venha a faltar-me o soffrimento.
      Com desesperao, e com desejo
    Me paga o que por elle estou passando,
    E inda est do meu mal mal satisfeito.
      Pois sbre tantos damnos inda vejo
    Para dar-me outros mil hum olhar brando,
    E para os no curar hum duro peito.


CCXLIX.

    Deixa Apollo o correr to apressado,
    No sigas essa Nympha to ufano:
    No te leva o amor, leva-te o engano
    Com sombras de algum bem a mal dobrado.
      E quando seja amor, ser forado;
    E se forado for, ser teu dano.
    Hum parecer no queiras mais que humano
    Em hum sylvestre adrno ver tornado.
      No percas por hum vo contentamento
    A vista que te faz viver contente;
    Modera em teu favor o pensamento.
      Porque menos mal he, tendo-a presente,
    Soffrer sua crueza, e teu tormento,
    Que sentir sua ausencia eternamente.


CCL.

    Nas Cidades, nos bosques, nas florestas,
    Nos valles, e nos montes, teus louvores
    Sempre te cantem musicos pastores
    Nas manhas frias, nas ardentes sestas.
      E neste Templo donde manifestas
    E repartes agora teus favores,
    Com Psalmos, hymnos, e com varias flores
    Sejo celebres sempre as tuas festas.
      Estes te offreo ps, ess'outros mos;
    D'aquelles pendo sbre os teus altares
    Monstros do mar, de servido prises.
      Que eu cuidados, enganos e affeies,
    Muito maiores monstros, e milhares
    Te deixo aqui de pensamentos vos.


CCLI.

    Vi queixosos de Amor mil namorados,
    E nenhuns inda vi com seus louvores;
    E aquelle que mais chora o mal de amores,
    Vejo menos fugir de seus cuidados.
      Se das dores de Amor sois mal tratados,
    Porque tanto buscais de Amor as dores?
    E se tambem as tendes por favores,
    Porque dellas fallais como aggravados?
      No queirais alegria achar alg[~u]a
    No Amor, porque he composto de tristeza,
    Na fortuna que acheis mais agradavel.
      Nella e nelle achei sempre a mesma l[~u]a,
    Em quem nunca se vio outra firmeza,
    Que no seja a de ser sempre mudavel.


CCLII.

    Se lagrimas choradas de verdade
    O marmore abrandar podem mais duro,
    Porque as minhas que nascem de amor puro
    Hum corao no rendem a piedade?
      Por vs perdi, Senhora, a liberdade,
    E nem da propria vida estou seguro.
    Rompei desse rigor o forte muro,
    No passe tanto avante a crueldade.
      Ao prezar de desprezos dae ja fim:
    No vos chamem cruel; nome devido
    A quem se ri de quem suspira e ama.
      Abrandai esse peito endurecido,
    Por o que toca a vs, ja no por mim,
    Que eu aventuro a vida, e vs a fama.


CCLIII.

    Ja me fundei em vos contentamentos,
    Quando delles vivi todo enganado
    De hum phantastico bem, e de hum cuidado,
    De que s cuido cegos pensamentos.
      Passava dias, horas e momentos,
    Deste enleio de amores to pagado,
    Que tinha s por bem-aventurado
    Quem s por elles mais bebia os ventos.
      Mas agora que ja cahi na conta,
    Desengana-me quanto me enganava;
    Que tudo o tempo d, tudo descobre.
      O Amor mais caudaloso menos monta.
    Qu'he de gostos mais rico, eu ignorava,
    Aquelle que de amores he mais pobre.


CCLIV.

    Em huma lapa toda tenebrosa,
    Adonde bate o mar com furia brava,
    Sbre h[~u]a mo o rosto, vi qu'estava
    Huma Nympha gentil, mas cuidadosa.
      Igualmente que linda, lastimosa,
    Aljofar dos seus olhos distillava:
    O mar os seus furores applacava
    Com ver cousa to triste e to formosa.
      Alguma vez na horrivel penedia
    Os bellos olhos punha com brandura,
    Bastante a desfazer sua dureza.
      Com angelica voz assi dizia:
    Ah! que falte mais vezes a ventura
    Onde sobeja mais a natureza!


CCLV.

    Se em mim,  alma, vive mais lembrana
    Que aquella s da gloria de querer-vos,
    Eu perca todo o bem que lgro em ver-vos,
    E de ver-vos tambem toda a esperana.
      Veja-se em mi to rustica esquivana,
    Que possa indigno ser de conhecer-vos;
    E, quando em mor empenho de aprazer-vos,
    Vos offenda, se em mi houver mudana.
      Confirmado estou ja nesta certeza:
    Examine-me vossa crueldade,
    Exprimente-se em mi vossa dureza.
      Conhecei ja de mi tanta verdade;
    Pois em penhor e f desta pureza
    Tributo vos fiz ser o que he vontade.


CCLVI.

    Ilustre Gracia, nombre de una moza,
    Primera malhechora en este caso
     Mondoedo,  Palma, al cojo Traso,
    Sugeto digno de immortal coroza;
      Si en medio de la Iglesia no reboza
    El manto  vuestro rostro tan devaso,
    Por vos dirn las gentes recio y paso:
    Veis quien con el demonio se retoza.
      Puede mover los montes sin trabajo;
    Con palabras el curso al agua enfrena;
    Por las ondas har camino enjuto.
      Averguenza su patria y rico Tajo,
    Que por ella hombres lleva, mas que arena,
    De que paga al infierno gran tributo.


CCLVII.

    Qual t[~e]e a borboleta por costume,
    Qu'enlevada na luz da acesa vella,
    Dando vai voltas mil, at que nella
    Se queima agora, agora se consume:
      Tal eu correndo vou ao vivo lume
    D'esses olhos gentis, Aonia bella;
    E abrazo-me, por mais que com cautella
    Livrar-me a parte racional presume.
      Conheo o muito a que se atreve a vista,
    O quanto se levanta o pensamento,
    O como vou morrendo claramente;
      Porm no quer Amor que lhe resista,
    Nem a minh'alma o quer; qu'em tal tormento,
    Qual em gloria maior est contente.


CCLVIII.

    Lembranas de meu bem, doces lembranas
    Que to vivas estais nesta alma minha,
    No queirais mais de mi, se os bens que tinha
    Em poder vdes todos de mudanas.
      Ai cego Amor! ai mortas esperanas
    De qu'eu em outro tempo me matinha!
    Agora deixareis quem vos sostinha;
    Acabaro co'a vida as confianas.
      Co'a vida acabaro, pois a ventura
    Me roubou n'hum momento aquella gloria,
    Que, quando to grande he, to pouco dura.
      Oh se apoz o prazer fra a memoria!
    Ao menos estivera a alma segura
    De ganhar-se com ella mais victoria.


CCLIX.

    Formosos olhos, que cuidado dais
     mesma luz do sol mais clara e pura;
    Que sua esclarecida formosura,
    Com tanta gloria vossa, atraz deixais;
      Se por serdes to bellos desprezais
    A fineza de amor que vos procura,
    Pois tanto vdes, vde que no dura
    O vosso resplandor quanto cuidais.
      Colhei, colhei do tempo fugitivo
    E de vossa belleza o doce fruto;
    Qu'em vo fra de tempo he desejado.
      E a mi, que por vs morro, e por vs vivo,
    Fazei pagar a Amor o seu tributo,
    Contente de por vs lho haver pagado.


CCLX.

    Pues siempre sin cesar, mais ojos tristes,
    En lgrimas tratais la noche el dia,
    Mirad si es lgrima esta que os envia
    Aquel sol por quien vos tantas vertistes.
      Si vos me asegurais, pues ya la vistes,
    Que es lgrima, ser ventura mia;
    Por empleadas bien desde hoy tendria
    Las muchas que por ella sola distes.
      Mas cualquier cosa mucho deseada,
    Aunque viendo se est, nunca es creida;
    Y menos esta, nunca imaginada.
      Pero della aseguro, si es fingida,
    Que basta ser por lgrima enviada,
    Para que sea por lgrima tenida.


CCLXI.

    T[~e]e feito os olhos neste apartamento
    Hum mar de saudosa tempestade,
    Que pde dar saudade  saudade,
    Sentimentos ao proprio sentimento.
      Em dor vai convertido o soffrimento,
    Em pena convertida a piedade;
    A razo to vencida da vontade,
    Qu'escravo faz do mal o entendimento.
      A lingua no alcana o qu'a alma sente.
    E assi, se alguem quizer em algum'hora
    Saber que cousa he dor no comprehendida,
      Parta-se do seu bem, porque exprimente
    Qu'antes de se partir, melhor lhe fra
    Partir-se do viver para ter vida.


CCLXII.

    A peregrinao d'hum pensamento,
    Que dos males fez hbito e costume,
    Tanto da triste vida me consume,
    Quanto cresce na causa do tormento.
      Leva a dor de vencida ao soffrimento;
    Mas a alma est, de entregue, to sem lume,
    Qu'enlevada no bem que haver presume,
    No faz caso do mal qu'est de assento.
      De longe receei (se me valra)
    O perigo que tanto  porta vejo,
    Quando no acho em mi cousa segura.
      Mas ja conheo, (oh nunca o conhecra!)
    Qu'entendimentos presos do desejo
    No t[~e]e remedio mais que o da ventura.


CCLXIII.

    Acho-me da fortuna salteado;
    O tempo vai fugindo presuroso,
    Deixando-me da vida duvidoso,
    E cada instante mais desesperado.
      Trocou-se o meu descuido em tal cuidado,
    Que donde a gloria he mais, he mais penoso.
    Nem vivo de perder-me receoso,
    Nem de poder ganhar-me confiado.
      Qualquer ave nos montes mais agrestes,
    Qualquer fera na cova repousando,
    T[~e]e horas de alegria: eu todas tristes.
      Vs, saudosos olhos, que o quizestes,
    (Pois com tormento Amor me est pagando)
    Chorai, como que vdes, o que vistes.


CCLXIV.

    Se no que tenho dito vos offendo,
    No he a inteno minha de offender-vos;
    Qu'inda que no pretenda merecer-vos,
    No vos desmerecer sempre pretendo.
      Mas he meu fado tal, segundo entendo,
    Que, por quanto ganhava em entender-vos,
    No me deixa atgora conhecer-vos,
    Por a mi proprio m'ir desconhecendo.
      Os dias ajudados da ventura
    A cada qual de si do desenganos,
    E a outros soe da-lo a desventura.
      Qual destas sirva a mi, diro os danos
    Ou gostos que eu tiver, em quanto dura
    Esta vida, to larga em poucos anos.


CCLXV.

    Doce contentamento ja passado,
    Em que todo o meu bem s consistia,
    Quem vos levou de minha companhia,
    E me deixou de vs to apartado?
      Quem cuidou que se visse neste estado
    Naquellas breves horas d'alegria,
    Quando minha ventura consentia
    Que d'enganos vivesse meu cuidado?
      Fortuna minha foi cruel e dura
    Aquella que causou meu perdimento,
    Com a qual ninguem pde ter cautella.
      Nem se engane nenhuma creatura;
    Que no pde nenhum impedimento
    Fugir o que lh'ordena sua estrella.


CCLXVI.

    Sempre, cruel Senhora, receei,
    Medindo vossa gr desconfiana,
    Que dsse em desamor vossa tardana,
    E que me perdesse eu, pois vos amei.
      Perca-se, em fim, ja tudo o qu'esperei,
    Pois n'outro amor ja tendes esperana.
    To patente ser vossa mudana,
    Quanto eu encobri sempre o que vos dei.
      Dei-vos a alma, a vida e o sentido;
    De tudo o qu'em mi ha vos fiz senhora.
    Prometteis, e negais o mesmo Amor.
      Agora tal estou, que de perdido,
    No sei por onde vou, mas algum'hora
    Vos dar tal lembrana grande dor.


CCLXVII.

    Se a fortuna inquieta e mal olhada,
    Que a justa lei do Ceo comsigo infama,
    A vida quieta, qu'ella mais dasama,
    Me concedra honesta e repousada;
      Pudra ser que a Musa, alevantada
    Com luz de mais ardente e viva flama,
    Fizera ao Tejo l na patria cama
    Adormecer co'o som da lyra amada.
      Porm, pois o destino trabalhoso,
    Que m'escurece a Musa fraca e lassa,
    Louvor de tanto preo no sustenta;
      A vossa, de louvar-me pouco escassa,
    Outro sogeito busque valeroso,
    Tal qual em vs ao mundo se apresenta.


CCLXVIII.

    Este amor, que vos tenho limpo e puro,
    De pensamento vil nunca tocado,
    Em minha tenra idade comeado,
    T-lo dentro nesta alma s procuro.
      D'haver nelle mudana estou seguro,
    Sem temer nenhum caso, ou duro fado,
    Nem o supremo bem, ou baixo estado,
    Nem o tempo presente, nem futuro.
      A bonina e a flor asinha passa;
    Tudo por terra o inverno e estio deita;
    S para meu amor he sempre Maio.
      Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa,
    E qu'essa ingratido tudo me engeita,
    Traz este meu amor sempre em desmaio.


CCLXIX.

    A formosura desta fresca serra,
    E a sombra dos verdes castanheiros,
    O manso caminhar destes ribeiros,
    Donde toda a tristeza se desterra;
      O rouco som do mar, a estranha terra,
    O esconder do sol pelos outeiros,
    O recolher dos gados derradeiros,
    Das nuvens pelo ar a branda guerra:
      Em fim, tudo o que a rara natureza
    Com tanta variedade nos offrece,
    M'est (se no te vejo) magoando.
      Sem ti tudo me enoja, e me aborrece;
    Sem ti perpetuamente estou passando
    Nas mores alegrias mr tristeza.


CCLXX.

    Sustenta meu viver huma esperana
    Derivada de hum bem to desejado,
    Que quando nella estou mais confiado,
    Mor dvida me pe qualquer mudana.
      E quando inda este bem na mr pujana
    De seus gostos me t[~e]e mais enlevado,
    Me atormenta ento ver eu qu'alcanado
    Ser por quem de vs no t[~e]e lembrana.
      Assi que, nestas redes enlaado,
    A penas dou a vida, sustentando
    Huma nova materia a meu cuidado.
      Suspiros d'alma tristes arrancando,
    Dos silvos d'huma pedra acompanhado,
    Estou materias tristes lamentando.


CCLXXI.

    Ja no sinto, Senhora, os desenganos,
    Com que minha affeio sempre tratastes,
    Nem ver o galardo, que me negastes,
    Merecido por f ha tantos anos.
      A mgoa chro s, s chro os danos
    De ver por quem, Senhora, me trocastes;
    Mas em tal caso vs s me vingastes
    De vossa ingratido, vossos enganos.
      Dobrada gloria d qualquer vingana,
    Que o offendido toma do culpado,
    Quando se satisfaz com causa justa;
      Mas eu de vossos males e esquivana,
    De que agora me vejo bem vingado,
    No a quizera tanto  vossa custa.


CCLXXII.

    Quando, Senhora, quiz Amor qu'amasse
    Essa gr perfeio e gentileza,
    Logo deo por sentena, que a crueza
    Em vosso peito amor accrescentasse.
      Determinou, que nada me apartasse,
    Nem desfavor cruel, nem aspereza;
    Mas qu'em minha rarissima firmeza
    Vossa iseno cruel se executasse.
      E, pois tendes aqui offerecida
    Est'alma vossa a vosso sacrificio,
    Acabai de fartar vossa vontade.
      No lhe alargueis, Senhora, mais a vida;
    Acabar morrendo em seu officio,
    Sua f defendendo e lealdade.


CCLXXIII.

    Eu vivia de lagrimas isento,
    N'hum engano to doce e deleitoso,
    Qu'em qu'outro amante fosse mais ditoso
    No valio mil glorias hum tormento.
      Vendo-me possuir tal pensamento,
    De nenhuma riqueza era invejoso;
    Vivia bem, de nada receoso,
    Com doce amor e doce sentimento.
      Cobiosa a Fortuna, me tirou
    Deste meu to contente e alegre estado;
    E passou-se este bem, que nunca fra:
      Em trco do qual bem s me deixou
    Lembranas, que me mto cada hora,
    Trazendo-me  memoria o bem passado.


CCLXXIV.

    Indo o triste pastor todo embebido
    Na sombra de seu doce pensamento,
    Taes queixas espalhava ao leve vento,
    Co'hum brando suspirar d'alma sahido:
      A quem me queixarei, cego, perdido,
    Pois nas pedras no acho sentimento?
    Com quem fallo? A quem digo meu tormento?
    Que onde mais chamo, sou menos ouvido.
       bella Nympha, porque no respondes?
    Porque o olhar-me tanto m'encareces?
    Porque queres que sempre me querelle?
      Eu quanto mais te busco, mais te escondes!
    Quanto mais mal me vs, mais te endureces!
    Assim que co'o mal cresce a causa delle.


CCLXXV.

    Dizei, Senhora, da belleza ida,
    Para fazerdes esse aureo crino,
    Onde fostes buscar esse ouro fino?
    De qu'escondida mina ou de que va?
      Dos vossos olhos essa luz Pheba,
    Esse respeito, de hum Imperio dino?
    Se o alcanastes com saber divino,
    Se com encantamentos de Meda?
      De qu'escondidas conchas escolhestes
    As perlas preciosas Orientais,
    Que fallando mostrais no doce riso?
      Pois vos formastes tal, como quizestes,
    Vigiai-vos de vs, no vos vejais,
    Fugi das fontes; lembre-vos Narciso.


CCLXXVI.

    Na ribeira do Euphrates assentado,
    Discorrendo me achei pela memoria
    Aquelle breve bem, aquella gloria,
    Que em ti, doce Sio, tinha passado.
      Da causa de meus males perguntado
    Me foi: Como no cantas a historia
    De teu passado bem, e da victoria
    Que sempre de teu mal has alcanado?
      No sabes, que a quem canta se lhe esquece
    O mal, indaque grave e rigoroso?
    Canta pois, e no chores dessa sorte.
      Respondi com suspiros: Quando crece
    A muita saudade, o piedoso
    Remedio he no cantar, seno a morte.


CCLXXVII.

    Chorai, Nymphas, os fados poderosos
    Daquella soberana formosura.
    Onde foro parar? na sepultura?
    Aquelles Reaes olhos graciosos?
      Oh bens do mundo falsos e enganosos!
    Que mgoas para ouvir! Que tal figura
    Jaza sem resplandor na terra dura
    Com tal rosto e cabellos to formosos!
      Das outras que ser! pois poder teve
    A morte sbre cousa tanto bella,
    Que ella eclipsava a luz do claro dia.
      Mas o mundo no era digno della,
    Por isso mais na terra no esteve,
    Ao ceo subio, que ja se lhe devia.


CCLXXVIII.

    Senhora ja desta alma, perdoae
    De hum vencido de Amor os desatinos,
    E sejo vossos olhos to beninos
    Com este puro amor, que d'alma sae.
      A minha pura f smente olhae,
    E vde meus extremos se so finos;
    E se de alguma pena forem dinos,
    Em mim, Senhora minha, vos vingae.
      No seja a dor que abraza o triste peito
    Causa por onde pene o corao,
    Que tanto em firme amor vos he sujeito.
      Guardae-vos do que alguns, dama, diro,
    Que sendo raro em tudo vosso objeito,
    Possa morar em vs ingratido.


CCLXXIX.

    Doce sonho, suave e soberano,
    Se por mais longo tempo me durra!
    Ah quem de sonho tal nunca acordra,
    Pois havia de ver tal desengano!
      Ah deleitoso bem! ah doce engano!
    Se por mais largo espao me enganra!
    Se ento a vida misera acabra,
    De alegria e prazer morrra ufano.
      Ditoso, no estando em mi, pois tive
    Dormindo o que acordado ter quizera.
    Olhae com que me paga meu destino!
      Em fim, fra de mim ditoso estive.
    Em mentiras ter dita razo era,
    Pois sempre nas verdades fui mofino.


CCLXXX.

    Diana prateada, esclarecida
    Com a luz que do claro Phebo ardente,
    Por ser de natureza transparente,
    Em si, como em espelho, reluzia,
      Cem mil milhes de graas lhe influia,
    Quando me appareceo o excellente
    Raio de vosso aspecto, diferente
    Em graa e em amor do que sohia.
      Eu vendo-me to cheio de favores,
    E to propinquo a ser de todo vosso,
    Louvei a hora clara, e a noite escura,
      Pois nella dstes cr a meus amores:
    Donde collijo claro que no posso
    De dia para vs ja ter ventura.


CCLXXXI.

    Em quanto Phebo os montes accendia
    Do ceo com luminosa claridade,
    Por conservar illesa a castidade
    Na caa o tempo Delia despendia.
      Venus, qu' ento de furto descendia
    Por captivar de Anchises a vontade,
    Vendo Diana em tanta honestidade,
    Quasi zombando della, lhe dizia:
      Tu vs com tuas redes na espessura
    Os fugitivos cervos enredando;
    Mas as minhas enredo o sentido.
      Melhor he (respondia a deosa pura)
    Nas redes leves cervos ir tomando,
    Que tomar-te a ti nellas teu marido.


CCLXXXII.

    N'hum to alto lugar, de tanto preo,
    Este meu pensamento posto vejo,
    Que desfallece nelle inda o desejo,
    Vendo quanto par mi o desmereo.
      Quando esta tal baixeza em mi conheo,
    Acho que cuidar nelle he gro despejo,
    E que morrer por elle me he sobejo
    E mr bem para mi, do que mereo.
      O mais que natural merecimento
    De quem me causa hum mal to duro e forte,
    O faz que v crescendo de hora em hora.
      Mas eu no deixarei meu pensamento,
    Porque inda qu'este mal me causa a morte,
    _Un bel morir tutta la vita honora._


CCLXXXIII.

    Quantas penas, Amor, quantos cuidados,
    Quantas lagrimas tristes sem proveito,
    De que mil vezes olhos, rosto e peito,
    Por ti, cego, me viste ja banhados;
      Quantos mortaes suspiros derramados
    Do corao por tanto a ti sujeito,
    Quantos males, em fim, tu me tens feito,
    Todos foro em mi bem empregados.
      A tudo satisfaz (confesso-te isto)
    Huma s vista branda e amorosa
    De quem me captivou minha ventura.
      Oh sempre para mi hora ditosa!
    Que posso temer ja, pois tenho visto,
    Com tanto gsto meu, tanta brandura?


CCLXXXIV.

    Posto me t[~e]e fortuna em tal estado,
    E tanto a seus ps me t[~e]e rendido!
    No tenho que perder, ja de perdido,
    Nem tenho que mudar, ja de mudado.
      Todo bem para mi he acabado:
    D'aqui dou o viver ja por vivido;
    Que aonde o mal he to conhecido,
    Tambem o viver mais ser'scusado.
      Se me basta querer, a morte quero,
    Que bem outra esperana no convem:
    E curarei hum mal com outro mal.
      E pois do bem to pouco bem espero,
    Ja que o mal este s remedio tem,
    No me culpem em qu'rer remedio tal.


CCLXXXV.

    Pues lgrimas tratais, mis ojos tristes,
    Y en lgrimas pasais la noche y dia,
    Mirad si es llanto este que os envia
    Aquella por quien vos tantas vertistes:
      Sentid, mis ojos, bien esta que vistes;
    Y si ella lo es, oh gran ventura mia!
    Por muy bien empleadas las habria
    Mil cuentos que por esta sola distes.
      Mas una cosa mucho deseada,
    Aunque se vea cierta, no es creida,
    Cuanto mas esta, que me es enviada.
      Pero digo, que aunque sea fingida,
    Que basta que por lgrima sea dada,
    Porque sea por lgrima tenida.


CCLXXXVI.

    Que pde ja fazer minha ventura,
    Que seja para meu contentamento?
    Ou como fazer devo fundamento
    De cousa que o no t[~e]e, nem he segura?
      Que pena pde ser to certa e dura,
    Que possa ser maior que meu tormento?
    Ou como recear meu pensamento
    Os males, se com elles mais se apura?
      Como quem se costuma de pequeno
    Com peonha criar por mo sciente,
    Da qual o uso ja o t[~e]e seguro:
      Assim de acostumado co'o veneno,
    O uso de soffrer meu mal presente
    Me faz no sentir ja nada o futuro.




ECLOGAS


ECLOGA I.


INTERLOCUTORES.

UMBRANO, FRONDELIO, AONIA.

    Que grande variedade vo fazendo,
    Frondelio amigo, as horas apressadas!
    Como se vo as cousas convertendo
    Em outras cousas vrias e insperadas!
    Hum dia a outro dia vai trazendo
    Por suas mesmas horas ja ordenadas;
    Mas quo conformes so na quantidade,
    To differentes so na qualidade.
      Eu vi ja deste campo as vrias flores
    s estrellas do ceo fazendo inveja;
    Adornados andar vi os pastores
    De quanto por o mundo se deseja;
    E vi co'o campo competir nas cres
    Os trajes, de obra tanta e to sobeja,
    Que se a rica materia no faltava,
    A obra de mais rica sobejava.
      E vi perder seu preo s brancas rosas
    E quasi escurecer-se o claro dia
    Diante de h[~u]as mostras perigosas,
    Que Venus mais que nunca engrandecia.
    As pastoras, emfim, vi to formosas,
    Que o Amor de si mesmo se temia;
    Mas mais temia o pensamento falto
    De no ser para ter temor to alto.
      Agora tudo est to differente,
    Que move os coraes a grande espanto;
    E parece que Jupiter potente
    Se enfada ja d'o mundo durar tanto.
    O Tejo corre turvo e descontente,
    As aves deixo seu suave canto,
    E o gado, inda que a herva lhe fallece,
    Mais que da falta della se emmagrece.
                FRONDELIO.
      Umbrano irmo, decreto he da natura,
    Inviolavel, fixo e sempiterno,
    Que a todo bem succeda desventura,
    E no haja prazer que seja eterno:
    Ao claro dia segue a noite escura,
    Ao suave vero o duro inverno;
    E se ha cousa que saiba ter firmeza,
    He somente esta lei da natureza.
      Toda alegria grande e sumptuosa
    A porta abrindo vem ao triste estado:
    Se hum'hora vejo alegre e deleitosa,
    Temendo estou do mal apparelhado.
    No vs que mora a serpe venenosa
    Entre as flores do fresco e verde prado?
    Ah! no te engane algum contentamento;
    Que mais instavel he que o pensamento.
      E praza a Deos que o triste e duro fado
    De tamanhos desastres se contente;
    Que sempre hum grande mal inopinado
    He mais do que o espera a incauta gente:
    Que vejo este carvalho que queimado
    To gravemente foi do raio ardente.
    No seja ora prodigio que declare
    Que o barbaro cultor meus campos are.
                UMBRANO.
      Em quanto do seguro azambujeiro
    Nos pastores de Luso houver cajados,
    Como valor antiguo, que primeiro
    Os fez no mundo to assinalados,
    No temas tu, Frondelio companheiro,
    Qu'em algum tempo sejo sobjugados,
    Nem que a cerviz indomita obedea
    A outro jugo qualquer que se lhe offrea.
      E postoque a soberba se levante
    De inimigos a torto e a direito,
    No cras tu que a fra repugnante
    Do fero e nunca ja vencido peito,
    Que desde quem possue o monte Atlante
    Adonde bebe o Hydaspe t[~e]e sujeito,
    O possa nunca ser de fra alheia,
    Em quanto o sol a terra e o ceo rodeia.
                FRONDELIO.
      Umbrano, a temeraria segurana
    Qu'em fra, ou em razo no se assegura,
    He falsa e va; que a grande confiana
    No he sempre ajudada da ventura.
    Que l junto das aras da esperana,
    Nmesis moderada, justa e dura,
    Hum freio lhe est pondo e lei terribil,
    Que os limites no passe do possibil.
      E se attentares bem os grandes danos
    Que se nos vo mostrando cada dia,
    Poras freio tambem a esses enganos
    Que te est figurando a ousadia.
    Tu no vs como os lobos Tingitanos,
    Apartados de toda cobardia,
    Mto os ces do gado guardadores,
    E no somente os ces, mas os pastores?
      Pois o grande curral, seguro e forte,
    Do alto monte Atlas no ouviste
    Que com sanguinolenta e fera morte
    Despovoado foi por caso triste?
    Oh triste caso! oh desastrada sorte,
    Contra quem fra humana no resiste!
    Que alli tambem da vida foi privado
    O meu Tionio, ainda em flor cortado!
                UMBRANO.
      Em lagrimas me banha rosto e peito
    Desse caso terrivel a memoria,
    Quando vejo quo sabio e quo perfeito,
    E quo merecedor de longa historia
    Era esse teu pastor, que sem direito
    Deo s Parcas a vida transitoria.
    Mas no ha hi quem d'herva o gado farte,
    Nem de juvenil sangue o fero Marte.
      Porm, se te no for muito pezado,
    (Ja qu'esta triste morte me lembraste)
    Canta-me desse caso desastrado
    Aquelles brandos versos que cantaste,
    Quando hontem, recolhendo o manso gado,
    De ns-outros pastores te apartaste;
    Qu'eu tambem que as ovelhas recolhia,
    No te podia ouvir como queria.
                FRONDELIO.
      Como queres renove ao pensamento
    Tamanho mal, tamanha desventura?
    Porqu'espalhar suspiros vos ao vento,
    Para os que tristes so, he falsa cura.
    Mas, pois te move tanto o sentimento
    Da morte de Tionio, triste e escura,
    Eu porei teu desejo em doce effeito,
    Se a dor me no congela a voz no peito.
                UMBRANO.
      Canta agora, pastor, que o gado pace
    Entre as humidas hervas socegado;
    E l nas altas serras, onde nace,
    O sacro Tejo  sombra recostado,
    Co'os seus olhos no cho, a mo na face,
    Est para te ouvir apparelhado;
    E com silencio triste esto as Nymphas
    Dos olhos destillando claras lymphas.
      O prado as flores brancas e vermelhas
    Est suavemente presentando;
    As doces e solcitas abelhas,
    Com susurro agradavel vo voando;
    As candidas, pacficas ovelhas,
    Das hervas esquecidas, inclinando
    As cabeas esto ao som divino
    Que faz, passando, o Tejo crystallino.
      O vento d'entre as rvores respira,
    Fazendo companhia ao claro rio;
    Nas sombras a ave garrula suspira,
    Sua mgoa espalhando ao vento frio.
    Toca, Frondelio, toca a doce lira;
    Que d'aquelle verde alamo sombrio
    A branda Philomela entristecida
    Ao mais saudoso canto te convida.
                FRONDELIO.
      Aquelle dia as guas no gostro
    As mimosas ovelhas; e os cordeiros
    O campo enchro d'amorosos gritos.
    E no se pendurro dos salgueiros
    As cabras, de tristeza; mas negro
    O pasto a si, e o leite a os cabritos.
    Prodigios infinitos
    Mostrava aquelle dia,
    Quando a Parca queria
    Princpio dar ao fero caso triste.
    E tu tambem ( corvo) o descobriste,
    Quando da mo direita em voz escura,
    Voando, repetiste
    A tyrannica lei da morte dura.
      Tionio meu, o Tejo crystallino,
    E as rvores que ja desamparaste
    Chro o mal de tua ausencia eterna.
    No sei porque to cedo nos deixaste!
    Mas foi consentimento do Destino,
    Por quem o mar e a terra se governa.
    A noite sempiterna,
    Que tu to cedo viste
    Cruel, acerba e triste,
    Sequer de tua idade no te dera
    Que logrras a fresca primavera?
    No usra comnosco tal crueza,
    Que nem nos montes fera,
    Nem pastor ha no campo sem tristeza.
      Os Faunos, certa guarda dos pastores,
    Ja no seguem as Nymphas na espessura,
    Nem as Nymphas aos cervos do trabalho.
    Tudo, qual vs, he cheio de tristura:
    s abelhas o campo nega as flores,
    Como s flores a aurora nega o orvalho.
    Eu que cantando espalho
    Tristezas todo o dia,
    A frauta que soia
    Mover as altas rvores tangendo,
    Se me vai de tristeza enrouquecendo;
    Que tudo vejo triste neste monte:
    E tu tambem correndo
    Manas envolta e triste,  clara fonte.
      As Tagides no rio, e na aspereza
    Do monte as Oredas, conhecendo
    Quem te obrigou ao duro e fero Marte;
    Como em geral sentena vo dizendo,
    Que no pde no mundo haver tristeza
    Em cuja causa amor no tenha parte.
    Porqu'elle, enfim, dest'arte
    Nos olhos saudosos,
    Nos passos vagarosos,
    E no rosto, que Amor com phantasia
    Da pallida viola lhe tingia,
    A todos de si dava sinal certo
    Do fogo que trazia;
    Que nunca soube amor ser encoberto.
      Ja diante dos olhos lhe voavo
    Imagens e phantasticas pinturas,
    Exercicios do falso pensamento;
    Ja por as solitarias espessuras
    Entre os penedos ss, que no fallavo,
    Fallava e descobria seu tormento.
    Em longo esquecimento
    De si, todo embebido,
    Andava to perdido,
    Que quando algum pastor lhe perguntava
    A causa da tristeza que mostrava,
    Como quem para penas s vivia,
    Sorrindo, lhe tornava:
    Se no vivesse triste, morreria.
      Mas como este tormento o sinalou,
    E tanto no seu rosto se mostrasse,
    Entendendo-o ja bem o pae sisudo,
    Porque do pensamento lho tirasse,
    Longe da causa delle o apartou;
    Porque, emfim, longa ausencia acaba tudo.
    Oh falso Marte rudo,
    Das vidas cobioso!
    Que donde o generoso
    Peito resuscitava em tanta gloria
    De seus Antecessores a memoria,
    Alli, fero e cruel, lhe destruiste,
    Por injusta victoria,
    Primeiro que o cuidado, a vida triste.
      Parece-me, Tionio, que te vejo,
    Por tingires a lana cobioso
    Naquelle infido sangue Mauritano,
    No Hispanico ginete bellicoso,
    Que ardendo tambem vinha no desejo
    De atropellar por terra ao Tingitano.
    Oh confiado engano!
    Oh encurtada vida!
    Que a virtude opprimida
    Da multido forosa do inimigo
    No pde defender-se do perigo:
    Porqu'assi o Destino o permittio;
    E assi levou comsigo
    O mais gentil pastor que o Tejo vio.
      Qual o mancebo Euryalo enredado
    Entre o poder dos Rutulos, fartando
    As ras da soberba e dura guerra;
    Do cristallino rosto a cr mudando,
    Cujo purpureo sangue, derramado
    Por as alvas espaldas, tinge a serra;
    Que como flor, que a terra
    Lhe nega o mantimento,
    Porque o tempo avarento
    Tambem o largo humor lhe t[~e]e negado,
    O collo inclina languido e cansado:
    Tal te pinto,  Tionio, dando o esprito
    A quem to tinha dado;
    Qu'este he somente eterno e infinito.
      Da congelada boca a alma pura,
    Co'o nome juntamente da inimiga
    E excellente Marfida, derramava.
    E tu, gentil Senhora, no te obriga
    A pranto sempiterno a morte dura
    De quem por ti somente a vida amava?
    Por ti aos ecos dava
    Accentos numerosos;
    Por ti aos bellicosos
    Exercicios se deo do fero Marte.
    E tu ingrata o amor ja n'outra parte
    Pors, como acontece ao fraco intento:
    Que, emfim, emfim, dest'arte
    Se muda o feminino pensamento.
      Pastores deste valle ameno e frio,
    Que de Tionio o caso desastrado
    Quereis nas altas serras que se conte;
    Hum tumulo, de flores adornado,
    Lhe edificai ao longo deste rio,
    Que a vela enfreie ao duro navegante:
    E o lasso caminhante,
    Vendo tamanha mgoa,
    Arraze os olhos d'goa,
    Lendo na pedra dura o verso escrito,
    Que diga assi: _Memoria sou, que grito_
    _Para dar testimunho em toda parte
    Do mais gentil Esprito
    Que tirro do mundo Amor e Marte_.
                UMBRANO.
      Qual o quieto somno aos cansados
    Debaixo de algum'rvore sombria;
    Ou qual aos sequiosos encalmados
    O vento respirante e a fonte fria:
    Taes me foro teus versos delicados,
    Teu numeroso canto e melodia:
    E ainda agora o tom suave e brando
    Os ouvidos me fica adormentando.
      Em quanto os peixes humidos tiverem
    As areosas covas deste rio,
    E correndo estas guas conhecerem
    Do largo mar o antiguo senhorio;
    E em quanto estas hervinhas pasto derem
    s petulantes cabras, eu te fio
    Que em virtude dos versos que cantaste
    Sempre viva o pastor que tanto amaste.
      Mas ja que pouco a pouco o sol nos falta,
    E dos montes as sombras se accrescento;
    De flores mil o claro ceo se esmalta,
    Que to ledas aos olhos se presento;
    Levemos por o p desta serra alta
    Os gados, que ja agora se contento
    Do que comido t[~e]e, Frondelio amigo:
    Anda; que at o outeiro irei comtigo.
                FRONDELIO.
      Antes por este valle, amigo Umbrano,
    Se t'aprouver, levemos as ovelhas;
    Porque, se eu por acrto no me engano,
    De l me sa hum eco nas orelhas:
    O doce accento no parece humano.
    E, se em contrrio tu no m'aconselhas,
    Eu quero descobrir que cousa seja;
    Que o tom m'espanta, e a voz me faz inveja.
                UMBRANO.
      Comtigo vou, que quanto mais me chego,
    Mais gentil me parece a voz que ouviste,
    Peregrina, excellente; e no te nego
    Que me faz c no peito a alma triste.
    Vs como t[~e]e os ventos em socgo?
    Nenhum rumor da serra lhe resiste:
    Nenhum passaro va, mas parece
    Que, do canto vencido, lhe obedece.
      Porm, irmo, melhor me parecia
    Que no fssemos l; que estorvaremos;
    Mas sobidos nest'rvore sombria,
    Todo o valle de aqui descobriremos.
    Os urres e cajados, todavia,
    Neste comprido tronco penduremos:
    Para subir fica homem mais ligeiro.
    Deixa-me tu, Frondelio, ir primeiro.
                FRONDELIO.
      Espera, assi, dar-te-hei de p, se queres:
    Subirs sem trabalho e sem ruido;
    E despois que subido l 'stiveres,
    Dar-me-has a mo de cima; que he partido.
    Mas primeiro me dize, se o puderes
    Ver, donde nasce o canto nunca ouvido;
    Quem lana o doce accento delicado.
    Falla; que ja te vejo estar pasmado.
                UMBRANO.
      Cousas no costumadas na espessura,
    Que nunca vi, Frondelio, vejo agora:
    Formosas Nymphas vejo na verdura,
    Cujo divino gesto o ceo namora.
    Huma de desusada formosura,
    Que das outras parece ser Senhora,
    Sbre hum triste sepulcro, no cessando,
    Est perlas dos olhos destillando.
      De todas estas altas semidas,
    Qu'em trno esto do corpo sepultado,
    Humas, regando as humidas aras,
    De flores t[~e]e o tumulo adornado;
    Outras, queimando lagrimas Sabas,
    Enchem o ar de cheiro sublimado;
    Outras em ricos pannos, mais avante,
    Envolvem brandamente hum novo infante.
      Huma, que d'entre as outras se apartou,
    Com gritos, que a montanha entristecro,
    Diz, que despois que a morte a flor cortou
    Que as estrellas somente merecro,
    Este penhor charissimo ficou
    Daquelle, a cujo imperio obedecro
    Douro, Mondego, Tejo e Guadiana,
    At o remoto mar da Taprobana.
      Diz mais, que se encontrar este menino
    A noite intempestiva, amanhecendo,
    O Tejo, agora claro e crystallino,
    Tornar a fera Alecto em vulto horrendo.
    Mas que, a ser conservado do Destino,
    As benignas estrellas promettendo
    Lh'esto o largo pasto de Ampelusa,
    Co'o monte que em mao ponto vio Medusa.
      Este prodigio grande Nympha bella
    Com abundantes lagrimas recita.
    Porm, qual a eclipsada clara estrella,
    Qu'entre as outras o ceo primeiro habita:
    Tal coberta de negro vejo aquella,
    A quem s n'alma toca a gr desdita.
    D c, Frondelio, a mo; e sobe a ver
    Tudo o mais qu'eu de dor no sei dizer.
                FRONDELIO.
      Oh triste morte, esquiva e mal olhada,
    Que a tantas formosuras injuras!
    quella deosa bella e delicada
    Sequer algum respeito ter devias.
    Esta he, por certo, Aonia filha amada
    Daquelle gr Pastor, qu'em nossos dias
    Danubio enfreia, manda o claro Ibero,
    E espanta o morador do Euxino fero.
      Morreo-nos o excellente e poderoso,
    (Que a isto est sujeita a vida humana)
    Doce Aonio, d'Aonia charo Esposo.
    Ah lei dos fados, aspera e tyrana!
    Mas o som peregrino e piedoso,
    Com que a formosa Nympha a dor engana,
    Escuta hum pouco. Nota e v, Umbrano,
    Quo bem que sa o verso Castelhano.
                AONIA.
      Alma, y primero amor del alma mia,
    Espritu dichoso, en cuya vida
    La mia estuvo en cuanto Dios queria!
      Sombra gentil de su prision salida,
    Que del mundo  la patria te volviste,
    Donde fuiste engendrada y procedida!
      Recibe all este sacrificio triste,
    Que te offrecen los ojos que te vieron;
    Si la memoria dellos no perdiste.
      Que, pues los altos Cielos permitieron,
    Que no te acompaase en tal jornada,
    Y para ornarse solo  ti quisieron;
      Nunca permitirn, que acompaada
    De mi no sea esta memoria tuya,
    Que est de tus despojos adornada.
      Ni dejar, por mas que el tiempo huya,
    De estar en m con sempiterno llanto,
    Hasta que vida y alma se destruya.
      Mas t, gentil Espritu, entretanto
    Que otros campos y flores vas pisando,
    Y otras zampoas oyes, y otro canto;
      Agora embevecido ests mirando
    All en el Empireo aquella Idea,
    Que el mundo enfrena y rige con su mando;
      Agora te posuya Citherea
    En el tercero asiento,  porque amaste,
     porque nueva amante all te sea;
      Agora el sol te admire, si miraste
    Como v por los Signos, encendido,
    Las tierras alumbrando que dejaste:
      Si en ver estos milagros no has perdido
    La memoria de m,  fu en tu mano
    No pasar por las aguas del olvido;
      Vuelve un poco los ojos  este llano,
    Vers una, que  ti con triste lloro
    Sobre este mrmol sordo llama en vano.
      Pero si entraren en los Signos de oro
    Lgrimas y gemidos amorosos,
    Que muevan el supremo y santo coro;
      La lumbre de tus ojos tan hermosos
    Yo la ver muy presto: y podr verte;
    Que  pesar de los hados enojosos
    Tambiem para los tristes hubo muerte.


ECLOGA II.


INTERLOCUTORES.

ALMENO e AGRARIO.

    Ao longo do sereno
    Tejo, suave e brando,
    N'hum valle d'altas rvores sombrio
    Estava o triste Almeno
    Suspiros espalhando
    Ao vento, e doces lagrimas ao rio.
    No derradeiro fio
    O tinha a esperana,
    Que com doces enganos
    Lhe sustentra a vida tantos anos
    N'h[~u]a amorosa e branda confiana;
    Que quem tanto queria,
    Parece que no erra, se confia.
      A noite escura dava
    Repouso aos cansados
    Animaes esquecidos da verdura;
    O valle triste estava
    Co'huns ramos carregados,
    Qu'inda a noite fazio mais escura.
    Offrecia a espessura
    Hum temeroso espanto:
    As roucas ras soavo
    N'hum charco de gua negra e ajudavo
    Do passaro nocturno o triste canto:
    O Tejo com som grave
    Corria mais medonho que suave.
      Como toda a tristeza
    No silencio consiste,
    Parecia que o valle estava mudo.
    E com esta graveza
    Estava tudo triste,
    Porm o triste Almeno mais que tudo:
    Tomando por escudo
    De sua doce pena,
    Para poder soffrella,
    Estar imaginando a causa della;
    Qu'em tanto mal he cura bem pequena.
    Maior o he o tormento,
    Que toma por allvio hum pensamento.
      Ao rio se queixava
    Com lagrimas em fio,
    Com que as ondas crescio outro tanto.
    Seu doce canto dava
    Tristes guas ao rio,
    E o rio triste som ao doce canto.
    Ao sonoroso pranto,
    Que as guas enfreava,
    Responde o valle umbroso.
    De tanta voz o accento temeroso
    Na outra parte do rio retumbava;
    Quando, da phantasia
    O silencio rompendo, assi dizia:
      Corre suave e brando
    Com tuas claras goas,
    Sahidas de meus olhos, doce Tejo;
    F de meus males dando,
    Para que minhas mgoas
    Sejo castigo igual de meu desejo:
    Que, pois em mim no vejo
    Remedio, nem o espero;
    E a morte se despreza
    De me matar, deixando-me  crueza
    Daquella por quem meu tormento quero;
    Saiba o mundo meu dano,
    Porque se desengane em meu engano.
      Ja que minha ventura,
    Ou a causa qu'a ordena,
    Quer qu'em pago da dor tome o soffrella;
    Ser mais certa cura
    Para tamanha pena
    Desesperar d'haver ja cura nella.
    Porque se minha estrella
    Causou tal esquivana,
    Consinta meu cuidado
    Que me farte de ser desesperado,
    Para desenganar minha esperana:
    Pois somente nasci
    Para viver na morte, e ella em mi.
      No cesse meu tormento
    De fazer seu officio,
    Pois aqui t[~e]e hum'alma ao jugo atada:
    Nem falte o soffrimento,
    Porque parece vcio
    Para to doce mal faltar-me nada.
    Oh Nympha delicada,
    Honra da natureza!
    Como pde isto ser,
    Que de to peregrino parecer
    Pudesse proceder tanta crueza?
    No vem de nenhum geito
    De causa divinal contrrio effeito.
      Pois como pena tanta
    He contra a causa della?
    Fra he do natural minha tristeza.
    Mas a mi que m'espanta?
    No basta ( Nympha bella)
    Que podes perverter a natureza?
    No he a gentileza
    De teu gesto celeste
    Fra do natural?
    No pde a natureza fazer tal:
    Tu mesma ( bella Nympha) te fizeste;
    Porm, porque tomaste
    To dura condio, se te formaste?
      Por ti o alegre prado
    Me he penoso e duro;
    Abrolhos me parecem suas flores.
    Por ti do manso gado,
    Como de mi, no curo,
    Por no fazer offensa a teus amores.
    Os jogos dos pastores,
    As lutas entr'a rama,
    Nada me faz contente:
    E sou ja do que fui to differente,
    Que quando por meu nome alguem me chama,
    Pasmo, porque conheo
    Qu'inda comigo proprio me pareo.
      O gado, que apascento,
    So n'alma os meus cuidados;
    As flores, que no campo sempre vejo,
    So no meu pensamento
    Teus olhos debuxados,
    Com qu'estou enganando o meu desejo.
    Do frio e doce Tejo
    As guas se tornro
    Ardentes e salgadas,
    Despois que minhas lagrimas cansadas
    Com seu puro licor se misturro;
    Como quando mistura
    Hyppanis co'o Exampo sua gua pura.
      Se ahi no mundo houvesse
    Ouvires-me algum'hora,
    Assentados na praia deste rio;
    E d'arte te dissesse
    O mal que passo agora,
    Que pudesse mover-te o peito frio!..
    Oh quanto desvario,
    Qu'estou imaginando!
    Ja agora meu tormento
    No pde pedir mais ao pensamento,
    Qu'este phantasiar, donde penando
    A vida me reserva.
    Querer mais de meu mal ser soberba.
      Ja a esmaltada Aurora
    Descobre o negro manto
    Da sombra, que as montanhas encobria.
    Descansa, frauta, agora,
    Pois meu escuro canto
    No merece que veja o claro dia.
    No canse a phantasia
    D'estar em si pintando
    O gesto delicado,
    Em quanto traz ao pasto o manso gado
    Esse pastor, que l s vem fallando.
    Callar-me-hei somente;
    Que o meu mal nem ouvir se me consente.
                AGRARIO.
      Formosa manha clara e deleitosa,
    Que, como fresca rosa na verdura,
    Te mostras bella e pura, marchetando
    As Nymphas, espalhando teus cabellos
    Nos verdes montes bellos; tu s fazes,
    Quando a sombra desfazes triste e escura,
    Formosa a espesura e a clara fonte,
    Formoso o alto monte e o rochedo,
    Formoso o arvoredo e deleitoso,
    E emfim tudo formoso co'o teu rosto
    D'ouro e rosas composto e claridade;
    Trazes a saudade ao pensamento,
    Mostrando em hum momento o roxo dia,
    Com a doce harmonia nos cantares
    Dos passaros a pares, que voando
    Seu pasto ando buscando nos raminhos,
    Para os amados ninhos que mantm.
    Oh grande e summo bem da natureza!
    Estranha subtileza de pintora,
    Que matiza em hum'hora de mil cres
    O ceo, a terra, as flores, monte e prado!
    Oh tempo ja passado! quo presente
    Te vejo abertamente na vontade!
    Quo grande saudade tenho agora
    Do tempo que a pastora minha amava,
    E de quanto prezava a minha dor!
    Ento tinha o amor maior poder,
    Quando em hum s querer nos igualava;
    Porque quando hum amava a quem queria,
    Logo eco respondia d'affeio
    No brando corao da doce imiga.
    Nesta amorosa liga concertavo
    Os tempos, que passavo com prazeres.
    Mostrava a flava Ceres por as eiras
    Das brancas sementeiras ledo fruto,
    Pagando seu tributo aos Lavradores;
    E enchia aos pastores todo o prado
    Pales do manso gado guardadora.
    Hio Zphyro e Flora passeando,
    Os campos esmaltando de boninas;
    Nas fontes cristallinas triste estava
    Narciso, qu'inda olhava n'gua pura
    Sua linda figura e delicada:
    Mas Eco, namorada de tal gesto,
    Com pranto manifesto, seu tormento
    No derradeiro accento lamentava.
    Alli tambem se achava o sangue tinto
    Do purpureo Jacintho; e o destro
    De Adonis bello moo; morte fa
    Da bella Cythera to chorada;
    Toda a terra esmaltada destas rosas.
    Hio Nymphas formosas por os prados;
    E os Faunos namorados apos ellas,
    Mostrando-lhes capellas de mil cres,
    Ordenadas das flores que colhio:
    As Nymphas lhe fugio espantadas,
    As faldas levantadas, por os montes.
    Via-sea gua das fontes espalhar-se;
    Vertumno transformar-se alli se via;
    Pomona, que trazia os doces fruitos;
    Alli pastores muitos, que tangio
    As gaitas que trazio, e cantando
    Estavo enganando as suas penas,
    Tomando das Sirenas o exercicio.
    Ouvia-se Salicio lamentar-se;
    Da mudana queixar-se crua e fa
    Da dura Galatha to formosa:
    E da morte invejosa Nemoroso
    Ao monte cavernoso se querella,
    Que a sua Elisa bella em pouco espao
    Cortou inda em agrao. Ah dura sorte!
    Oh immatura morte, que a ninguem
    De quantos vida t[~e]e jamais perdoas!
    Mas tu, tempo, que voas apressado,
    Hum deleitoso estado quo asinha
    Nesta vida mesquinha transfiguras
    Em mil desaventuras, e a lembrana
    Nos deixas por herana do que levas!
    Assi que se nos cevas com prazeres,
    He para nos comeres no melhor.
    Cada vez em peor te vs mudando:
    Quanto v[~e]es inventando, qu'hoje approvas,
    Logo  manha reprovas com instancia.
    Oh perversa inconstancia e to profana
    De toda cousa humana inferior,
    A quem o cego error sempre anda annexo!
    Mas eu de que me queixo? ou eu que digo?
    Vive o tempo comigo? ou elle tem
    Culpa no mal que vem da cega gente?
    Por ventura elle sente, ou elle entende
    Aquillo que defende o ser divino?
    Elle usa de contino seu officio,
    Que ja por exercicio lhe he devido:
    D-nos fructo colhido na sazo
    Do formoso vero; e no inverno,
    Com seu humor eterno congelado,
    Do vapor levantado co'a quentura
    Do sol, a terra dura lhe d alento,
    Para que o mantimento produzindo,
    Est sempre cumprindo seu costume.
    Assi que no consume de si nada,
    Nem muda da passada vida hum dedo:
    Antes sempre est quedo no devido,
    Porqu'este he seu partido e sua usana;
    E nelle esta mudana he mais firmeza.
    Mas quem a Lei despreza, e pouco estima,
    De quem de l de cima est movendo
    O ceo sublime e horrendo, o mundo puro,
    Este muda o seguro e firme estado
    Do tempo, no mudado de verdade.
    No foi naquella idade d'ouro claro
    O firme tempo charo e excellente?
    Vivia ento a gente moderada;
    Sem ser a terra arada dava po;
    Sem ser cavado o cho as fructas dava;
    Nem guas desejava, nem quentura;
    Suppria ento natura o necessario.
    Pois quem foi to contrrio a esta vida?
    Saturno, que, perdida a luz serena,
    Causou, qu'em dura pena, desterrado,
    Fosse do ceo lanado, onde vivia;
    Porque os filhos comia, que gerava.
    Por isso se mudava o tempo igual
    Em mais baixo metal: e assi descendo
    Nos veio, emfim, trazendo a este estado.
    Mas eu, desatinado, aonde vou?
    Para onde me levou a phantasia?
    Qu'estou gastando o dia em vas palavras?
    Quero ora minhas cabras ir levando
    Ao Tejo claro e brando; porque achar
    No mundo qu'emendar, no he d'agora:
    Basta que a vida fra delle tenho:
    Com meu gado me avenho, e estou contente.
    Porm, se me no mente a vista, eu vejo
    Nesta praia do Tejo estar deitado
    Almeno, que enlevado em pensamentos,
    As horas e os momentos vai gastando:
    Vou-me a elle chegando, s por ver
    Se poderei fazer que o mal que sente,
    Hum pouco se lhe ausente da memoria.
                ALMENO.
      Oh doce pensamento! oh doce gloria!
    So estes por ventura os olhos bellos,
    Que t[~e]e de meus sentidos a victoria?
      So estas, Nympha, as tranas dos cabellos,
    Que fazem de seu preo o ouro alheio,
    Como a mi de mi mesmo s com vellos?
      He esta a alva columna, o lindo esteio,
    Sustentador das obras mais que humanas,
    Qu'eu nestes braos tenho, e no o creio?
      Ah falso pensamento, que me enganas!
    Fazes-me pr a boca onde no devo,
    Com palavras de doudo, ou quasi insanas!
      Como a alar-te to alto assi me atrevo?
    Taes azas dou-tas eu, ou tu mas ds?
    Levas-me tu a mi, ou eu te levo?
      No poderei eu ir onde tu vs?
    Porm, pois ir no posso onde tu fores,
    Quando fores, no tornes onde ests.
                AGRARIO.
      Oh que triste successo foi de amores,
    O que a este pastor aconteceo,
    Segundo ouvi contar a outros pastores!
      Tanto emfim, por seu damno se perdeo,
    Que o longo imaginar em seu tormento,
    Em desatino Amor lh'o converteo.
      Oh foroso vigor do pensamento,
    Que pde em outra cousa estar mudando
    A frma, a vida, o siso, o entendimento!
      Est-se hum triste amante transformando
    Na vontade daquella, que tanto ama,
    De si a propria essencia transportando.
      E nenhum'outra cousa mais desama,
    Que a si, se v qu'em si ha algum sentido,
    Que deste fogo insano no se inflama.
      Almeno, que aqui 'st to influido
    No phantastico sonho, que o cuidado
    Lhe traz sempre ante os olhos esculpido,
      Est-se-lhe pintando, de enlevado,
    Que t[~e]e ja da phantastica pastora
    O peito diamantino mitigado.
      Em este doce engano estava agora
    Fallando como em sonho, mas achando
    Ser vento o que sonhava, grita e chora.
      Dest'arte andavo sonhos enganando
    O pastor somnolento, que a Diana
    Andava entre as ovelhas celebrando;
      Dest'arte a nuvem falsa, em frma humana,
    O vo pae dos Centauros enganava:
    (Que Amor quando contenta, sempre engana)
      Como este, que comsigo s fallava,
    Cuidando que fallava, de enleado,
    Com quem lhe o pensamento figurava.
      No pde quem quer muito, ser culpado
    Em nenhum rro, quando vem a ser
    Este amor em doudice transformado.
      Amor no ser amor, se no vier
    Com doudices, deshonras, dissenses,
    Pazes, guerras, prazer e desprazer;
      Perigos, linguas ms, murmuraes
    Ciumes, arruidos, competencias,
    Temores, nojos, mortes, perdies.
      Estas so verdadeiras penitencias
    De quem pe o desejo onde no deve,
    De quem engana alheias innocencias.
      Mas isto t[~e]e o amor, que no se escreve
    Seno donde he illicito e custoso;
    E donde he mais o risco, mais se atreve.
      Passava o tempo alegre e deleitoso
    O Troiano pastor, em quanto andava
    Sem ter alto desejo e perigoso.
      Seus furiosos touros coroava,
    E nos lamos altos escrevia
    Teu nome (Enone) quando a ti s amava.
      Os lamos crescio, e crescia
    O amor qu'elle te tinha: sem perigo,
    E sem temor, contente te servia.
      Mas despois que deixou entrar comsigo
    Illicito desejo e pensamento,
    De sua quietao to inimigo;
      A toda a patria poz em detrimento
    Com mortes de parentes e de irmos,
    Com cr incendio, e grande perdimento.
      Nisto fenecem pensamentos vos:
    Tristes servios mal galardoados,
    Cuja glria se passa d'entre as mos.
      Lagrimas e suspiros arrancados
    D'alma, todos se pago com enganos:
    E oxal foro muitos enganados!
      Ando com seu tormento to ufanos,
    Que gasto na doura d'hum cuidado
    Apos huma esperana muitos anos.
      E talha to perdido namorado,
    To contente co'o pouco, que daria
    Por hum s volver d'olhos todo o gado.
      Em todo povoado e companhia,
    Sendo ausentes de si, se vem presentes
    Com quem lhes pinta sempre a phantasia.
      Co'hum certo no sei que ando contentes,
    E logo hum nada os torna, ao contrrio,
    De todo ser humano differentes.
      Oh tyrannico Amor, oh caso vario,
    Que obrigas a hum querer que sempre seja
    De si contnuo e aspero adversario!
      E qu'outr'hora nenhuma alegre esteja,
    Seno quando do seu despjo amado
    Sua inimiga estar triumphando veja.
      Quero fallar com este, qu'enredado
    Nesta cegueira est sem nenhum tento.
    Acorda ja, pastor, desacordado.
                ALMENO.
      Oh porque me tiraste hum pensamento,
    Que agora estava aos olhos debuxando,
    De quem aos meus foi doce mantimento?
                AGRARIO.
      Nesta imaginao ests gastando
    O tempo e vida, Almeno? Perda grande!
    No vs quo mal os dias vs passando?
                ALMENO.
      Formosos olhos, ande a gente e ande;
    Que nunca vos ireis dest'alma minha,
    Por mais qu'o tempo corra, a morte o mande.
                AGRARIO.
      Quem poder cuidar que to asinha
    Se perca o curso assi do siso humano,
    Que corre por direita e justa linha?
      Que sejas to perdido por teu dano,
    Almeno meu, no he por certo aviso;
    He s doudice grande, grande engano.
                ALMENO.
       Agrario meu, que vendo o doce riso,
    E o rosto to formoso, como esquivo,
    O menos que perdi foi todo o siso.
      E no entendo, desque sou captivo,
    Outra cousa de mi, seno que mouro:
    Nem isto entendo bem, pois inda vivo.
       sombra deste umbroso e verde louro
    Passo a vida, ora em lagrimas cansadas,
    Ora em louvores dos cabellos d'ouro.
      Se perguntares porque so choradas,
    Ou porque tanta pena me consume,
    Revolvendo memorias magoadas;
      Desque perdi da vida o claro lume,
    E perdi a esperana e causa della,
    No chro por razo, mas por costume.
      Jamais pude co'o fado ter cautella;
    Nem houve nunca em mi contentamento,
    Que no fosse trocado em dura estrella.
      Que bem livre vivia e bem isento,
    Sem qu'ao jugo me visse submettido
    De nenhum amoroso pensamento!
      Lembra-me, amigo Agrario, que o sentido
    To fra d'amor tinha, que me ria
    De quem por elle via andar perdido.
      De vrias cres sempre me vestia;
    De boninas a fronte coroava;
    Nenhum pastor cantando me vencia.
      A barba ento nas faces me apontava;
    Na luta, na carreira, em qualquer manha,
    Sempre a palma entre todos alcanava.
      Da minha idade tenra, em tudo estranha,
    Vendo (como acontece) affeioadas
    Muitas Nymphas do rio e da montanha;
      Com palavras mimosas e forjadas,
    De solta liberdade e livre peito,
    As trazia contentes e enganadas.
      Mas no querendo Amor, que deste geito
    Dos coraes andasse triumphando,
    Em quem elle criou to puro affeito;
      Pouco a pouco me foi de mi levando
    Dissimuladamente s mos de quem
    Toda esta injuria agora est vingando.
                AGRARIO.
      Deste teu caso, Almeno, eu sei mui bem
    O princpio e o fim; que Nemoroso
    Contado tudo isso, e mais, me tem.
      Mas (quero-to dizer) se este enganoso
    Amor he to usado a desconcertos,
    Que nunca amando fez pastor ditoso;
      Ja que nelle estes casos so to certos,
    Porqu'os estranhas tanto, que de mgoa
    Te choro valles, montes e desertos?
      Vejo-te estar gastando em viva fragoa,
    E juntamente em lagrimas; vencendo
    A gr Sicilia em fogo, o Nilo em goa.
      Vejo que as tuas cabras, no querendo
    Gostar as verdes hervas, se emmagrecem,
    As tetas aos cabritos encolhendo.
      Os campos, que co'o tempo reverdecem,
    Os olhos alegrando descontentes,
    Em te vendo, parece, se entristecem.
      De todos teus amigos e parentes,
    Que l da serra vem por consolar-te,
    Sentindo na alma a pena, que tu sentes,
      Se querem de teus males apartar-te,
    Deixando a choa e gado vs fugindo,
    Como cervo ferido, a outra parte.
      No vs que Amor, as vidas consumindo,
    Vive s de vontades enlevadas
    No falso parecer d'hum gesto lindo?
      Nem as hervas das guas desejadas
    Se farto; nem de flores as abelhas;
    Nem este Amor de lagrimas cansadas.
      Quantas vezes, perdido entr'as ovelhas,
    Chorou Phebo de Daphne as esquivanas,
    Regando as flores brancas e vermelhas?
      Quantas vezes as asperas mudanas
    O namorado Gallo t[~e]e chorado
    De quem o tinha envolto em esperanas?
      Estava o triste amante recostado,
    Chorando ao p d'hum freixo o triste caso,
    Que o falso Amor lhe tinha destinado.
      Por elle o sacro Pindo e o gro Parnaso,
    Na fonte de Aganippe destillando,
    Se fazio de lagrimas hum vaso.
      O intonso Apollo o vinha alli culpando,
    A sobeja tristeza perigosa
    Com asperas palavras reprovando.
      Gallo, porqu'endoudeces? que a formosa
    Nympha, que tanto amaste, descobrindo
    Por falsa a f, que dava, e mentirosa;
      Por as Alpinas neves vai seguindo
    Outro bem, outro amor, outro desejo;
    Como inimiga, emfim, de ti fugindo.
      Mas o misero amante, que o sobejo
    Mal empregado amor lhe defendia
    Ter de tamanha f vergonha ou pejo;
      Da falsfica Nympha no sentia
    Seno que o frio do gelado Rheno
    Os delicados ps lhe offenderia.
      Ora se tu vs claro, amigo Almeno,
    Que d'Amor os desastres so de sorte,
    Que para matar basta o mais pequeno,
      Porque no pes hum freio a mal to forte,
    Qu'em estado te pe, que sendo vivo,
    Ja no se entende em ti vida nem morte?
                ALMENO.
      Agrario; se do gesto fugitivo,
    Por caso de fortuna desastrado,
    Algum'hora deixar de ser captivo;
      Ou sendo para as Ursas degradado,
    Adonde Boreas t[~e]e o Oceano
    Co'os frios Hyperboreos congelado;
      Ou donde o filho de Climene insano,
    Mudando a cr das gentes totalmente,
    As terras apartou do trato humano;
      Ou se ja por qualquer outro accidente
    Deixar este cuidado to ditoso,
    Por quem sou de ser triste to contente;
      Este rio, que passa deleitoso,
    Tornando para traz, ir negando
     natureza o curso pressuroso.
      As cabras por o mar iro buscando
    Seu pasto; e andar-se-ho por a espessura
    Das hervas os delfins apascentando.
      Ora se tu vs, n'alma quo segura
    Deste amor tenho a f, para qu'insistes
    Nesse conselho e prtica to dura?
      Se de tua porfia no desistes,
    Vae repastar teu gado a outra parte;
    Qu'he dura a companhia para os tristes.
      Huma s cousa quero encomendarte,
    Para repouso algum de meu engano,
    Antes que o tempo, emfim, de mi te aparte:
      Que s'esta fera, qu'anda em traje humano,
    Por a montanha vires ir vagando,
    De meu despjo rica e de meu dano,
      Comos vivos espritos inflammando
    O ar, o monte e a serra, que comsigo
    Continuamente leva namorando;
      Se queres contentar-me, como amigo,
    Passando, lhe dirs: Gentil pastora,
    No ha no mundo vcio sem castigo.
      Tornada em puro marmore no fra
    A fera Anaxarete, se amoroso
    Mostrra o rosto angelico algum'hora.
      Foi bem justo o castigo rigoroso:
    Porm quem te ama (Nympha) no queria
    Ndoa to feia em gesto to formoso.
                AGRARIO.
      Tudo farei, Almeno, e mais faria
    Por algum dia ver-te descansado,
    Se s'acabo trabalhos algum dia.
      Mas bem vs como Phebo ja empinado
    Me manda que da calma iniqua e crua,
    Recolha em algum valle o manso gado.
      Tu nessa phantasia falsa e nua,
    Para engano maior de teu perigo,
    No queres companhia mais que a sua.
      Vou-me d'aqui, e fique Deos comtigo;
    E ficars melhor acompanhado.
                ALMENO.
      Elle comtigo v, como comigo
    Me fica acompanhando o meu cuidado.


ECLOGA III.


INTERLOCUTORES.

ALMENO e BELISA.

    Passado ja algum tempo que os amores
    D'Almeno, por seu mal, ero passados,
    Porque nunca Amor cumpre o que promette;
    Entr'huns verdes ulmeiros apartado,
    Regando por o campo as brancas flores,
    Em lagrimas cansadas se derrete:
    Quando a linda pastora, que compete
    Co'o monte em aspereza,
    Co'o prado em gentileza,
    Por quem o pastor triste endoudecia,
    Por a praia do Tejo discorria
    A lavar a beatilha e o tranado:
    O sol ja consentia
    Que sahisse da sombra o manso gado.
      Ja acordado daquelle pensamento
    Que to desacordado sempre o teve,
    Vio por acrto o bem, que incerto tinha.
    E porque donde amor a mais se atreve,
    Alli mais enfraquece o entendimento,
    No lhe soube dizer o que convinha.
    Como homem que  aprazada briga vinha,
    A quem de fra engana
    A confiana humana,
    E despois, vendo o rosto a quem resiste,
    Treme, e teme o perigo e no insiste;
    Ja se arrepende, a audacia lhe fallece:
    Dest'arte o pastor triste
    Ousa, receia, esfora e enfraquece.
      E tendo assi ja attonito o sentido,
    Cometteo com furor desatinado,
    E tirou da fraqueza corao.
    Comettimento foi desesperado:
    Qu'huma s salvao t[~e]e hum perdido,
    Perder toda a esperana  salvao.
    As mgoas, que passro, se diro:
    Mas as qu'ella dizia,
    Lembrando-lhe que via
    As guas murmurar do Tejo amenas,
    Remetto a vs,  Tagides Camenas;
    Qu'eu, de mgoa, no posso dizer tanto;
    Porqu'em tamanhas penas
    Me cansa a penna, e a dor m'impede o canto.
                BELISA.
      Que alegre campo e praia deleitosa!
    Quo saudosa faz esta espessura
    A formosura angelica e serena
    Da tarde amena! Quo saudosamente
    A sesta ardente abranda, suspirando,
    De quando em quando o vento alegre e frio!
    No fundo rio os mudos peixes slto;
    Os ceos se esmalto todos d'ouro e verde,
    E Phebo perde a fra da quentura.
    Por a espessura levo, passeando,
    O gado brando ao som das anfoninas,
    Pizando as finas e formosas flores,
    Os Guardadores, que cantando o gesto
    Formoso e honesto das pastoras qu'amo,
    Por o ar derramo mil suspiros vos.
    Hum louva as mos, louva outro os raios bellos,
    Outro os cabellos d'ouro, em som suave:
    E a amorosa ave leva o contraponto.
    Mas oh que conto e saudosa historia
    Que na memoria aqui se m'offerece!
    Se no m'esquece, ja deste lugar
    Ouvi soar os valles algum dia,
    E respondia o eco o nome em vo
    N'hum corao, _Belisa_ retumbando.
    Estou cuidando como o tempo passa,
    E quo escaa he toda alegre vida;
    E quo comprida, quando he triste e dura.
    Nesta 'spessura longo tempo amei:
    Se m'enganei com quem do peito amava,
    No me pezava de ser enganada.
    Fui salteada, emfim, d'hum pensamento,
    Que hum movimento tinha casto e so.
    Conversao foi fonte dest'engano
    Que, por meu dano, entrou com falsa cr.
    Porque o amor na Nympha, que he segura,
    Entra em figura de vontade honesta.
    Mas que me presta agora dar desculpa?
    Pois se houve culpa, foi do firme amor
    S, n'hum pastor, que nunca sol nem l[~u]a,
    Ou serra alg[~u]a, desde o Ibero ao Indo,
    Outro to lindo vro, to manhoso.
    Nest'amoroso estado, e f que tinha
    Nest'alma minha to secretamente,
    Vivi contente, amando e encobrindo.
    Elle fingindo mentirosos danos,
    Que so enganos que no custo nada;
    Tendo alcanada ja no entendimento
    A f e intento meu s nelle psto;
    (Que logo o rosto mostra os coraes,
    E as affeies co'os olhos se pratico
    Que mais publico muito, que palavras)
    Com suas cabras sempre  parte vinha,
    Ond'eu mantinha os olhos do desejo.
    Tu, manso Tejo, e tu, flordo prado,
    Do mais passado, emfim, que aqui no digo,
    Sereis, m'obrigo, testimunho certo;
    Pois descoberto vos foi tudo e claro.
    Oh tempo avaro! oh sorte nunca igual!
    Quo grande mal quereis  humana gente!
    Porque hum contente estado assi trocastes?
    Vs me tirastes do meu peito isento
    O pensamento honesto e repousado,
    Ja dedicado ao cro de Diana;
    Vs n'huma ufana vida me puzestes,
    E alli quizestes que gozasse o dano
    Do doce engano, que se chama amor,
    Com cujo error passava o tempo ledo:
    E vs to cedo me tirais hum bem,
    Que Amor ja tem impresso n'alma minha,
    Despois qu'a tinha envolta em esperanas;
    E com lembranas tristes me deixais?
    Mal me pagais a f que sempre tive.
    Mas assi vive quem sem dita nace.
    Mas ja a face alegre o sol esconde;
    E no responde alguem a tantas mgoas,
    Seno as goas, que dos olhos sahem.
    As sombras cahem; vo-se as alimarias,
    Fartas das vrias hervas, seu caminho;
    Busco seu ninho os passaros sem dono:
    Ja por o sono esquecem o comer.
    Quero esquecer tambem to doce historia,
    Pois he memoria que traz mor cuidado.
    Isto he passado; e se me deo paixo,
    Os dias vo gastando o mal e o bem;
    E no convm querer-me magoar
    Do qu'emendar no posso ja com mgoas.
    Nas claras goas deste rio brando,
    Que vo regando o valle matizado,
    Este tranado lavar quero emfim;
    Que ja de mim m'esqueo co'a lembrana
    Desta mudana, qu'esquecer no sei:
    Bem qu'eu verei mudar a opinio,
    Pois homens so: a quem o esquecimento
    Depressa faz mudar o pensamento.
                ALMENO.
      Se a vista no m'engana a phantasia,
    Como ja m'enganou mil vezes, quando
    Minha ventura enganos me soffria;
      Parece-me, que vejo estar lavando
    Huma Nympha algum vo no claro Tejo,
    Que se m'est Belisa figurando.
      No pde ser verdade isto que vejo;
    Que facilmente aos olhos se figura
    Aquillo que se pinta no desejo.
      Oh acontecimento, qu'a ventura
    Me d para mor damno! Esta he, certo;
    Que no he d'outrem tanta formosura.
      Se poderei fallar-lhe de mais perto?
    Mas fugir-me-ha. No pde ser; qu'o rio
    Para acol no t[~e]e caminho aberto.
      Oh temor grande! oh grande desvario,
    Qu'a voz m'impede, e a lingua negligente
    Assi m'est tornando, e o peito frio!
      De quanto me sobeja, estando ausente,
    Que para lhe fallar sempre imagino,
    Tudo me falta quando estou presente.
      Oh aspecto suave e peregrino!
    Pois como? to asinha assi s'esquece
    Huma f verdadeira, hum amor fino?
                BELISA.
      Oh altas semideas! pois padece
    Em vosso rio a honra delicada
    De quem tamanha fra no merece:
      Ou seja por vs, Nymphas, preservada;
    Ou em arvore alguma, ou pedra dura
    Me deixai velozmente transformada.
                ALMENO.
      Ah Nympha! no te mudes a figura:
    Nem vs, deosas, queirais qu'eu seja parte
    De se mudar to rara formosura.
      Porqu'a quem falta a voz para fallar-te,
    E a quem falta o despejo da ousadia,
    Tambem faltaro mos para tocar-te.
                BELISA.
      Que me queres, Almeno, ou que porfia
    Foi a tua to aspera comigo?
    Minha vontade no to merecia.
      Se com amor o fazes, eu te digo,
    Qu'amor, que tanto mal me faz em tudo,
    No pde ser amor, mas inimigo.
      No es tu de saber to falto e rudo,
    Que to sem siso amasses, como amaste.
                ALMENO.
    Onde viste tu, Nympha, amor sisudo?
      Porque ja no te lembra que folgaste
    Com meus tormentos tristes, e algum'hora
    Com teus formosos olhos ja m'olhaste?
      Como t'esquece ja (gentil pastora)
    Que folgavas de ler nos freixos verdes
    O que de ti 'screvia cada hora?
      Porqu'a memoria to  pressa perdes
    Do amor que me mostravas, qu'eu no digo,
    Se o vs,  altos montes, no disserdes?
      E como te no lembras do perigo,
    A que s por m'ouvir t'aventuravas,
    Buscando horas de sesta, horas d'abrigo?
      Co'a maa da discordia me tiravas;
    Qu'a Venus, qu'a ganhou por formosura,
    Tu, como mais formosa, lha ganhavas.
      E escondendo-te logo na'spessura,
    Hias fugindo, como vergonhosa
    Da namorada e doce travessura.
      No era esta a maa d'ouro formosa
    Com qu'encoberta assi d'astucia tanta
    Cydippe s'enganou por cubiosa,
      Nem a que o curso teve d'Atalanta;
    Mas era aquella, com que Galatha
    O pastor captivou, como elle canta.
      Se ms tenes puzero nodoa fa
    Em nosso firme amor, d'inveja pura,
    Porque pagarei eu a culpa alhea?
      Quem desta f, quem dest'amor no cura,
    Nunca teve sujeito o corao;
    Queo firme amor com a alma eterna dura.
                BELISA.
      Mal conheces, Almeno, huma affeio;
    Que s'eu desse amor tenho esquecimento,
    Meus olhos magoados to diro.
      Mas teu sobejo e livre atrevimento,
    E teu pouco segredo, descuidando,
    Foi causa deste longo apartamento.
      Vs as Nymphas do Tejo, que mudando
    Me vo ja pouco a pouco, o claro gesto
    N'outra mais dura frma traspassando.
      Hum s segredo meu te manifesto:
    Que te quiz muito em quanto Deos queria;
    Mas de pura affeio, d'amor honesto.
      E pois de teus descuidos e ousadia
    Nasceo to dura e aspera mudana,
    Flgo; que muitas vezes to dizia.
      Fica-te embora, e perde a confiana
    De ver-me nunca mais, como ja viste:
    Que assi se desengana huma esperana.
                ALMENO.
      Oh duro apartamento! oh vida triste!
    Oh nunca acontecida desventura!
    Pois como, Nympha? assi te despediste?
      Assi s'ha d'ir tornando (ah sorte dura!)
    Nesta sylvestre e aspera rudeza
    To branda e excellente formosura?
      Tua nunca entendida gentileza,
    E teus membros assi se transformro,
    Negando-se-lhe a propria natureza?
      Dest'arte os teus cabellos se tornro
    (Deixando ja seu preo ao ouro fino)
    Em flhas, que a cr t[~e]e do que negro?
      S'este consentimento foi divino,
    Consinta-me tambem que perca a vida,
    Antes que a mais m'obrigue o desatino.
      Pois se a fortuna sempre embravecida
    Em meu tormento tanto se desmede,
    No viva mais hum'alma to perdida.
      E vs, feras do monte, pois vos pede
    Minha pena o remedio derradeiro,
    Fartae ja de meu sangue vossa sde.
      E vs, pastores rudos deste outeiro,
    Porque a todos, emfim, se manifeste
    Que cousa he amor puro e verdadeiro;
       sombra deste funebre cypreste
    Me fareis hum sepulcro sem arro
    De boninas que o prado ameno veste.
      As desusadas musicas de Orpho
    Aqui me cantareis; e desta sorte
    No haverei inveja ao mausolo.
      E porqu'a minha cinza se conforte,
    Em vossos metros doces e suaves
    As exequias direis de minha morte.
      Alli respondero as altas aves,
    No mdulas no canto nem lascivas,
    Mas de dor ora roucas, ora graves.
      No correro as guas fugitivas,
    Alegres por aqui, mas saudosas,
    Que parea que vem dos olhos vivas.
      Nascero por as praias deleitosas
    Os asperos abrolhos em lugar
    Dos roxos lirios, das pudicas rosas.
      No traro as ovelhas a pastar
    De redor do sepulcro os guardadores;
    Pois nada comerio de pezar.
      Viro os Faunos, guarda dos pastores,
    Se morri por amores, perguntando;
    Respondero os ecos: _Por amores_.
      Dos que por aqui forem caminhando,
    Hum epitaphio triste se ler,
    Qu'esteja minha morte declarando.
      E no tronco de huma rvore estara,
    N'huma rude cortia pendurado
    Escripto co'huma fouce, e assi dir:
      _Almeno fui, pastor de manso gado,
    Em quanto o consentio minha ventura,
    De Nymphas e pastores celebrado.
      Se algum dia, por caso, na 'spessura
    Se perder o amor e a affeio,
    Tirem a pedra desta sepultura,
      E em figura de cinza os acharo._


ECLOGA IV.


INTERLOCUTORES.

FRONDOSO e DURIANO.

    Cantando por hum valle docemente
    Descio dous pastores, quando Phebo
    No reino Neptunino se escondia:
    De idade cada qual era mancebo;
    Mas velho no cuidado, e descontente
    Do que lh'elle causava parecia.
    O que cada hum dizia
    Lamentando seu mal, seu duro fado,
    No sou eu to ousado,
    Que o pretenda cantar sem vossa ajuda:
    Porque se a minha ruda
    Frauta deste favor vosso for dina,
    Posso escusar a fonte Caballina.
      Em vs tenho Helicon, tenho Pegso;
    Em vs tenho Calliope e Thalia;
    E as outras sete irmas, co'o fero Marte;
    Em vs deixou Minerva sua valia;
    Em vs esto os sonhos do Parnaso;
    Das Pierides em vs s'encerra a arte.
    Com qualquer pouca parte,
    Senhora, que me deis d'ajuda vossa
    Podeis fazer qu'eu possa
    Escurecer ao sol resplandecente:
    Podeis fazer que a gente
    Em mi do gro poder vosso s'espante;
    E que vossos louvores sempre cante.
      Podeis fazer que cresa d'hora em hora
    O nome Lusitano, e faa inveja
    A Esmirna, que d'Homero s'engrandece.
    Podeis fazer tambem que o mundo veja
    Soar na ruda frauta o que a sonora
    Cithara Mantuana s merece.
    Ja agora me parece,
    Que podem comear os meus pastores
    A cantar seus amores.
    Porqu'inda que presentes no estejo
    As qu'elles ver desejo,
    Mudana de lugar, menos d'estado,
    No muda hum corao do seu cuidado.
      Ja deixava dos montes a altura,
    E nas salgadas ondas s'escondia
    O sol, quando Frondoso e Duriano,
    Ao longo d'hum ribeiro, que corria
    Por a mais fresca parte da verdura
    Claro, suave e manso, todo o ano,
    Lamentando seu dano,
    Vinho ja recolhendo o manso gado.
    Hum estava callado,
    Em quanto hum pouco o outro se queixava;
    Apos elle tornava
    A dizer de seu mal o que sentia;
    E em quanto este fallava, aquelle ouvia.
      Vinho-se assi queixando aos penedos,
    Aos sylvestres montes e  aspereza,
    Que quasi de seus males se doio.
    Alli as pedras perdio a dureza;
    Alli correntes rios estar quedos,
    Promptos s suas queixas, parecio.
    Somente as que podio
    Estes males curar, pois os causavo,
    O ouvido lhes negavo,
    Por perderem de todo a esperana:
    Mas elles, que mudana
    D'amor com tantos damnos no fazio,
    Com ellas fallando inda, assi dizio:
                FRONDOSO.
      Isto he o que aquella verdadeira
    F, com que t'amei sempre, merecia,
    Sem nunca te deixar hum s momento?
    Como (cruel Belisa) t'esquecia
    Hum mal, cuja esperana derradeira
    Em ti s tinha psto o seu assento?
    No vias meu tormento?
    No vias tu a f, com que t'amava?
    Porque no t'abrandava
    Est'amor, que me tu to mal pagaste?
    Mas pois ja me deixaste
    Co'a esperana de ti toda perdida,
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Se os males que por ti tenho soffrido
    (Oh Silvana, em meus males to constante!)
    Quizesses que algum'hora te dissera;
    Inda que, qual durissimo diamante,
    Fra o teu cruel peito endurecido,
    Creio que a piedade te movra.
    Ja agora em branda cera
    Os montes so tornados e os penedos;
    E os rios, qu'esto quedos,
    Sentro meus suspiros, minhas queixas.
    Tu s, cruel, me deixas,
    Qu'es mais, que montes e penedos, dura,
    E fugitiva mais qu'a fonte pura.
                FRONDOSO.
      Ond'est aquella falla, que sohia
    S com seu doce tom, que me chegava,
    Avivar-me os espiritos cansados?
    Onde est o olhar brando, que cegava
    O sol resplandecente ao meio dia?
    Ond'esto os cabellos delicados,
    Que ao vento espalhados
    Escurecio o ouro, a mi matavo;
    E a quantos os olhavo,
    Causavo tambem novos accidentes?
    Porque, cruel, consentes
    Qu'outro goze da gloria a mi devida?
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Nenhum bem vejo, que a meu mal espere,
    Se no fosse esperar que morte dura
    Me venha emfim a dar a saudade.
    Vejo faltar-me a tua formosura;
    A vontade me diz que desespere,
    Contradiz-me a razo esta vontade.
    Diz qu'em huma beldade,
    Em quem mostrou o cabo a natureza,
    No ha tanta crueza,
    Qu'hum to constante amor desprezar queira,
    E f to verdadeira;
    Mas tu, que de razo jamais curaste,
    Porqu'era dar-me a vida, ma tiraste.
                FRONDOSO.
      A quem, Belisa ingrata, t'entregaste?
    A quem dste, cruel, a formosura,
    Qu'a meu tormento s, s se devia?
    Porqu'huma f deixaste, firme e pura?
    Porque to sem respeito me trocaste
    Por quem s nem olhar-te merecia?
    O bem que t'eu queria,
    E que no perderei se no por morte,
    No he de maior sorte,
    Que quanto a cega gente estima e preza?
    S a tua crueza
    Foi nisto contra mi endurecida.
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Levaste-me o meu bem n'hum s momento;
    Levaste-me com elle juntamente
    De cobr-lo jamais a confiana:
    Deixaste-me em lugar delle smente
    Huma contnua dor, hum gro tormento,
    Hum mal, de que no pde haver mudana.
    Tu, qu'eras a esperana
    Dos males que, cruel, tu me causaste,
    De todo te trocaste,
    Com Amor conjurada em minha morte.
    Porm se a minha sorte
    Consente que por ti seja causada,
    Morte no foi mais bem-aventurada.
                FRONDOSO.
      No nasceste d'alguma pedra dura;
    No te gerou alguma Tigre Hyrcana;
    No te criaste, no, entre a rudeza,
    A quem, cruel, sahiste deshumana?
    No ceo formada foi tal formosura,
    Onde a mesma brandura he natureza.
    Pois, logo, essa dureza
    Donde teve princpio, ou a tomaste?
    Porque, dura, engeitaste
    De hum verdadeiro amor, que tu bem vias,
    A f, que conhecias,
    Por outra de ti nunca conhecida?
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Vai-se co'o seu pastor o manso gado,
    Porque d'amor entende aquella parte,
    Qu'a natureza irracional lh'ensina.
    O rustico leo sem algum'arte,
    Do natural instincto s ensinado,
    Aonde sente amor, logo se inclina.
    E tu, que de divina
    No tens menos queVenus e Cupido,
    Porque sequer co'o ouvido
    Hum amor verdadeiro no soccorres?
    Ah! porque te no corres
    De que o leo te vena em piedade,
    Se no te vence Venus na beldade?
                FRONDOSO.
      A mi no me faltava o que se preza
    Entre os celestes deoses, que formro
    A tua mais que humana formosura:
    Em mi os voluntarios ceos faltro;
    Em mi se perverteo a natureza
    D'huma cruel formosa creatura.
    Mas, pois, Belisa dura,
    Que do mais alto ceo a ns vieste,
    E em teu peito celeste
    Hum tal contrrio pde aposentar-se,
    No he contrrio achar-se
    Tamanha f to mal agradecida.
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Por ti a noite escura me contenta;
    Por ti o claro dia m'aborrece;
    Abrolhos me parecem frescas flores;
    A doce Philomela m'entristece:
    Todo contentamento m'atormenta
    Com a contemplao de teus amores;
    As festas dos pastores,
    Que podem alegrar toda a tristeza.
    Em mi tua crueza
    Faz que o mal cada hora v dobrando.
    Oh cruel! at quando
    Ha de durar em ti tal pensamento,
    E a vida em mi, que soffre tal tormento?
                FRONDOSO.
      Fugiste d'hum amor to conhecido,
    Fugiste d'huma f to clara e firme;
    E seguiste a quem nunca conheceste,
    No por fugir d'amor, mas por fugir-me;
    Pois bem vs, quanto eu tinha merecido
    Esse amor que tu a outro concedeste.
    A mi no me fizeste
    Alguma sem razo; que bem conheo
    Que tanto no mereo:
    Fizeste-a quelle bem firme e sincero
    Que sabes que te quero,
    Em lhe tirar a gloria merecida.
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Cresce cad'hora em mi mais o cuidado,
    E vejo qu'em ti cresce juntamente
    Cad'hora mais de mi o esquecimento.
    Oh Silvana cruel! porque consente
    Esse peito formoso e delicado
    Que s'esquea hum to aspero tormento?
    Tal aborrecimento
    Merece hum capital teu inimigo:
    No eu, que s comtigo
    Estou contente, e nada mais desejo,
    Se algum'hora te vejo.
    Tu es hum s meu bem, huma s gloria,
    Que nunca se m'aparta da memoria.
                FRONDOSO.
      Olhos, que vro tua formosura;
    Vida, que s de ver-te se sostinha;
    Vontade, qu'em ti'stava transformada;
    Alma, qu'ess'alma tua em si s tinha,
    To unida comsigo, quanto a pura
    Alma co'o debil corpo est liada;
    E que agora apartada
    Te v de si com tal apartamento,
    Qual ser seu tormento?
    Qual ser aquelle mal que t[~e]e presente?
    Maior he que o que sente
    O triste corpo em ltima partida.
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Regendo em outro tempo o manso gado,
    Tangendo a minha frauta nestes vales,
    Passava a doce vida alegremente:
    No sentia o tormento destes males;
    Menos sentia o mal deste cuidado;
    Que tudo ento em mi era contente.
    Agora no somente
    Desta vida suave m'apartaste.
    Mas outra me deixaste,
    Que ao duro mal que sinto ca no peito,
    Me t[~e]e ja to affeito,
    Que sinto ja por gloria a minha pena,
    Por natureza o mal, que me condena.
                FRONDOSO.
      Juntamente viver compridos anos,
    Os fados te concedo, que quizero
    Ajuntar-te com tal contentamento.
    Pois os bens para ti todos nascro,
    Nascro para mi todos os danos,
    Logra tu tua gloria, eu meu tormento.
    Nenhum apartamento,
    Belisa, me fara deixar d'amar-te;
    Porqu'em nenhuma parte
    Poders nunca estar sem mi hum'hora.
    Consente pois agora,
    Qu'em pago desta f to conhecida,
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Veja-t'eu, crua, amar quem te desame,
    Porque saibas que cousa he ser amada
    De quem tanto aborreces e desprezas.
    Veja-t'eu ser ainda desprezada
    De quem tu mais desejas que te ame,
    Porque sintas em ti tuas cruezas,
    Sintas tuas durezas,
    E quanto pde o seu cruel effeito
    N'hum corao sujeito.
    Porqu'em sentindo o mal, qu'eu sinto agora,
    Espero qu'algum'hora
    Faa o teu proprio mal de mi lembrar-te,
    Ja que no pde o meu nunca abrandar-te.
                FRONDOSO.
      Mil annos de tormento me parece
    Cad'hora que sem ti, sem esperana
    Vivo de poder mais tornar a ver-te.
    A vida s me d tua lembrana;
    A vida sbre tudo m'entristece;
    A vida antes perdra, que perder-te.
    Mas eu se, por querer-te
    Hum bem qu'em ti s t[~e]e seu firme assento,
    Padeo tal tormento,
    Qu'esperar de ti quem te desama,
    Ou quem ao menos te ama
    Com algum falso amor, ou f fingida?
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Ento, cruel, vers se te merece
    Com tamanho desprzo ser tratada
    Hum'alma, que d'amar-te s se preza.
    Mas como poders ser desprezada,
    Se o menos qu'em ti fra se parece,
    Pde abrandar dos montes a aspereza?
    Porque se a natureza
    Em ti o remate poz da formosura,
    Qual ser a pedra dura,
    Qu'a teu valor resista brandamente?
    Que far a fraca gente,
    Se ao humano parecer no se defende,
    E a mesma Venus deosa ao teu se rende?
                FRONDOSO.
      E pois f verdadeira, amor perfeito,
    Tormento desigual e vida triste,
    Junta com hum contino soffrimento,
    E hum mal, em que o mal todo, emfim, consiste,
    No pudero mover teu duro peito
    A mostrares sequer contentamento
    De ver o meu tormento;
    Antes tudo soberba desprezaste,
    E a outrem t'entregaste
    Por nada me ficar em qu'esperasse,
    Seno quando acabasse
    A vida, a pezar meu, ja to comprida,
    Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
                DURIANO.
      Longo curso de tempo, e apartado
    Lugar a hum corao, que vive entregue,
    No podem apartar de seu intento.
    Porque foges, cruel, a quem te segue?
    No vs que teu fugir he escusado,
    Pois sem mim no ests hum s momento?
    Nenhum apartamento,
    Inda que a alma do corpo se m'aparte,
    Poder ja ausentar-te
    Dest'alma triste, que continuamente
    Em si te t[~e]e presente.
    Torna, cruel; no fujas a quem t'ama:
    Vem a dar vida, ou morte a quem te chama.
      A noite escura, triste e tenebrosa,
    Que ja tinha estendido o negro manto,
    D'escuridade a terra toda enchendo,
    Fez pr a estes pastores fim ao canto,
    Que ao longo da ribeira deleitosa
    Vinho seu manso gado recolhendo.
    Se aquillo, qu'eu pretendo
    Deste trabalho haver, que he todo vosso,
    Senhora, alcanar posso;
    No ser muito haver tambem a gloria
    E o louro da victoria,
    Que Virgilio procura e haver pretende,
    Pois o mesmo Virgilio a vs se rende.


ECLOGA V.

_Falla hum s pastor._

    A quem darei queixumes namorados
    Do meu pastor queixoso e namorado?
    A branda voz, suspiros magoados,
    A causa porque n'alma he magoado?
    De quem sero seus males consolados?
    Quem lhe fara devido gasalhado?
    S vs, Senhor famoso e excellente,
    Especial em graas entr'a gente.
      Por partes mil lanando a phantasia,
    Busquei na terra estrella, que guiasse
    Meu rudo verso; em cuja companhia
    A santa piedade sempre andasse
    Luzente e clara, como a luz do dia,
    Que o rudo engenho meu m'allumiasse;
    E em vossas perfeies, gro Senhor, vejo
    Ainda alm cumprido o meu desejo.
      A vs se dem, a quem junto se ha dado
    Brandura, mansido, engenho e arte,
    D'hum esprito divino acompanhado,
    Dos sobrehumanos hum em toda parte:
    Em vs as graas todas se ho juntado;
    De vs em outras partes se reparte.
    Sois claro raio, sois ardente chama;
    Gloria e louvor do tempo, azas da fama.
      Em quanto eu apparelho hum novo esprito,
    E voz de cysne tal, que o mundo espante,
    Com que de vs, Senhor, em alto grito
    Louvores mil em toda parte cante;
    Ouvi o canto agreste em tronco escrito,
    Entre vaccas e gado petulante:
    Que quando tempo for, em melhor modo
    Ha de m'ouvir por vs o mundo todo.
      As vas querellas, brandas e amorosas,
    Sejo de vs tratadas brandamente;
    Verdades d'alma pouco venturosas,
    Sahidas com suspiro vivo e ardente:
    Em vossas mos s'entrego valerosas,
    Porqu'ao futuro vivo entr'a gente,
    Chorando sempre a antigua crueldade,
    Para mover as almas a piedade.
      Ja declinava o sol contra o Oriente,
    E o mais do dia ja era passado,
    Quando o pastor co'o grave mal que sente,
    Por dar allvio em parte a seu cuidado,
    Se queixa da pastora docemente,
    Cuidando de ninguem ser escutado.
    Eu que o escutei, n'huma rvore escrevia
    As mgoas que cantou; e assi dizia:
      Ou tu do monte Pindaso es nascida,
    Ou marmor te pario formosa e dura:
    No pde ser que fosse concebida
    Dureza tal de humana creatura:
    Ou qui qu'es em pedra convertida,
    Ou tens da natureza tal ventura;
    Porm no fez em ti boa impresso,
    S de marmor tornar-te o corao.
      Ja, ja com minha voz rouca e chorosa
    A gente mais austera moveria;
    E com esta corrente lagrimosa
    Os tigres em Hyrcania amansaria.
    Se no fosses cruel, quanto formosa,
    Meu longo suspirar t'abrandaria:
    Mas suspirar por ti, mas bem querer-te,
    Que fazem seno mais endurecer-te?
      Se deixras vencer a crueldade
    De tua to perfeita formosura;
    Hum pouco vras bem minha vontade,
    E vras a f minha, limpa e pura,
    Por ventura, que houveras ja piedade,
    E tivera eu qui melhor ventura:
    Mas nunca achou igual tua belleza,
    Se no se foi em ti tua dureza.
      Ja hum peito abrandra, que no sente,
    Este meu grave mal, segundo he forte;
    Se descra do inferno ao Polo ardente,
    A piedade movra a propria morte.
    Pois se huma gotta d'agua brandamente
    Torna brando hum penedo, duro e forte,
    Tantas lagrimas minhas no faro
    Hum pequeno sinal n'hum corao?
      Na testa fonte viva tenho d'goa,
    Que por meus olhos tristes se derrama;
    E no peito de fogo viva fragoa,
    Que tudo em si converte, tudo inflama:
    Amor em de redor, por maior mgoa,
    Voando mais accende a ardente chama.
    Se queres ver se ardentes so seus tiros,
    lha se so ardentes meus suspiros.
      Quando grita e rumor grande se sente,
    Porque fogo se ateia em casa, ou torre,
    De pura compaixo vai toda a gente,
    goa ao fogo gritando; e cada hum corre.
    Dest'arte anda o meu peito em chamma ardente,
    E com a goa dos olhos se soccorre;
    Que quem me abraza, outra goa me defende,
    Porque com esta o fogo mais se accende.
      Quando vemos que sahe l no Oriente
    O sol, seu curso antigo comeando,
    Formoso, intenso, puro, refulgente,
    O monte, o campo, o mar, tudo alegrando;
    Quando de ns s'esconde no Ponente,
    E em outras terras sahe, allumiando,
    Sempre, em quanto vai dando ao mundo giro,
    Chro por ti meus olhos, e eu suspiro.
      Caminha o dia todo o caminhante,
    E, emfim, lhe chega a noite, em que descana;
    Trabalha na tormenta o navegante,
    Traz-lhe a clara manha feliz bonana;
    Recobra o fructo fertil e abundante
    Da terra o lavrador, se nella cana:
    Mas eu de meu cuidado e mal to forte
    Tormento espero s, s crua morte.
      D'ouvir meu damno as rosas matutinas,
    Condoidas se cerro, s'emmurchecem;
    Com meu suspiro ardente as cres finas
    Perdem o cravo, o lyrio, e no florecem.
    Co'a roxa aurora as pallidas boninas,
    Em vez de se alegrarem, s'entristecem:
    Deixo seu canto Progne e Philomena;
    Que mais lhes doe, que a sua, a minha pena.
      Responde o monte concavo a meus ais,
    E tu como aspid, cerras-lhe o ouvido;
    Os indomitos feros animais,
    Sem humano sentir, mostro sentido:
    Mas em ti minhas dores desiguais
    Nunca movem o peito endurecido:
    Por muito que te chame, no respondes;
    E quanto mais te busco, mais t'escondes.
      Naquella parte donde costumavas
    Apascentar meus olhos e teu gado;
    Alli donde mil vezes me mostravas,
    Qu'era o pastor de ti mais desejado,
    Vezes mil te busquei, por ver se davas
    Algum breve descanso a meu cuidado.
    Busco-te em vo no valle, em vo no monte,
    Qual o ferido cervo busca a fonte.
      Este lugar de ti desamparado,
    Com cujas sombras frias ja folgaste,
    Agora triste, escuro he ja tornado;
    Que todo o bem comtigo nos levaste.
    Eras tu nosso sol mais desejado;
    No temos luz, despois que nos deixaste.
    Torna, meu claro sol; torna, meu bem:
    Qual he o Josu que te detm?
      Despois que deste valle t'apartaste,
    No pasce ja algum gado, com seccura;
    Seccou-se o campo, des que lhe negaste
    Dos teus formosos olhos a luz pura;
    Seccou-se a fonte, donde ja te olhaste,
    Quando menos, que agora, aspera e dura;
    Nega sem ti a terra, ouvindo gritos,
    s cabras pasto e leite a os cabritos.
      Sem ti, doce cruel minha inimiga,
    A clara luz, escura me parece:
    Este ribeiro, quando a dor m'obriga,
    Com meu chorar por ti contino crece.
    No ha fera, a que a fome no persiga;
    Algum prado sem ti ja no florece:
    Cegos esto meus olhos; nada vem,
    Porque no podem ver seu claro bem.
      O campo, como d'antes, no s'esmalta
    De boninas azues, brancas, vermelhas;
    Falta goa ao pasto, e sentem d'goa a falta
    As candidas pacficas ovelhas:
    Bem conhecem tambem que o ceo lhes falta
    As doces e solcitas abelhas:
    Com lagrimas, que mano dos meus olhos,
    A terra nos produz duros abrolhos.
      Torna pois ja, pastora, ao nosso prado,
    Se restituir-lhe queres a alegria:
    Alegrars o valle, o campo, o gado,
    E aquelle espelho teu da fonte fria.
    Torna, torna, meu sol to desejado,
    Faras a noite escura, claro dia;
    E alegra ja esta vida magoada,
    Em que s tua ausencia he Parca irada.
      Vem, como quando o raio transparente
    Deste nosso horizonte, qu'escondido,
    Deixa hum certo temor  mortal gente,
    Causado de ver o Orbe escurecido;
    E quando torna a vir claro e luzente,
    Alegra o mundo todo entristecido:
    Que assi he para mi tua luz pura
    Claro sol, como a ausencia noite escura.
      Mas tu 'squecida ja do bem passado,
    E do primeiro amor, que me mostraste,
    Teu corao de mi t[~e]es apartado,
    No menos que do valle t'apartaste.
    No te quero eu a ti mais qu'a meu gado?
    No sou eu mesmo aquelle que tu amaste?
    Onde o meu rro viste, ou desvario,
    Que pde merecer-te hum tal desvio?
      Bem vs que por Amor se move tudo,
    E que delle no ha quem seja isento;
    O mais simple animal, mais baixo e rudo,
    O demais levantado pensamento:
    Debaixo d'goa fria o peixe mudo
    Tambem l t[~e]e d'ardor seu movimento.
    Pois as aves, que no ar cantando vo,
    No menos humas d'outras s'affeio.
      A musica do leve passarinho
    Que sem concrto algum slta e derrama,
    De hum raminho saltando a outro raminho,
    Mostra que por amor suspira e chama.
    Em quanto no secreto amado ninho
    No acha aquelle, que s busca e ama,
    No canto, a ns alegre, triste chora,
    Porque teme perder a quem namora.
      A fera, que he mais fera, e o leo,
    Sempre acha outro leo, sempre outra fera,
    Em quem possa empregar huma affeio,
    Que o conversar no peito seu lhe gera:
    Tambem sabe sentir sua paixo,
    Tambem suspira, morre, desespera;
    Acena, salta, brada, ferve e geme;
    E no temendo a nada, a Amor s teme.
      O cervo, qu'escondido e emboscado,
    Temendo ao cobioso caador,
    Est na selva, monte, bosque, ou prado,
    Alli donde anda e vive, vive amor.
    De temor e d'amor acompanhado,
    Com justa causa amor t[~e]e e temor:
    Temor a quem para feri-lo vinha,
    Amor a quem ja, ja ferido o tinha.
      Pois se a fera insensivel, que no sente,
    Tambem sente d'Amor a frecha dura,
    Porqu'a ti no t'abranda hum fogo ardente,
    Que procede da tua formosura?
    Porqu'escondes a luz do sol  gente,
    Que nesses olhos trazes bella e pura?
    Mais pura, mais suave, mais formosa,
    Que, lyrio, que jasmim, que cravo e rosa.
      Pde ser, se me visses, que sentiras
    Ver liquidar hum peito em triste pranto;
    E bem pouco fizeras, se me viras,
    Pois eu s por te ver suspiro tanto:
    As mgoas, os suspiros, que m'ouviras
    Te pudero mover a grande espanto,
    A dor, a piedade, a sentimento,
    E a mais, que para mais he meu tormento.
      Os pensamentos vos, que o vento leve:
    O suspirar em vo tambem ao vento;
    Hum esperar  calma,  chuva,  neve,
    E nunca poder ver-te hum s momento;
    Tormento he, que somente a ti se deve.
    E se pde inda haver maior tormento,
    Quem te vio, e se v de ti ausente,
    Muito mais passar mais levemente.
      Faz mossa a pedra dura em sua dureza
    Com a goa que lhe toca brandamente;
    Abranda o ferro forte a fortaleza,
    Se lhe toca tambem o fogo ardente:
    Em ti s desconheo a natureza;
    Que, a ser de pedra ou ferro totalmente,
    Ja teu peito cruel fra desfeito
    Das goas e das chammas do meu peito.
      Quando a formosa Aurora mostra a fronte,
    Alegra toda a terra, vendo o dia;
    Quando Phebo apparece no horizonte,
    Manifesta tambem grande alegria;
    Contente pasce o gado ao p do monte,
    Contente a beber vai na fonte fria:
    Est tudo contente, alegre tudo;
    Eu s, s pensativo, triste e mudo.
      Se ja d'alma e do corpo tens a palma,
    E do corpo sem alma no tens d,
    Ha d do corpo s, qu'est sem alma,
    Pois sem alma no vive o corpo s.
    Nas chammas e no ardor, no fogo e calma,
    Na affeio, no querer eu sou hum s:
    No achars vontade to captiva;
    Nem outra como a tua to esquiva.
      Se te apartas por no ouvir meu rgo,
    Onde estiveres te hei d'importunar:
    Postoque vs por goa, ferro, ou fogo,
    Comtigo em toda parte m'has d'achar;
    Que o fogo em que ardo, e a goa em que m'affogo,
    Emquanto eu vivo for, ho de durar;
    Pois o n, que m'enlaa, he de tal sorte,
    Que no se ha de soltar em vida, ou morte.
      Neste meu corao sempr'estaras,
    Emquanto a alma estiver com elle unida:
    Tambem o meu esprito possuirs
    Despois que a alma do corpo for partida.
    Por mais e mais que faas, no faras
    Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida:
    Impossivel sera qu'eternamente
    Ausente ests de mim, estando ausente.
      C m'acompanhar vossa memoria,
    Se o rio, que se diz do esquecimento,
    Da minha no borrar to longa historia,
    To grave mal, to duro apartamento.
    At quando vos veja entrar na gloria,
    Viverei n'hum contino sentimento:
    E ainda ento vereis (s'isto ser possa)
    Esta minh'alma l servir a vossa.
      Aqui com grave dor, com triste accento,
    Deo o triste pastor fim a seu canto:
    Co'o rosto baixo e alto o pensamento,
    Seus olhos comero novo pranto:
    Mil vezes parar fez no ar o vento,
    E apiedou no ceo o coro santo:
    As circumstantes sylvas s'inclinro,
    Condoidas das mgoas qu'escutro.
      Com h[~u]a mo na face, reclinado,
    To enlevado em sua dor estava,
    Que, como em grave somno sepultado,
    No via que ja o sol no mar entrava.
    Berrando andava em roda o manso gado,
    Que o seguro curral ja desejava:
    Nas covas as raposas, e em seus ninhos
    Se recolhem os simples passarinhos.
      Ja sbre hum scco ramo estava psto
    O mocho com funesto e triste canto:
    Ao som delle o pastor ergueo o rosto,
    E vio a terra envolta em negro manto.
    Quebrando ento o fio de seu gsto,
    E o fio no quebrando de seu pranto,
    Por no se descuidar de seu cuidado,
    Levou para os curraes o manso gado.


ECLOGA VI


INTERLOCUTORES

AGRARIO, Pastor. ALICUTO, Pescador.

    A rustica contenda desusada
    Entr'as Musas dos bosques, das areias,
    De seus rudos cultores modulada;
      A cujo som attonitas e alheias
    Do monte as brancas vaccas estivero,
    E do rio as saxatiles lampreias;
      Desejo de cantar. Que se movro
    Os troncos s avenas dos pastores,
    E ja sylvestres brutos suspendro.
      No menos o cantar dos pescadores
    As ondas amansou do fundo pgo,
    E fez ouvir os mudos nadadores.
      E se por sustentar-se o moo cego
    Nos trabalhos agrestes a alma inflama,
    O que he mais proprio no ocio e no socgo;
      Mais maravilhas dando  voz da fama,
    No mesmo mar undoso e vento frio
    Brazas roxas accende a roxa flama.
      Vs,  ramo d'hum Tronco alto e sombrio,
    Cuja frondente coma ja cobrio
    De Luso todo o gado e senhorio;
      E cujo so madeiro ja sahio
    A lanar a forosa e larga rede
    No mais remoto mar que o mundo vio;
      E vs, cujo valor to alto excede,
    Que, a cant-lo com voz alta e divina,
    A fonte do Parnaso move a sde;
      Ouvi da minha humilde anfonina
    A harmonia, que vs ja levantais
    Tanto, que de vs mesmo a fazeis dina.
      Mas se agora que affabil m'escutais,
    No ouvirdes cantar com alta tuba
    O que vos deve o mundo, que dourais;
      E se os Reis avs vossos, que de Juba
    Os Reinos debellro, no ouvis
    Que nas azas do excelso verso suba;
      Se no sabem as frautas pastoris
    Pintar de Toro os campos semeados
    D'armas e corpos fortes e gentis;
      Por hum Moo animoso sustentados,
    Contra o indomito Rei de toda Hespanha,
    Contra a fortuna va e injustos fados:
      Hum Moo, cujo esfro, brio e manha,
    Do Olympo fez descer o duro Marte,
    E dar-lhe a quinta esphera, que acompanha;
      Se no sabem cantar a menor parte
    Do sapiente peito e gro conselho,
    Que pde,  Reino illustre, descansar-te;
      Peito, que ao douto Apollo faz, vermelho,
    Deixar o sacro Monte e as nove Irmas,
    Porque a elle se affeitem como a espelho;
      Sabero bem cantar, em nada vas,
    D'Alicuto as contendas e d'Agrario;
    Hum d'escamas coberto, outro de las.
      Vereis, Duque sereno, o estylo vrio,
    A ns novo, mas n'outro mar cantado
    De hum, que s foi das Musas secretario:
      O pescador Sincero, que amansado
    T[~e]e o pgo de Prochyta co'o canto
    Por as sonoras ondas compassado.
      Deste seguindo o som, que pde tanto,
    E misturando o antigo Mantuano,
    Faamos novo estylo, novo espanto.
      Partira-se do monte Agrario insano
    Para onde a fra s do pensamento
    Lh'encaminhava o lasso pzo humano.
      Embebido em hum longo esquecimento
    De si, e do seu gado e pobre fato,
    Apos hum doce sonho e fingimento,
      Rompendo as sylvas horridas do mato,
    Vai por cima d'outeiros e penedos,
    Fugindo, emfim, de todo humano trato.
      Ante os seus olhos leva os olhos ledos
    Da branca Dinamene, qu'enverdece
    S co'o meneo valles e rochedos.
      Ora se ri comsigo, quando tece
    Na phantasia algum prazer fingido;
    Ora falla; ora mudo s'entristece.
      Qual a tenra novilha, que corrido
    T[~e]e montanhas fragosas e espessuras,
    Por buscar o cornigero marido;
      E cansada nas humidas verduras
    Cahir se deixa ao longo d'hum ribeiro,
    Ja quando as sombras vem cahindo escuras;
      E nem co'a noite ao valle seu primeiro
    Se lembra de tornar, como sohia,
    Perdida por o bruto companheiro:
      Tal Agrario chegado, emfim, se via
    Onde o gro pgo horrisono suspira
    N'huma praia arenosa, humida e fria.
      Tanto que ao mar estranho os olhos vira,
    Tornando em si, de longe ouvio tocar-se
    De douta mo no vista e nova lira.
      Fez-lhe o som desusado desviar-se
    Para onde mais soava, desejando
    D'ouvir e conversar, e de provar-se.
      Muito no tinha proseguido, quando
    Em a concavidade d'hum penedo,
    Que pouco a pouco fra o mar cavando,
      Topou hum pescador, que prompto e quedo,
    N'huma pedra assentado, brandamente
    Tangendo, faz o mar sereno e ledo.
      Mancebo era d'idade florecente,
    Pescador grande do alto, conhecido
    Por o nome de toda humida gente:
      Alicuto se chama: que perdido
    Era por a formosa Lemnoria;
    Nympha que t[~e]e o mar ennobrecido.
      Por ella as redes lana noite e dia;
    Por ella as ondas tumidas despreza;
    Por ella soffre o sol e a chuva fria.
      Co'o seu nome mil vezes a braveza
    D'irados ventos amansou co'o verso,
    Que remove das rochas a dureza.
      E agora em som de voz, suave e terso,
    Est seu nome aos ecos ensinando
    Por estylo do agreste som diverso.
      Ouvindo Agrario, attonito, affroxando
    Da phantasia hum pouco seu cuidado,
    Suspenso esteve os numeros notando.
      Mas Alicuto, vendo-se estorvado
    Por hum pastor da musica divina,
    O rosto levantou bem socegado,
      E disse assi: Vaqueiro da campina,
    Que vens buscar s arenosas praias,
    Onde a bella Amphitrite s domina?
      Que razo ha, pastor, para que saias
    A este nosso escamoso e vil terreno
    Dos teus floridos myrtos e altas faias?
      Pois s'agora o mar vs brando e sereno,
    E estender-se estas ondas por a areia,
    Amansadas das mgoas, com que peno,
      Logo vers o como desenfreia
    Eolo o vento por o mar undoso,
    De sorte que Neptuno se receia.
      Responde Agrario: Oh musico e amoroso
    Pescador! eu no venho a ver o lago
    Bravo e quieto, ou vento brando e iroso;
      Mas o meu pensamento, com que apago
    As flammas ao desejo, me trazia
    Sem ouvir e sem ver, suspenso e vago:
      At que a tua angelica harmonia
    M'acordou, vendo o som, com que aqui cantas
    A tua perigosa Lemnoria.
      Mas se de ver-me c no mar t'espantas,
    Eu m'espanto tambem do estylo novo
    Com que as ondas horrisonas quebrantas.
      Porm se com verdade o louvo e approvo,
    Desejo de o provar contra o sylvestre
    Antigo pastoril, qu'eu mal renvo.
      E tu, que no tocar pareces mestre,
    Bem julgars se ha clara differena
    Entr'o canto maritimo e o campestre.
      No ha (disse Alicuto) em mi detena:
    Alvoro antes ha, por mais que veja
    Que a tua confiana s me vena.
      Mas, porque saibas que nenhuma inveja
    Os pescadores temos aos pastores
    Do som que pelo mundo se deseja,
      Toma a lyra na mo, que os moradores
    Do vitreo fundo vendo estou juntar-se
    Para ouvir nossos rusticos amores.
      Bem vs por essa praia presentar-se
    Nas conchas vria cr  vista humana;
    E o mar vir por entr'ellas e tornar-se.
      Socegada do vento a furia insana,
    Encrespa brandamente o ameno rio,
    Que seu licor aqui mistura e dana.
      Estepenedo concavo e sombrio,
    Que de cangrejos ves estar coberto,
    Nos d abrigo do sol, quieto e frio.
      Tudo nos mostra, emfim, repouso certo,
    E nos convida ao canto, com que os mudos
    Peixes sahem ouvindo ao ar aberto.
      Assi se desafio estes rudos
    Poetas, nos officios discrepantes;
    Nos engenhos porm subtis e agudos.
      Eis ja mil companheiros circumstantes
    Estavo para ouvir, e apparelhavo
    Ao vencedor os premios semelhantes.
      As bem sonantes lyras se tocavo;
    Agrario comeava, e da harmonia
    Os pescadores todos s'admiravo;
    E dest'arte Alicuto respondia.
                AGRARIO.
      Vs semicapros deoses do alto monte,
    Faunos longevos, Satyros, Sylvanos;
    E vs, deosas do bosque e clara fonte,
    E dos troncos que vivem largos anos;
    Se tendes prompta hum pouco a sacra fronte
    A nossos versos rusticos e humanos,
    Ou me dae ja a capella de loureiro,
    Ou penda a minha lyra d'hum pinheiro.
                ALICUTO.
      Vs humidas deidades deste pgo,
    Trites ceruleos, Prteo, com Palemo;
    Vs, Nereidas do sal em que navego,
    Por quem do vento as furias pouco temo;
    Se s vossas sacras aras nunca nego
    O congro nadador na p do remo,
    No consintais, que a musica marinha
    Vencida seja aqui na lyra minha.
                AGRARIO.
      Pastor se fez hum tempo o moo louro,
    Que do sol as carretas move e guia;
    Ouvio o rio Amphriso a lyra d'ouro,
    Que o seu claro inventor alli tangia.
    Io foi vacca; Jupiter foi touro:
    Mansas ovelhas junto d'goa fria
    Guardou formoso Adonis; e tornado
    Em bezerro Neptuno foi ja achado.
                ALICUTO.
      Pescador ja foi Glauco, e deos agora
    He do mar; e Proto Phocas guarda.
    Nasceo no pgo a deosa, que he senhora
    Do amoroso prazer, que sempre tarda.
    Se foi bezerro o deos, que c se adora,
    Tambem ja foi delfim. Se se resguarda,
    V-se que os moos pescadores ero,
    Que o escuro enigma ao primo Vate dero.
                AGRARIO.
      Formosa Dinamene, se dos ninhos
    Os implumes penhores ja furtei
     doce Philomela; e dos murtinhos
    Para ti (fera!) as flores apanhei;
    E se os crespos madronhos nos raminhos
    Com tanto gsto ja te presentei,
    Porque no ds a Agrario desditoso
    Hum s revolver d'olhos piedoso?
                ALICUTO.
      Para quem trago d'goa em vaso cavo
    Os curvos camares vivos saltando?
    Para quem as conchinhas ruivas cavo
    Na praia, os brancos buzios apanhando?
    Para quem de mergulho no mar bravo
    Os ramos de coral vou arrancando,
    Seno para a formosa Lemnoria,
    Que co'hum s riso a vida me daria?
                AGRARIO.
      Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno,
    D'atras nuvens vestido, horrido e feio,
    Ennegrecendo  vista o ceo superno,
    Quando os troncos arranca o rio cheio;
    Raios, chuvas, troves, hum triste inferno,
    Que ao mundo mostra hum pallido receio:
    Tal o amor he cioso, a quem suspeita
    Que outrem de seus trabalhos se aproveita.
                ALICUTO.
      Se alguem v, se alguem ouve o sibilante
    Furor lanando flammas e bramidos,
    Quando as pasmosas serras traz diante,
    Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos:
    A braos derribando o ja nutante
    Mundo, co'os elementos destruidos:
    Assi me representa a phantasia
    A desesperao de ver hum dia.
                AGRARIO.
      Minha alva Dinamene, a primavera,
    Que os deleitosos campos pinta e veste,
    E rindo-se huma cr aos olhos gera,
    Qu'em terra lhes faz ver o Arco celeste;
    As aves, as boninas, a verde hera,
    E toda a formosura amena agreste
    No he para os meus olhos to formosa,
    Como a tua, que abate o lirio e rosa.
                ALICUTO.
      As conchinhas da praia, que presento
    A cr das nuvens, quando nasce o dia;
    O canto das Sirenas, que adormento;
    A tinta, que no Murice se cria;
    O navegar por ondas, que se assento
    Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria,
    No podem, Nympha minha, assi aprazer-me,
    Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me.
                AGRARIO.
      A deosa, que na Lybica laga
    Em frma virginal appareceo,
    Cujo nome tomou, que tanto sa,
    Os olhos bellos t[~e]e da cr do ceo:
    Garos os t[~e]e; mas huma, que a cora
    Das formosas do campo mereceo,
    Da cr do campo os mostra graciosos.
    Quem diz, que no so estes os formosos?
                ALICUTO.
      Perdoem-me as deidades; mas tu, diva,
    Que no liquido marmore es gerada,
    A luz dos olhos teus, celeste e viva,
    T[~e]es por vcio amoroso atravessada:
    Ns petos lhe chammos; mas quem priva
    De luz o dia, baixa e socegada
    Traz a dos seus nos meus, qu'eu o no nego;
    E com toda esta luz sempre estou cego.
      Assi cantavo ambos os cultores
    Do monte e praia, quando os atalhro;
    A hum pastores, a outro pescadores.
      E quaesquer a seu Vate cororo
    De capellas idoneas e formosas,
    Que as Nymphas lhes tecro e ordenro:
      A Agrario de murtinhos e de rosas;
    A Alicuto d'hum fio de torcidos
    Buzios, e conchas ruivas e lustrosas.
      Estavo n'goa os peixes embebidos
    Com as cabeas fra; e quasi em terra
    Os musicos delfins esto perdidos.
      Julgavo os pastores que na serra
    O cume e preo est do antigo canto;
    Que quem o nega, contra as Musas erra.
      Dizem os pescadores que outro tanto
    T[~e]e na sonora frauta, quanto teve
    O monte pastoril da antigua Manto.
      Mas ja o pastor d'Admeto o carro leve
    Molhava n'goa amara, e compellia
    A recolher a roxa tarde e breve:
      E foi fim da contenda o fim do dia.


ECLOGA VII.


INTERLOCUTORES.

SATYRO I. SATYRO II.

    As doces cantilenas, que cantavo
    Os semicapros deoses, amadores
    Das Napas, que os montes habitavo,
      Cantando escreverei: que se os amores
    A sylvestres deidades maltratro,
    Ja fico desculpados os pastores.
      Vs, Senhor Dom Antonio, aonde achro
    O claro Apollo e Marte hum ser perfeito,
    Em quem suas altas mentes assinro;
      Se o meu engenho he rudo, ou imperfeito,
    Bem sabe onde se salva, pois pretende
    Levantar com a causa o baixo effeito.
      Em vs minha fraqueza se defende;
    Em vs instilla a fonte do Pegso,
    O que o meu canto por o mundo estende.
      Vdes que as altas Musas do Parnaso
    Cantando vos esto na doce lira,
    Tomando-me das mos to alto caso.
      Vdes o louro Apollo, que me tira
    De louvar vossa estirpe, e escurece
    O que a vosso louvor meu canto aspira.
      Ou por me haver inveja me fallece,
    Ou por no ver soar na frauta ruda
    O que a sonora cithara merece.
      Pois sei dizer, Senhor, que a lingua muda,
    Em quanto Progne triste o sentimento
    Da corrompida irma co'o pranto ajuda;
      E em quanto Galatea ao manso vento
    Slta os cabellos louros da cabea,
    E Tityro nas sombras faz assento;
      E em quanto flor aos campos no fallea,
    (Se no recebeis isto por affronta)
    Far que o Douro e o Ganges vos conhea.
      E ja que a lingua nisto fica pronta,
    Consenti que a minha Ecloga se conte,
    Em quanto Apollo as vossas cousas conta.
      No cume do Parnaso, duro monte,
    De sylvestre arvoredo rodeado,
    Nasce huma crystallina e clara fonte,
      Donde hum manso ribeiro derivado,
    Por cima d'alvas pedras mansamente
    Vai correndo suave e socegado.
      O murmurar das ondas excellente
    Os passaros incita, que cantando
    Fazem o verde monte mais contente.
      To claras vo as goas caminhando,
    Que no fundo as pedrinhas delicadas
    Se podem, huma e huma, estar contando.
      No se vero em derredor pizadas
    De fera ou de pastor, que alli chegasse,
    Porque de espesso monte so vedadas.
      Herva se no ver, que alli criasse
    O monte ameno, triste ou venenosa,
    Seno que l no centro as igualasse.
      O roxo lirio a par da branca rosa,
    A cecem pura, a flor que dos amantes
    A cr t[~e]e magoada e saudosa;
      Alli se vem os myrtos circumstantes
    Que a crystallina Venus encobrro,
    Escondendo-a dos Faunos petulantes.
      Hortela, mangerona, alli respiro,
    Onde nem frio inverno, ou quente estio,
    As murchro jamais, ou sccas vro.
      Dest'arte vai seguindo o curso o rio,
    O monte inhabitado e o deserto
    Sempre com verdes rvores sombrio.
      Aqui huma linda Nympha, por acrto
    Perdida da fragueira companhia,
    A quem este lugar era encoberto;
      Cansada ja da caa vindo hum dia,
    Quiz descansar  sombra da floresta,
    E tirar nas mos alvas d'goa fria.
      A novidade vendo manifesta
    Do stio, e como as rvores co'o vento
    As calmas defendio da alta sesta;
      Das aves o lascivo movimento,
    Qu'em seus modulos versos occupadas
    As azas do ao doce pensamento;
      Tendo notado tudo, ja passadas
    As horas da gr sesta, se tornou
    A buscar as irmas, no centro, amadas.
      Despois que largamente lhes contou
    Do no visto lugar, que perto estava
    E tanto por extremo a namorou,
      Que ao outro dia fossem, lhes rogava,
    A lavar-se em aquella fonte amena,
    Que to formosas goas destillava.
      Ja tinha dado hum giro a luz serena
    Do gro pastor d'Admeto, e j nascia
    Aos ditosos amantes nova pena,
      Quando as formosas Nymphas em porfia
    Para o lugar do monte caminhavo,
    Rompendo a manha roxa, alegre e fria.
      D'huma os louros cabellos s'espalhavo
    Por o formoso collo sem concrto,
    E com mil ns suaves s'enlaavo;
      Outra, levando o collo descoberto,
    Por mais despejo em tranas os atra,
    Havendo por pezado o desconcrto.
      Dinamene e Ephyre, a quem topra
    Nuas Phebo em hum rio, e encobriro
    Seus delicados corpos n'goa clara;
      Syrinx e Nyse, que das mos fugro
    Do Tego Pan; Amanta e mais Elisa,
    Destras nos arcos mais que quantas tiro;
      A linda Daliana, com Belisa,
    Ambas vindas do Tejo, que como ellas
    Nenhuma to formosa as hervas pisa:
      Todas estas angelicas donzellas,
    Por o vioso monte alegres hio,
    Quaes no ceo largo as nitidas estrellas.
      Mas dous sylvestres deoses, que trazio
    O pensamento em duas occupado,
    A quem de longe mais que a si querio,
      No lhes ficava monte, valle ou prado,
    Nem rvore, por onde quer que andavo,
    Que no soubesse delles seu cuidado.
      Quantas vezes os rios, que passavo,
    Detivero seu curso ouvindo os danos,
    Que aos proprios duros montes magoavo!
      Quantas vezes amor de tantos anos
    Abrandra qualquer vontade isenta,
    Se em Nymphas coraes houvesse humanos!
      Mas quem de seu cuidado se contenta,
    Offerea de longe a paciencia;
    Que Amor d'alegres mgoas se sustenta.
      Que o moo Idalio quiz nesta sciencia
    Que se compadecessem dous contrrios.
    Diga-o quem tiver delle experiencia.
      Indo os deoses, emfim, por montes varios
    Exercitando os olhos saudosos,
    Ao crystallino rio tributarios;
      Topro dos ps alvos e mimosos
    As pizadas na terra conhecidas,
    As quaes foro seguindo pressurosos.
      Mas, encontrando as Nymphas que despidas
    Na clara fonte estavo, no cuidando
    Que d'alguem fossem vistas ou sentidas,
      Deixro-se estar quedos, contemplando
    As feies nunca vistas, de maneira
    Que vissem, sem ser vistos, espreitando.
      Porm a espessa mata, mensageira
    Da cilada dos dous, com o rugido
    Dos raminhos d'huma aspera aveleira,
      Manifestando claro o escondido,
    Todas huma alta grita levantro,
    Que o monte pareceo ser destruido.
      Assi despidas logo se lanro
    Por a espessura to ligeiramente,
    Que mais que o proprio vento ento voro.
      Qual o bando das pombas quando sente
    A rapida aguia, cuja vista pura
    No obedece ao sol resplandecente;
      Empresta-lhe o temor da mortedura
    Nas azas novo alento; e, no parando,
    Veloz rompendo o ar fugir procura:
      Dest'arte as deosas timidas, deixando
    De seu despjo os ramos carregados,
    Nuas por entre as sylvas vo voando.
      Mas os amantes ja desesperados,
    Que para as alcanar, emfim, se vio
    Nada dos ps caprinos ajudados;
      Com amorosos brados as seguio.
    Hum s (que o outro ainda no tomava
    Folego algum da pressa que trazio)
    Desta sorte sentido se queixava:
                SATYRO PRIMEIRO.
      Ah Nymphas fugitivas,
    Que s por no usar humanidade
    Os perigos dos matos no temeis!
    Para que sois esquivas?
    Qu'inda de ns no peo piedade,
    Mas dessas alvas carnes, que offendeis.
    Ah Nymphas! no vereis
    Que Eurydice, fugindo dessa sorte,
    Fugio do amante, e no da fera morte?
    Tambem assi Eperie foi mordida
    Da vibora escondida.
    Olhae a serpe occulta na herva verde.
    Quem o rigor no perde, perde a vida.
      Que tigre, ou que leo,
    Que peonhenta fera venenosa,
    Ou qu'inimigo, emfim, vos vai seguindo?
    D'hum brando corao,
    Que preso dessa vista rigorosa
    De si para vs foge, andais fugindo?
    Olhae que em gesto lindo
    No se consente peito to disforme;
    Se no quereis que tudo se conforme.
    Posto que bellas n'goa vos vejais,
     fonte no creais,
    Que vos traz enganadas por vingana
    Desta nossa esperana, que enganais.
      Mas ah! que no consinto
    Que nem palavra minha vos offenda,
    Postoque me desculpe a mgoa pura.
    Digo, Nymphas, que minto:
    Pois mal pde haver nunca quem pretenda
    Negar-vos essa rara formosura.
    Se amor de tanta dura
    Por tanto mal to pouco bem merece,
    No estranheis, minh'alma se endoudece:
    Que se doudices falla d'improviso
    Sem tento e sem aviso,
    Queira Deos, que dureza to crescida
    Me no prive da vida alm do siso.
      Cousas grandes e estranhas
    Por o mundo t[~e]e feito e faz natura,
    Que a quem vos no vio, Nymphas, muito espanto.
    Nas Libycas montanhas
    As Scitales so feras, de pintura
    To singular, que s co'a vista encanto.
    As hienas levanto
    A voz to natural  voz humana,
    Que a quem as ouve, facilmente engana.
    E vs ( gentis feras) cujo aspeito
    O mundo t[~e]e sujeito,
    Tendes de natureza juntamente
    A vista e voz de gente, e fero o peito.
      Das amorosas leis,
    Com que liga natura os coraes,
    Andais fugindo ( Nymphas) na espessura?
    Como? E no vos correis
    D'haver em vs to duras condies,
    Que posso mais que a prvida natura?
    Se vossa formosura
    He sobrenatural, no he forado
    Que assi tenha tambem o peito irado:
    Antes ao puro Amor, em cuja mo
    Os coraes esto,
    Por vossa gentileza to formosa
    Lhe deveis amorosa condio.
      Amor he hum brando affeito,
    Que Deos no mundo poz e a natureza,
    Para augmentar as cousas que creou.
    De Amor est sugeito
    Tudo quanto possue a redondeza:
    Nada sem este affecto se gerou.
    Por elle conservou
    A causa principal o mundo amado,
    Donde o pae famulento foi deitado.
    As cousas elle as ata e as confrma
    Com o mundo, e reforma
    A materia. Quem ha que no o veja?
    Quanto meu mal deseja sempre frma.
      Entre as plantas do prado
    No ha machos e femias conhecidas,
    Que junto huma da outra permanece?
    No esto carregados
    Os ulmeiros das vides retorcidas,
    Onde o cacho enforcado amadurece?
    No vdes que padece
    Tanta tristeza a rla por a morte
    Da sua amada e unica consorte?
    Pois l no Olympo, a quantos captivou
    Cupido e maltratou?
    Melhor qu'eu o dir a subtil donzella,
    Que ja na sua tla o debuxou.
      Ah caso grande e grave!
    Ah peitos de diamante fabricados,
    E das leis absolutos naturais!
    Aquelle amor suave,
    Aquelle poder alto, que forados
    Os deoses obedecem, desprezais?
    Pois quero que saibais,
    Que contra o fero Amor nunca houve escudo:
    Costume he seu tomar vingana em tudo.
    Eu vos verei lanar em hum momento
    Suspiros mil ao vento,
    Lagrimas, triste pranto e nova dor
    Por quem tenha outro amor no pensamento.
      Mais quizera dizer
    O desditoso amante, que ajudado
    Se via ento da mgoa e da tristeza;
    Mas foi-lho defender
    O outro companheiro, como irado
    Com to disforme e aspera dureza.
    Aquillo que a rudeza
    D'huma sciencia agreste lh'ensinra,
    Disse, qual se em tal ponto despertra
    D'horrendo sonho com pezado grito.
    O mais que alli foi dito,
    Vs, montes, o direis, e vs penedos;
    Qu'em vossos arvoredos anda escrito.
                SATYRO SEGUNDO.
      Nem vs nascidas sois de gente humana,
    Nem foi humano o leite que mamastes,
    Mas de alguma disforme fera Hyrcana:
    L no Caucaso horrendo vos criastes:
    Daqui trouxestes a aspereza insana;
    Daqui os calidos peitos congelastes.
    Sois Esphinges nos gestos naturais,
    Que de humanas os rostos s mostrais.
      Se vs fostes criadas na espessura,
    Onde no houve cousa que se achasse,
    Agoa, pedra, arbor, flor, ave, alma, dura,
    Qu'em seu passado tempo no amasse,
    Nem a quem a affeio suave e pura
    Nessa presente frma no mudasse;
    Porque no deixareis tambem memoria
    De vs em namorada e longa historia?
      Olhae como, na Arcadia soterrando
    O namorado Alpheo su'goa clara,
    L na ardente Sicilia vai buscando
    Por debaixo do mar a Nympha chara.
    Assi tambem vereis passar nadando
    Atys, que Galata tanto amra,
    Por onde do Cyclopea grande mgoa
    Converteo do mancebo o sangue em goa.
      Virae os olhos, Nymphas,  Erycina
    Espessura; vereis alli mudar-se
    Egeria, e em fonte clara e crystallina
    Por a morte de Numa distillar-se.
    Olhae que a triste Byblis vos ensina,
    Com perder-se de todo e transformar-se
    Em lagrimas, qu'emfim pudero tanto,
    Que accrescentaro sempre o verde manto.
      E s'entre as claras goas houve amores,
    Os penedos tambem foro perdidos.
    Olhae os dous conformes amadores
    L no monte Ida em pedra convertidos:
    Letha, por cahir em vos errores
    De sua formosura procedidos;
    Oleno, porque a culpa em si tomava,
    Por escusar a pena a quem amava.
      Tomae exemplo, e vde em Cypro aquella,
    Por quem Iphis no lao poz a vida.
    Tambem vereis em pedra a Nympha bella,
    Cuja voz foi por Juno consumida,
    E, se queixar-se quer de sua estrella,
    A voz extrema s lhe he concedida.
    E tu tambem,  Daphnis, que trouxeste
    Primeiro ao monte o doce verso agreste!
      Tamanho amor lhe tinha a branda amiga,
    Que em inimiga, emfim, se foi tornando:
    Porque outra Nympha estranha ja o sogiga,
    Suas magicas hervas vai buscando.
    Olhae a quanto a crua dor obriga!
    Por vingar-se, assi irada transformando
    O foi em pedra. Oh dura confuso!
    Despois lhe pezaria; mas em vo.
      Olhae, Nymphas, as rvores aladas,
    A cuja sombra andais colhendo flores,
    Como em seu tempo foro namoradas;
    Do qu'inda agora o tronco sente as dores.
    Vereis, entre as de fructo matizadas,
    Como a cr das amoras he de amores:
    O sangue dos amantes na verdura
    Testimunha de Tisbe a sepultura.
      E l por a odorifera Saba
    No vdes que de lagrimas daquella,
    Que com seu pae se junta e se recra,
    Arabia s'enriquece, e vive della?
    Lembrai-vos da verde rvore Pena,
    Que foi ja n'outro tempo Nympha bella,
    E Cyparisso angelico mancebo;
    Ambos verdes com lagrimas de Phebo.
      De Phrygia vde o moo delicado
    No mais alto arvoredo convertido,
    Que tantas vezes fere o vento irado;
    Galardo de seus erros merecido:
    Pois, da alta Berecynthia sendo amado,
    Por huma Nympha baixa foi perdido;
    E a deosa, a quem perdeo do pensamento,
    Quiz que tambem perdesse o entendimento.
      O subito furor lhe figurava
    Que as rvores e os montes se cahio;
    Ja dos pudicos membros se privava,
    Que os horrores a tanto o constrangio;
    Ja indignado no monte se lanava:
    De sua morte as feras se doio.
    Dest'arte perdeo Atys na espessura,
    Despois de tantas perdas, a figura.
      Lembre-vos quando as gentes celebravo
    Em Grecia as grandes festas de Lio,
    Onde as formosas Nymphas se juntavo,
    E os sacros moradores do Lico.
    Todos em doce somno se occupavo
    Por o monte, despois que anoiteceo;
    Mas o deos do Hellesponto no dormia;
    Que hum novo amor o somno lh'impedia.
      Mas ella emfim, os braos estendendo,
    Em ramos se lhe foro transformando;
    Em raizes os ps se vo torcendo;
    E o nome Loto s lhe vai ficando.
    Vde, Napas, este caso horrendo,
    Que vos est de longe ameaando.
    Assi tambem daquella, a quem seguia
    O sacro Pan, a frma se perdia.
      Que vos direi de Filis, pois perdida
    Da saudosa dor com que vivia,
     desesperao emfim trazida
    Do comprido esperar de dia em dia,
    Por desatar do corpo a triste vida
    Atava ao collo a cinta que trazia.
    Mas o tronco sem flha por o monte
    Rhodope abraa o lento Demophonte.
      Nas boninas, tambem vereis Jacinto,
    Porquem Phebo de si se queixa em vo;
    Vereis o monte Idalio em sangue tinto
    Do neto de seu pae, da me irmo.
    Chora Venus a dor do moo extinto,
    Maldiz o ceo e a terra, com razo;
    A terra, porque logo no se abrio;
    O ceo, porque tal morte permittio.
      E tu, constante Clycie, a quem fallece
    A f de teus amores enganosos,
    No louro amante, que de ti s'esquece,
    S'esquecem os teus olhos saudosos.
    Nenhum alegre estado permanece;
    Que so do mundo os gostos mentirosos;
    E  tua clara luz, por quem suspiras,
    Ainda agora em herva os olhos vras.
      Trago-vos estas cousas  lembrana,
    Porque s'estranhe mais vossa crueza
    Com ver que a criao e longa usana
    Vos no perverte e muda a natureza.
    Dou as lagrimas minhas em fiana,
    Qu'em tudo quanto est na redondeza,
    Cousa d'Amor isenta, se attentais,
    Em quanto vos no virdes, no vejais.
      Ja disse, que d'Amor sempre tivero
    As cousas insensiveis pena e gloria.
    Vde as sensiveis como se perdro.
    E dir-vos-hei das aves larga historia:
    As penas, qu'em su'alma se soffrro,
    Nas azas lhes ficro por memoria;
    E aquelle altivo e leve movimento
    Lhes ficou do voar do pensamento.
      O doce rouxinol e a andorinha,
    Donde lhes veio o ir-se transformando,
    Seno do puro amor que o Thracio tinha,
    Qu'em poupa ainda a amada vai chamando?
    Clama sem culpa a misera avezinha,
    Que n'areia de Phasis habitando,
    Do rio toma o nome; e quando clama,
    Cruel  me, ao pae injusto chama.
      Vde a que engeitou Pallas por fallar,
    (Que dos amores he maior defeito)
    E aquella, que succede em seu lugar,
    Ambas aves; de amor usado effeito;
    Huma, porque fugia ao deos do mar;
    Outra, porque tentra o patrio leito:
    E Scylla, que a seu pae poz em perigo,
    S por ser muito amiga do inimigo.
      E Pico, a quem ficro inda as cres
    Da purpura Real, que antes vestia;
    Esaco, que o seguir de seus amores
    O trouxe a ver to cedo o extremo dia:
    Ou vde os dous to firmes amadores,
    Que amor aves tornou na praia fria.
    Do Rei dos ventos era genro o triste;
    Mas contra o fado, emfim, nada resiste.
      Estava a triste Halcyone, esperando
    Com longos olhos o marido ausente;
    Mas os ventos indomitos soprando,
    Nas goas o affogro tristemente.
    Em sonhos se lh'est representando;
    Que o corao presgo nunca mente:
    S do bem as suspeitas mentiro,
    Mas as do mal futuro certas so.
      Ao pranto os olhos seus a triste ensaia;
    Buscando o mar com elles hia e vinha:
    Quando o corpo sem alma achou na praia.
    Sem alma o corpo achou, que n'alma tinha!
     Nereidas do Ego, consolai-a,
    Pois este pio officio vos convinha.
    Consolai-a; sahi das vossas goas;
    Se consolao ha em grandes mgoas.
      Mas oh nescio de mi! qu'estou fallando
    Das avezinhas mansas e amorosas?
    Pois tambem teve Amor natural mando
    Entr'as feras montezes venenosas.
    O leo e a leoa, como, ou quando
    Taes formas alcanro temerosas?
    Sabe-o da deosa Dindymene o templo,
    E a que a Adonis o dava por exemplo.
      Quem fosse a mansa vacca di-lo-hia;
    Mas o gro Nilo o diga, pois a adora.
    Que frma teve  Ursa, saber-se-hia
    Do Plo Boreal, onde ella mora.
    O caso d'Acteon tambem diria
    Em cervo transformado; e melhor fra
    Se dos olhos perdra a vista pura,
    Que em seus galgos achar a sepultura.
      Tudo isto Acteon vio na fonte clara,
    Onde a si d'improviso em cervo vio:
    Que quem assi dest'arte alli o topra,
    Que se mudasse em cervo permittio.
    Mas, como o triste Principe em si achra
    A desusada frma, se partio.
    Os seus, desconhecendo-o, o vo chamando;
    E, tendo-o alli presente, o vo buscando.
      Co'os olhos e co'o gesto lhes fallava;
    Que a voz humana ja perdida tinha.
    Qualquer delles por elle ento chamava,
    E a multido dos ces contr'elle vinha.
    Hum cervo acude a ver (qualquer gritava)
    Acteon, donde ests? acude asinha,
    Que tardar tanto he este? (repetia)
    _He este, he este_, o eco respondia.
      Quantas cousas em vo estou fallando
    (Oh Napas esquivas!) sem que veja
    O peito de diamante hum pouco brando
    De quem meu damno tanto s deseja.
    Pois, por mais que de mi me andais tirando,
    E por mais longa emfim que a vida seja,
    Nunca em mi se ver tamanha dor,
    Que Amor a no converta em mais amor.
      Aqui (formosas Nymphas) vos pintei
    Todo d'amores hum jardim suave;
    D'goas, de pedras, d'rvores contei,
    De flores, d'almas, feras, de huma, outra ave.
    Se este amor, que no peito aposentei,
    Que dos contentamentos t[~e]e a chave,
    Por dita em tempo algum determinasse
    Que de to longos damnos vos pezasse,
      Quanto mais devagar vos contaria
    De minha larga historia e no alheia?
    E com quanta mais goa regaria,
    Que o rio, de contente, a branca areia?
    Novo contentamento me seria
    Formar de meu cuidado a nova ideia:
    E vs, gostando deste estado ufano,
    Zombarieis ento de vosso engano.
      Mas com quem fallo ja? que estou gritando,
    Pois no ha nos penedos sentimento?
    Ao vento estou palavras espalhando;
    A quem as digo, corre mais que o vento.
    A voz e a vida a dor m'est tirando,
    E o tempo no me tira o pensamento.
    Direi, emfim, s duras esquivanas
    Que s na morte tenho as esperanas.
      Aqui, sentido, o Satyro acabou,
    Com huns soluos que a alma lhe arrancavo.
    Os montes insensiveis, que abalou,
    Nas ultimas respostas o ajudavo.
    Ento Phebo nas goas se encerrou
    Co'os animaes que o mundo allumiavo;
    E co'o luzente gado appareceo
    A candida pastora por o ceo.


ECLOGA VIII.


PISCATORIA.

_Sereno._

    Arde por Galata branca e loura
    Sereno pescador pobre, forado
    D'huma estrella, que quer  mngoa moura.
      Os outros pescadores t[~e]e lanado
    No Tejo as redes: elle s fazia
    Este queixume ao vento descuidado:
      Quando vir (formosa Nympha) hum dia,
    Em que te possa dar a conta estreita
    Desta doudice triste e va porfia?
      No vs, que me foge a alma e que m'engeita,
    Buscando em hum s riso d'essa boca,
    Nos teus olhos azues mansa colheita?
      Se ao teu esprito alg[~u]a mgoa toca,
    Se d'amor fica nelle huma pgada,
    Que te vai, Galata, nesta troca?
      Dar-te-hei minh'alma: l ma tens roubada:
    No ta demandarei: d-me por ella
    Huma s volta d'olhos descuidada.
      Se muito te parece, e minha estrella
    No consentir ventura to ditosa,
    Dou-te as azas do Amor perdidas nella.
      Que mais te posso dar, Nympha formosa,
    Inda que o mar d'aljofar me cubrra
    Toda esta praia leda e graciosa?
      Amanso-se ondas, quebra o vento a ira:
    Minha tormenta s nunca socega;
    O meu peito arde em vo, em vo suspira.
      Anda no romper d'alva a nevoa cega
    Sbre os montes d'Arrabida viosos,
    Em quanto o solar raio lhes no chega.
      Eu, vendo apparecer outros formosos
    Raios, que a graa e cr ao ceo roubro,
    Se os olhos cegos vi, vejo saudosos.
      Quantas vezes as ondas se encrespro
    Com meus suspiros! quantas com meu pranto
    As fiz parar de mgoa e me escutro!
      Se na fra da dor a voz levanto,
    E ao som do remo, que goa vai ferindo,
    Perante a lua meu cuidado canto;
      Os maviosos delfins m'esto ouvindo;
    A noite socegada; o mar callado:
    Tu s foges d'ouvir-me, e te vs rindo.
      Estranhas, por ventura, o mar cercado
    Da fraca rede; a barca ao vento solta;
    E hum pobre pescador aqui lanado?
      Antes que o sol no ceo cerre huma volta
    Se pde melhorar minha ventura,
    Como a outros succede, n'goa envolta.
      Igual preo no he da formosura
    D'ouro a areia, que o rico Tejo espraia,
    Mas hum amor, que para sempre dura.
      Vejo teus olhos (bella Nympha) a praia;
    Vers teu nome na mimosa areia.
    Nunca sbre elle o mar com furia saia!
      Vento algum atgora o no salteia:
    Tres dias ha que escripto aqui o deixou
    Amor, e o veda a toda fra alheia.
      Elle com suas mos proprio ajudou
    A escolher estas conchas, affirmando
    Que o sol para ti s as matizou.
      Hum ramo te colhi de coral brando:
    Antes que o ar lhe dsse, parecia
    O que de tua boca estou cuidando.
      Ditoso se o soubesse inda algum dia!


ECLOGA IX.


PISCATORIA.

_Palemo._

    Despois que o leve barco ao duro remo,
    Onde menos das ondas se temia,
    Atou o pescador pobre Palemo;
      Em quanto as negras redes estendia
    Seu companheiro Alco na branca ara,
    E Lico as longas cordas envolvia;
      De cima d'huma rocha, a qual roda
    O mar, quebrando nella de contino,
    Comeou a chamar por Galata.
      Deixa o molle licor e crystallino,
    (Dizia)  Nympha, ja, que o sol deseja
    Enxugar teu cabello d'ouro fino.
      Inda que t[~e]e de ti to grande inveja,
    No temas que te queime o rosto brando:
    Basta para abrandar-se que te veja.
      No te detenhas mais, vem ja cortando
    Com teu candido peito as brancas ondas,
    Escumas menos brancas levantando.
      Dar-te-hei (com condio que no t'escondas
    De mi l nessas humidas moradas,
    E que algum'hora, branda me respondas)
      Mil conchas n'hum cordo verde enfiadas,
    Todas d'huma feio; no d'huma cr,
    Pois dellas so azues, dellas rosadas.
      Indaque seja pobre pescador,
    No sei se em desprezar-me muito acertas,
    Pois rico do amor teu me fez Amor.
      Para ti n'outras praias mais desertas
    Irei pescar por entre pedras duras,
    Que sempre verde musgo t[~e]e cobertas,
      As pardas ostras, onde gottas puras
    De fresco orvalho, dentro endurecidas,
    No podem da cobia estar seguras.
      Porque deixas de vir? porque duvdas?
    Por ventura d'algum meu companheiro?
    Inda as redes ao sol t[~e]e estendidas.
      Toda a noite pescro, e primeiro
    Querem dormir a sesta nesta praia,
    Que o barco polo mar levem ligeiro.
      Eu, vigiando aqui como atalaia,
    Te chamarei, at que de cansado
    Hum dia desta rocha abaixo caia,
      Deixando este lugar to infamado
    Com minha morte, que dos marinheiros
    Com o dedo de l ser mostrado.
      Diro os naturaes e os estrangeiros:
    Alli morreo Palemo. Ai triste historia!
    Guardae a nao de alli, ventos ligeiros.
      Antes que tal succeda, v que gloria
    Alcanas com deixar aos navegantes
    Da tua ingratido esta memoria.
      Da nossa differena no te espantes:
    Tu Nympha, eu pescador: Glauco, deos vosso,
    Qual eu agora sou, tal era d'antes.
      Tambem eu entre as hervas achar posso
    Aquella, a quem o ceo deo tal virtude,
    Que muda n'outro ser este ser nosso.
      Mas este amor, qu'eu c mudar no pude,
    Inda que v a morar l nessas goas,
    No temas que a mudana em mi o mude.
      Sero as vivas ondas vivas frgoas,
    Em que estarei ardendo noite e dia,
    Se no tiveres d de tantas mgoas.
      As horas naturaes da pescaria
    No vs que vo passando? Como as passas?
    Quem deste passatempo te desvia?
      Ah rigorosa Nympha! ah! no me faas
    Dar em vo tantos gritos: vem; iremos
    Ambos a levantar as verdes naas.
      Ambos os anzoes curvos cobriremos
    De mentirosas iscas, com que os peixes
    A todo prazer nosso prenderemos.
      Assi d'Amor cruel nunca te queixes,
    E dessa formosura as mais formosas
    Nymphas do mar azul vencidas deixes;
      Que venhas (pois por ti com saudosas
    Lagrimas vou gastando a vida e alma)
    A tirar-me esperanas duvidosas.
      A praia est callada, o mar em calma;
    Por cima desta rocha brandamente
    Zephyro respirando a desencalma.
      Aqui no sinto cousa certamente
    Porque deixes de vir, como sohas,
    Seno, que no es tu disso contente.
      Se desgostas das grossas pescarias,
    Marisco appetitoso aqui no falta,
    Ja sejo luas cheias, ja vazias.
      Polos ps desta rocha dura e alta
    Irei eu despegando huns como ps
    D'hum pequeno animal, que nella salta.
      E vivos te darei (se delles es
    Amiga) mil cangrejos vagarosos,
    Que vers ir andando de revs.
      No te darei ourios espinhosos,
    Porque te quero tanto, que receio
    Qu'esses teus dedos piquem to mimosos.
      Faz d'aqui perto o mar hum largo seio,
    Onde de ameijoas lisas, sem trabalho,
    Podemos apanhar hum cesto cheio.
      Mas alm de tudo isto hum crespo galho
    De vermelho coral te darei logo,
    Que por dita arrastou o meu tresmalho.
      Mas ai! qu'em vo te chamo, em vo te rgo;
    Que nem tu a meus rogos tens respeito,
    Nem eu, por mais que grite, desaffgo.
      Hum corao em lagrimas desfeito
    Como ja no te abranda? quem encerra
    Crueza tal em to formoso peito?
      No reina Amor no mar, como na terra?
    Bem sabes que mil vezes ja venceo
    A Neptuno teu Rei em clara guerra.
      Sua formosa me onde nasceo,
    Seno no proprio mar em que te banhas?
    Onde Thetis por Pleo em fogo ardeo?
      Se das pedras nascesses nas montanhas,
    Se com leite de tigres te criras,
    Mais duras no tiveras as entranhas.
      Apparecras tu, e ento tornras
    Logo a esconder-te, logo, se quizeras
    Nas ondas, que de ti me so avaras.
      Com h[~u]a mostra s que de ti deras,
    A vida, que me foge em no te vendo,
    Co'os teus formosos olhos detiveras.
      Ento vras os meus, donde correndo
    De lagrimas se vem dous largos rios,
    Que o mar tambem em si vai recolhendo.
      Ah nescio pescador! que desvarios
    Me deixo aqui dizer! a quem os digo!
    A surdas ondas ja, ja a ventos frios.
      Elles e ellas ja crescem: ja em p'rigo
    O barco vejo: ai! ei-lo combatido.
    Ellas e elles o levo ja comsigo.
      Olhos, que l me tendes o sentido,
    A culpa he vossa s, que me no vdes.
    Mas, pois o pescador anda perdido,
      Perca-se o barco seu, perco-se as redes.


ECLOGA X.


PISCATORIA.

_Meliso._

    Encheo do mar azul a branca praia
    Meliso pescador de mil querellas;
    Meliso, que por Lilia arde e desmaia.
      Despois que  luz da lua e das estrellas,
    Sbre dura fatexa o barco psto,
    As redes recolheo, remos e velas:
      Que gsto,  Lilia, (disse) ou que desgsto
    Te move a me negar, vendo qual ando,
    Teus olhos cr do ceo, teu alvo rosto?
      Se tu queres que pene desejando,
    Se queres que no mar em fogo viva;
    Ardendo sempre est, sempre penando.
      Mas lha,  branda Lilia, (antes esquiva)
    Que no merece ser to mal tratada
    Hum'alma desses olhos to captiva.
      Vives dos meus cuidados descuidada:
    Coitado de quem traz a duvidosa
    Vida no mar e terra aventurada!
      Bem podes com razo ser piedosa
    Com quem no quer mor bem, que bem quererte,
    No sendo to cruel como es formosa.
      Ora deixa ja, ingrata, deixa ver-te
    A meus cansados olhos, que de tantas
    Lagrimas so movidos, sem mover-te.
      Se tu me vences, e se tu m'encantas
    Com tua doce falla, doce riso,
    Porque foges de mi? porque te espantas?
      Lembre-te a formosura de Narciso,
    E qual pago lhe deo seu desamor:
    lha que com amor disto te aviso.
      Mas quando essa crueza tanta for,
    Que merea do ceo novo castigo,
    Qual herva ser digna de tal flor?
      Amor que me persegue, Amor que sigo,
    Me faz d'hum grave mal andar temendo;
    D'hum mal, qu'eu sinto na alma e que no digo.
      Quanto mais ledo ja te estive vendo
    Aqui as mansas ondas esperando,
    Que por chegar a ti vinho correndo,
      E da molhada areia despegando
    Com a candida mo roxas conchinhas,
    A frma do teu p nella deixando?
      Daquellas, de que tu mais gsto tinhas,
    Muitas te trago aqui, postoque temo
    Que menos o ters por serem minhas.
      Hum temor tal me chega a tal extremo,
    Que, vencido d'hum triste esquecimento,
    No mar me cahe da mo o duro remo.
      E quando a branca vela slto ao vento,
    To descuidado vou do fiel leme,
    Que me leva a perder meu pouco tento.
      Mas quem arde por ti, quem por ti treme,
    Os seus maiores riscos no receia,
    Os teus que sente mais, muito mais teme.
      Despois que te no vi, (no sei que creia
    Desta tardana tua e morte minha)
    Sendo a lua vazia, he quasi cheia.
      O tempo, que nos gostos passa asinha,
    Detem-se neste mal da saudade,
    Por me dobrar a dor que d'antes tinha.
      No desprezes,  Lilia, huma vontade,
    Que por te contentar tudo despreza,
    Tudo julga, sem ti, por pouquidade.
      Se pretendes amor, ja tens certeza
    Que no podes ser nunca mais amada
    Dos que vencidos traz tua belleza.
      Se por ventura ests affeioada
    A gentil parecer, a bom engenho,
    A ninguem nestas partes devo nada.
      Se fazes caso d'honra, lha que venho
    De gerao d'honrados pescadores;
    Se de riqueza, barco e redes tenho.
      Por erros julgars estes louvores;
    E oxal no os julgues por doudice!
    Mas quem siso quer ter no tenha amores.
      E mais tudo foi pouco quanto disse,
    Pondo os olhos no muito que meu fado
    Nos teus, que ver desejo, quiz que visse.
      Aconteceo-me hum caso desusado,
    (Inda que d'huma cousa n'outra salto)
    Digno, por ser de amor, de ser contado.
      Pescando hontem  tarde no mar alto,
    Suspenso nessa rara formosura,
    A quem com mil lembranas nunca falto,
      Comecei a cantar: Lilia, mais dura
    Que a mais inculta rocha rodeada
    Do mar, de cujo encontro est segura;
      Mais alva que jasmins, e mais crada
    Que purpureas serejas polo Maio;
    Mais loura que manha desentranada;
      No vs... dizer queria que desmaio,
    Quando (cousa que mal me ser crida)
    No mar, vencido d'hum, do barco caio?
      Alli tivera fim a triste vida,
    Se d'hum brando delfim, que me escuitava,
    No fra, por ser tua, soccorrida.
      Parece que tambem vencido estava
    Do mal, de que me via andar vencido,
    Quem em tamanho risco m'ajudava.
      Trouxe-me sbre si adormecido,
    Nadando ao som das ondas mansamente,
    At que me sentio em meu sentido.
      Livre deste mortal, bravo accidente,
    Tal foi o espanto meu, tal meu temor,
    Que d'outro me livrei escaamente.
      Mas logo o amoroso nadador
    Me poz junto do barco, que to perto
    Esteve de ficar sem pescador.
      O sol era de todo ja coberto,
    Quando eu, entrando nelle, sahi fra
    Do perigo, onde tive o fim to certo.
      Porm outro maior me cansa agora,
    De que mal sahirei, se te no vir
    Amanhecer aqui co'a nova aurora.
      No pde ella tardar em descobrir
    As suas louras tranas dasatadas,
    Das quaes as tuas bem se podem rir.
      Pois por cima das ondas, acordadas,
    As Halcyoneas ouo lamentar-se,
    Do seu antigo damno inda lembradas.
      E sinto o fresco orvalho derramar-se
    Mais congelado e frio; e Venus bella
    Polo Oriente ja vejo levantar-se.
      Bem podes, Lilia, competir com ella,
    E com Pallas e Juno em gentileza;
    Em amor no, pois elle nasceo della:
      Desterrou-o de ti tua aspereza,
    Que desterra de mi prazer e vida,
    Deixando em seu lugar mgoa e tristeza.
      No silencio da noite, que convida
    A descanso commum, tanto me cana,
    Que no sei se remedio ou morte pida.
      Se tu quizesses dar-me huma esperana
    De te servir de mi ou tarde, ou cedo,
    Nunca me negaria o mar bonana.
      Polas inchadas ondas, que pe medo,
    Eu s, sem mais ajuda, levaria
    Sempre  fra de brao o barco quedo.
      To seguro por ellas andaria,
    Como polo seu campo o lavrador
    No mais quieto, claro e bello dia.
      lha que no ha destro pescador,
    Que mais manhoso as redes desencolha,
    Nem os tortos anzoes isque melhor.
      Os peixes deixarei em tua escolha:
    Aquelles de que fores mais amiga,
    Nunca te faltaro de flha a flha.
      No sei, Lilia formosa, que mais diga,
    Que mova amor em ti, que mova mgoa;
    Sei que mgoa, e que amor a mais obriga.
      Mas antes que o sol d naquella frgoa,
    Onde meus ais dilata a triste Ecco,
    Vou-me segurar mais o barco na goa,
      Porque de baixa mar no fique em scco.


ECLOGA XI.


INTERLOCUTORES.

ANZINO e LIMIANO.

    Parece-me, pastor, se mal no vejo,
    Que ja te vi mais ledo andar outr'hora
    Nos largos campos do famoso Tejo.
                LIMIANO.
      Podia ser; que muito tempo fra
    Andei desta ribeira, patria minha,
    Onde triste me vez andar agora.
      Tinha l para mi, que a vida tinha
    Mais socegada c e mais segura,
    Entre os meus, que com gsto a buscar vinha.
      Foi d'outro parecer minha ventura:
    Discordias ss achei, e achei dureza,
    Em lugar de socgo, e de brandura.
      Achei as boas leis da natureza
    Vencidas do interesse; e a gente cega,
    Tanto, que mais que o sangue, o gado prza.
      Dizem que quando o mar bonana nega,
    Correndo vai aquella no mor prigo,
    Que  desejada terra mais se chega.
      Assi m'aconteceo a mi comigo;
    Seguro sempre ao longe, sempre ledo;
    Triste ao perto, e tratado como imigo.
                ANZINO.
      Sempre (podes-me crer este segredo)
    Desejei de te ver; mas com desgsto,
    Inda te no quizera ver to cedo.
      Prestando para cousas de teu gsto,
    Como camaleo no mudo cres;
    Qual he meu corao, tal he meu rosto.
                LIMIANO.
      No so logo assi, no, outros pastores,
    Que de promessas vas te fazem rico,
    E nunca fructo do: tudo so flores.
      Mas desejo saber com quem pratco,
    Porque no caia em falta, e porque entenda
    A quem tamanho amor devendo fico.
                ANZINO.
      Antes que tempo nisso se dispenda,
    Busquemos hum lugar mais fresco e frio,
    Que da calma, que cahe, bem nos defenda.
                LIMIANO.
      Vamos alli, que alli bosque sombrio
    Nos dara fresco abrigo, assento o prado,
    Formosa vista o valle, o monte, o rio:
      O rio, que vers to socegado,
    Que te parecer que se arrepende
    De levar goa doce ao mar salgado.
      Nem cabra, nem ovelha alli offende
    Herva, folha, nem flor, ou ferro duro:
    A planta polo ar livre se estende.
      Vers cahindo em gottas crystal puro
    No vo d'huma caverna carcomida,
    Por entre o musgo molle, verde-escuro.
                ANZINO.
      Quem traz  saudade a alma rendida,
    A saudade busca, onde descansa;
    Maso descanso della encurta a vida.
      Com tudo, quem do ceo na terra alcansa
    Poder gozar-se desta liberdade,
    Que mais deseja ter? que mais o cansa?
      Affirmo-te de mi esta verdade,
    Que muitos valles vi, muitas ribeiras;
    Mas esta me dobrou a saudade.
      Oh que viosas murtas! que oliveiras!
    Que freixos! como esto d'hera cingidos!
    Quantas voltas lhes d de mil maneiras!
      Os lirios junto d'goa bem nascidos
    Quanta graa que t[~e]e entre as boninas,
    Sem ordem, com mais graa, entremetidos!
      Vem encrespando as goas crystallinas
    A branda virao; a flha treme;
    O movimento apenas determinas.
      A rla seu amor suspira e geme;
    Escondida se queixa Philomella:
    Parece que do campo inda se teme.
      Espanta a quem se atreve, ver aquella
    Rocha por cima d'goa pendurada
    Como ja se no deixa cahir nella.
       ribeira do Lima, celebrada
    De mil brandos espritos sempre sejas,
    Sempre de brandas Nymphas povoada.
      Fujo longe de ti duras invejas;
    Peonha de pastores, morte sua:
    Tudo sintas amor, tudo amor vejas.
      De dia o claro sol, de noite a lua,
    Em teu favor inspirem de maneira,
    Que sempre fertil seja a praia tua.
      Tornando, emfim,  prtica primeira,
    Por dar-te, como queres, de mi conta,
    Larga ta quero dar e verdadeira.
      Apartar-te do gado leva em conta;
    Que, pois com elle fica o pegureiro,
    Que te detenha hum pouco, pouco monta.
      O meu nome he Anzino: fui vaqueiro
    Na gr serra da Estrella, que no tive;
    No sei se natural, ou se estrangeiro.
      Hum pastor me criou, que ja no vive;
    De todos por seu filho era julgado;
    E eu tambem neste engano hum tempo estive.
      At que delle soube ser achado
    Em huma anzina envolto em pobres panos;
    E daqui veio, que Anzino fui chamado.
      Neste meu desengano outros enganos
    Fundou de novo a pouca dita minha,
    Com que o vim a servir mais de sete annos.
      Tinha muito de seu, e mais no tinha
    De filhos, que huma filha bem formosa,
     qual por morte delle tudo vinha.
      Conversao domstica e damnosa,
    Na livre formosura e tenra idade,
    Em ambos accendeu chamma amorosa.
      Como ella de mi soube esta verdade,
    Com outro amor, com outros exercicios,
    Nella ganhei de novo outra vontade.
      Amor mestre me fez de mil officios
    Para meio do fim que desejava;
    E delle sinal davo mil indicios.
      Tecia alvos cestinhos, quando andava
    Com as vaccas no prado:  noite hum cheio
    De fructa, outro de flores lhe levava.
      Nas mangas muitas vezes e no seio
    As nozes lhe levei com as castanhas,
    Quer do souto do pae, quer d'outro alheio.
      Nos intricados bosques, nas montanhas,
    Por seu amor as feras perseguia,
    Fras agora usando, agora manhas.
      Vivos os mansos cervos lhe trazia;
    Vivas medrosas lebres fugitivas:
    Ligeireza de ps no lhes valia.
      Mas, se lhe dava as mansas feras vivas,
    Mortas lhe dava as que por natureza,
    Sem domar-se, so bravas, ou esquivas.
      Certo dia achei eu n'huma aspereza,
    Sem me, hum cervo branco e pequenino;
    Trouxe-lho; ella o criou; inda hoje o prza.
      Ou ja criao seja, ou ja destino,
    Tanto que no o v, geme e suspira.
    Como menos fara o triste Anzino?
      Tangia mal na frauta, mal na lira;
    Despois to bem tangia, qu'era espanto
    A quem antes d'amor tanger m'ouvra.
      Ouvia celebrar sempre em meu canto
    Ulina a sua rara formosura:
    (Tal nome t[~e]e aquella, a que amo tanto.)
      Contava-lhe meus males por figura:
    Ficava eu, de medroso, frio e mudo;
    Ficava ella suspensa; a historia escura.
      Assi com tal temor, com tal estudo,
    Amor fui grangeando longamente,
     conta deste amor perdendo tudo.
      Ella, dos meus desejos innocente,
    O mesmo amor me tinha, tanto, digo;
    Que no ser era todo differente.
      Praticava seus gostos s comigo;
    Seus desgostos tambem, seus pensamentos,
    Com rara graa e com saber antigo.
      Outras vezes, confusa nos intentos,
    Os modos me notava, e me dizia:
    Entre irmos de que servem comprimentos?
      Eu quizera, Senhora, (respondia)
    Que soubesses de mi, qu'irmo no sendo,
    No com menos amor te serviria.
      Tornou-me: Essa resposta no entendo:
    O que no quiz o ceo, queres que seja?
    Que castellos no vento andas fazendo?
      Se me queres ver leda, no te veja
    Soltar essas palavras ociosas:
    Materia mais honesta nos sobeja.
      Dizendo assi, nascio-lhe outras rosas
    Naquellas proprias suas, sbre a neve
    Das suas faces mais que o sol formosas.
      Destas quebras comigo algumas teve;
    Cujas fras amor quebrava logo
    N'outra conversao mais branda e leve.
      Cresceo desta maneira o vivo fogo,
    Que ardendo dentro na alma encurta a vida;
    Cujo principio foi hum brinco, ou jgo.
      Mas ella neste tempo era pedida
    De muitos a seu pae em casamento;
    Nova dor para mi, mortal ferida!
      Elle lhe nomeava mais de cento:
    Delles paternamente lhe rogava
    Hum escolhesse a seu contentamento.
      Com mil razes fingidas s'escusava,
    Sendo s a razo, no ser contente;
    Com que desgsto ao pae, gsto a mi dava.
      Estando ns por huma sesta ardente
     sombra d'huns madronhos repousando,
    Affastados da casa e mais da gente,
      Ja d'huma e d'outra cousa praticando;
    Soltou com hum suspiro estas palabras:
    Desde hontem para c em mi no ando.
      Logo que nosso pae tornou das labras,
    Me disse que assentra de casar-me
    Com Tityro, pastor de muitas cabras.
      Que no buscasse causas d'escusar-me,
    Como por muitas vezes ja fizera,
    Pois tinha muitas mais de contentar-me.
      Que afra esta teno, que a sua era,
    O mesmo seus parentes lhe dizio,
    A quem de seus intentos conta dera.
      As goas, que dos olhos me corrio,
    Em quanto elle me disse o que te digo,
    Por mi, que fiquei muda, respondio.
      Com seu chro abrandou ao pae amigo;
    Qu'emfim, deixando-a menos magoada,
    Lhe disse que fallasse isto comigo.
      Assi me disse; e que determinada
    Estava a qualquer mal que lhe viesse.
    Antes que ser com Tityro casada.
      Que por mais de mil cabras que tivesse,
    Jamais esta vontade mudaria;
    Que buscava saber, no interesse.
      E que de melhor mente casaria
    Com hum qualquer pastor, pobre de gado,
    Se nelle as partes visse, que em mi via.
      Por extremo de mi lhe foi louvado
    O pensamento seu; e sem detena
    Tal resposta lhe dei acautelado:
      Se a dar meu parecer me ds licena,
    Hum pastor te darei de qualidade,
    Que em nada de mi tenha differena;
      Nem de menos saber, nem mais idade;
    Nas manhas outro tal, e em corpo e gesto:
    Da fazenda no sei a quantidade.
      Se esse me fazes bom, daqui protesto
    De no receber outro por marido:
    Me respondia com sembrante honesto.
      Pois sabe (respondi) que ja admittido
    Me tens com gsto teu por teu esposo;
    Que com dar-te-me dou o promettido.
      No pude dizer mais, de vergonhoso,
    Nem ella me deixou com ouvir tal,
    Suspeitando de mi amor vicioso.
      Logo me respondeo: Ah desleal!
    Ah deshonesto irmo! isso pretendes?
    Mas no irmo, imigo capital.
      O ceo, que com injusto amor offendes,
    Tome, cruel, de ti justa vingana,
    Antes que de tamanho error t'emendes.
      Andavas-me enganando na esperana
    Com esses falsos e indevidos meios
    Ao sangue nosso e minha confiana?
      Fizeste verdadeiros os receios,
    A que confusamente me levavas
    De sombras enganosas com rodeios.
      Desejo no teu peito agasalhavas
    To torpe, to infame, to alheio
    Do puro amor, a que obrigado estavas?
      No te desculpes, no; que ja no creio
    Lagrimas, nem palavras, nem desculpas
    De quem imaginou caso to feio.
      Timido respondi: De que me culpas?
    Se ouvido me no ds, no tens razo;
    Acaba de me ouvir o fim das culpas.
      T[~e]e-me, Ulina, por teu, no por irmo:
    Se me no queres crer esta verdade,
    De teu pae sabers se minto, ou no.
      Por filho me criou: a flor da idade
    Gastei em o servir por teu respeito:
    lha o que te merece esta vontade.
      Se com ser isto assi tenho rro feito
    Em grangear-te; que a ti s desejo;
    Eis este ferro aqui, eis este peito.
      Isto ouvindo, mostrou hum ledo pejo,
    Pondo os olhos no cho, formosa e branda;
    E cuido qu'inda assi nos meus a vejo.
      Disse-me: Em que revoltas o amor anda!
    No bem, como no mal, tambem me enleia:
    Inda agora o senti, ja reina e manda.
      Como queres, Anzino, qu'eu te creia
    Cousa que nem sonhada foi tgora?
    No sabes de quem ama, o que receia?
      Fallarei com meu pae: fica-t'embora:
    No desengano seu teu bem consiste;
    Da palavra que dei no estou fra.
      Com isto me deixou alegre e triste.
    O como ja ouviste de meu dano,
    Amigo Limiano: o fim amargo,
    Em que no serei largo, escuita agora.
    Fulgencia, outra pastora, que vizinha
    Era d'amada minha e grande amiga,
    (No sei como isto diga que no moura)
    Pastora branca e loura, que na serra
    Era a segunda guerra dos pastores,
    Por mal dos meus amores me quiz bem.
    Fundava-se porm em casamento;
    E deste fundamento lhe nascia,
    Que, como me no via, o valle, o monte,
    O bosque, o rio, a fonte rodeava.
    Em busca minha andava aquella sesta;
    Entrou pola floresta, onde nos vio;
    E tudo nos ouvio quanto fallmos,
    Entre huns espessos ramos escondida.
    Cruelmente ferida dos ciumes,
    Foi-se a fazer queixumes (descobrindo
    Mais do qu'esteve ouvindo) ao pae d'Ulina.
    Eis logo desatina o triste velho;
    Eis que sem mais conselho a filha entrega,
    Que com chro se nega e com palabras,
    Ao simple guarda cabras, por esposa.
    Ah hora desditosa! ah sorte dura!
    Daquella formosura desusada,
    De tantos desejada, e de mi tanto
    Servida com espanto e puro amor,
    Quizeste, por mais dor, enriquecer
    Quem no sabe entender o preo della?
     tu, serra d'Estrella, que tal viste,
    Como te no abriste; e no teu centro
    Me no cerraste dentro, estando vivo,
    Porque mal to esquivo no sentra?
    Oh cega, oh cruel ira! oh pae fingido!
    Para me ver perdido me criaste?
    Porque me no deixaste no deserto?
    Menos crueza, certo, ento usras,
    Inda que me deixras (no te aggraves)
    s cruas feras e aves da montanha.
    No vs que o ceo estranha isso que tratas?
    No vs que a ti te matas cobioso?
    Na porta o novo esposo tropeou;
    Na casa no entrou co'o p direito:
    Gritou sobolo teito a noite inteira
    A ave, qu'he mensageira de fins tristes.
    O mesmo vs sentistes, ces da aldeia,
    Quando por m estreia, juntos todos,
    Com differentes modos huiviastes.
    Serranas, qu'esperastes nestas vodas
    Cantar alegres todas Hymeneos,
    Dos vossos alvos seios, alvas flores,
    Em lugar dos licores mais custosos,
    Por cima dos esposos derramando;
    Ou vendo estar bailando, estando quedas,
    Ao som das gaitas ledas no terreiro
    O moo to ligeiro  maravilha,
    Que quasi o p no trilha o junco mole;
    Qual ser que console a triste amiga,
    A quem a fra obriga do pae duro,
    A quem o Amor puro obriga tanto,
    Que n'hum contino pranto se consume?
    Assi do grande cume da esperana
    Com subita mudana derribado,
    Me poz em tal estado a triste nova,
    Como sabe por prova quem bem ama.
    Levou a leve fama a minha dor
    A Sincero pastor, meu grande amigo,
    Que com rogos comsigo me levou,
    Do monte, onde me achou, ja noite escura,
    Chorando a desventura em que me via.
    As vaccas, vindo o dia, derramadas,
    De mi desamparadas, vem bramando,
    Sinal n'aldeia dando em seu bramido
    De qu'era ja perdido o pastor seu.
    Tamanha pena deo  bella Ulina
    (Bella, porm mofina) a pena minha,
    Sbre quantas ja tinha no seu peito,
    Que mais do triste leito no s'ergueo.
    Seu pae adoeceo tambem de nojo:
    Da morte foi despojo ao dia quinto.
    A dor que daqui sinto he sem medida.
    Pois m'apartou da vida, a vida acabe,
    Ou n'alma, onde no cabe, faa pausa.
    Fulgencia, que foi causa destes males,
    Des que montes e valles descobrio,
    Despois que me no vio em toda a serra,
    Deixou, deixando a terra, mgoa aos pais,
    Que della nunca mais novas soubero.
    Emfim, tal fim tivero meus amores.
    Chorro os pastores juntamente
    D'Ulina descontente a triste sorte,
    Do pae a breve morte, e de Fulgencia
    A vingadoura ausencia de seu rro;
    De mi este destrro em que me ps.
      Mas mais chorastes vs, meus olhos tristes,
    Quando de vossa luz, sem a do dia,
    Por terras to estranhas vos partistes.
      Cuido que meia noite ento seria;
    Cantando os gallos ja na triste aldeia,
    Chorava s quem della se partia.
      Casa de meus suspiros sempre cheia,
    (Disse eu, quando passei pela de Ulina)
    Tal fructo colhe quem amor semeia!
      Fortuna, a mi cruel, sempre benina
    Em tudo seja quella, que em ti mora,
    Indaqu'em outros braos se reclina.
      Fica-te aqui, minha alma, fica embora,
    Que, pois assi o quiz fado inimigo,
    Jamais te no verei dia nem hora.
      Dalli nos ricos campos dei comigo,
    Que das goas do Tejo so regados;
    Onde te vi mais ledo, como digo.
      Por ver se posso agora a meus cuidados
    Achar algum repouso, algum socgo,
    Atravessando vou montes e prados.
      Passei as claras goas do Mondego,
    Das Lusitanas Musas charo ninho;
    As do Douro despois em turvo pgo.
      Daqui continuando meu caminho,
    Espero ver a casa aos ceos acceita,
    Na terra que da nossa aparta o Minho.
      Onde vou visitar na urna estreita
    Os santos ossos do Varo divino,
    Que pretendeo do Mestre o mo direita.
      Assi, d'hum lugar n'outro de contino,
    O bem que ja cantei, chorando venho;
    Tornei-me de vaqueiro, peregrino:
      Tal hbito me vs, tal vida tenho.
                LIMIANO.
      Anzino, he breve o dia
    Para poder contar
    O que sinto de tua desventura.
    E sei bem qu'erraria,
    Se quizesse louvar
    O grave estylo teu, tua brandura.
    Aquella formosura,
    Por quem alegre fras;
    Que tu ledo cantaste,
    E que despois choraste
    To triste, qu'ind'agora triste choras;
    Vivendo eterna nella,
    Ser mgoa commum, e louvor della.
      As mgoas deixo enfim;
    Tambem louvores deixo,
    Por grandes ellas, elles por pequenos.
    Tu, por amor de mim,
    (Dir-te-hei de que me queixo)
    Repousa hoje comigo, quando menos:
    Assi vejas serenos
    Esses teus tristes lumes.
    Abranda a dura mgoa,
    Que tira fontes de goa
    Do fogo em que chorando te consumes;
    Dar-te-hei conta mais larga
    Da vida que aqui passo to amarga.
      E mais saber desejo
    Se a fama nos engana,
    Que diz, que o gro pastor dos Lusitanos,
    Com todos os do Tejo,
    E com fato e cabana,
    Reside ja nos campos Africanos;
    Onde mil soberanos
    Triumphos, delle dinos,
    Lh'ordena a fatal sorte,
    Com grande estrago e morte
    Dos brutos mal nascidos Sarracinos,
    Que de si despejados
    Os curraes deixo ja cheios de gados.
      Que sendo assi, te digo
    Que no espero mais
    Nesta para mi sempre ingrata terra.
    Quem traz guerra comsigo
    Entre seus naturais,
    No deve d'estranhar estranha guerra.
    Sem mi de serra a serra
    (O ceo assi o queira)
    Logrem meus inimigos
    Os valles e pacigos
    Desta, donde nasci, fresca ribeira;
    Na qual (se no m'engano)
    Inda ser chorado Limiano.
                ANZINO.
      Limiano, ja bem tenho entendido
    Quanto sentes meu mal; mas eu te digo
    Que o teu mal he de mi menos sentido.
      cerca de ficar hoje comtigo,
    Farei pois (ja qu'assi nos detivemos)
    Tudo o que tu quizeres, como amigo.
      E, pois o dia ja passado temos,
    Vamos-nos mais chegando para o gado;
    E l nas outras cousas fallaremos.
      Todavia de funda e de cajado
    Te vai apercebendo a som de guerra;
    Que no foi tal pastor c do ceo dado,
      Para no dar ao ceo to larga terra.


ECLOGA XII.


INTERLOCUTORES.

DELIO, ALCIDO, GALASIO.

              DELIO.
      Agora, Alcido, em quanto o nosso gado
    Pasce diante ns manso e seguro,
    Sentemos-nos aqui neste abrigado.
      Logremos este sol sereno e puro,
    Que livre se nos d, antes que venha
    A noite fria com seu manto escuro.
      O rico com seu ouro l se avenha;
    No se farta a cobia co'a riqueza:
    Mais arde o fogo quando t[~e]e mais lenha.
      Com pouco se contenta a natureza.
    Quem isto bem olhasse, certifico
    Que no fugisse tanto da pobreza.
      O sol tambem m'aquenta, como ao rico;
    A fonte goa me d, fructos a terra:
    Com pouco mantimento farto fico.
      Ah! que a m vaidade nos faz guerra!
    (Para que gasto tempo em mais palabras?)
    Os olhos da razo esta nos cerra.
      Alcido, tens ovelhas, e tens cabras,
    De que tiras da la, tiras do leite;
    E no te falto campos em que labras.
      Inda tu queres mais? Amigo (eu hei-te
    De fallar claro e sem lisongerias:
    No hajas medo tu, qu'eu as affeite)
      Tu cantavas amor, amor tangias;
    Faltava a tua frauta; agora he muda:
    Que mal te mudou tanto em poucos dias?
                ALCIDO.
      Muda-se a idade, Delio; e se se muda
    Com ella a condio, nada m'espanto;
    O gsto m'ajudou, ja no m'ajuda.
      Se ja cantei amor, se amor no canto,
    Culpas do tempo so, que vai mudando
    O meu cantar alegre em triste pranto.
      O tempo, que to leve vai voando,
    Delio, no torna mais; e assi fugindo,
    Mil claros desenganos nos vai dando.
      Pouco a pouco se veio descobrindo
    O mal d'huma esperana va e incerta,
    Que me deixou chorando, e foi-se rindo.
      Quem nasce sem ventura, ou quem acerta
    De fazer fundamento em peito alheio,
    De mil contas que faz nenhuma he certa.
                DELIO.
      Pois se isso entendes tu, donde te veio
    Sentir to de verdade as sem-razes,
    No sendo d'outra cousa o mundo cheio?
                ALCIDO.
      No queres tu que sinto coraes
    Obrigados com dor a sentimento,
    Vendo a razo vencida d'affeies?
                DELIO.
      Emfim, todas as cousas querem tento:
    Encobre a dor, e guarda-te d'extremos;
    Que sempre trazem arrependimento.
      Ao nosso doce canto nos tornemos:
    Das nossas Nymphas, bellas inimigas,
    Crueza e formosura celebremos.
                ALCIDO.
      Como cantarei eu novas cantigas
    Em terra to esteril, cheia d'ira,
    Que nega flores, e que nega espigas?
      Pendurei n'hum salgeiro a minha lira:
    Ouvi-la ao som do vento he h[~u]a mgoa:
    Em lugar de tanger, geme e suspira.
      A Amarilia pintei, pintada trago-a
    Aqui neste meu seio, e tambem chora:
    Seus olhos me do fogo, os meus do-lhe goa.
      Mas vejo vir Galasio.
                DELIO.
                            Venha embora.
    Galasio, queres tu cantar comigo?
                GALASIO.
      Eu nunca me roguei: menos agora.
                DELIO.
      Cantaremos d'Amor cruel imigo,
    Ou brando e amoroso, em razo psto,
    Tyranno e cego, e cego at comsigo?
                GALASIO.
      Cada qual cante do que for seu gsto;
    Quer mimos, quer rigores d'Amor fero;
    Ou d'olhos verdes cante, ou d'alvo rosto.
                ALCIDO.
      Em quanto vs cantais, recolher quero
    O gado; que so horas de ordenhar:
     noite na malhada vos espero.
                GALASIO.
      Isso no: has d'ouvir para julgar
    Qual de ns melhor canta e melhor sente.
                DELIO.
      Eu ja no cantarei, sem apostar.
      Aposto o meu rafeiro, que Valente
    Se chama, e com razo; que o lobo affasta,
    Se no cantar mais branda e docemente.
                GALASIO.
      Hum cervo manso aposto.
                DELIO.
                              Isso no basta:
    Pe mais hum par da cabras.
                GALASIO.
                                 Deos me guarde;
    Porque, Delio, este gado he da madrasta.
                ALCIDO.
      Fazeis-me vs juiz? Quereis que aguarde?
    Ora cantae sem preo e sem inveja;
    E seja logo, porque ja he tarde.
                DELIO.
      Learda minha, branca mais que a neve,
    E muito mais corada que a gra fina;
    S'inda Amor a vencer-te no se atreve,
    Que fara quem d'Amor por ti se fina?
    Eu morro; e tu meu mal julgas por leve?
    No vs tu como ja me desatina?
    Ai triste! que me vem valles e montes,
    Regados de meus olhos feitos fontes.
                GALASIO.
      Marfida, branca mais que o branco leite;
    Vermelha muito mais que a rosa pura;
    Assi descuido em ti nunca suspeite,
    Assi me trates inda com brandura;
    Que a cabana, que a vida e a alma engeite
    Por ti, quando tu mais que marmor dura.
    Testimunhas sero montes e valles,
    A quem dou larga conta de meus males.
                DELIO.
      Quando a minha Learda desencolhe
    Os seus cabellos d'ouro, longo, ondado,
    O sol, de pura inveja, se recolhe,
    Corrido de se ver menos dourado.
    Livre pastor no ha, que bem os olhe,
    Sem se achar logo nelles enlaado.
    Ai! no soltes, Learda, os teus cabellos,
    Pois tanto prendem quantos ouso vellos.
                GALASIO.
      Os tristes coraes se torno ledos,
    Ouvindo de Marfida o doce canto;
    Os furiosos ventos esto quedos;
    No guia o claro sol seu carro em tanto.
    Converte-se a dureza dos penedos
    Em brando amor: Amor desfaz-se em pranto,
    Vencido dessa voz, doce Marfida;
    Mas tu nunca d'Amor foste vencida.
                DELIO.
      O campo de verdura vejo pobre;
    O ceo chuivoso sempre, e turvo o rio;
    Da sua leve folha a terra cobre
    O bosque, que foi ja verde e sombrio.
    Mas se Learda o rosto seu descobre,
    Logo desapparece o tempo frio:
    Comsigo a primavera traz Learda.
    Ai quem a visse ja! Ai quanto tarda!
                GALASIO.
      A triste Progne ja despareceo;
    A toda flor o frio foi imigo;
    A doce Philomela emmudeceo,
    Rouca de lamentar seu mal antigo.
    Mas venha por aqui quem me venceo
    Com hum s volver d'olhos; qu'eu m'obrigo,
    Que as aves tornem logo a seus amores,
    E os campos se matizem de mil flores.
                DELIO.
      A viva chamma, aquelle vivo ardor,
    Que brando sinto ja pelo costume,
    De noite d de si tal resplandor,
    Que os pastores vem delle a tomar lume.
    Pasmados fico, vendo em mi d'amor
    O fogo, que me queima e no consume:
    E tu, por quem eu ardo noite e dia,
    Quando vs tal ardor ficas mais fria!
                GALASIO.
      Eu sempre chro, e tanto ja chorei,
    Vencido da gr dor que n'alma tinha,
    Que mil vezes de lagrimas fartei
    Meu gado, quando a fonte a buscar vinha.
    Chorando as duras pedras abrandei;
    Mas nunca a ti, cruel imiga minha,
    Que, vendo que por ti m'estillo em goa,
    Nenh[~u]a mgoa tens de minha mgoa.
                DELIO.
      Quando vires, Learda, o nosso Lima,
    Que l vai de meu chro acompanhado,
    Tornar com suas goas para cima,
    De seu curso esquecido, costumado;
    Ento embora julga, ento estima
    Que tenho n'outra parte o meu cuidado.
    Mas deixaro os rios de correr,
    Primeiro que deixe eu de te querer.
                GALASIO.
      Estas serras, Marfida, por certeza
    De minha firme f s quero dar-te:
    Quando com espantosa ligeireza
    Daqui correr as vires a outra parte,
    Ento cuida que falta em mi firmeza,
    Qu'ento deixarei eu, meu bem, de amar-te.
    Mas mudar-se daqui bem podem ellas,
    E eu no mudar de mi graas to bellas.
                ALCIDO.
      Se esta vontade minha no deseja
    A vossos versos dar justos louvores,
    Hora nunca na vida alegre veja.
      Acceitae meu desejo, meus pastores:
    Mais vos no pde dar quem traz o esprito
    De todo entregue a damnos, mgoas, dores.
      Mas porque d de vs pblico grito
    A leve fama, como vdes, deixo
    O vosso canto e o meu juizo escrito
      No liso tronco deste verde freixo.
    Delio neste lugar doce cantou
    Com Galasio, que doce respondia:
    Hum Learda, Marfida outro louvou,
    Com inveja de qual melhor diria.
    Alcido, que o seu canto bem notou
    Por ver quem a victoria levaria,
    Como livre juiz, deo por sentena,
    Que no havia entr'elles differena.


ECLOGA XIII.

_Phyllis._

    Pascei, minhas ovelhas: eu, em quanto
    Aquelle passarinho canta ou chora,
    Chamarei Corydon com triste pranto.
      Se entre vs, bellas plantas, amor mora
    (Plantas, ja vs amastes) tende mgoa
    De mi, pois que m'ouvis queixar agora.
      Ai cruel Corydon! cruel a frgoa
    Em que vivo por ti! No tens piedade
    Dever meu peito fogo, os olhos goa?
      Ja no amas a Phyllis? Ah crueldade!
    Ai triste! E que farei? Em poucos dias
    Mudaste tu de mi tua vontade.
      A Phyllis ja deixaste, a quem trazias
    No formoso vero formosas fruitas,
    Sinal do grande bem que me querias?
      Sabes, cruel, que tenho causas muitas
    Para te convencer, de que queixar-me;
    Por isso vs fugindo e no me escuitas.
      Pudero os teus rogos abrandar-me:
    Os meus (triste de mi!) mais te endurecem.
    Ja no acho em que possa confiar-me.
      Aquelles doces versos ja t'esquecem,
    Que tu nos lisos lamos cortavas,
    Onde com teus enganos inda crescem?
      Arder por meu amor nelles mostravas:
    Eu, crendo que era assi, no entendia
    Quanto fingiste amar, quo pouco amavas.
      Tristes meus fados foro, triste o dia
    Em que nasci: coitada de mi triste,
    Qu'em mgoa se tornou minha alegria!
      Logo que a tua Galata viste,
    Vi eu deste meu mal grandes agouros;
    E tu da parte esquerda hum corvo ouviste.
      E no t[~e]e Galata mais thesouros,
    Nem t[~e]e mais formosura, inda que seja
    Ou d'alvo rosto, ou de cabellos louros.
       negra violeta t[~e]e inveja
    O branco lirio, porque tal no tem
    O cheiro, que vencido no se veja.
      Tityro arde por mi; Tityro, a quem
    Mil Nymphas do capellas de mil flores;
    Mas elle a mi s chama, a mi quer bem.
      Eu desprzo por ti muitos pastores,
    E tu por Galata me desprezas!
    Tal pago ds, cruel, a meus amores?
      Em que te mereci tantas cruezas,
    Quantas usas comigo? Por ventura
    Usei comtigo d'ira, ou d'asperezas?
      Prouvera a Deos que to isenta e dura
    Me vras para ti, que nunca vras
    Em mi sinal d'amor, ou de brandura!
      S'eu fugra de ti, tu me seguiras;
    Por mi ardras, no por huma ingrata,
    Por quem choras em vo, em vo suspiras.
      Bem me vinga de ti, pois te maltrata:
    Mas eu te quero tanto, que desamo
    (Por mais que tu me mates) quem te mata.
      Respondem-me estes montes, quando chamo
    Por ti com triste voz; Ecco responde
    Das lagrimas, movida, que derramo.
      E tu no me respondes, nem sei onde
    Te leva esse desejo; mas bem sei
    Que amor e desamor de mi t'esconde.
      Ai triste Phyllis! triste! Onde acharei
    Remedio a tanto mal? O fogo puro
    Em que m'abrazo, com que abrandarei?
      Ja fugra daqui por mais que duro
    Fosse o deixar o ninho em que nasci:
    Mas no ha contra Amor lugar seguro.
      A morte s (mil vezes isto ouvi
     nossa Celia) por remedio espere
    Aquelle que a Amor fez senhor de si.
      Ento, porque de todo desespere,
    Este cego, a quem cegos ns seguimos,
    A mi por ti, e a ti por outra fere.
      S'eu morrra no ponto em que nos vimos,
    No vra tanto mal. Mas que da sua
    Sorte fugisse alguem, ns nunca ouvimos.
      Eu me queixo de ti, e tu da tua
    Galata te queixas; e no vs
    Que mais piedosa te he, quando mais crua.
      Sendo tu to cruel, (to cego es!)
    Queres achar piedade? Como queres
    Que te creio teu mal, se o meu no crs?
      Qu'eu viva com pezar, tu com prazeres,
    No quer o justo Ceo. Ou ambos tristes,
    Ou ledos ambos, si: mais no esperes.
      Selvas, que n'outro tempo nos cobristes
    Com frescas sombras l do ardor de cima,
    Dizei, se a Corydon dizer ouvistes:
      Primeiro ha de tornar o brando Lima
    As goas de crystal  fonte clara,
    Que no meu peito novo amor s'imprima.
      Primeiro qu'eu te deixe, Phyllis chara,
    Me ha de deixar a mi a propria vida.
    Mas quem, por no deixar-te, a no deixra!
      Pois tu, Phyllis, ma ds, eu offrecida
    A tenho a teu querer; tu della ordena
    Como, doce amor meu, fores servida.
      Por ti me ser branda a dura pena;
    Por ti suave a dor, leve o tormento,
    A que m'inclina o fado, ou me condena.
      Ah falso Corydon! teu pensamento
    Era enganar-me: dada a f me tinhas;
    E a f co'as palavras leva o vento.
      Mas (ai triste de mi!) tambem as minhas
    O vento vai levando. O sol he psto.
    Porque, ligeira luz, te no detinhas,
      Em quanto em meu queixume achava gsto?


ECLOGA XIV.


INTERLOCUTORES.

ERGASTO, DELIO, LAURENO.

                ERGASTO.
      Agora, ja que o Tejo nos redeia,
    Neste penedo, donde mansamente
    Murmurando se quebra a branda veia,
      Espera, Delio, at que do Occidente
    D'azul deixe a ribeira matizada
    O sol, levando o dia a outra gente.
      Entretanto daqui vers pintada
    A praia de conchinhas d'ouro e prata,
    E a goa dos mansos sopros encrespada.
      Vers como do monte se desata
    A vagarosa fonte por penedos,
    Que pouco a pouco cava e desbarata;
      E como move os frescos arvoredos
    Favonio, que de flores pinta o prado;
    E como s'esto rindo os campos ledos.
      Ditoso o que do Ceo foi to amado,
    Que no campo alcanou passar a vida,
    Livre de pena, livre de cuidado.
      O rouxinol na vara, que vestida
    De verdes folhas, sombra faz ao rio,
    Lhe canta o doce verso sem medida.
      Agora ao p d'hum alamo sombrio
    V como dous carneiros s'offerecem,
    Os cornos inclinando, a desafio.
      Como ao que vence todos obedecem
    E folgo de o ver fra de perigo;
    E outros com face esquiva o aborrecem.
      Ditoso aquelle, que co'o ferro antigo
    Lavra os campos do pae, e se contenta,
    Nos seus mlhos atando o louro trigo!
      Este a furia do mar no exprimenta,
    Nem corre, por achar a pedra rica,
    A estranha praia, que outro sol aquenta.
      Onde, quando a esperana o fortifica
    Em adquirir mais ouro e mais riqueza,
    Ouro, esperana, e vida a muitos fica.
      Este vive quieto na pobreza;
    E deste confiarei que a anteponha
    A quanto o mundo mais procura e prza.
      Comendo em mesa vil, no s'envergonha:
    Antes bebe nas mos a fonte pura,
    Qu'em precioso metal cruel peonha.
      Oh feliz tempo d'ouro! Ind'aqui dura,
    Inda conversa aqui com os humanos
    A Justia, fugindo  gente impura!
      Quem visse bem to claros desenganos,
    E quanto mal nos vicios se apparelha,
    No campo gastaria bem os anos.
      Ao dia a nossa vida se assemelha,
    Porque quando no mar o sol se banha
    Se costuma tingir de cr vermelha.
      Assi, se olharmos bem, sempre se ganha
    L no occaso da mal gastada vida
    Rubicunda vergonha em mgoa estranha.
                DELIO.
      A gloria, Ergasto meu, qu'he possuida,
    Nunca sabe de ns ser tida em preo:
    S despois que se perde he conhecida.
      E desta vida os bens, qu'eu no mereo,
    Quando os perco e o mal da outra ja m'espera,
    Com grandes mgoas d'alma os reconheo.
      Oh se em ditosa sorte me coubera
    Por favor ou destino das estrellas,
    Qu'entre pastores, eu pastor vivra!
      Muitas vezes t'ouvira as luzes bellas
    Cantar da linda Nise, nas quaes arde
    Teu peito, sempre ufano d'arder nellas.
      Buscae pastor, ovelhas, que vos guarde;
    Que o Ceo no quer qu'eu mais vos guarde e conte,
    E despois vos recolha, sbre a tarde.
      Novos verei saltar junto da fonte,
    Cabras minhas, ja meu querido gado,
    Nem da rocha pender no verde monte.
                ERGASTO.
      Consente agora,  Delio, que chorado
    Em triste verso seja apartamento,
    Que assi me deixa triste e magoado.
                DELIO.
      No: que se dobrar meu sentimento.
    Mas se queres, Ergasto, que m'esquea
    Partida, que lembrada he s tormento,
      Canta aquelle Soneto, que comea:
    _Quantas vezes do fuso s'esquecia_.
    Que digas hum dos teus, no sei se o pea.
                ERGASTO.
      Se com m'ouvir, a dor se te allivia,
    Eu o direi. Mas eis c vem Laureno,
    Que a cantar vezes mil me desafia.
      Cantando venceo ja Tityro e Almeno:
    E eu, inda que sei certo ser vencido,
    Apostar a cantar com elle ordeno.
                LAURENO.
      Ergasto, pois o tempo se ha offrecido,
    Celebremos amor e formosura,
    Emquanto o gado  sombra est acolhido.
                ERGASTO.
      Postoque ja a victoria tens segura,
    No cantarei sem preo, porque saia
    Mais ledo quem cantar com mais brandura.
                LAURENO.
      Eu hum vaso porei de lisa faia,
    Divina obra de Alceo, que celebrado
    Ser sempre por claro nesta praia.
      A vide, de que em roda est cercado,
    Os roxos cachos cobre; e primor teve
    Em pr no meio a Dama e Pan cansado.
      Parece que a beija-la o deos se atreve,
    E que ainda dos beijos mal soffridos
    Inclinado lhe foge o tronco leve.
                ERGASTO.
      Outro vaso porei d'hera cingido,
    No qual Orpheo das aves esquecidas
    E dos suspensos bosques he seguido.
      No cuido que de faia so sahidas
    De tal arte, lavor de tal maneira:
    Tambem obra he d'Alceo, das mais polidas.
      Esta, das que me deo, foi a primeira;
    Que a dar-ma o velho Alcido emfim s'abranda,
    Ouvindo-me cantar nesta ribeira.
      Ouvio-m'ento, estando desta banda;
    E dando-ma, dizia-me: Este seja
    O premio, Ergasto, dessa Musa branda.
                LAURENO.
      Delio o nosso cantar pondere, e veja
    Qual dos dous a voz d mais docemente;
    Que huma tal causa tal juiz deseja.
                DELIO.
      Se o meu juizo cada qual consente,
    Tu, Ergasto, ao doce canto d como;
    Tu responde, Laureno, juntamente:
      E eu fico que nenhum perca o seu preo.
                ERGASTO.
      Alcida, que na cr o leite puro,
    E a rosa da manha deixas vencida,
    Culpa he dos olhos teus, nelles o juro,
    Est'amor de qu'ests to offendida.
    Castiga-os com me verem; qu'eu seguro
    Que a vingana ser delles sentida:
    Nem temas tu d'os meus alegres serem,
    Vendo tristes taes olhos por me verem.
                LAURENO.
      Violante minha, cuja cr iguala,
    Mas antes vence os cravos, vence a neve;
    Desta dor, que atqui minha alma cala,
    Teu amoroso riso a culpa teve.
    Se s por viver della e por am-la,
    Julgas que algum castigo se me deve,
    A ver-te sempre rindo me condena,
    Pois crescendo o amor mais, mais cresce a pena.
                ERGASTO.
      Com a me, que maas colhendo andava,
    Inda pequena, a bella Alcida vinha:
    Eu os ramos da terra ja tocava,
    Ja facil para amar o tempo tinha.
    No sei que fogo ou neve se passava
    Daquelles olhos seus a est'alma minha,
    Que me deixro psto em tal extremo,
    Que at de cuidar nelles ardo e tremo.
                LAURENO.
      No bosque a Violante vi hum dia,
    Doce princpio destas doces dores;
    A flor cahia nella, e parecia
    Dizer cahindo: Aqui reino amores.
    Humilde em tanta gloria ella se ria,
    E errando hio sbre ella as vrias flores:
    Eu, que vencido fui d'hum error cego,
    quelle honesto riso est'alma entrego.
                ERGASTO.
      Pastores deste bosque, que buscais,
    Anoitecendo, o lume por costume;
    Chegae a mi; qu'eu fico, se chegais,
    Que destes meus suspiros leveis lume.
    Accesos sahem d'alma os doces ais
    No ardor, que pouco a pouco me consume;
    Mas nem as chammas, qu'em suspiros deito,
    Accendro jamais hum frio peito.
                LAURENO.
      Pastores, que buscais na sombra amada
    A fonte, por fugir o ardor do estio,
    Vinde a mi, porque d'goa destillada
    Por meus olhos, se slta hum largo rio;
    Tal, que a sde d'Amor nunca apagada,
    Fart-la ja de lagrimas confio.
    Mas com chro de tanta quantidade
    No movo aquelles olhos a piedade.
                ERGASTO.
      Se quando a minha Alcida est'alma visse
    Nos meus olhos, d'Amor to maltratada;
    Se quando a grave dor fra sahisse
    Entre suspiros mil rta e quebrada,
    Sequer com brandos olhos m'admittisse,
    Ficando de vergonha mais crada;
    Ditoso fra, vendo-a, juntamente
    Com ser mais bella, deste amor contente.
                LAURENO.
      Se  vista de Violante derramadas
    As lagrimas d'amor, que vive nellas,
    Tal fra lhe fizessem, que orvalhadas
    Lhe ficassem de dor ambas estrellas,
    E as rosas entre a neve semeadas,
    Co'o piedoso orvalho, inda mais bellas;
    Ditoso me fizera. Hora ditosa,
    Se a vra ser mais bella e ser piedosa!
                ERGASTO.
      Claros olhos, que ao sol fazeis inveja,
    Que brandos vos mostreis ja vos no peo;
    Mas que poder-vos ver paga me seja,
    Se por tamanho amor tanto mereo:
    Armados d'esquivana ento vos veja
    Cheios d'hum no sei que, com que pereo;
    Que doce me ser tal esquivana.
    Doce o morrer, qu'em olhos taes s'alcana!
                LAURENO.
      Olhos, que vos moveis to docemente,
    Que traz vs todo o mundo ides levando,
    Eu no sei se tomais do ceo luzente
    O movimento seu, se lho estais dando:
    Sei certo (e no m'engano,) sei somente
    Que a vs de mi minh'alma ides passando:
    Mas no posso entender como deixais
    Ao descuido o que vs em vs levais.
                ERGASTO.
      Por mais que a minha soberana Alcida
    (Minha no, porque s sua belleza
    Vem a ser minha em ser de mi querida)
    Me trate vezes mil com aspereza;
    Huma s vez que della acho admittida
    Minha pequena vista na grandeza
    Da luz do rosto seu, sinto tal gloria,
    Que de todo o penar perco a memoria.
                LAURENO.
      Quando a minha mais que unica Violante
    (Se minha pde ser a que he to sua)
    Aquella santa luz hum breve instante
    Me deixa ver, por mais que a veja crua;
    A vista tanto em mi vejo a diante,
    Que no he muito, no, que m'attribua
    A soberba de ser hum'aguia nova,
    Que do ceo no lho claro a vista prova.
                DELIO.
      Pastores, que alcanar pudestes tanto
    Com vossa branda Musa, que ja nesta
    Idade renovais o antigo canto;
      Para vosso louvor, que verso presta?
    Qu'hera digna ser? que louro dino
    Qu'em premio a cada qual adorne a testa?
      Em parte paga Amor, se de contino
    Por dentro a cada hum gasta os espritos,
    Pois co'o divino canto o faz divino.
      Ns veremos por annos infinitos
    Nos altos troncos destas faias bellas
    Os nomes vossos por memoria escritos.
      De unicas flores mereceis capellas:
    T[~e]e Alcida e Violante ss taes flores;
    E, pois ellas as t[~e]e, dem-vo-las ellas.
      Os vossos premios recolhei, pastores:
    Cada qual igualmente o seu merece;
    E ambos d'Apollo os mereceis maiores.
      Recolhamos o gado; que anoitece.


ECLOGA XV.


INTERLOCUTORES.

SOLISO e SYLVANO.

              SOLISO.
      De quanto alento e gsto me causava
    A vista da manha resplandecente,
    Com que toda a tristeza s'alegrava;
      Que quando vinha o sol claro e luzente,
    Bem claro ento em mi se conhecia
    Huma nova alegria differente;
      Tanto agora me offende o novo dia,
    Vendo que me no mostra a formosura,
    De que s me mantinha e s vivia.
      E no me quiz deixar triste ventura
    Esperanas de mais tornar a vella!
    Oh destino cruel! oh sorte dura!
      Oh querida Natercia! oh Nympha bella,
    Em quem, emfim, mostrou a natureza
    O mais que se podia esperar della!
      Se l no assento da maior alteza
    Te lembras de quem viste c na terra,
    Para te magoar sua tristeza;
      Lembre-te de contino a cruel guerra,
    Que contnua me faz tua lembrana,
    Esquecido do gado, valle e serra.
      Lembre-te que perdi a confiana
    De ver os olhos teus, e juntamente
    De todo o bem d'Amor toda a esperana.
      Lembre-te que por ti de mi ausente
    A crystallina fonte me he nojosa,
    Com que ja n'outro tempo fui contente.
      Que por ti a manha clara e formosa
    Males cada momento me accrescenta;
    Sendo-me em outros dias deleitosa.
      Por ti o puro sol me descontenta;
    Com seu canto m'offende a Philomella:
    Mas, porque nelle chora, me contenta.
      Por ti, Natercia pura, Nympha bella,
    Na verdura suave deste prado
    Os males multiplico s com vella.
      Por ti no curo ja do manso gado:
    Com o mesmo qu'ento meu bem crescia,
    Agora vai crescendo o meu cuidado.
      No sou ja, ja no sou quem ser sohia;
    Mudou-se-me a vontade co'a ventura;
    Mudou-se co'os tormentos a alegria;
      Trocou-se o claro dia em noite escura:
    Nem he muito que tudo se mudasse,
    Pois se mudou a tua formosura.
      No via outro reparo, que cuidasse
    Poder aproveitar ao meu tormento,
    Nem outra gloria alguma em qu'esperasse,
      Seno em quanto o triste pensamento
    Se punha a contemplar tua beldade,
    Sem lhe lembrar to longo apartamento.
      Agora que me falta a claridade,
    Que de ver-te a minha alma recebia,
    Ficando-me s della a saudade;
      Qual ficar hum'alma, que saba
    Somente desta gloria contentar-se?
    Gloria de que gozar no merecia!
      Qual poder ficar quem com lembrar-se
    Mortalmente do bem qu'he ja passado,
    S t[~e]e por melhor vida  morte dar-se?
      E qual se pde ver quem hum cuidado
    Sostem, que he s da dor certa morada,
    E nelle vive s desesperado?
      Qual ha de ver-se,  Nympha delicada,
    Hum'alma que te via; e em te vendo
    O fio lhe cortou a Parca irada?
      A causa deste mal eu no a entendo:
    S entendo que, perdida essa luz pura,
    Por perdida a no ver, vivo morrendo.
      Vejo que me roubou fortuna escura
    Hum bem por quem meu mal me contentava:
    Lembra-te tu de tanta desventura.
      Lembra-te tu, que s de ti'sperava
    Remedio aos males meus; e ento vers
    Qual ficou quem em ti s confiava.
      Lembre-te adonde estou, adonde ests,
    E que tudo sem ti c m'aborrece:
    Dest'arte o estado meu entenders.
                SYLVANO.
      No sei por que razo nos amanhece
    Este dia dos outros differente,
    Com que toda a alegria s'entristece.
      O manso gado vejo, que contente
    Buscando hia nos campos a verdura,
    E dos rios a limpida corrente:
    Agora triste errar pola espessura,
    Alheio d'herva verde e d'goa fria;
    Sinal d'alguma grande desventura.
      Suspensa est das aves a harmonia;
    E em certo modo mostra que l chora
    A mesma sequido da penedia.
      A candida, rosada, bella aurora,
    Que sempre os altos montes vem dourando,
    Com hum pallor mortal se mostra agora.
      Est-se nestas hervas enxergando
    To triste cr, que della se conhece
    Que algum mal se nos vai apparelhando.
      Emfim, vejo que tudo s'entristece;
    A causa ignoro. O ceo piedoso queira
    Que menos seja o mal, do que parece.
      Porque, desde que habto esta ribeira,
    No m'acrdo de a ver to carregada,
    Nem de a ouvir murmurar desta maneira.
      No m'acrdo que visse outra alvorada
    To confusa sahir, como esta vejo,
    De profunda tristeza acompanhada.
      Agora aqui tomra quem sem pejo
    A causa, se a soubesse, m'ensinasse,
    Para satisfazer a meu desejo.
      Porque no posso eu crer que resultasse
    D'alguma baixa causa hum tal effeito,
    Que at nos duros montes se enxergasse.
      O corao c dentro no meu peito
    M'assegura, que tanta novidade
    No traz a origem de commum respeito.
      Mas, por entre a confusa claridade,
    L vejo vir Soliso com seu gado:
    Delle espero entender toda a verdade.
      Mas no posso cuidar neste cuidado,
    Que nos olhos no mostre onde me chega
    A dor de o ver de dores traspassado.
      Mas aquelle, que a Amor cruel s'entrega,
    No he muito que passe hum tal tormento;
    Porque todo mal d, todo bem nega.
      Em quanto este pastor o pensamento
    Logrou, sem qu'em amores o empregasse,
    Seno s em buscar contentamento;
      Festa no se fazia em que faltasse
    A sua frauta, qu'elle assi tangia,
    Que outra nunca se ouvio que lhe igualasse.
      Ja agora no he aquelle que sohia;
    Vejo-o na condio todo mudado;
    Mudada tambem delle est a alegria.
      No cura ja do seu querido gado;
    Aborrecem-lhe as plantas, hervas, flores;
    Aborrece-lhe a gente e o povoado.
      No lhe lembro as festas dos pastores;
    Apartando se vai pola espessura,
    Enlevado somente em seus amores.
      Contenta-se da noite triste e escura;
    Odio t[~e]e com o sol puro e luzente.
    Quem vio nunca tamanha desventura?
      Com esta vai passando to contente,
    Que diz que, quando o mal mais o atormenta,
    Se gsto sentirp de, ento o sente.
      Neste bosque huma Nympha se aposenta,
    Por quem elle na vida anda morrendo;
    E he causa desta dor que lhe contenta.
      E segundo o que delle agora entendo,
    Se a vista no m'engana o pensamento,
    Ou de va phantasia estou pendendo;
      Quando fra maior o gro tormento,
    Que Soliso padece, no pudera
    Igualar-se com seu merecimento.
      Quero chegar-me a elle, em quanto espera
    Que v descendo o vagaroso gado:
    Saberei delle o que saber quizera.
      Venho, Soliso, a ti com hum cuidado,
    Que todo m'entristece; e com gro medo
    De gro mal sbre ns inopinado.
      Vs tu como est agora este arvoredo
    Triste e pezado, lugubre e sombrio?
    Como o vento parece que est quedo?
      Vs a commum corrente deste rio
    Que ora tanto se pra, ora anda tanto,
    Deixando de seu curso o certo fio?
      Vs como a Philomella deixa o canto,
    Com que incita os pastores namorados,
    E multiplica Progne o triste pranto?
      E vs, emfim, por todos esses prados
    Desmaiadas as hervas, que sohio
    Vioso pasto dar aos nossos gados?
      Todos estes sinaes, que no se vio
    Nas Auroras a esta antecedentes,
    Algum damno mortal nos annuncio.
      Eu no sinto o que seja: se o tu sentes,
    No te seja o dizer-mo mui penoso;
    E entenderei por ti taes accidentes.
                SOLISO.
      N'outro tempo me fra deleitoso
    Por extremo, Sylvano, gsto dar-te;
    Mas todo gsto agora me he nojoso.
      Bem quizera poder communicar-te
    A causa deste horror; mas antes quero
    Anojar-me a mi proprio, que anojar-te.
      Porm ja sinto o fado to severo,
    Que quanto mais me ponho a declar-lo,
    Mais ento d'entend-lo desespero.
      E se acaso o entender para cont-lo,
    Se quero comear, quer a ventura
     fra de soluos atalh-lo.
      Que despois que me falta a formosura
    Daquella illustre Nympha, que contente
    Pudera bem fazer a noite escura,
      Foi-me faltando o esprito juntamente:
    Em suspirar s gasto a noite e dia,
    Sem me fartar de ver-me descontente.
                SYLVANO.
      Novidade maior em mi sera
    O espantar-me de ver-te estar queixando,
    Que o ver em ti desejos d'alegria.
      Responde-me ao que t'hia perguntando
    Da causa desta singular tristeza:
    No gastes todo o tempo lamentando.
                SOLISO.
      Sempre em ti conheci huma dureza,
    E austera inclinao, que bem declara
    Quo conforme he teu nome  natureza.
      Porque se o meu tormento t'alcanra,
    O mor bem para ti o mor mal fra;
    E todo o mal maior te contentra.
      Deixa que chore quem com gsto chora:
    Deixa-me lamentar meu triste fado;
    Que a hum triste a hora de chro he melhor hora.
      Tu no trazes agora outro cuidado
    Mais que buscar no valle a sombra fria,
    Quando te offende o sol mais empinado.
      Coitado de quem passa a noite e dia
    Porfiando em morrer, e a sorte dura
    Em fugir-lhe co'a morte s porfia!
      Oh formosa Natercia! a excelsa altura
    Do glorioso Olympo andas pizando;
    E eu ausente da tua formosura!
                SYLVANO.
      Qu'he isso, que do ceo ests fallando?
    Parece-me que ja no es Soliso,
    Ou que de puro amar vs delirando.
                SOLISO.
      Quem ja perdeo aquelle doce riso,
    Que siso produzia e dava vida,
    No he muito que perca a vida e siso.
                SYLVANO.
      Declara-me que cousa tens perdida,
    De que tanto te queixas; que ao que sento,
    Natercia destes valles he partida.
                SOLISO.
      Quo livre falla aquelle que o tormento
    Alheio v de fra, mas no sente
    Onde chega tamanho sentimento!
      A gloria qu'eu perdi no me consente
    Palavras naturaes, razes expertas,
    Que posso declarar a dor presente.
      Mas nesse teu error vejo que acertas;
    Porque com nenhum mal deve turbar-se
    Quem s delle esperanas logra certas.
                SYLVANO.
      A quem, Soliso meu, de declarar-se
    Com outro em casos taes falta vontade,
    Nunca falto razes para escusar-se.
      No sei donde te vem tal novidade;
    Pois negando-me agora o que te peo,
    Suspeito que me negas a amizade.
      Se pola que te guardo te aborreo,
    Sabe que s hum cego entendimento
    s amizades faz perder o preo.
      Eu te deixarei s com teu tormento;
    Mas no sem dor de ver que tanto a peito
    Tomes hum to damnoso pensamento.
                SOLISO.
      Outra he, certo, a razo, outro o respeito
    Que negar-te me fez o que pedias:
    No creias que de ti to mal suspeito.
      Bem sei que o meu descanso pretendias;
    E a mesma confiana faz negar-te
    O que destes sinaes saber querias.
                SYLVANO.
      No queiras mais, Soliso, prolongar-te;
    Pois pende o gsto meu da tua vida:
    Se corre risco, d-me delle parte.
                SOLISO.
      De todo a sinto ja desfallecida
    Nas lembranas daquella breve historia,
    Que foi para meus males to comprida.
      Ja me vence a tristissima memoria
    Da gloria que presente me animava.
    Quem pudera voar traz tanta gloria!
      Natercia qu'estes montes alegrava,
    E que  casta Diana fez inveja,
    E que com sua vista o sol cegava;
      Aquella a quem render-se s deseja
    Aquelle que de bella me presume,
    E a quem as armas d com que peleja;
      Natercia, que no mundo foi hum lume,
    Onde a belleza de maior estado
    Incendios aprendia por costume;
      Natercia, por quem ando acompanhado
    De mgoa tal, que s da morte dura
    Espero o feliz fim de meu cuidado;
      Ao ceo se foi co'aquella formosura,
    Qu'era mostra do ceo, gloria da terra;
    Qu'era o sogeito mor da mor ventura.
      Ja no fara no prado s almas guerra
    Com a vista, seno com a lembrana;
    Guerra em que o damno mais cruel s'encerra.
      Ja de v-la no tenhas esperana;
    Qu'esta vida trocou de mal cercada
    Por outra, em que do bem no ha mudana.
      E a causa vs aqui de que a alvorada
    Visses desta manha to differente
    De outra qualquer, de ti mais ponderada.
      Dizer-te o mais no posso, porque sente
    Est'alma no que disse tal tormento,
    Qu'esta memoria apenas me consente.
      O espirito ja debil, sem alento,
    No pouco que te tenho referido,
    Nas azas se sostem do pensamento.
      Oh mundo! qual he aquelle to perdido,
    Qu'em ti cr, qual aquelle to insano,
    Vendo-te todo em damno instituido?
      Deixas passar hum gsto d'anno em ano,
    Porque, com nosso opprobrio e tua gloria,
    Nos faas mais patente o teu engano.
      Sempre assi vai comtigo a mor victoria,
    Deixando-nos somente por herana
    D'hum possuido bem triste memoria.
      Quem faz de ti alguma confiana,
    Sabendo ja que quem de ti confia,
    D'hum engano penoso emfim se alcana?
      Aquelle da belleza novo dia
    Cegaste, quando mais resplandecente
    Triumphos mil d'Amor nos promettia.
      De qual tigre cruel peito inclemente
    No se rompe de mgoa, morta aquella,
    Que a tristeza mil vezes fez contente?
      Quem, que v eclipsada a vista bella,
    Despois de visto haver sua beldade,
    E no sabe morrer por hir traz ella?
      Como no te applacou to tenra idade
    Ao cortar do seu fio,  Parca dura,
    Que agora o mundo matas de saudade?
      Deixae, deixae, pastores, a verdura;
    As frautas deixae ja, e os mansos gados;
    E chorae todos vossa desventura.
      E vs, sylvestres Faunos namorados,
    Tambem chorar podeis, pois ja perdro
    O objecto mais gentil vossos cuidados.
      Nymphas, a quem os deoses concedro
    Destes sagrados bosques a morada,
    E em quem tamanhas graas escondro;
      Se aquella piedade costumada,
    De que mais vos prezais, no esquecestes,
    Que sempre foi de vs to venerada;
      Se ja d'alheio damno vos doestes,
    Do vosso proprio vos doei agora,
    Pois com Natercia todo o bem perdestes.
      Oh Naiades! das goas sahi fra;
    E de vs goa saia em mal to forte,
    Pois de v-lo tambem o monte chora.
      Oh Napas! chorae a triste sorte
    Dos miseros pastores, a quem nega
    O fado por mais pena o mortal crte.
      Oh Dryas! vs, a quem Amor s'entrega,
    Tomae todo o cuidado deste pranto,
    Pois sabeis onde a causa delle chega.
      Deixae,  Amadryas, entretanto
    As plantas que guardais, por ajudar-me,
    Pois deixa a Philomella o doce canto.
      E vs,  vida minha, pois curar-me
    Ja no podeis, deixae-me juntamente,
    Porque lembranas taes posso deixar-me.
      Mas se dellas morreis, morro contente.




CANES.


CANO I.

    Formosa e gentil Dama, quando vejo
    A testa d'ouro e neve, o lindo aspeito,
    A boca graciosa, o riso honesto,
    O collo de crystal, o branco peito,
    De meu no quero mais que meu desejo,
    Nem mais de vs, que ver to lindo gesto.
    Alli me manifesto
    Por vosso a Deos e ao mundo; alli m'inflamo
    Nas lagrimas que chro;
    E de mi que vos amo,
    Em ver que soube amar-vos me namro;
    E fico por mi s perdido de arte,
    Qu'hei ciumes de mi por vossa parte.
      Se por ventura vivo descontente
    Por fraqueza d'esprito, padecendo
    A doce pena qu'entender no sei,
    Fujo de mi, e acolho-me correndo
     vossa vista; e fico to contente,
    Que zombo dos tormentos que passei.
    De quem me queixarei,
    Se vs me dais a vida deste geito
    Nos males que padeo,
    Seno de meu sogeito,
    Que no cabe com bem de tanto preo?
    Mas inda isto de mi cuidar no posso,
    D'estar muito soberbo com ser vosso.
      Se por algum acrto Amor vos erra
    Por parte do desejo, commettendo
    Algum nefando e torpe desatino;
    E s'inda mais que ver, emfim, pretendo;
    Fraquezas so do corpo, qu'he de terra,
    Mas no do pensamento, qu'he divino.
    Se to alto imagino
    Que de vista me perco, ou pecco nisto,
    Desculpa-me o que vejo.
    Porm como resisto
    Contra hum to atrevido e vo desejo,
    Fao-me forte em vossa vista pura,
    Armando-me da vossa formosura.
      Das delicadas sobrancelhas pretas
    Os arcos com que fere Amor tomou,
    E fez a linda corda dos cabellos:
    E porque de vs tudo lhe quadrou,
    Dos raios desses olhos fez as settas
    Com que fere quem ala os seus a vellos.
    Olhos que so to bellos
    Do armas de vantajem ao Amor,
    Com que as almas destrue.
    Porm se he grande a dor
    Com a alteza do mal a restitue;
    E as armas com que mata so de sorte,
    Que ainda lhe ficais devendo a morte.
      Lagrimas, e suspiros, pensamentos,
    Quem delles se queixar, formosa Dama,
    Mimoso est do mal que por vs sente.
    Qual bem maior deseja quem vos ama,
    Qu'estar desabafando seus tormentos,
    Chorando, imaginando docemente?
    Quem vive descontente
    No ha de dar allvio a seu desgsto,
    Porque se lhe agradea;
    Mas com alegre rsto
    Soffra seus males, para que os merea:
    Que quem do mal se queixa, que padece,
    O faz porqu'esta gloria no conhece.
      De modo que se cahe o pensamento
    Em alguma fraqueza, de contente,
    He porqu'este segredo no conheo.
    Assi que com razes no tosomente
    Desculpo ao Amor de meu tormento,
    Mas inda a culpa sua lh'agradeo.
    Por esta f mereo
    A graa qu'esses olhos acompanha,
    E o bem do doce riso.
    Mas ah! que no se ganha
    Co'hum paraiso, outro paraiso.
    E d'enleada assi minha esperana
    Se satisfaz co'o bem que no alcana.
      Se com razes escuso meu remedio,
    Sabe, Cano, que s porque o no vejo,
    Engano com palavras o desejo.


CANO II.

    A instabilidade da fortuna,
    Os enganos suaves d'Amor cego,
    (Suaves se durro longamente)
    Direi, por dar  vida algum socgo;
    Que pois a grave pena m'importuna,
    Importune meu canto a toda gente.
    E se o passado bem co'o mal presente
    M'endurecer a voz no peito frio;
    O grande desvario
    Dara de minha pena sinal certo;
    Que hum rro em tantos erros he concrto.
    E pois nesta verdade me confio,
    (Se verdade se achar no mal que digo)
    Saiba o mundo d'Amor o desengano,
    Que ja com a razo se fez amigo,
    S por no deixar culpa sem castigo.
      Ja Amor fez leis, sem ter comigo alguma;
    Ja se tornou de cego razoado,
    S por usar comigo semrazes.
    E se em alguma cousa o tenho errado,
    Com siso grande dor no vi nenhuma:
    Nem elle deo sem erros affeies.
    Mas, por usar de suas isenes,
    Buscou fingidas causas de matar-me:
    Que para derribar-me
    A este abysmo infernal de meu tormento,
    Nunca soberbo foi meu pensamento,
    Nem pretendeo mais alto levantar-me
    D'aquillo qu'elle quiz; e s'elle ordena
    Qu'eu pague seu ousado atrevimento,
    Saibo que o mesmo Amor, que me condena,
    Me fez cahir na culpa e mais na pena.
      Os olhos, qu'eu adoro, aquelle dia
    Que descro ao baixo pensamento,
    N'alma os aposentei suavemente;
    E pretendendo mais, como avarento,
    O corao lhe dei por iguaria,
    Que a meu mandado tinha obediente.
    Mas, como lhes esteve alli presente,
    E entendro o fim do meu desejo,
    Ou por outro despejo,
    Que a lingua descobrio por desvario,
    Morto de sde estou psto em hum rio,
    Onde de meu servir o fructo vejo;
    Mas logo se ala se a colh-lo venho,
    E foge-me a goa s'em beber porfio.
    Assi qu'em fome e sde me mantenho:
    No t[~e]e Tantalo a pena qu'eu sostenho.
      Despois que aquella, em quem minh'alma vive,
    Quiz alcanar o baixo atrevimento,
    Debaixo d'este engano a alcancei:
    A nuvem do contino pensamento
    Ma figurou nos braos, e assi tive
    Sonhando, o que acordado desejei.
    E porque a meu desejo me gabei
    De conseguir hum bem de tanto preo;
    Alm do que padeo,
    Atado em huma roda estou penando,
    Qu'em mil mudanas me anda rodeando;
    Onde, se a algum bem subo, logo deo.
    E assi ganho, e assi perco a confiana;
    E assi de mi fugindo traz mim ando;
    E assi me t[~e]e atado huma vingana,
    Como Ixio, to firme na mudana.
      Quando a vista suave e inhumana
    Meu humano desejo, de atrevido,
    Commetteo, sem saber o que fazia,
    (Que da sua belleza foi nascido
    O cego moo, que com setta insana
    O peccado vingou desta ousadia)
    Afora este penar, qu'eu merecia,
    Me deo outra maneira de tormento:
    Que nunca o pensamento,
    Voando sempre d'huma a outra parte,
    Destas entranhas tristes bem se farte,
    Imaginando como o famulento,
    Que come mais e a fome vai crescendo,
    Porque de atormentar-me no se aparte.
    Assi que para a pena estou vivendo:
    Sou outro novo Ticio, e no m'entendo.
      De vontades alheias, qu'eu roubava,
    E que enganosamente recolhia
    Em meu fingido peito, me mantinha.
    O engano de maneira lhes fingia,
    Que despois que a meu mando as sobjugava,
    Com amor as matava, qu'eu no tinha.
    Porm logo o castigo que convinha
    O vingativo Amor me fez sentir,
    Fazendo-me subir
    Ao monte da aspereza qu'em vs vejo,
    Co'o pezado penedo do desejo,
    Que do cume do bem me vai cahir:
    Trno a subi-lo ao desejado assento;
    Torna a cahir-me: em vo, emfim pelejo.
    Sisypho, no t'espantes deste alento,
    Que s costas o subi do soffrimento.
      Dest'arte o summo bem se m'offerece
    Ao faminto desejo, porque sinta
    A perda de perd-lo mais penosa.
    Bem como o avaro, a quem o sonho pinta
    O achado d'hum thesouro, onde enriquece,
    E farta a sua sde cobiosa;
    E acordando, com furia pressurosa
    Vai o stio cavar com que sonhava;
    Mas tudo o que buscava
    Lhe converte em carvo a desventura;
    Alli sua cobia mais se apura,
    Por lhe faltar aquillo qu'esperava:
    O Amor assi me faz perder o siso.
    Porque aquelles qu'esto na noite escura
    No sentirio tanto o triste abisso,
    Se ignorassem o bem do Paraisso.
      Cano, no mais; que ja no sei que diga:
    Mas, porque a dor me seja menos forte,
    Diga o prego a causa desta morte.


CANO III.

    Ja a roxa manha clara
    As portas do Oriente vinha abrindo;
    Os montes descobrindo
    A negra escurido da luz avara.
    O sol, que nunca pra,
    Da sua alegre vista saudoso,
    Traz ella pressuroso
    Nos cavallos cansados do trabalho,
    Que respiro nas hervas fresco orvalho,
    S'estende claro, alegre e luminoso.
    Os passaros voando,
    De raminho em raminho vo saltando;
    E com suave e doce melodia
    O claro dia esto manifestando.
      A manha bella, amena,
    Seu rosto descobrindo, a espessura
    Se cobre de verdura
    Clara, suave, angelica, serena.
    Oh deleitosa pena!
    Oh effeito d'Amor alto e potente!
    Pois permitte e consente
    Qu'ou donde quer qu'eu ande, ou dond'esteja,
    O seraphico gesto sempre veja,
    Por quem de viver triste sou contente.
    Mas tu, Aurora pura,
    De tanto bem d graas  ventura,
    Pois as foi pr em ti to excellentes,
    Que representes tanta formosura.
      A luz suave e leda
    A meus olhos me mostra por quem mouro,
    Com os cabellos d'ouro,
    Que nenhum ouro iguala, se os remeda.
    Esta a luz he que arreda
    A negra escurido do sentimento
    Ao doce pensamento;
    Os orvalhos das flores delicadas
    So nos meus olhos lagrimas cansadas,
    Qu'eu chro co'o prazer de meu tormento;
    Os passaros que canto,
    Meus espiritos so, que a voz levanto,
    Manifestando o gesto peregrino
    Com to divino som, que o mundo espanto.
      Assi como acontece
    A quem a chara vida est perdendo,
    Qu'em quanto vai morrendo,
    Alguma viso santa lh'apparece;
    A mim em quem fallece
    A vida, que sois vs, minha Senhora,
    A est'alma, qu'em vs mora
    (Em quanto da priso s'est apartando)
    Vos estais justamente apresentando
    Em frma de formosa e roxa Aurora.
    Oh ditosa partida!
    Oh gloria soberana, alta e subida!
    Se me no impedir o meu desejo;
    Porque o que vejo, emfim, me torna a vida.
      Porm a natureza,
    Que nesta pura vista se mantinha,
    Me falta to asinha,
    Como o sol faltar soe  redondeza.
    Se houverdes qu'he fraqueza
    Morrer em to penoso e triste estado,
    Amor ser culpado,
    Ou vs, ond'elle vive to isento,
    Que causastes to largo apartamento,
    Porque perdesse a vida co'o cuidado.
    Que se viver no posso,
    Homem formado s de carne e osso,
    Esta vida que perco, Amor ma deo;
    Que no sou meu: se morro, o damno he vosso.
      Cano de cysne, feita em hora extrema,
    Na dura pedra fria
    Da memoria te deixo em companhia
    Do letreiro da minha sepultura;
    Que a sombra escura ja m'impede o dia.


CANO IV.

    Vo as serenas goas
    Do Mondego descendo,
    E mansamente at o mar no paro;
    Por onde as minhas mgoas
    Pouco a pouco crescendo,
    Para nunca acabar se comero.
    Alli se me mostrro
    Neste lugar ameno,
    Em qu'inda agora mouro,
    Testa de neve e d'ouro;
    Riso brando e suave; olhar sereno;
    Hum gesto delicado,
    Que sempre n'alma m'estar pintado.
      Nesta florda terra,
    Leda, fresca e serena,
    Ledo e contente para mi vivia;
    Em paz com minha guerra,
    Glorioso co'a pena
    Que de to bellos olhos procedia.
    D'hum dia em outro dia,
    O esperar m'enganava:
    Tempo longo passei;
    Com a vida folguei,
    S porqu'em bem tamanho s'empregava.
    Mas que me presta ja,
    Que to formosos olhos no os ha?
      Oh quem me alli dissera
    Que d'Amor to profundo
    O fim pudesse ver eu algum'hora!
    E quem cuidar pudera
    Que houvesse ahi no mundo
    Apartar-me eu de vs, minha Senhora!
    Para que desde agora,
    Ja perdida a esperana,
    Visse o vo pensamento
    Desfeito em hum momento,
    Sem me poder ficar mais que a lembrana;
    Que sempre estar firme
    At no derradeiro despedir-me.
      Mas a mor alegria
    Que daqui levar posso,
    E com que defender-me triste espero,
    He que nunca sentia
    No tempo que fui vosso,
    Quererdes-me vs quanto vos eu quero.
    Porque o tormento fero
    De vosso apartamento,
    No vos dar tal pena
    Como a que me condena;
    Que mais sentirei vosso sentimento,
    Que o que a minh'alma sente.
    Morra eu, Senhora; e vs ficae contente.
      Tu, Cano, estars
    Agora acompanhando
    Por estes campos estas claras goas;
    E por mi ficars
    Com chro suspirando;
    Porque, ao mundo dizendo tantas mgoas,
    Como huma larga historia
    Minhas lagrimas fiquem por memoria.


CANO V.

    S'este meu pensamento,
    Como he doce e suave,
    D'alma pudesse vir gritando fra;
    Mostrando seu tormento
    Cruel, aspero e grave,
    Diante de vs s, minha Senhora;
    Pudera ser que agora
    O vosso peito duro
    Tornra manso e brando.
    E ento eu, que sempre ando
    Passaro solitario, humilde e escuro,
    Tornado hum cysne puro,
    Brando e sonoro, por o ar voando,
    Com canto manifesto
    Pintra a minha pena, e o vosso gesto.
      Pintra os olhos bellos
    Que trazem nas meninas
    O menino que os seus nelles cegou;
    Os dourados cabellos
    Em tranas d'ouro finas,
    A quem o sol os raios seus baixou;
    A testa que ordenou
    Natura to formosa;
    O bem proporcionado
    Nariz, lindo, afilado,
    Que cada parte t[~e]e da fresca rosa;
    A boca graciosa,
    Que o quer-la louvar he ja 'scusado.
    Emfim, he hum thesouro;
    Perolas dentes, e palavras ouro.
      Vra-se claramente,
    (Oh Dama delicada!)
    Qu'em vs s'esmerou mais a natureza.
    Mas eu, de gente em gente,
    Trouxera trasladada
    Em meu tormento vossa gentileza;
    E somente a aspereza
    De vossa condio,
    Senhora, no dissera,
    Porque se no soubera
    Qu'em vs podia haver algum seno.
    E se alguem, com razo,
    Porque morres? dissesse, respondra:
    Morro, porque he to bella,
    Qu'inda no sou para morrer por ella.
      E quando, por ventura,
    Dama, vos offendesse,
    Escrevendo de vs o que no sento,
    E vossa formosura
    Tanto  terra descesse,
    Que a alcanasse humano entendimento;
    Sera o fundamento
    De tudo o qu'eu cantasse,
    Todo de puro amor;
    Porque o vosso louvor
    Em figura de mgoas se mostrasse.
    E aonde se julgasse
    A causa por o effeito, a minha dor
    Diria alli sem medo:
    Quem me sentir ver de quem procedo.
      Logo ento mostraria
    Os olhos saudosos,
    E o suspirar que traz a alma comsigo;
    A fingida alegria;
    Os passos vagarosos;
    O fallar e esquecer-me do que digo;
    Hum pelejar comigo,
    E logo desculpar-me;
    Hum recear ousando;
    Andar meu bem buscando,
    E de o poder achar acovardar-me;
    E, emfim, averiguar-me
    Que o fim de tudo quanto estou fallando,
    So lagrimas e amores;
    So vossas isenes e minhas dores.
      Mas quem ter, Senhora,
    Palavras com qu'iguale
    Com vossa formosura a minha pena;
    E em doce voz de fra
    Aquella gloria falle
    Que dentro na minh'alma Amor ordena?
    No pde to pequena
    Fra d'engenho humano
    Com carga to pezada,
    Se no for ajudada
    D'hum piedoso olhar, d'hum doce engano,
    Que fazendo-me o dano
    Vo deleitoso e a dor to moderada,
    Emfim se convertesse
    No gsto dos louvores qu'escrevesse.
      Cano, no digas mais; e se teus versos
     pena vem pequenos,
    No queiro de ti mais; que dirs menos.


CANO VI.

    Com fora desusada
    Aquenta o fogo eterno
    Huma Ilha nas partes do Oriente,
    D'estranhos habitada,
    Aonde o duro inverno
    Os campos reverdece alegremente.
    A Lusitana gente
    Por armas sanguinosas
    T[~e]e della o senhorio.
    Cercada est d'hum rio
    De maritimas goas saudosas.
    Das hervas qu'aqui nascem,
    Os gados juntamente e os olhos pascem.
      Aqui minha ventura
    Quiz que huma grande parte
    Da vida, qu'eu no tinha, se passasse;
    Para que a sepultura
    Nas mos do fero Marte
    De sangue e de lembranas matizasse.
    Se Amor determinasse
    Que a trco desta vida,
    De mi qualquer memoria
    Ficasse como historia,
    Que d'huns formosos olhos fosse lida;
    A vida e a alegria
    Por to doce memoria trocaria.
      Mas este fingimento,
    Por minha dura srte,
    Com falsas esperanas me convida.
    No cuide o pensamento
    Que pde achar na morte
    O que no pde achar to longa vida.
    Est ja to perdida
    A minha confiana,
    Que de desesperado,
    Em ver meu triste estado,
    Tambem da morte perco a esperana.
    Mas oh! que s'algum dia
    Desesperar pudesse, viveria.
      De quanto tenho visto
    Ja agora no m'espanto,
    Que at desesperar se me defende.
    Outrem foi causa disto,
    Pois eu nunca fui tanto
    Que causasse este fogo que m'encende.
    Se cuido que m'offende
    Temor d'esquecimento,
    Oxal meu perigo
    Me fra to amigo,
    Que algum temor deixra ao pensamento!
    Quem vio tamanho enleio,
    Que houvesse ahi'sperana sem receio?
      Quem t[~e]e que perder possa,
    S pde recear.
    Mas triste quem no pde ja perder!
    Senhora, a culpa he vossa,
    Que para me matar
    Bastra hum'hora s de vos no ver.
    Puzestes-me em poder
    De falsas esperanas:
    E do que mais m'espanto,
    Que nunca vali tanto,
    Que visse tanto bem, como esquivanas.
    Valia to pequena
    No pde merecer to doce pena.
      Houve-se Amor comigo
    To brando, ou pouco irado,
    Quanto agora em meus males se conhece.
    Que no ha mor castigo
    Para quem t[~e]e errado,
    Que negar-lhe o castigo que merece.
    Da srte que acontece
    Ao misero doente,
    Da cura despedido,
    Que o Medico advertido
    Tudo quanto deseja lhe consente;
    O Amor me consentia
    Esperanas, desejos e ousadia.
      E agora venho a dar
    Conta do bem passado
    A esta triste vida e longa ausencia.
    Quem pde imaginar
    Qu'houvesse em mi peccado
    Digno d'huma to grave penitencia?
    Olhae que he consciencia
    Por to pequeno rro,
    Senhora, tanta pena.
    No vdes que he onzena?
    Mas se to longo e misero destrro
    Vos d contentamento,
    Nunca m'acabe nelle o meu tormento.
      Rio formoso e claro,
    E vs,  arvoredos,
    Que os justos vencedores coroais,
    E ao cultor avaro,
    Continuamente ledos,
    D'hum tronco s diversos fructos dais;
    Assi nunca sintais
    Do tempo injria alg[~u]a,
    Qu'em vs achem abrigo
    As mgoas que aqui digo,
    Em quanto der o sol virtude  l[~u]a;
    Porque de gente em gente
    Saibo que ja no mata a vida ausente.
      Cano, neste destrro vivers,
    Voz nua e descoberta,
    At que o tempo em ecco te converta.


CANO VII.

    Manda-me Amor que cante docemente
    O qu'elle ja em minh'alma t[~e]e impresso,
    Com presupposto de desabafar-me;
    E porque com meu mal seja contente,
    Diz que o ser de to lindos olhos preso,
    Cant-lo bastaria a contentar-me.
    Este excellente modo d'enganar-me
    Tomra eu s d'Amor por intersse,
    Se no s'arrependesse,
    Com a pena o engenho escurecendo.
    Porm a mais me atrevo,
    Em virtude do gesto de qu'escrevo.
    E s'he mais o que canto que o qu'entendo,
    Invoco o lindo aspeito,
    Que pde mais que Amor, em meu defeito.
      Sem conhecer a Amor viver sohia,
    Seu arco e seus enganos desprezando,
    Quando vivendo delles me mantinha.
    Hum Amor enganoso, que fingia,
    Mil vontades alheias enganando,
    Me fazia zombar de quem o tinha.
    No Touro entrava Phebo, e Progne vinha;
    O corno de Acheloo Flora entornava;
    Quando o Amor soltava
    Os fios d'ouro, as tranas encrespadas,
    Ao doce vento esquivas;
    Os olhos rutilando chammas vivas;
    E as rosas entre a neve semeadas;
    Co'o riso to galante,
    Que hum peito desfizera de diamante.
      Hum no sei que suave respirando,
    Causava hum admiravel, novo espanto,
    Que as cousas insensiveis o sentio.
    Alli as garrulas aves, levantando
    Vozes no ordinarias em seu canto,
    Como eu no meu desejo, s'encendio.
    As fontes crystallinas no corrio,
    D'inflammadas na vista linda e pura;
    Florecia a verdura,
    Que andando co'os divinos ps tocava;
    Os ramos se baixavo,
    Ou d'inveja das hervas que pizavo,
    Ou porque tudo ant'ella se baixava.
    No houve cousa, emfim,
    Que no pasmasse della, e eu de mim.
      Porque, quando vi dar entendimento
    s cousas que o no tinho, o temor
    Me fez cuidar qu'effeito em mi faria.
    Conheci-me no ter conhecimento:
    Porm s nisto o tive, porque Amor
    Mo deixou para ver o que podia.
    Tanta vingana Amor de mi queria,
    Que mudava a humana natureza
    Nos montes, e a dureza
    Delles em mi por trco traspassava.
    Oh que gentil partido,
    Trocar o ser do monte sem sentido,
    Por o qu'em hum juizo humano estava!
    Olhae que doce engano!
    Tirar commum proveito de meu dano.
      Assi qu'indo perdendo o sentimento
    A parte racional, m'entristecia
    V-la a hum appetite submettida.
    Mas dentro n'alma o fim do pensamento,
    Por to sublime causa, me dizia
    Qu'era razo ser a razo vencida.
    Assi que quando a via ser perdida,
    A mesma perdio a restaurava:
    E em mansa paz estava
    Cada hum com seu contrrio em hum sogeito.
    Oh gro concrto este!
    Quem ser que no julgue por celeste
    A causa donde vem tamanho effeito,
    Que faz n'hum corao
    Que venha o appetite a ser razo?
      Aqui senti d'Amor a mor fineza,
    Como foi ver sentir o insensivel,
    E o ver a mi de mi proprio perder-me:
    E, emfim, senti negar-se a natureza;
    Por onde cri que tudo era possivel
    Aos lindos olhos seus, seno querer-me.
    Despois que ja senti desfallecer-me,
    Em lugar do sentido que perdia,
    No sei quem m'escrevia
    Dentro n'alma co'as letras da memoria
    O mais deste processo,
    Co'o claro gesto juntamente impresso,
    Que foi a causa de to longa historia.
    Se bem a declarei,
    Eu no a escrevo, d'alma a trasladei.
      Cano, se quem te ler
    No crer dos olhos lindos o que dizes,
    Por o que a si s'esconde;
    Os sentidos humanos (lhe responde)
    No podem dos divinos ser juizes,
    Seno hum pensamento
    Que a falta suppra a f do entendimento.


CANO VIII.[3]

    Manda-me Amor que cante o qu'a alma sente,
    Caso que nunca em verso foi cantado,
    Nem d'antes entre a gente acontecido.
    Assi me paga em parte o meu cuidado;
    Pois que quer que me louve e represente
    Quo bem soube no mundo ser perdido.
    Sou parte, e no serei da gente crido:
    Mas he tamanho o gsto de louvar-me,
    E de manifestar-me
    Por captivo de gesto to formoso,
    Que todo o impedimento
    Rompe e desfaz a gloria do tormento
    Peregrino, suave e deleitoso;
    Que bem sei que o que canto
    Ha d'achar menos credito qu'espanto.
      Em vivia do cego Amor isento,
    Porm to inclinado a viver preso,
    Que me dava desgsto a liberdade.
    Hum natural desejo tinha acceso
    D'algum ditoso e doce pensamento,
    Que m'illustrasse a insana mocidade.
    Tornava do anno ja a primeira idade;
    A revestida terra s'alegrava,
    Quando o Amor me mostrava
    De fios d'ouro as tranas desatadas
    Ao doce vento estivo;
    Os olhos rutilando lume vivo,
    As rosas entre a neve semeadas;
    O gesto grave e ledo,
    Que juntos move em mi desejo e medo.
      Hum no sei que suave respirando,
    Causava hum desusado e novo espanto,
    Que as cousas insensiveis o sentio.
    Porque as garrulas aves, entretanto
    Vozes desordenadas levantando,
    Como eu em meu desejo, s'encendio.
    As fontes crystallinas no corrio,
    Inflammadas na vista clara e pura;
    Florecia a verdura,
    Que, andando, co'os ditosos ps tocava;
    As ramas se baixavo,
    Ou d'inveja das hervas que pizavo,
    Ou porque tudo ant'elles se baixava:
    O ar, o vento, o dia,
    D'espiritos continuos influia.
      E quando vi que dava entendimento
    A cousas fra delle, imaginei
    Que milagres faria em mi que o tinha:
    Vi que me desatou da minha lei,
    Privando-me de todo sentimento,
    E em outra transformando a vida minha.
    Com tamanhos poderes d'Amor vinha,
    Que o uso dos sentidos me tirava.
    E no sei como o dava
    Contra o poder e ordem da natura,
    s arvores, aos montes,
     rudeza das hervas e das fontes,
    Que conhecro logo a vista pura.
    Fiquei eu s tornado
    Quasi em hum rudo tronco d'admirado.
      Despois de ter perdido o sentimento,
    D'humano hum s desejo me ficava,
    Em que toda a razo se convertia.
    Mas no sei quem no peito m'affirmava
    Que por to alto e doce pensamento,
    Com razo, a razo se me perdia.
    Assi que quando mais perdida a via,
    Na sua mesma perda se ganhava.
    Em doce paz estava
    Com seu contrrio proprio em hum sogeito.
    Oh caso estranho e novo!
    Por alta e grande certamente approvo
    A causa, donde vem tamanho effeito,
    Que faz n'hum corao
    Que hum desejo, sem ser, seja razo.
      Despois d'entregue ja ao meu desejo,
    Ou quasi nelle todo convertido,
    Solitario, sylvestre e inhumano,
    To contente fiquei de ser perdido,
    Que me parece tudo quanto vejo
    Escusado, seno meu proprio dano.
    Bebendo este suave e doce engano,
    A trco dos sentidos que perdia,
    Vi que Amor m'esculpia
    Dentro n'alma a figura illustre e bella,
    A gravidade, o siso,
    A mansido, a graa, o doce riso.
    E porque no cabia dentro nella
    De bens tamanhos tanto,
    Sahe por a boca convertido em canto.
      Cano, se te no crerem
    Daquelle claro gesto quanto dizes,
    Por o que se lhe esconde;
    Os sentidos humanos (lhe responde)
    No podem dos divinos ser juizes,
    Seno hum pensamento,
    Que a falta suppra a f do entendimento.


CANO IX.

    Tomei a triste pena
    Ja de desesperado
    De vos lembrar as muitas que padeo;
    Vendo que me condena
    A ficar eu culpado
    O mal que me tratais, e o que mereo.
    Confesso que conheo
    Qu'em parte a causa dei
    Ao mal em que me vejo,
    Pois sempre o meu desejo
    A to largas promessas entreguei;
    Mas no tive suspeita
    Que seguisseis teno to imperfeita.
      S'em vosso esquecimento
    To condemnado estou,
    Como os sinaes demostro, que mostrais;
    Neste vivo tormento,
    Lembranas mais no dou
    Que as que desta razo tomar queirais:
    Olhae que me tratais
    Assi de dia em dia
    Com vossas esquivanas;
    E as vossas esperanas,
    De que vamente ja m'enriquecia,
    Renovo a memoria;
    Pois com a ter de vs s tenho gloria.
      E s'isto conhecesseis
    Ser verdade mais pura
    Do que d'Arabia o ouro reluzente;
    Inda que no quizesseis,
    Essa condio dura
    Em branda se mudra facilmente.
    Eu, vendo-me innocente,
    Senhora neste caso,
    Bem no arbitrio o puzera
    De quem sentena dera,
    Com que o que he justo se mostrasse raso;
    Se, emfim, no recera
    Que a vs por mi, e a mi por vs matra.
      Em vs escrita vi
    Vossa grande dureza,
    E n'alma escrita est, que de vs vive:
    No que acabasse alli
    Sua grande firmeza
    O triste desengano qu'ento tive;
    Porque antes que me prive
    A dor de meus sentidos,
    Ao penoso tormento
    Acode o entendimento
    Com dous fortes soldados guarnecidos
    De rica pedraria,
    Que fico sendo minha luz e guia.
      Destes acompanhado
    Estou psto sem medo
    A tudo o que o fatal destino ordene:
    Pde ser que cansado,
    Ou seja tarde, ou cedo,
    Com pena de penar-me, me despene.
    E quando me condene
    (Qu'he o que mais espero)
    Inda a penas maiores;
    Perdidos os temores,
    Por mais que venho, no direi, no quero.
    Estou, emfim, to forte,
    Que no pode mudar-me a propria morte.
      Cano, se ja no queres
    Crer tanta crueldade,
    L vae onde vers minha verdade.


CANO X.

    Junto d'hum scco, duro, esteril monte,
    Inutil e despido, calvo e informe,
    Da natureza em tudo aborrecido;
    Onde nem ave va, ou fera dorme,
    Nem corre claro rio, ou ferve fonte,
    Nem verde ramo faz doce ruido;
    Cujo nome, do vulgo introduzido,
    He Feliz, por antiphrasi infelice;
    O qual a natureza
    Situou junto  parte,
    Aonde hum brao d'alto mar reparte
    A Abassia da Arabica aspereza,
    Em que fundada ja foi Berenice,
    Ficando  parte, donde
    O sol, que nella ferve, se lh'esconde;
      O cabo se descobre, com que a costa
    Africana, que do Austro vem correndo,
    Limite faz, Armata chamado:
    Armata outro tempo; que volvendo
    A roda, a ruda lingua mal composta
    Dos proprios outro nome lhe t[~e]e dado.
    Aqui, no mar, que quer apressurado
    Entrar por a garganta deste brao,
    Me trouxe hum tempo e teve
    Minha fera ventura.
    Aqui nesta remota, aspera e dura
    Parte do mundo, quiz que a vida breve
    Tambem de si deixasse hum breve espao;
    Porque ficasse a vida
    Por o mundo em pedaos repartida.
      Aqui me achei gastando huns tristes dias,
    Tristes, forados, maos e solitarios,
    De trabalho, de dor, e d'ira cheios:
    No tendo tosomente por contrarios
    A vida, o sol ardente, as goas frias,
    Os ares grossos, frvidos e feios,
    Mas os meus pensamentos, que so meios
    Para enganar a propria natureza,
    Tambem vi contra mi;
    Trazendo-me  memoria
    Alguma ja passada e breve gloria,
    Qu'eu ja no mundo vi, quando vivi;
    Por me dobrar dos males a aspereza;
    Por mostrar-me que havia
    No mundo muitas horas d'alegria.
      Aqui'stive eu com estes pensamentos
    Gastando tempo e vida; os quaes to alto
    Me subio nas asas, que cahia
    (Oh vde se seria leve o salto!)
    De sonhados e vos contentamentos
    Em desesperao de ver hum dia.
    O imaginar aqui se convertia
    Em improvisos choros e em suspiros,
    Que rompio os ares.
    Aqui a alma captiva,
    Chagada toda, estava em carne viva,
    De dores rodeada e de pezares,
    Desamparada e descoberta aos tiros
    Da soberba Fortuna;
    Soberba, inexoravel e importuna.
      No tinha parte donde se deitasse,
    Nem esperana alguma, onde a cabea
    Hum pouco reclinasse, por descanso:
    Tudo dor lhe era e causa que padea,
    Mas que perea no; porque passasse
    O que quiz o destino nunca manso.
    Oh qu'este irado mar gemendo amanso!
    Estes ventos, da voz importunados,
    Parece que se enfreio:
    Somente o Ceo severo,
    As estrellas e o fado sempre fero,
    Com meu perptuo damno se recreio;
    Mostrando-se potentes e indignados
    Contra hum corpo terreno,
    Bicho da terra vil e to pequeno.
      Se de tantos trabalhos s tirasse
    Saber inda por certo que algum'hora
    Lembrava a huns claros olhos que ja vi;
    E s'esta triste voz, rompendo fra,
    As orelhas angelicas tocasse
    Daquella em cuja vista ja vivi;
    A qual, tornando hum pouco sbre si,
    Revolvendo na mente pressurosa
    Os tempos ja passados
    De meus doces errores,
    De meus suaves males e furores,
    Por ella padecidos e buscados,
    E (psto que ja tarde) piedosa,
    Hum pouco lhe pezasse,
    E l entre si por dura se julgasse:
      Isto s que soubesse me seria
    Descanso para a vida que me fica;
    Com isto affagaria o soffrimento.
    Ah Senhora! Ah Senhora! E que to rica
    Estais, que c to longe d'alegria
    Me sustentais com doce fingimento!
    Logo que vos figura o pensamento,
    Foge todo o trabalho e toda a pena.
    S com vossas lembranas
    Me acho seguro e forte
    Contra o rosto feroz da fera morte;
    E logo se me junto esperanas
    Com que, a fronte tornada mais serena,
    Torno os tormentos graves
    Em saudades brandas e suaves.
      Aqui com ellas fico perguntando
    Aos ventos amorosos, que respiro
    Da parte donde estais, por vs Senhora;
    s aves qu'alli voo, se vos viro,
    Que fazieis, qu'estaveis praticando;
    Onde, como, com quem, que dia e que hora.
    Alli a vida cansada se melhora,
    Toma espiritos novos, com que vena
    A fortuna e trabalho,
    S por tornar a ver-vos,
    S por ir a servir-vos e querer-vos.
    Diz-me o tempo que a tudo dar talho:
    Mas o desejo ardente, que detena
    Nunca soffreo, sem tento
    Me abre as chagas de novo ao soffrimento.
      Assi vivo; e s'alguem te perguntasse,
    Cano, porque no mouro;
    Podes-lhe responder; que porque mouro.


CANO XI.

    Vinde c meu to certo Secretario
    Dos queixumes que sempre ando fazendo,
    Papel, com quem a pena desaffgo.
    As semrazes digamos, que vivendo
    Me faz o inexoravel e contrrio
    Destino, surdo a lagrimas e a rgo.
    Lancemos goa pouca em muito fogo,
    Accenda-se com gritos hum tormento,
    Que a todas as memorias seja estranho.
    Digamos mal tamanho
    A Deos, ao mundo,  gente e, emfim, ao vento,
    A quem ja muitas vezes o contei,
    Tanto debalde como o conto agora.
    Mas ja que para errores fui nascido,
    Vir este a ser hum delles no duvido.
    E, pois ja d'acertar estou to fra,
    No me culpem tambem se nisto errei.
    Se quer este refgio s terei,
    Fallar e errar, sem culpa, livremente.
    Triste quem de to pouco est contente!
      Ja me desenganei que de queixar-me
    No s'alcana remedio; mas quem pena,
    Forado lh'he gritar, se a dor he grande.
    Gritarei; mas he debil e pequena
    A voz para poder desabafar-me;
    Porque nem com gritar a dor se abrande.
    Quem me dar se quer que fra mande
    Lagrimas e suspiros infinitos,
    Iguaes ao mal que dentro na alma mora?
    Mas quem pde algum'hora
    Medir o mal com lagrimas, ou gritos?
    Direi, emfim, aquillo que m'ensino
    A ira, e mgoa, e dellas a lembrana,
    Que outra dor he por si mais dura e firme.
    Chegae, desesperados, para ouvir-me;
    E fujo os que vivem d'esperana,
    Ou aquelles que nella se imagino;
    Porque Amor e Fortuna determino
    De lhes deixar poder para entenderem
     medida dos males que tiverem.
      Quando vim da materna sepultura
    De novo ao mundo, logo me fizero
    Estrellas infelices obrigado:
    Com ter livre alvedrio, mo no dero;
    Qu'eu conheci mil vezes na ventura
    O melhor, e o peor segui forado.
    E para que o tormento conformado
    Me dessem com a idade, quando abrisse
    Inda menino os olhos brandamente,
    Mndo que diligente
    Hum menino sem olhos me ferisse.
    As lagrimas da infancia ja manavo
    Com huma saudade namorada;
    O som dos gritos, que no bero dava,
    Ja como de suspiros me soava.
    Co'a idade e fado estava concertado:
    Porque quando por caso m'embalavo,
    Se d'Amor tristes versos me cantavo,
    Logo m'adormecia a natureza;
    Que to conforme estava co'a tristeza!
      Foi minh'ama huma fera; que o destino
    No quiz que mulher fosse a que tivesse
    Tal nome para mi; nem a haveria.
    Assi criado fui, porque bebesse
    O veneno amoroso de menino,
    Que na maior idade beberia,
    E por costume no me mataria.
    Logo ento vi a image e semelhana
    Daquella humana fera to formosa,
    Suave e venenosa,
    Que me criou aos peitos da esperana;
    De quem eu vi despois o original,
    Que de todos os grandes desatinos
    Faz a culpa soberba e soberana.
    Parece-me que tinha frma humana,
    Mas scintilava espiritos divinos.
    Hum meneio, e presena tinha tal,
    Que se vangloriava todo o mal
    Na vista della: a sombra co'a viveza
    Excedia o poder da natureza.
      Que genero to novo de tormento
    Teve Amor, sem que fosse no somente
    Provado em mi, mas todo executado?
    Implacaveis durezas, que ao fervente
    Desejo, que d fra ao pensamento,
    Tinho de seu proposito abalado,
    E corrido de ver-se e injuriado:
    Aqui sombras phantasticas, trazidas
    D'algumas temerarias esperanas;
    As bem-aventuranas
    Tambem nellas pintadas e fingidas.
    Mas a dor do desprzo recebido,
    Que todo o phantasiar desatinava,
    Estes enganos punha em desconcrto.
    Aqui o adivinhar, e o ter por certo
    Qu'era verdade quanto adivinhava,
    E logo o desdizer-me de corrido;
    Dar s cousas que via outro sentido;
    E para tudo, emfim, buscar razes:
    Mas ero muitas mais as semrazes.
      No sei como saba estar roubando
    Co'os raios as entranhas, que fugio
    Par'ella por os olhos subtilmente!
    Pouco a pouco invisiveis me sahio;
    Bem como do vo humido exhalando
    Est o subtil humor o sol ardente.
    O gesto puro, emfim, e transparente,
    Para quem fica baixo e sem valia
    Este nome de bello e de formoso;
    O doce e piedoso
    Mover d'olhos, que as almas suspendia,
    Foro as hervas magicas, que o Ceo
    Me fez beber: as quaes por longos anos
    N'outro ser me tivero transformado,
    E to contente de me ver trocado,
    Que as mgoas enganava co'os enganos;
    E diante dos olhos punha o vo,
    Que m'encobrisse o mal que assi cresceo:
    Como quem com affagos se criava
    Daquella para quem crescido estava.
      Pois quem pde pintar a vida ausente,
    Com hum descontentar-me quanto via,
    E aquell'estar to longe donde estava;
    O fallar sem saber o que dizia;
    Andar sem ver por onde, e juntamente
    Suspirar sem saber que suspirava?
    Pois quando aquelle mal m'atormentava,
    E aquella dor, que das Tartareas goas
    Sahio ao mundo, e mais que todas doe,
    Que tantas vezes soe
    Duras ras tornar em brandas mgoas?
    Agora co'o furor da mgoa irado,
    Querer, e no querer deixar de amar;
    E mudar n'outra parte, por vingana,
    O desejo privado d'esperana,
    Que to mal se podia ja mudar?
    Agora a saudade do passado,
    Tormento puro, doce e magoado,
    Que converter fazia estes furores
    Em magoadas lagrimas d'amores?
      Que desculpas comigo s buscava,
    Quando o suave Amor me no soffria
    Culpa na cousa amada, e to amada!
    Ero, emfim, remedios que fingia
    O medo do tormento, qu'ensinava
    A vida a sustentar-se d'enganada.
    Nisto huma parte della foi passada;
    Na qual se tive algum contentamento
    Breve, imperfeito, timido, indecente,
    No foi seno semente
    D'hum cumprido, amarissimo tormento.
    Este curso contino de tristeza,
    Estes passos vamente derramados,
    Me foro apagando o ardente gsto,
    Que to de siso n'alma tinha psto,
    Daquelles pensamentos namorados
    Com que criei a tenra natureza,
    Que do longo costume da aspereza,
    Contra quem fra humana no resiste,
    Se converteo no gsto de ser triste.
      Dest'arte a vida em outra fui trocando;
    Eu no, mas o destino fero, irado;
    Qu'eu, inda assi, por outra a no trocra.
    Fez-me deixar o patrio ninho amado,
    Passando o longo mar, que ameaando
    Tantas vezes m'esteve a vida chara.
    Agora exprimentando a furia rara
    De Marte, que nos olhos quiz que logo
    Visse, e tocasse o acerbo fructo seu.
    E neste escudo meu
    A pintura vero do infesto fogo.
    Agora peregrino, vago, errante,
    Vendo naes, linguagens e costumes,
    Ceos varios, qualidades differentes,
    S por seguir com passos diligentes
    A ti, Fortuna injusta, que consumes
    As idades, levando-lhes diante
    Huma esperana em vista de diamante:
    Mas quando das mos cahe se conhece
    Que he fragil vidro aquillo que apparece.
      A piedade humana me faltava,
    A gente amiga ja contrria via,
    No perigo primeiro; e no segundo,
    Terra em que pr os ps me fallecia,
    Ar para respirar se me negava,
    E faltava-me, emfim, o tempo e o mundo.
    Que segredo to arduo e to profundo,
    Nascer para viver e para a vida,
    Faltar-me quanto o mundo t[~e]e para ella!
    E no poder perdella,
    Estando tantas vezes ja perdida!
    Emfim, no houve trance de fortuna,
    Nem perigos, nem casos duvidosos,
    Injustias daquelles que o confuso
    Regimento do mundo, antigo abuso,
    Faz sbre os outros homens poderosos,
    Qu'eu no passasse, atado  fiel coluna
    Do soffrimento meu, que a importuna
    Perseguio de males em pedaos
    Mil vezes fez  fra de seus braos.
      No conto tantos males, como aquelle
    Que despois da tormenta procellosa,
    Os casos della conta em porto ledo;
    Qu'inda agora a fortuna fluctuosa
    A tamanhas miserias me compelle,
    Que de dar hum s passo tenho medo.
    Ja de mal que me venha no m'arredo,
    Nem bem que me fallea ja pretendo;
    Que para mi no val astucia humana,
    De fra soberana,
    Da Providencia, emfim, Divina pendo.
    Isto que cuido e vejo, s vezes tomo
    Para consolao de tantos danos.
    Mas a fraqueza humana quando lana
    Os olhos no que corre, e no alcana
    Seno memoria dos passados anos;
    As goas qu'ento bebo, e o po que como,
    Lagrimas tristes so, qu'eu nunca domo,
    Seno com fabricar na phantasia
    Phantasticas pinturas d'alegria.
      Que se possivel fosse que tornasse
    O tempo para traz, como a memoria,
    Por os vestigios da primeira idade;
    E de novo tecendo a antigua historia
    De meus doces errores, me levasse
    Por as flores que vi da mocidade;
    E a lembrana da longa saudade
    Ento fosse maior contentamento,
    Vendo a conversao leda e suave,
    Onde huma e outra chave
    Esteve de meu novo pensamento,
    Os campos, as passadas, os sinais,
    A vista, a neve, a rosa, a formosura,
    A graa, a mansido, a cortezia,
    A singela amizade, que desvia
    Toda a baixa teno, terrena, impura,
    Como a qual outra alguma no vi mais...
    Ah vas memorias! onde me levais
    O debil corao, qu'inda no posso
    Domar bem este vo desejo vosso?
      No mais, Cano, no mais; qu'irei fallando,
    Sem o sentir, mil annos; e se acaso
    Te culparem de larga e de pezada;
    No pde ser (lhe dize) limitada
    A goa do mar em to pequeno vaso.
    Nem eu delicadezas vou cantando
    Co'o gsto do louvor, mas explicando
    Puras verdades ja por mi passadas.
    Oxal foro fbulas sonhadas!


CANO XII.

    Nem roxa flor de Abril,
    Pintor do campo ameno e da verdura,
    Colhida entre outras mil,
    Foi nunca assi agradavel  donzella
    Cortez, alegre e bella,
    De sua me cuidado e glria pura,
    Como a mi foi a inculta formosura
    Natural, que pudera
    A Saturno render na sua Esphera.
      Natural fonte agreste,
    No lavrada d'Artifice excellente,
    Mas por arte celeste
    Derivada de rustico penedo,
    No fez ja mais to ledo
    Cansado caador por sesta ardente,
    Quanto o cuidado a mi me fez contente
    Do ver to descuidado,
    Que faz sereno a Jupiter irado.
      Fructa, que sem concrto
    Naturalmente em ramos se pendura,
    Achada por acrto;
    A quem pintada a v de sangue e leite,
    No lhe dara o deleite,
    Qu'essa graa me d sem compostura,
    Ornamento da mesma formosura,
    E o toucado sem arte,
    Que tornra pastor ao bravo Marte.
      A manha graciosa,
    Que derramando sahe d'entre os cabellos
    A flor, o lirio, a rosa,
    Sem ajuda d'ornato, ou d'artificio,
    No faz o beneficio,
    Que faz a luz dos vossos olhos bellos
    A quem os v to puros e singelos;
    E esse innocente riso,
    Por quem Apollo o Tejo torna Amphriso.
      Outeiros coroados
    Das rvores que fazem a espessura
    Com os ramos copados
    Alegre, que mo destra os no cultiva,
    Graa to excessiva
    No t[~e]e na sua natural verdura,
    Quanta na d'esses olhos, clara e pura,
    Deposita a esperana,
    Com que Amor gsto, a me tormento alcana.
      Dos simples passarinhos
    A musica sem arte concertada,
    D'entre os verdes raminhos,
    To suave no he, to deleitosa
    A quem na selva umbrosa
    Com mente ouvindo-a est toda enlevada,
    Quanto a mi essa falla doce agrada,
    E o natural aviso,
    Que roubo a Mercurio sceptro e siso.
      De frescos rios goa,
    Que clara entre arvoredos se deriva,
    Cahindo d'alta fragoa,
    Esmaltando de perolas no prado
    O verde delicado,
    Com brando som aos olhos fugitiva,
    No nos alegra quanto a graa esquiva
    D'essa luz soberana,
    Que faz cortez a rustica Diana.
      A tal luz ( Cano, que ousaste vella!)
    Vendo ests ja prostrado
    Saturno triste, Jupiter irado,
    Bravo Marte, aureo Apollo, Venus bella,
    E Mercurio, e Diana, e toda estrella.


CANO XIII.

    Oh pomar venturoso,
    Onde co'a natureza
    A subtil arte t[~e]e demanda incerta;
    Qu'em stio to formoso
    A maior subtileza
    D'engenho em ti nos mostras descoberta!
    Nenhum juizo acerta,
    De cego e d'enlevado,
    Se t[~e]e em ti mais parte
    A natureza, ou arte;
    Se Terra ou Ceo de ti t[~e]e mais cuidado,
    Pois em feliz terreno
    Gozas d'hum ar mais puro e mais sereno.
      De teu formoso pzo
    Se mostra o monte ledo,
    E o caudaloso Zezere t'estranha,
    Porque lhas com desprzo
    Seu crystal puro e quedo,
    Que com Pera os teus ps rodeia e banha.
    Em ti pintura estranha,
    A que Apelles cedra,
    Enigmas intricados,
    E myrtos animados
    Vemos, que o proprio Escopas no fizera;
    Em ti, co'a paz interna,
    T[~e]e o santo prazer morada eterna.
      Os jardins da famosa
    Babel, to nomeados,
    Por maravilha o mundo no levante,
    Inda que com gloriosa
    Voz, qu'esto pendurados
    Do instavel ar, a fama antigua cante:
    Nem haja quem s'espante
    Dos famosos d'Alcino;
    Nem as mais doutas pennas
    Cantem os de Mecenas,
    Cultor de todo engenho peregrino;
    Mas onde quer que ve,
    De ti s falle a Fama, e te prege.
      Que s'era antiguamente
    De pomos d'ouro bellos
    O jardim das Hesperidas ornado;
    E, a pezar da serpente
    Que os guardou, s colhellos
    Pde o famoso Alcides, d'esforado;
    Tu, mais avantajado,
    Mostras a hum'alma casta
    Seguir o que deseja,
    Fugir da torpe inveja
    (Pomos d'ouro que o tempo no contrasta):
    Emfim, co'a caridade
    Vencer o Inferno, abrir a Eternidade.
      Por tanto da ventura,
    Para ti reservada,
    Te deixe o Ceo gozar perpetuamente;
    Porque sejas figura
    Da gloria avantajada
    Delle mesmo, e qu'em ti se represente;
    Porqu'em quanto sustente
    O ceo, o mar e a terra,
    Seus feitos milagrosos,
    Mysterios mais gloriosos,
    Com que a morte das almas nos desterra,
    Por onde em nossas almas
    Com mais pompas triumpha e com mais palmas,
    .......................
      Goza, pois, longamente
    Teu venturoso fado,
    Da me do teu autor bem possuido:
    Qu'em ti, sempre contente
    De seu sublime estado,
    A alma dos seus alegra e o sentido.
    Cada qual preferido
    Nas grandes qualidades
    Ao sabio Nestor seja,
    Para que o mundo os veja
    Exceder as longuissimas idades;
    E com a longa vida
    Seja sua memoria ennobrecida.
      Cano, pois mais famosas
    Por ti no podem ser
    Deste monte as estancias deleitosas;
    Bem pde succeder
    Que aquelle que os teus numeros governa,
    Por quer-las cantar te faa eterna.


CANO XIV.

    Quem com slido intento
    Os segredos buscar da natureza,
    Quanto d'Athenas prza,
    Entregue ao mar irado, ao leve vento:
    Em forjar meu tormento,
    Nova Philosophia,
    D'experiencias feita, Amor m'ensina.
    Das Leis do antigo tempo bem declina;
    Que Amor a natureza em mi vara;
    Donde escola de Sabios nunca vio
    Em natural sogeito
    Quanto Amor em meu peito descobrio.
      As aves no ar sereno,
    O gado de Proteo nas goas pasce;
    Vive o homem e nasce
    Neste mundo, qual mundo mais pequeno:
    Eu tudo desordeno,
    Em todos dividido;
    A boca no ar, na terra o entendimento:
    D-me esse Amor, d-me esta o pensamento;
    O corao no fogo he consumido:
    Mas a goa, que dos olhos sempre desce,
    T[~e]e effeito to vrio,
    Qu'em hum humor contrrio o fogo cresce.
      Da vista Amor sohia
    Abrir ao corao segura entrada:
    Lei he ja profanada;
    Que quando a luz d'huns olhos me fera,
    Amando o que no via,
    Qual d'escopeta o lume,
    Primeiro o querer vi, que a causa visse.
    Quem o desejo co'a esperana unisse,
    Cego iria apos cego e vil costume;
    Qu'eu dest'alma, das leis do mundo isenta,
    Morta a esperana vejo,
    Onde sempre o desejo se sustenta.
      Em vo se considera
    Que hum semelhante a outro busca e ama,
    E que foge e desama
    Todo mortal a morte esquiva e fera:
    Sigo huma linda fera,
    Qu'esconde em vista humana
    Corao de diamante e peito d'ao,
    De meu sangue faminta; e satisfao
    Com cruel morte a sde deshumana.
    Assi que, sendo em tudo differente,
    Corro apos minha sorte,
    E se m'entrego  morte, estou contente.
      Cahe em maior defeito
    Quem cuida ser sciencia clara e certa,
    Que a causa descoberta
    Sempre produz a si conforme o effeito:
    Rendeo-me hum lindo objeito,
    Que, sendo neve pura,
    Vivo me abraza, e o fogo interno aviva;
    Qu'esta formosa fera fugitiva,
    Com ser neve, do fogo s'assegura:
    Donde infiro por certo (e cesse a fama
    Va, mentirosa e leve)
    Que no desfaz a neve ardente chama.
      Bem no effeito se sente
    Cessar, cessando a causa donde pende;
    Que o fogo mais se accende,
    Estando  vista, donde mais ausente;
    Mas n'alma vivamente
    A trazem debuxada,
    De noite Amor, de dia o pensamento:
    E quando Apollo deixa o claro assento,
    Por entre sombras vejo a Nympha amada.
    Pois se sem luz Amor os olhos ceva,
    Cego, se no concede
    Qu'em nada a Amor impede a escura treva.
      Erra quem atrevido
    Prega ser maior que a parte o todo:
    Amor me t[~e]e de modo,
    Qu'estou n'hum'alma minha convertido:
    Desta gloria ha nascido
    O temor de perd-la:
    E, postoque o receio a muitos finge
    L na imaginao Chimera e Sfinge
    De mal futuro, que urde imiga estrella,
    Vejo em mi, por incognito segredo,
    Quando estou mais contente,
    Que s do bem presente nasce o medo.
      T[~e]e-se por manifesto
    Parecer-se ao sogeito o accidente;
    Mas inda em mi se sente
    O pensamento, a cr, o riso, o gesto;
    E, tendo todo o resto
    Da vida ja perdido
    Neste tormento meu to duro e esquivo,
    A gostos morto estou, a penas vivo.
    E, sendo morto ja, vive o sentido,
    Porque sinta que n'alma despedida
    Pde em meu mal unir-se
    O ficar e o partir-se, a morte e a vida.
      Destas razes, Cano, infiro e creio,
    Que ou se mudou em tudo a frma usada
    Da natural firmeza,
    Ou tenho a natureza em mi mudada.


CANO XV.

    Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura,
    Que sempre na alma vejo?
    Ou me pinta o desejo
    O bem qu'em vo cad'hora m'assegura?
    Mal pde a noite escura,
    Amando a sombra fria,
    Mandar-me em sonho a luz formosa e bella,
    Que se no torne em dia,
    De seus luzentes raios inflammada.
    Oh vista desejada
    De graciosa Nympha e viva estrella!
    Que ha tanto que por este mar navego
    (Sem ver meu claro Polo) escuro e cego.
      Nesses formosos olhos, d'enlevada,
    Minh'alma se escondeo,
    Quando ordenava o Ceo
    Que vivesse comigo desterrada.
    Vs a mais certa estrada
    De ver a summa alteza,
    Do efeito a causa abris a est'alma minha.
    Assi mortal belleza
    S della nasce, e nella se resume;
    Assi celeste lume
    L dos ceos se deriva, e l caminha.
    Pois, como a Deos unir-me a vista possa,
    Porque a negais, meu sol, a est'alma vossa?
      Se me quereis prender a parte a parte,
    Cabello ondado e louro,
    Tecei-me a rede de ouro
    Em que prendeo Vulcano a Cypria e Marte.
    Des que com gentil arte
    Vestis de flores bellas
    A terra em que tocais co'a bella planta,
    Quantas vezes com vellas
    Quiz n'huma d'essas flores transformar-me?
    Porque, vendo pizar-me
    D'esse candido p, que a neve espanta,
    Pde ser que na flor mudado fra
    Que deo a Juno irada a linda Flora.
      Mas onde te acolheste ( doce vida!)
    Mais leve e pressurosa,
    Do que na selva umbrosa
    Cerva d'aguda setta vai ferida?
    Se para tal partida,
    Meus olhos, vos abristes,
    Cerrra-vos o somno eternamente,
    Antes que ver-vos tristes,
    Perdendo to suave e doce engano!
    Agora, com meu dano,
    Vdes, para mor mgoa, claramente,
    Neste bem fugitivo e somno leve,
    Que mal no ha mais longo, que hum bem breve.
      Ditoso Endymio que a deosa chara,
    Que a noite vai guiando,
    Teve em braos sonhando!
    Ah quem de sonho tal nunca acordra!
    Tu s, Aurora avara,
    Quando os olhos feriste,
    Me mataste cruel d'inveja pura.
    Mas se d'esta alma triste
    A negra escurido vencer quizeste,
    Sabe qu'em vo nasceste;
    Que para desfazer-se a nevoa escura
    De meus olhos, importa estar presente
    Outro sol, outra aurora, outro Oriente.
      Se a luz de meu Planeta,
    No m'aviva, Cano, branda e quieta,
    Qual flor de chuva, em breve consumida,
    Vers desfeita em lagrimas a vida.


CANO XVI.

    Por meio d'humas serras mui fragosas,
    Cercadas de sylvestres arvoredos,
    Retumbando por asperos penedos,
    Correm perennes goas deleitosas.
    Na ribeira de Buina, assi chamada,
    Celebrada,
    Porqu'em prados
    Esmaltados
    Com frescura
    De verdura,
    Assi se mostra amena, assi graciosa,
    Qu'excede a qualquer outra mais formosa;
      As correntes se vem, que acceleradas,
    As hervas regalando e as boninas,
    Se vo a entrar nas goas Neptuninas,
    Por diversas ribeiras derivadas.
    Com mil brancas conchinhas a aurea areia
    Bem se arreia;
    Voo aves;
    Mil suaves
    Passarinhos
    Nos raminhos
    Acordemente esto sempre cantando,
    Com doce accento os ares abrandando.
      O doce rouxinol n'hum ramo canta,
    E d'outro o pintasirgo lhe responde;
    A perdiz d'entre a mata, em que s'esconde,
    O caador sentindo, se levanta:
    Voando vai ligeira mais que o vento;
    Outro assento
    Vai buscando;
    Porm quando
    Vai fugindo;
    Retinindo,
    Traz ella mais veloz a setta corre,
    De que ferida logo cahe e morre.
      Aqui Progne d'hum ramo em outro ramo,
    Co'o peito ensanguentado anda voando,
    Cibato para o ninho indo buscando;
    A leda codorniz vem ao reclamo
    Do sagaz caador, que a rede estende,
    E pretende
    Com engano
    Fazer dano
     coitada,
    Qu'enganada
    D'huns esparzidos gros de louro trigo,
    Nas mos vai a cahir de seu imigo.
      Aqui sa a calhandra na parreira;
    A rla geme; palra o estorninho;
    Sahe a candida pomba do seu ninho;
    O tordo pousa em cima da oliveira:
    Vo as doces abelhas susurrando,
    E apanhando
    O rocio
    Fresco e frio
    Por o prado
    D'herva ornado,
    Com que o aureo licor fazem, que deo
     humana gente a indstria d'Aristeo.
      Aqui as uvas luzidas, penduradas
    Das pampinosas vides, resplandecem;
    As frondiferas rvores se offrecem
    Com differentes fructos carregadas:
    Os peixes n'goa clara ando saltando,
    Levantando
    As pedrinhas,
    E as conchinhas
    Rubicundas,
    Que as jucundas
    Ondas comsigo trazem, crepitando
    Por a praia alva com ruido brando.
      Aqui por entre as serras se levanto
    Animaes Calidoneos, e os veados
    Na fugida inda mal assegurados,
    Porque do som dos proprios ps s'espanto.
    Sahe o coelho, e lebre sahe manhosa
    Da frondosa
    Breve mata,
    Donde a cata
    Co ligeiro.
    Mas primeiro
    Qu'ella ao contrrio frvido s'entregue,
    s vezes deixa em branco a quem a segue.
      Luzem as brancas e purpreas flores,
    Com que o brando Favonio a terra esmalta;
    O formoso jacintho alli no falta,
    Lembrado dos antiguos seus amores.
    Inda na flor se mostro esculpidos
    Os gemidos:
    Aqui Flora
    Sempre mora;
    E com rosas
    Mais formosas,
    Com lirios e boninas mil fragrantes,
    Alegra os seus amores circumstantes.
      Aqui Narciso em lquido crystal
    Se namora de sua formosura:
    Nelle as pendentes ramas da'spessura
    Debuxando-se esto ao natural.
    Adonis, com que a linda Cythera
    Se recra,
    Bem florido,
    Convertido
    Na bonina,
    Qu'Erycina
    Por imagem deixou de qual sera
    Aquelle por quem ella se perdia.
      Lugar alegre, fresco, accommodado
    Para se deleitar qualquer amante,
    A quem com sua ponta penetrante
    O cego Amor tivesse derribado;
    E para memorar ao som das goas
    Suas mgoas
    Amorosas,
    As cheirosas
    Flores vendo,
    Escolhendo,
    Para fazer preciosas mil capellas,
    E dar por gro penhor a Nymphas bellas.
      Eu dellas, por penhor de meus amores,
    Huma capella  minha deosa dava:
    Que lhe queria bem, bem lhe mostrava
    O bem-mequeres entre tantas flores:
    Porm, como se fra mal-mequeres,
    Os poderes
    Da crueldade
    Na beldade
    Bem mostrou;
    Desprezou
    A dadiva de flores; no por minha,
    Mas porque muitas mais ella em si tinha.


CANO XVII.

    A vida ja passei assaz contente,
    Livre tinha a vontade e o pensamento,
    Sem receios d'Amor, nem da Ventura:
    Mas isto foi hum bem d'hum s momento;
    E  minha custa vejo claramente,
    Que a vida no d algum de muita dura.
    No tempo em qu'eu vivia mais segura
    D'Amor e seu cuidado,
    Por me ver n'hum estado
    Em qu'eu cuidei que Amor no tinha parte;
    No sinto por qual arte
    Me vejo entregue a elle de tal sorte,
    Qu'em quanto tarda a morte,
    A esperana do bem tenho perdida.
    Ai quo devagar passa a triste vida!
      Quantas vezes eu triste aqui ouvia
    O meu Felicio, e outros mil pastores,
    Queixar-se em vo de minha crueldade!
    E mais surda ento eu a seus clamores,
    Que aspide surda, ou surda penedia,
    Julgava os seus amores por vaidade.
    Agora em pago disto a liberdade,
    A vontade e o desejo
    De todo entregue vejo
    A quem, inda que brade, no responde;
    Pois vejo que s'esconde
    Ja debaixo da terra este qu'eu chamo,
    Que he aquelle a quem amo,
    Aquelle a quem agora estou rendida.
    Ai quo devagar passa a triste vida!
      Que gloria, Amor cruel, com meu tormento,
    Que louvor a teu nome accrescentaste?
    Ou que te constrangeo a tal crueza,
    Que com tal pressa esta alma sujeitaste
    A hum mal, onde no basta o soffrimento?
    Mas se, Amor, es cruel de natureza,
    Bastava usar comigo da aspereza
    Que usas com outra gente:
    Mas tu como somente
    De ver-me estar morrendo te contentas,
    Quando mais me atormentas,
    Ento desejas mais d'atormentar-me;
    E no queres matar-me
    Porque este mal de mi se no despida.
    Ai quo devagar passa a triste vida!
      Onde cousa acharei que alegre veja?
    A quem chamarei ja que me responda?
    Quem me dar remedio  dor presente?
    No ha bem, que de mi ja no s'esconda;
    Nem algum verei ja, que a mi o seja,
    Porqu'est quem o foi da vida ausente.
    Eu alguma no vi to descontente,
    Que Amor to mal tratasse,
    Qu'inda no esperasse
    A seus males remedio achar vivendo:
    Eu s vivo soffrendo
    Hum mal to grave e to desesperado,
    Que tanto he mais pezado,
    Quanto a vida com elle he mais comprida.
    Ai quo devagar passa a triste vida!
      Suaves goas, dura penedia,
    Arvoredo sombrio, verde prado,
    Donde eu ja tive livre o pensamento;
    Frescas flores; e vs, meu manso gado,
    Que ja m'acompanhastes na alegria,
    No me deixeis agora no tormento.
    Se do mal meu vos toca sentimento,
    Dae-me par'elle ajuda,
    Qu'eu tenho a lingua muda,
    O alento me vai ja desamparando.
    Mas quando (ai triste!) quando
    D'hum dia hum'hora me vir contente,
    Qu'eu te veja presente,
    Pastor meu, e comtigo est'alma unida?
    Ai quo devagar passa a triste vida!
      Mas no sei se he sobrado atrevimento
    Querer-se est'alma minha unir comtigo,
    Pois della foste ja to desprezado.
    Amor me livrar deste perigo;
    Que despois que l vires meu tormento,
    Creio que t'havers por bem vingado.
    E s'inda em ti durar o amor passado,
    E aquella f to pura,
    Eu estou bem segura
    Que has l de receber-me brandamente.
    Aprenda em mi a gente
    Quo cara huma iseno com Amor custa:
    A pena d bem justa
    A hum'alma que lhe he pouco agradecida.
    Ai quo devagar passa a triste vida!




ODES.


ODE I.

    Detem hum pouco, Musa, o largo pranto
    Que Amor te abre do peito;
    E vestida de rico e ledo manto,
    Demos honra e respeito
    quella, cujo objeito
    Todo o mundo allumia,
    Trocando a noite escura em claro dia.
      O Delia, que a pezar da nevoa grossa,
    Co'os teus raios de prata
    A noite escura fazes que no possa
    Encontrar o que trata,
    E o que n'alma retrata
    Amor por teu divino
    Raio, por qu'endoudeo e desatino:
      Tu, que de formosissimas estrellas
    Coras e rodeias
    Tua candida fronte e faces bellas;
    E os campos formoseias
    Co'as rosas que semeias,
    Co'as boninas que gera
    O teu celeste humor na primavera:
      Para ti guarda o stio fresco d'Ilio
    Suas sombras formosas;
    Para ti o Erymantho e o lindo Pylio
    As mais purpureas rosas;
    E as drogas mais cheirosas
    Desse nosso Oriente
    Guarda a felice Arabia mais contente.
      De qual panthera, ou tigre, ou leopardo
    As asperas entranhas
    No temro teu fero e agudo dardo,
    Quando por as montanhas
    Mais remotas e estranhas
    Ligeira atravessavas,
    To formosa que a Amor d'amor matavas?
      Pois, Delia, do teu ceo vendo ests quantos
    Furtos de purdades,
    Suspiros, mgoas, ais, musicas, prantos,
    As conformes vontades,
    Humas por saudades,
    Outras por crus indicios
    Fazem das proprias vidas sacrificios:
      Ja veio Endymio por estes montes
    O ceo, suspenso, olhando,
    E teu nome, co'os olhos feitos fontes,
    Em vo sempre chamando,
    Pedindo (suspirando)
    Mercs  tua beldade,
    Sem que ache em ti hum'hora piedade.
      Por ti feito pastor de branco gado
    Nas selvas solitarias,
    S de seu pensamento acompanhado,
    Conversa as alimarias,
    De todo Amor contrrias,
    Mas no como ti duras,
    Onde lamenta e chora desventuras.
      Das castas virgens sempre os altos gritos,
    Clara Lucina, ouviste,
    Renovando-lhe as fras e os espritos:
    Mas os daquelle triste,
    Ja nunca consentiste
    Ouvi-los hum momento,
    Para ser menos grave o seu tormento.
      No fujas, no de mi! Ah no t'escondas
    D'hum to fiel amante!
    lha como suspiro estas ondas,
    E como o velho Atlante
    O seu collo arrogante
    Move piedosamente,
    Ouvindo a minha voz fraca e doente.
      Triste de mi! Qu'alcano por queixar-me,
    Pois minhas queixas digo
    A quem ja ergueo a mo para matar-me,
    Como a cruel imigo?
    Mas eu meu fado sigo,
    Que a isto me destina,
    E qu'isto s pretende e s m'ensina.
      Oh quanto ha ja que o Ceo me desengana!
    Mas eu sempre porfio
    Cada vez mais na minha teima insana.
    Tendo livre alvedrio,
    No fujo o desvario;
    Porque este em que me vejo
    Engana co'a esperana o meu desejo.
      Oh quanto melhor fra que dormissem
    Hum somno perennal
    Estes meus olhos tristes, e no vissem
    A causa de seu mal
    Fugir, a hum tempo tal,
    Mais que d'antes proterva,
    Mais cruel que ursa, mais fugaz que cerva!
      Ai de mi, que me abrazo em fogo vivo,
    Com mil mortes ao lado;
    E quando morro mais, ento mais vivo!
    Porque t[~e]e ordenado
    Meu infelice fado,
    Que quando me convida
    A morte, para a morte tenha vida.
      Secreta noite amiga, a que obedeo,
    Estas rosas (por quanto
    Meus queixumes me ouviste) te offereo,
    E este fresco amaranto,
    Humido ja do pranto,
    E lagrimas da esposa
    Do cioso Tito, branca e formosa.


ODE II.

    To suave, to fresca e to formosa,
    Nunca no ceo sahio
    A Aurora no princpio do vero,
    s flores dando a graa costumada,
    Como a formosa mansa fera, quando
    Hum pensamento vivo m'inspirou,
    Por quem me desconheo.
      Bonina pudibunda, ou fresca rosa,
    Nunca no campo abrio,
    Quando os raios do sol no Touro esto,
    De cres differentes esmaltada,
    Como esta flor, que os olhos inclinando,
    O soffrimento triste costumou
     pena que padeo.
      Ligeira, bella Nympha, linda, irosa,
    No creio que seguio
    Satyro, cujo brando corao
    D'amores commovesse fera irada,
    Qu'assi fosse fugindo e desprezando
    Este tormento, donde Amor mostrou
    To prspero como.
      Nunca, emfim, cousa bella e rigorosa
    Natura produzio,
    Qu'iguale aquella frma e condio,
    Que as dores em que vivo estima em nada.
    Mas com to doce gesto, irado e brando,
    O sentimento, e a vida m'enlevou,
    Que a pena lhe agradeo.
      Bem cuidei d'exaltar em verso, ou prosa,
    Aquillo que a alma vio
    Entre a doce dureza e mansido,
    Primores de belleza desusada;
    Mas quando quiz voar ao ceo cantando,
    Entendimento e engenho me cegou
    Luz de to alto preo.
      Naquella alta pureza deleitosa
    Que ao mundo s'encobrio;
    E nos olhos Angelicos, que so
    Senhores desta vida destinada;
    E naquelles cabellos, que soltando
    Ao manso vento, a vida me enredou,
    M'alegro e m'entristeo.
      Saudade e suspeita perigosa,
    Que Amor constituio
    Por castigo daquelles que se vo;
    Temores, penas d'alma desprezada,
    Fera esquivana, que me vai tirando
    O mantimento que me sustentou,
    A tudo me offereo.
      Amor isento a huns olhos m'entregou,
    Nos quaes a Deos conheo.


ODE III.

    Se de meu pensamento
    Tanta razo tivera d'alegrar-me,
    Quanto de meu tormento
    A tenho de queixar-me,
    Puderas, triste lyra, consolar-me.
      E minha voz cansada,
    Qu'em outro tempo foi alegre e pura,
    No fra assi tornada,
    Com tanta desventura,
    To rouca, to pezada, nem to dura.
      A ser como sohia,
    Pudera levantar vossos louvores;
    Vs, minha Hierarchia,
    Ouvreis meus amores,
    Qu'exemplo so ao mundo ja de dores.
      Alegres meus cuidados,
    Contentes dias, horas e momentos,
    Oh quanto bem lembrados
    Sois de meus pensamentos,
    Reinando agora em mi duros tormentos!
      Ai gostos fugitivos!
    Ai gloria ja acabada e consumida!
    Ai males to esquivos!
    Qual me deixais a vida!
    Quo cheia de pezar! quo destruida!
      Mas como no he morta
    Ja esta vida? como tanto dura?
    Como no abre a porta
    A tanta desventura,
    Qu'em vo com seu poder o tempo cura?
      Mas para padec-la
    S'esfora o meu sogeito e convalece;
    Que s para diz-la,
    A fra me fallece,
    E de todo me cansa e m'enfraquece.
      Oh bem affortunado
    Tu, que alcanaste com lyra toante,
    Orpho, ser escutado
    Do fero Rhadamante,
    E co'os teus olhos ver a doce amante!
      As infernaes figuras
    Moveste com teu canto docemente;
    As tres Furias escuras,
    Implacaveis  gente,
    Applacadas se vro derepente.
      Ficou como pasmado
    Todo o Estygio Reino co'o teu canto;
    E quasi descansado
    De seu eterno pranto,
    Cessou de alar Sisypho o grave canto.
      A ordem se mudava
    Das penas que regendo est Pluto;
    Em descanso se achava
    A roda de Ixio,
    E em glria quantas penas alli so.
      De todo ja admirada
    A Rainha infernal e commovida,
    Te deo a desejada
    Esposa, que perdida
    De tantos dias ja tivera a vida.
      Pois minha desventura,
    Como ja no abranda hum'alma humana,
    Qu'he contra mi mais dura,
    E inda mais deshumana,
    Que o furor de Callirrho profana?
      Oh crua, esquiva e fera,
    Duro peito, cruel e empedernido,
    D'alguma tigre fera
    L na Hircania nascido,
    Ou d'entre as duras rochas produzido!
      Mas que digo, coitado!
    E de quem fio em vo minhas querellas?
    S vs,  do salgado,
    Humido Reino bellas
    E claras Nymphas, condoei-vos dellas.
      E d'ouro guarnecidas
    Vossas louras cabeas levantando
    Sbre as ondas erguidas,
    As tranas gottejando,
    Sahindo todas, vinde a ver qual ando.
      Sahi em companhia,
    E cantando e colhendo as lindas flores;
    Vereis minha agonia,
    Ouvireis meus amores,
    E sentireis meus prantos, meus clamores.
      Vereis o mais perdido
    E mais infeliz corpo qu'he gerado;
    Qu'est ja convertido
    Em chro, e neste estado
    Somente vive nelle o seu cuidado.


ODE IV.

    Formosa fera humana,
    Em cujo corao soberbo e rudo
    A fra soberana
    Do vingativo Amor, que vence tudo,
    As pontas amoladas
    De quantas settas tinha t[~e]e quebradas:
      Amada Circe minha,
    Postoque minha no, com tudo amada;
    A quem hum bem que tinha
    Da doce liberdade desejada,
    Pouco a pouco entreguei,
    E se mais tenho, mais entregarei;
      Pois natureza irosa
    Da razo te deo partes to contrrias,
    Que sendo to formosa,
    Folgues de te queimar em flammas vrias,
    Sem arder em nenh[~u]a
    Mais qu'em quanto allumia o mundo a l[~u]a;
      Pois triumphando vs
    Com diversos despojos de perdidos,
    Que tu privando ests
    De razo, de juizo e de sentidos,
    E quasi a todos dando
    Aquelle bem que a todos vs negando;
      Pois tanto te contenta
    Ver o nocturno moo, em ferro envolto,
    Debaixo da tormenta
    De Jupiter em goa e vento slto,
     porta, que impedido
    Lhe t[~e]e seu bem, de mgoa adormecido;
      Porque no tens receio
    Que tantas insolencias e esquivanas
    A deosa, que pe freio
    A soberbas e doudas esperanas,
    Castigue com rigor,
    E contra ti se accenda o fero Amor?
      lha a formosa Flora;
    De despojos de mil suspiros rica,
    Por o Capito chora,
    Que l em Thessalia, emfim, vencido fica,
    E foi sublime tanto,
    Que altares lhe deo Roma e nome santo.
      lha em Lesbos aquella
    No seu salteiro insigne conhecida;
    Dos muitos que por ella
    Se perdro, perdeo a chara vida
    Na rocha que se infama
    Com ser remedio extremo de quem ama.
      Por o moo escolhido,
    Onde mais se mostrro as tres Graas;
    Que Venus escondido
    Para si teve hum tempo entre as alfaas,
    Pagou co'a morte fria
    A m vida que a muitos ja daria.
      E, vendo-se deixada
    Daquelle por quem tantos ja deixra,
    Se foi, desesperada,
    Precipitar da infame rocha chara:
    Que o mal de mal querida
    Sabe que vida lhe he perder a vida.
      Tomae-me, bravos mares;
    Vs me tomae, pois outrem me deixou.
    Disse: e dos altos ares
    Pendendo, com furor s'arremessou.
    Acude tu, suave,
    Acude, poderosa e divina ave.
      Toma-a nas azas tuas,
    Menino pio, illesa e sem perigo,
    Antes que nestas cruas
    goas cahindo apague o fogo antigo.
    He digno amor tamanho
    De viver, e ser tido por estranho.
      No: qu'he razo que seja
    Para as lobas isentas, que amor vendem,
    Exemplo onde se veja
    Que tambem fico presas as que prendem.
    Assi o deo por sentena
    Nemesis, que Amor quiz que tudo vena.


ODE V.

    Nunca manha suave
    Estendendo seus raios por o mundo,
    Despois de noite grave,
    Tempestuosa, negra, em mar profundo
    Alegrou tanto nao, que ja no fundo
    Se vio em mares grossos,
    Como a luz clara a mi dos olhos vossos.
      Aquella formosura,
    Que s no virar delles resplandece;
    E com que a sombra escura
    Clara se faz, e o campo reverdece;
    Quando o meu pensamento se entristece,
    Ella e sua viveza
    Me desfazem a nuvem da tristeza.
      O meu peito, onde estais,
    He para tanto bem pequeno vaso;
    Quando acaso virais
    Os olhos, que de mi no fazem caso,
    Todo, gentil Senhora, ento me abraso
    Na luz que me consume,
    Bem como a borboleta faz no lume.
      Se mil almas tivera
    Que a to formosos olhos entregra,
    Todas quantas pudera
    Por as pestanas delles pendurra;
    E, enlevadas na vista pura e clara,
    (Postoque disso indinas)
    Se andro sempre vendo nas meninas.
      E vs, que descuidada
    Agora vivereis de taes querellas,
    D'almas minhas cercada,
    No pudesseis tirar os olhos dellas;
    No pde ser que, vendo a vossa entr'ellas
    A dor que lhe mostrassem,
    Tantas huma alma s no abrandassem.
      Mas, pois o peito ardente
    Huma s pde ter, formosa Dama,
    Basta que esta somente,
    Como se fossem mil e mil, vos ama,
    Para que a dor de sua ardente flama
    Comvosco tanto possa,
    Que no queirais ver cinza hum'alma vossa.


ODE VI.

    Pde hum desejo immenso
    Arder no peito tanto,
    Que  branda e  viva alma o fogo intenso
    Lhe gaste as nodoas do terreno manto;
    E purifique em tanta alteza o esprito
    Com olhos immortais,
    Que faz que leia mais do que v'scrito.
      Que a flamma, que se accende
    Alto, tanto allumia,
    Que se o nobre desejo ao bem s'estende
    Que nunca vio, o sente claro dia;
    E l v do que busca o natural,
    A graa, a viva cr,
    N'outra especie melhor que a corporal.
      Pois vs,  claro exemplo
    De viva formosura,
    Que de to longe c noto e contemplo
    N'alma, que este desejo sobe e apura;
    No creais que no vejo aquella imagem
    Que as gentes nunca vem,
    Se de humanos no tem muita vantagem.
      Que se os olhos ausentes
    No vem a compassada
    Proporo, que das cres excellentes
    De pureza e vergonha he variada;
    Da qual a Poesia, que cantou
    Atqui s pinturas
    Com mortaes formosuras igualou;
      Se no vem os cabellos
    Que o vulgo chama de ouro;
    E se no vem os claros olhos bellos,
    De quem canto que so de sol thesouro;
    E se no vem do rosto as excellencias,
    A quem diro que deve
    Rosa, e crystal, e neve as apparencias;
      Vem logo a graa pura,
    A luz alta e severa,
    Que he raio da divina formosura,
    Que n'alma imprime e fra reverbera;
    Assi como crystal do sol ferido,
    Que por fra derrama
    A recebida flamma esclarecido.
      E vem a gravidade,
    Com a viva alegria
    Que misturada t[~e]e de qualidade,
    Que huma da outra nunca se desvia;
    Nem deixa de ser huma receada
    Por leda e por suave,
    Nem outra, por ser grave, muito amada.
      E vem do honesto siso
    Os altos resplandores
    Temperados co'o doce e ledo riso,
    A cujo abrir abrem no campo as flores;
    As palavras discretas e suaves,
    Das quaes o movimento
    Fara deter o vento e as altas aves:
      Dos olhos o virar
    Que torna tudo raso,
    Do qual no sabe o engenho divisar
    Se foi por artificio, ou feito acaso;
    Da presena os meneios e a postura,
    O andar e o mover-se,
    Donde pde aprender-se formosura.
      Aquelle no sei que,
    Que aspira no sei como,
    Qu'invisivel sahindo, a vista o v,
    Mas para o comprender no lhe acha tomo;
    E que toda a Toscana Poesia,
    Que mais Phebo restaura,
    Em Beatriz, nem Laura nunca via:
      Em vs a nossa idade,
    Senhora, o pde ver,
    S'engenho, se sciencia e habilidade,
    Iguaes  vossa formosura der,
    Qual a vi no meu longo apartamento,
    Qual em ausencia a vejo.
    Taes azas d o desejo ao pensamento!
      Pois se o desejo afina
    Hum'alma accesa tanto,
    Que por vs use as partes de divina;
    Por vs levantarei no visto canto,
    Que o Betis me oua, e o Tibre me levante:
    Que o nosso claro Tejo,
    Envolto hum pouco o vejo e dissonante.
      O campo no o esmalto
    Flores, mas s abrolhos
    O fazem feio; e cuido que lhe falto
    Ouvidos para mi, para vs olhos.
    Mas faa o que quizer o vil costume;
    Que o sol, qu'em vs est,
    Na escurido dara mais claro lume.


ODE VII.

    A quem daro de Pindo as moradoras,
    To doctas como bellas,
    Florecentes capellas
    De triumphante louro, ou myrto verde;
    Da gloriosa palma, que no perde
    A presumpo sublime,
    Nem por fra de pzo algum se opprime?
      A quem traro nas faldas delicadas,
    Rosas a roxa Cloris,
    Conchas a branca Doris;
    Estas, flores do mar; da terra aquellas,
    Argenteas, ruivas; brancas e amarellas,
    Com danas e coras
    De formosas Nereidas e Napas?
      A quem faro os Hymnos, Odes, Cantos,
    Em Thebas Amphion,
    Em Lesbos Arion,
    Seno a vs, por quem restituida
    Se v da Poesia ja perdida
    A honra e gloria igual,
    Senhor Dom Manoel de Portugal?
      Imitando os espritos ja passados,
    Gentis, altos, Reais,
    Honra benigna dais
    A meu to baixo, quo zeloso engenho.
    Por Mecenas a vs celebro e tenho;
    E sacro o nome vosso
    Farei, se alguma cousa em verso posso.
      O rudo canto meu, que resuscita
    As honras sepultadas,
    As palmas ja passadas
    Dos bellicosos nossos Lusitanos
    Para thesouro dos futuros anos,
    Comvosco se defende
    Da lei Letha,  qual tudo se rende.
      Na vossa rvore ornada d'honra e glria
    Achou tronco excellente
    A hera florecente
    Para a minha atqui de baixa estima:
    Nelle, para trepar, s'encosta e arrima;
    E nella subireis
    To alto, quanto os ramos estendeis.
      Sempre foro engenhos peregrinos
    Da Fortuna invejados;
    Que quanto levantados
    Por hum brao nas azas so da Fama,
    Tanto por outro aquella, que os desama,
    Co'o pzo e gravidade
    Os opprime da vil necessidade.
      Mas altos coraes dignos d'Imperio,
    Que vencem a Fortuna,
    Foro sempre coluna
    Da sciencia gentil: Octaviano,
    Scipio, Alexandre e Graciano,
    Que vemos immortais;
    E vs, que o nosso seculo dourais.
      Pois, logo, em quanto a cithara sonora
    S'estimar por o mundo,
    Com som docto e jucundo;
    E em quanto produzir o Tejo e o Douro
    Peitos de Marte e Phebo crespo e louro,
    Tereis glria immortal,
    Senhor Dom Manoel de Portugal.


ODE VIII.

    Aquelle unico exemplo
    De fortaleza heroica e ousadia,
    Que mereceo no templo
    Da Fama eterna ter perptuo dia;
    O gro filho de Thetis, que dez anos
    Flagello foi dos miseros Troianos;
      No menos ensinado
    Foi nas hervas e Medica polcia,
    Que destro e costumado
    No soberbo exercicio da Milicia:
    Assi que as mos que a tantos morte dero,
    Tambem a muitos vida dar pudero.
      E no se desprezou
    Aquelle fero e indomito mancebo
    Das Artes qu'ensinou
    Para o languido corpo o intonso Phebo;
    Que se o temido Heitor matar podia,
    Tambem chagas mortaes curar saba.
      Taes Artes aprendeo
    Do semiviro Mestre e docto velho,
    Onde tanto cresceo
    Em virtude, e em sciencia e em conselho,
    Que Telepho, por elle vulnerado,
    S delle pde ser despois curado.
      Pois vs,  excellente
    E illustrissimo Conde, do ceo dado
    Para fazer presente
    D'altos Heroes o seculo passado;
    E em quem bem trasladada est a memoria
    De vossos ascendentes, a honra e glria:
      Postoque o pensamento
    Occupado tenhais na guerra infesta,
    Ou co'o sanguinolento
    Taprobano, ou Achem, que o mar molesta,
    Ou co'o Cambaico, occulto imigo nosso,
    Que qualquer delles teme o nome vosso;
      Favorecei a antiga
    Sciencia que ja Achilles estimou;
    Olhae que vos obriga
    O ver qu'em vosso tempo rebentou
    O fructo daquell'Orta onde florecem
    Plantas novas, que os doctos no conhecem.
      Olhae qu'em vossos anos
    Huma Orta produze vrias hervas
    Nos campos Indianos,
    As quaes aquellas doctas e protervas,
    Meda e Circe, nunca conhecro,
    Postoque a lei da Magica excedro.
      E vde carregado
    D'annos e traz a vria experiencia
    Hum velho, qu'ensinado
    Das Gangeticas Musas na sciencia
    Podaliria subtil, e arte sylvestre,
    Vence ao velho Chiron, d'Achilles mestre.
      O qual est pedindo
    Vosso favor e amparo ao gro volume,
    Qu'impresso  luz sahindo,
    Dara da Medicina hum vivo lume;
    E descobrir-nos-ha segredos certos,
    A todos os Antiguos encobertos.
      Assi que no podeis
    Negar a que vos pede benigna aura:
    Que se muito valeis
    Na sanguinosa guerra Turca e Maura,
    Ajudae quem ajuda contra a morte;
    E sereis semelhante ao Grego forte.


ODE IX.

    Fogem as neves frias
    Dos altos montes quando reverdecem
    As rvores sombrias;
    As verdes hervas crecem,
    E o prado ameno de mil cres tecem.
      Zephyro brando espra;
    Suas settas Amor afia agora;
    Progne triste suspira,
    E Philomela chora:
    O ceo da fresca terra se namora.
      Ja a linda Cythera
    Vem, do cro das Nymphas rodeada;
    A branca Pasita Despida e delicada,
    Com as duas irmas acompanhada.
      Em quanto as officinas
    Dos Cyclopas Vulcano est queimando,
    Vo colhendo boninas
    As Nymphas, e cantando,
    A terra co'o ligeiro p tocando.
      Desce do aspero monte
    Diana, ja cansada da espessura,
    Buscando a clara fonte,
    Onde por sorte dura
    Perdeo Acto a natural figura.
      Assi se vai passando
    A verde Primavera e o scco Estio;
    O Outono vem entrando;
    E logo o Inverno frio,
    Que tambem passar por certo fio.
      Ir-se-ha embranquecendo
    Com a frigida neve o scco monte;
    E Jupiter chovendo
    Turbar a clara fonte:
    Temer o marinheiro a Orionte.
      Porque, emfim, tudo passa;
    No sabe o Tempo ter firmeza em nada;
    E a nossa vida escassa
    Foge to apressada,
    Que quando se comea he acabada.
      Que se fez dos Troianos
    Heitor temido, Enas piedoso?
    Consumro-te os anos,
     Cresso to famoso,
    Sem te valer teu ouro precioso.
      Todo o contentamento
    Crias qu'estava em ter thesouro ufano!
    Oh falso pensamento!
    Que  custa de teu dano
    Do sabio Solon crste o desengano.
      O bem que aqui se alcana,
    No dura por passante, nem por forte:
    Que a bem-aventurana
    Duravel, de outra sorte
    Se ha de alcanar na vida para a morte.
      Porque, emfim, nada basta
    Contra o terrivel fim da noite eterna;
    Nem pde a deosa casta
    Tornar  luz superna
    Hippolyto da escura sombra averna.
      Nem Theso esforado,
    Ou com manha, ou com fra valerosa,
    Livrar pde o ousado
    Perithoo da espantosa
    Priso Letha escura e tenebrosa.


ODE X.

    Aquelle moo fero
    Nas Pelethronias covas doctrinado
    Do Centauro severo;
    Cujo peito esforado
    Com tutanos de tigres foi criado.
      N'goa fatal menino
    O lava a me, presaga do futuro,
    Para que ferro fino
    No passe o peito duro
    Que de si mesmo a si se t[~e]e por muro.
      A carne lh'endurece,
    Porque no seja d'armas offendida.
    Cega! pois no conhece
    Que pde haver ferida
    N'alma, e que menos doe perder a vida.
      Que donde o brao irado
    Dos Troianos passava arnez e escudo,
    Alli se vio passado
    Daquelle ferro agudo
    Do menino qu'em todos pde tudo.
      Alli se vio captivo
    Da captiva gentil que serve e adora;
    Alli se vio que vivo
    Em vivo fogo mora,
    Porque de seu senhor a v senhora.
      Ja toma a branda lyra
    Na mo que a dura Pelias menera;
    Alli canta e suspira,
    No como lh'ensinra
    O velho, mas o moo que o cegra.
      Pois, logo, quem culpado
    Ser, se de pequeno offerecido
    Foi todo a seu cuidado;
    No bero instituido
    A no poder deixar de ser ferido?
      Quem logo fraco infante
    D'outro mais poderoso foi sujeito,
    E para cego amante
    Desd'o princpio feito,
    Com lagrimas banhando o tenro peito?
      Se agora foi ferido
    Da penetrante ponta e fra d'herva;
    E se Amor he servido
    Que sirva  linda serva,
    Para quem minha estrella me reserva?
      O gesto bem talhado;
    O airoso meneio e a postura;
    O rosto delicado,
    Que na vista figura
    Que s'ensina por arte a formosura,
      Como pde deixar
    De render a quem tenha entendimento?
    Que quem no penetrar
    Hum doce gesto, attento,
    No lhe he nenhum louvor viver isento.
      Aquelles, cujos peitos
    Ornou d'altas sciencias o destino.
    Se vro mais sujeitos
    Ao cego e vo menino,
    Arrebatados do furor divino.
      O Rei famoso Hebreio,
    Que mais que todos soube, mais amou;
    Tanto, que a deos alheio
    Falso sacrificou.
    Se muito soube e teve, muito errou.
      E o gro Sabio qu'ensina,
    Passeando, os segredos da Sophia,
     baixa concubina
    Do vil Eunuco Hermia
    Aras ergueo, que aos deoses s devia.
      Aras ergue a quem ama
    O Philosopho insigne namorado.
    Doe-se a perptua fama,
    E grita qu'he culpado:
    Da lesa divindade he accusado.
      Ja foge donde habita;
    Ja paga a culpa enorme com destrro.
    Mas, oh grande desdita!
    Bem mostra tamanho rro
    Que doctos coraes no so de ferro.
      Antes na altiva mente,
    No subtil sangue e engenho mais perfeito
    Ha mais conveniente
    E conforme sogeito,
    Onde s'imprima o brando e doce affeito.


ODE XI.

    Naquelle tempo brando
    Em que se v do mundo a formosura,
    Que Thetis descansando
    De seu trabalho est, formosa e pura,
    Cansava Amor o peito
    Do mancebo Peleo d'hum duro affeito.
      Com impeto foroso
    Lhe havia ja fugido a bella Nympha,
    Quando no tempo aquoso
    Noto irado revolve a clara lympha,
    Serras no mar erguendo,
    Que os cumes das da terra vo lambendo.
      Esperava o mancebo,
    Com a profunda dor que n'alma sente,
    Hum dia em que ja Phebo
    Comeava a mostrar-se ao mundo ardente,
    Soltando as tranas d'ouro,
    Em que Clicie d'amor faz seu thesouro.
      Era no mez que Apolo
    Entre os irmos celestes passa o tempo:
    O vento enfreia Eolo,
    Para que o deleitoso passatempo
    Seja quieto e mudo;
    Que a tudo Amor obriga, e vence tudo.
      O luminoso dia
    Os amorosos corpos despertava
     cega idolatria,
    Que ao peito mais contenta e mais aggrava;
    Onde o cego menino
    Faz que os humanos cro que he divino:
      Quando a formosa Nympha,
    Com todo o ajuntamento venerando,
    Na crystallina lympha
    O corpo crystallino est lavando;
    O qual nas goas vendo,
    Nelle, alegre de o ver, s'est revendo:
      O peito diamantino,
    Em cuja branca teta Amor se cria;
    O gesto peregrino,
    Cuja presena torna a noite em dia;
    A graciosa boca
    Que a Amor com seus amores mais provoca;
      Os rubins graciosos;
    As prolas qu'escondem vivas rosas
    Dos jardins deleitosos,
    Que o ceo plantou em faces to formosas;
    O transparente collo,
    Que ciumes a Daphne faz d'Apollo;
      O subtil mantimento
    Dos olhos, cuja vista a Amor cegou;
    A Amor que, com tormento
    Glorioso, nunca delles se apartou,
    Pois elles de contino
    Nas meninas o trazem por menino;
      Os fios derramados
    Daquelle ouro que o peito mais cobia,
    Donde Amor enredados
    Os coraes humanos traz e atia,
    E donde com desejo
    Mais ardente comea a ser sobejo.
      O mancebo Peleo,
    Que de Neptuno estava aconselhado,
    Vendo na terra o ceo
    Em to bella figura trasladado,
    Mudo hum pouco ficou,
    Porque Amor logo a falla lhe tirou.
      Emfim, querendo ver
    Quem tanto mal de longe lhe fazia,
    A vista foi perder,
    Porque de puro amor, Amor no via:
    Vio-se assi cego e mudo
    Por a fra d'Amor que pde tudo.
      Agora s'apparelha
    Para a batalha; agora remettendo;
    Agora s'aconselha;
    Agora vai; agora est tremendo;
    Quando ja de Cupido
    Com nova setta o peito vio ferido.
      Remette o moo logo
    Para ond'estava a chamma sem socgo;
    E co'o sobejo fogo
    Quanto mais perto estava, ento mais cego:
    E cego, e co'hum suspiro,
    Na formosa donzella emprega o tiro.
      Vingado assi Peleo,
    Nasceo deste amoroso ajuntamento
    O forte Larisseo,
    Destruio do Phrygio pensamento;
    Que, por no ser ferido,
    Foi nas goas Estygias submergido.


ODE XII.

    Ja a calma nos deixou
    Sem flores as ribeiras deleitosas;
    Ja de todo seccou
    Candidos lirios, rubicundas rosas:
    Fogem do grave ardor os passarinhos
    Para o sombrio amparo de seus ninhos.
      Meneia os altos freixos
    A branda virao de quando em quando;
    E d'entre vrios seixos
    O liquido crystal sahe murmurando:
    As gottas, que das alvas pedras slto,
    O prado, como prolas, esmalto.
      Da caa ja cansada
    Busca a casta Titanica a espessura,
    Onde  sombra inclinada
    Logre o doce repouso da verdura,
    E sbre o seu cabello ondado e louro
    Deixe cahir o bosque o seu thesouro.
      O ceo desimpedido
    Mostrava o lume eterno das estrellas;
    E de flores vestido
    O campo, brancas, roxas e amarellas,
    Alegre o bosque tinha, alegre o monte,
    O prado, o arvoredo, o rio, a fonte.
      Porm como o menino,
    Que a Jupiter por a aguia foi levado,
    No crco crystallino
    For do amante de Clicie visitado;
    O bosque chorar, chorar a fonte,
    O rio, o arvoredo, o prado, o monte.
      O mar, que agora brando
    He das Nereidas candidas cortado,
    Logo se ir mostrando
    Todo em crespas escumas empolado:
    O soberbo furor de negro vento
    Fara por toda parte movimento.
      Lei he da natureza
    Mudar-se desta sorte o tempo leve:
    Succeder  belleza
    Da Primavera o fructo; a elle a neve;
    E tornar outra vez por certo fio
    Outono, Inverno, Primavera, Estio.
      Tudo, emfim, faz mudana
    Quanto o claro sol v, quanto allumia;
    No se acha segurana
    Em tudo quanto alegra o bello dia:
    Mudo-se as condies, muda-se a idade,
    A bonana, os estados e a vontade.
      Somente a minha imiga
    A dura condio nunca mudou;
    Para que o mundo diga
    Que nella lei to certa se quebrou:
    Em no ver-me ella s sempre est firme,
    Ou por fugir d'Amor, ou por fugir-me.
      Mas ja soffrivel fra
    Qu'em matar-me ella s mostre firmeza,
    Se no achra agora
    Tambem em mi mudada a natureza;
    Pois sempre o corao tenho turbado,
    Sempre d'escuras nuvens rodeado.
      Sempre exprimento os fios
    Qu'em contino receio Amor me manda;
    Sempre os dous caudaes rios,
    Qu'em meus olhos abrio quem nos seus anda,
    Correm, sem chegar nunca o Vero brando,
    Que tamanha aspereza v mudando.
      O sol sereno e puro,
    Que no formoso rosto resplandece,
    Envolto em manto escuro
    Do triste esquecimento, no parece;
    Deixando em triste noite a triste vida
    Que nunca de luz nova he soccorrida.
      Porm seja o que for:
    Mude-se por meu damno a natureza;
    Perca a inconstancia Amor;
    A Fortuna inconstante ache firmeza;
    Tudo mudvel seja contra mi,
    Mas eu firme estarei no qu'emprendi.




NOTAS.




NOTAS.


Pag. 4. V. 4. _Que rompesse os Mahometicos arnezes_] Faria e Sousa.
_Rompessem os Mahometicos arnezes_] 3. ed. A primeira lio he viciosa,
a segunda correcta; e por isso e por ser mais antiga a adoptmos.


P. 14. V. 24. _Ha de acabar o mal destes amores_.] Todas as ed. Mas
o vcio he manifesto, porque a teno, desacompanhada da obra,
nada pde acabar. Corrigimos:

    Mas se vossa teno com minha morte
    He de acabar o mal destes amores etc.


P. 29. V. 13. _Mas em vo no vereis, porque vereis_] Faria e
Sousa. _Mas em vo no vireis, porque achareis_] 3. ed. Adoptmos esta
lio, que he a do poeta.


P. 30. V. 10. _O pensamento da aspereza vossa_] Faria e Sousa.
_O pensamento e a aspereza vossa_] 3. ed. Porque rejeitaria Faria e
Sousa esta lio? ou que entenderia elle por _pensamento da aspereza_?
Seguimos a lio antiga, que he a verdadeira.


P. 34. V. 7. _Pois a parte maior do entendimento_] Faria e
Sousa. _Pois a parte melhor do entendimento_] 3. ed. Adoptmos a lio
antiga, porque por _parte maior_, se entende a maior poro.


P. 34. V. 9. _Se em teu valor contemplo a melhor parte_]
Faria, e 3. ed. Mas he vcio, porque o poeta acaba dizer que a melhor
parte do entendimento se v perdida no menos que ha na sua amada, e
no he possivel que no quizesse continuar no mesmo encarecimento.
Corrigimos:

    Se em teu valor contemplo a menor parte.


P. 34. V. 25. _Em feras mora, em aves, pedras goas_] Faria e
Sousa. _Em feras, plantas, aves, pedras, goas_] 3. ed. S quem for
destituido de gosto poder preferir aquella a esta lio.


P. 40. V. 19. _A mo tenho mettida no teu seio_] Faria e
Sousa, e 3. ed. He rro: corrigimos:

    A mo tenho mettida no meu seio.


P. 69. V. 5. _Nunca do vento e ira, que arrancando_] Faria e
Sousa. He rro; corrigimos:

    Nunca do vento a ira, que arrancando.


P. 70. V. 24.
    _Com que a morte forada e gloriosa,
    Faz o vencido etc._] Faria e Sousa. He rro: corrigimos:

    Com que a morte forada gloriosa
    Faz o vencido etc.


P. 86. V. 24.
    _Pois se a fortuna o fez por descontar-me
    Esse desgosto etc._] Faria e Sousa. He lio viciosa, porque o
poeta acaba de dizer que a sorte lhe cortou em flor a sua alegria, que
era tal, que era de razo, tivesse este desconto, porque se no dissesse
que no mundo podia haver bem perfeito; e seria disparate chamar agora
desgosto ao que pouco antes chamou summa alegria. Corrigimos:

    Mas se a fortuna o fez por descontar-me
    Aquelle gosto etc.


P. 108. V. 15. _Aydame, Seora,  ser vingana_] Faria e
Sousa. He rro. Corrigimos:

    Aydame, Seora,  hacer vinganza.


P. 111. V. 7. _Nem todos para um gsto so iguaes_] Faria e
Sousa. He rro, porque o poeta diz: Vs,  annos, estes que passais to
ligeiros, nem todos sois iguaes: e se dissesse _so_, era absurdo.
Corrigimos:

    Nem todos para um gsto sois iguaes.


P. 113. V. 25. _Aunque en esta se llega al natural_] Faria e
Sousa. He rro. Corrigimos:

    Aunque en esto se llega al natural.

Porque o sentido do poeta he que s n'uma cousa se aproxima ao natural o
retrato da sua amada; e vem a ser, que assim ouve, e assim responde o
seu pranto como se fra o proprio original.


P. 114. V. 11. _En tanto bien no quieras olvidarte_] Faria e
Sousa. Foi descuido, porque a mesma Rima exige que seja _olvidarme_.


P. 114. V. 21. _Cesse vosso louvor, Nymphas formosas_] Faria
e Sousa. He vicio, porque o poeta no diz s Nymphas que deixem o seu
proprio louvor; mas, sim, o seu lavor; isto he, as telas que estavo
lavrando. Corrigimos:

    Cesse vosso lavor etc.


P. 115. V. 22. _Fizeres que se mova a piedade_] Faria e
Sousa. _Fazeres que se mova a piedade_] 3. ed. Seguimos esta lio, que
he a verdadeira.


P. 120. V. 15. _Em Babylonia sbre os rios_] Faria e Sousa.
Mas parece que tambem aqui, como nos outros lugares, se deve ler:

    De Babylonia sobre os rios etc.


P. 128. V. 13. _Ah! que falta mais vezes a ventura_] Faria e
Sousa; mas a lio do poeta he esta:

    Ah! que falte mais vezes a ventura.


P. 133. V. 28.
     _Que no pde nenhum impedimento
     Fugir do que lhe ordena sua Estrella._]
Lio vulgar. Mas o fugir est aqui por evitar: corrigimos:

    Fugir o que lhe ordena etc.


P. 134. V. 7. _To potente ser vossa mudana_.] Lio
vulgar. He viciosa: corrigimos:

    To patente ser etc.


P. 136. V. 28. _No o quizera tanto  vossa custa_.] Lio
vulgar. He vicio, porque se entende a vingana. Corrigimos:

    No a quizera tanto  vossa custa.


P. 138. V. 11. _Eu quanto mais te vejo, mais te escondes_.]
Lio vulgar. He absurda: corrigimos:

    Eu quanto mais te busco, mais te escondes.


P. 139. V. 20. _Que mgoas para ouvir! e que figura_.] Lio
vulgar. He viciosa: corrigimos:

    Que mgoas para ouvir! Que tal figura.


P. 144. V. 11.
    _Mas eu acostumado ao veneno,
    E uso de soffrer meu mal presente_.] Lio vulgar. He viciosa:
corrigimos:

    Assim de acostumado co'o veneno,
    O uso de soffrer etc.


P. 159. V. 3. _Ni dejarn, por mas que el tiempo huya_.]
Todas as ed. Mas he vicio, porque se entende a memoria. Corrigimos:

    Ni dejar, por mas que el tiempo huya.


P. 165. V. 12. _Seus cabellos_] Tod. as ed. Mas quem espalha
os cabellos, no so as Nymphas; he a manha. Nem as Nymphas podio ter
tantos e to longos cabellos, que os espalhassem pelos montes.
Corrigimos: _Teus cabellos_.


P. 167. V. 9. _Gaitas, que bem se ouvio_] Faria e Sousa. _As
gaitas que trazio_] 3. ed. Adoptamos esta lio, que he a do poeta.


P. 175. V. 5.
    _Com palavras mimosas e forjadas
    Da solta liberdade e livre peito._] Todas as ed. Mas he vicio,
porque o sentido he este: Com palavras mimosas e forjadas eu, de solta
liberdade e livre peito, as trazia (a ellas Nymphas) contentes e
enganadas. Corrigimos:

    Com palavras mimosas e forjadas,
    De solta liberdade e livre peito etc.


P. 184. V. 20. _Assim me est tornando o peito frio._] Todas
as ed. Mas o temor he que produz todos estes effeitos: impedir a voz,
tornar a lingua negligente e o peito frio; e desta lio parece
entender-se que o peito frio he quem torna a lingua negligente, ou que a
lingua negligente torna o peito frio. Esta amphibologia argue vicio de
texto. Corrigimos:

    Assim me est tornando, e o peito frio.

Este lugar nos fornece mais uma prova incontestavel de que a emenda que
fizemos na Estancia 29, Canto IV dos Lusiadas, he a verdadeira e genuina
lio do poeta. E no s neste, mas em todos os mais lugares onde o
poeta falla do medo, sempre lhe attribue o effeito de esfriar e gelar:
como no mesmo ja citado Canto, Estancia 21:

      Desta arte a gente fora e esfora Nuno,
    Que com lh'ouvir as ultimas razes,
    Removem o temor frio, importuno
    Que gelados lhe tinha os coraes.

e no Canto I, Estancia 89:

    O temor grande, o sangue lhe resfria.

Sempre disse que fazia parar a circulao do sangue, e que seus effeitos
se fazio primeiro sentir no corao, como no Canto V, Estancia 38:

    Que poz no corao um grande medo.

O mesmo fazem todos os grandes poetas, e com especialidade Virgilio,
como se ve nos seguintes exemplos:

    _Extemplo Aeneae solvuntur frigore membra._
                               Eneida L. I, V. 96.

    _Solvite corde metum, Teucri._
                               ibi V. 566.

    _Diffugimus visu exangues._
                               ibi L. 2, V. 212.

    _At sociis subit gelidus formidine sanguis
    Diriguit: cecidre animi._
                               ibi L. III, V. 259.

    _Gelidus Teucris per dura cucurrit
    Ossa tremor._
                               ibi L. VI, V. 54.

E alm destes muitos e muitos outros puderamos citar.

Pois se o temor esfria e gela, e primeiro se faz sentir no corao, como
diz o nosso Cames e dissero antes, e tem dito depois todos os grandes
poetas; com a autoridade do mesmo Cames se prova que, se no campo de
Aljubarrota, quando a trombeta Castelhana deo o sinal da batalha, o
sangue acudio ao corao dos Portuguezes, e por consequencia se lhes
concentrou alli o calor, no foi porque o temor fosse maior, mas, sim,
porque era muito menor, que o perigo. E portanto he viciosa a lio
vulgar, e a nossa verdadeira.


P. 187. V. 30. _E vs, pastores deste rudo outeiro_] Faria e
Sousa. _E vs, pastores rudos deste outeiro_] 3. ed. A lio do poeta
he esta.


P. 188. V. 30. _No tronco de alguma rvore sombria_] Faria e
Sousa. _E no tronco d'uma arvore sombria_] 3. ed. Esta he a lio
verdadeira.


P. 190 V. 3. _Em vs deixou Minerva o que valia_] Faria e
Sousa. _Em vs deixou Minerva sua valia_] 3. ed. Porque desprezaria
Faria esta lio?


P. 198. V. 15. _Porque saibas o que he ser amada_] Faria e
Sousa. _Porque saibas que cousa he ser amada_] 3. ed. Quem hesitar em
seguir a lio antiga?


P. 199. V. 23. _Se humano parecer no se defende_] Faria e
Sousa. _Que ao humano parecer no se defende_] 3. ed. Ambas estas
lies so viciosas. A que nos parece verdadeira ou pelo menos correcta,
he esta:

    Se ao humano parecer no se defende.


P. 200. V. 13. _Porque segues em vo esse cuidado?_] Faria e
Sousa. _No vs que teu fugir he escusado?_] 3. ed. A lio antiga he a
do poeta.


P. 200. V. 14. _Pois nunca ests sem mim algum momento_]
Faria e Sousa. _Que sem mim no ests um so momento_] 3. ed. Este verso
he incomparavelmente melhor que o de Faria, e tem o cunho do poeta.


P. 201. V. 21. _A vs se do, a quem junto se ha dado_] Faria
e Sousa. _A vs se dem, a quem junto se ha dado_] 3. ed. A lio
verdadeira he esta.


P. 202. V. 23. _E o mais do roxo dia era passado_] Faria e
Sousa. _E o mais do dia ja era passado_] 3. ed. O epiteto de _roxo_
aqui desnecessario parece introduzido por mo estranha.


P. 203. V. 14. _Que faro mais que mais endurecer-te?_] Faria
e Sousa. _Que fazem seno mais endurecer-te?_] 3. ed. Este verso he
muito mais natural e melhor que o outro.


P. 203. V. 23. _Um bronze ja abrandra que no sente_] Faria.
_Ja um peito abrandra que no sente_] 3. ed. Esta segunda lio he sem
duvida alguma a do poeta, por que, alem de que he ocioso dizer do bronze
que he insensivel, esta expresso de _peito que no sente_, he nelle to
frequente que no podemos deixar de a ter por sua.


P. 205. V. 6. _Em lugar de alegrar-se, se entristecem_]
Faria. _Em vez de se alegrarem, se entristecem_] 3. ed. Este verso em
harmonia he mui superior ao primeiro, e tem mais a seu favor ser das
primeiras edies. Pelo que lhe damos a preferencia.


P. 211. V. 2. _Com rosto baixo, e alto pensamento_] Faria e
Sousa. _Co'o rosto baixo, e alto o pensamento_] 3. ed. Andando este
verso assim nas primeiras ed., to impossivel parece que Faria o no
tivesse visto, como que, depois de o ver, lhe preferisse o primeiro.


P. 213. V. 1. _E vs, cujo valor em tanto excede_] Faria e
Sousa. _E vs, cujo valor to alto excede_] 3. ed. Preferimos a lio
antiga, que he correcta,  emenda de Faria, que he viciosa.


P. 213. V. 17. _Contra o indomito Pe de toda Hespanha._
Todas as ed. Mas he vicio manifesto. Faria e Sousa explica assim este
lugar do texto: "Esto es, que los campos estaban sustentados de toda
Espaa, contra Don Alonso, padre del Principe, que venciendo, los
sustent contra la fortuna e Hados." Mas a isto temos duas razes que
oppor, a primeira he, que no era possivel que um poeta como Cames,
para exprimir cousa to simples fizesse tal geringona; a segunda he
appresentar o texto como o poeta o escreveo:

      _Se no sabem as frautas pastoris
     Pintar de Toro os campos semeados
     D'armas e corpos fortes e gentis,

       Por um moo animoso sustentados
     Contra o indomito Rei de toda Hespanha,
     Contra a Fortuna va, e injustos Fados._

Faria devia saber, e por certo no ignorava que ElRei Dom Fernando de
Castella foi feliz nas armas, razo por que o poeta lhe d o epiteto de
indomito; e que reunio em si varias coras, que d'antes ero separadas e
independentes, razo por que o poeta lhe chama rei de toda Hespanha. E
se em tudo isto reflectisse, em lugar da palavra _pae_, aqui
visivelmente introduzida por mo estranha, teria restabelecido no texto
a palavra _Rei_, que o poeta ahi tinha posto; e com isso nos poupra o
trabalho de o fazer agora.


P. 214. V. 13. _De si ja, no ja s do pobre fato_] Faria e
Sousa. _De si, e do seu gado e pobre fato_] 3. ed. Assim andava este
verso nas primeiras edies; e a verdade he mais antiga, que a mentira.
Restituimos a lio antiga. Porque por gado se entende bois etc., e por
fato, cabras.


P. 217. V. 11. _Do som que no Parnaso se deseja_] Faria e
Sousa. _Do som, que pelo mundo se deseja_] 3. ed. A lio de Faria nos
he suspeita, porque no Parnaso residem Apollo e as Musas; e he de l que
os poetas pretendem haver esse desejado som; e como tal a desprezamos,
restituindo o verso como se lia nas primeiras edies; que he como o
poeta o escreveo.


P. 220. V. 1. _D'altas nuvens vestido_.] Todas as ed. Mas he
rro das copias: deve ler-se:

    D'tras nuvens vestido etc.


P. 224. V. 31. _Quiz descansar  sombra da espessura_] Faria.
He rro, porque espessura no rima com _manifesta_ e _sesta_.
Restituimos o verso, como andava nas primeiras edies:

    Quiz descansar  sombra da floresta.


P. 226. V. 1.
    _Sirene e Nyse que das mos fugiro
    De Tegeo Pan_]
Todas as ed. Mas he vicio das copias, porque no consta que Sirene
fugisse nunca das mos de Pan. Restituimos:

    Syrinx e Nyse.


P. 234. V. 21. _Ja no indignado monte se lanava_] Faria e
Sousa. _Ja no indigno monte se lanava_] 3. ed. Uma e outra lio he
viciosa; a do poeta he:

    Ja indignado no monte se lanava.


P. 236. V. 3. _Ainda agora em herva as folhas viras_] Todas
as ed. Mas he rro, porque o gira-sol, que he a flor em que foi
convertida Clycie, no vra as folhas contra o sol, nem tal disse o
poeta: o que elle disse he que esta nympha inda, depois de transformada
em planta, segue com os olhos o seu amante; mas a ignorancia ou
descuido dos copiadores a _olhos_ substituio _folhas_. Restituimos:

    Ainda agora em herva os olhos viras.


P. 284. P. 4. _Com as mos que maas colhendo andava._]
Todas as ed. Eis-aqui mais um exemplo dos infinitos estragos que nas
obras do poeta tem feito a ignorancia dos copiadores. Este verso como
elle o escreveo he:

    Com a me que maas colhendo andava.


P. 289. V. 15. _Como o mesmo que ento meu mal crescia._]
Faria e Sousa. He rro: corrigimos:

    Com o mesmo etc.


P. 302. V. 28. _Sabe, Cano, que s porque no vejo._] Todas
as ed. Mas o verso como o poeta o escreveo he seguramente assim:

    Sabe, Cano, que s porque o no vejo.


P. 304. V. 26. _Ma figurou nos braos, e assim a tive_] Todas
as ed. Mas aquelle _a_ est aqui de mais para o sentido e para o verso.
Porque o poeta o que diz he, que teve dormindo o que desejou ter
acordado. Corrigimos:

    Ma figurou nos braos, e assi tive.


P. 307. V. 3. _Dos montes descobrindo._] Todas as ed. Mas he
vicio de cpia; porque descobrir dos montes a escurido he avist-la de
l; e o poeta o que diz he que vinha apparecendo a manha, e a escurido
ia descobrindo os montes. Corrigimos:

    Os montes descobrindo.


P. 308. V. 27. _Se mo no impedir o meu desejo._] Todas as
ed. Mas he rro. O poeta est gozando a doce viso da sua amada, e
deseja morrer antes que se lhe desvanea; mas ao mesmo tempo teme, que
esta gloria que est gozando, lhe impida a de morrer, que era o seu
desejo, tornando-lhe a vida. E nesta perplexidade e enleio exclama:
Oh ditosa partida! (a morte) oh gloria soberana alta e subida! (a da
viso que est gozando) se esta lhe no impedir aquella. E a lio neste
lugar he:

    Se me no impedir o meu desejo.


P. 314. V. 25. _ pena vem pequenos._] Todas as ed. O P.
Thomaz d'Aquino corrigio _penna_. Mal, porque estava bem o texto; e se
deve lr _pena_.


P. 321. V. 24. _Pelo que em si se esconde._] Assim se l este
verso nas primeiras ed. Faria e Sousa corrigio _em ti_. Mal, porque o
vicio inda ficou. A verdadeira emenda he:

    Pelo que a si se esconde.


P. 325. V. 21. Este verso diz Faria e Sousa se lia no
manuscripto:

    _Pelo que em si lhe esconde._

Mas foi rro de quem o copiou: deve ler-se

    Pelo que se lhe esconde.


P. 329. V. 19. _No tendo, no, somente por contrarios_]
Faria e Sousa. _No tendo tosomente por contrarios_] 3. ed. A lio
antiga he a verdadeira.


P. 331. V. 26. _Com que a fronte tornada mais serena Torna
os tormentos graves._] Todas as ed. Mas he vicio das copias; porque a
fronte, por mais serena que esteja no pode serenar as agitaes do
animo. Corrigimos:

    Com que, a fronta tornada mais serena,
    Trno os tormentos graves &c.


P. 336. V. 1. _Pouco a pouco invenciveis me sahio._] Todas
as ed. Mas he rro grosseiro dos copiadores.

Corrigimos:

    Pouco a pouco invisiveis me sahio.


P. 339. V. 19. _Os olhos na que corre, e no alcana._] Todas
as ed. Mas he rro palpavel das cpias. Sobre este lugar diz Faria:
_Mirese lo que me viene  embarazar sobre irme desembarazando de tantas
difficuldades destes poemas. Dice aqui: quando pone los ojos en la que
corre. Qu es la que corre? Arriba queda providencia, y luego
consolacion, y despues flaqueza humana; y no hallo que ninguna destas
corre, si no es la flaqueza humana  la muerte; y ni asi lo entiendo
bien_. Mas no tem muito que entender: este lugar est corrompido, como
tantos outros que temos visto: a lio do poeta era _No que corre_: quem
copiou poz _Na que corre_. E o sentido he: Mas a fraqueza humana, quando
lana os olhos no que corre; isto he, no muito que corre com os olhos
d'alma, e no alcana, seno &c.


P. 360. Ode I. A primeira cousa que temos a observar nesta
Ode he: que a Estancia, que principia: _Para ti guarda o sitio fresco
d'Ilio_, e a outra logo seguinte que principia: _De qual panthera ou
tigre ou leopardo_, se acho em todas as edies depois da que comea:
_Por ti feito pastor de branco gado_, onde so absolutamente estranhas;
e procurando ns outro lugar onde pudessem caber, no achamos outro mais
proprio, que depois da 3. Estancia que comea: _Tu que de formosissimas
estrellas_: para aqui as transportamos; ainda que nos parece que,
omittidas inteiramente, fica a Ode mais perfeita.


P. 361. V. 2. _Para ti no Erymantho o lindo Epilio_.] Assim
anda este verso nas primeiras edies. Faria e Sousa julga, com razo,
que est viciado, porque no ha no Erymantho lugar que se chame Epilio:
faz diversas conjecturas, e no sabe determinar-se. Ns julgamos que
deve ler-se Pylio, porque por Pylio se entende a Elide, a que os Gregos
chamavo Caloscopi (bella vista). E assim lhe quadra o epiteto de lindo
que lhe d aqui o poeta. E o verso todo deve corrigir-se assim

    Para ti o Erymantho e o lindo Pylio


P. 361. V. 5. _Deste nosso oriente._] Todas as ed. Mas he
vicio de copia, porque o poeta estava escrevendo em Africa, e no na
India, como se infere desta mesma Ode, onde diz:

    _Olha como suspiro estas ondas,_
    E como o velho Atlante
    O seu collo arrogante
    Move piedosamente
    Ouvindo a minha voz fraca e doente._

E portanto deve ler-se

    Desse nosso Oriente

como Faria diz que vira em um manuscripto.


P. 363. V. 12. _Meu infelice estado._] Todas as ed. Mas he
rro visivel, porque o estado nada lhe podia ordenar, propriamente
fallando: e a verdadeira lio est saltando aos olhos:

    Porque tem ordenado
    Meu infelice Fado &c.


P. 363. V. 19. _Humido inda do pranto._] Todas as ed. Mas he
vicio, porque os sacrificios e offrendas  Noute de noute devem ser
feitos; e este _humido inda do pranto e lagrimas da esposa do cioso
Tito_ denota que ja o sol era nado. E portanto a verdadeira lio he a
que Faria diz encontrra n'um manuscripto:

    _Humido ja do pranto,_

o que d a entender que era sobre manha.


P. 368. V. 13. _E assentareis meus prantos, meus clamores._]
Todas as ed. Mas a verdadeira lio deste lugar he a que nos d o P.
Thomaz d'Aquino.

    E sentireis meus prantos, meus clamores.

Porque o poeta no chama as Nymphas para que venho applacar os seus
prantos e clamores (que esse poder s tinha aquella, que os motivava);
chama-as para que os venho ouvir, e para que vejo a que estado o tem
reduzido o seu amor, e a esquivana da sua amada.


P. 380. V. 19. _Ajuda quem ajuda contra a morte._] Todas as
ed. He vicio: corrigimos

    Ajudai quem ajuda &c.


P. 385. V. 17. _E grita que culpado._] Todas as ed. Mas deve
ler-se

    E grita qu'he culpado,

porque do modo que est, no faz sentido.


P. 388. V. 21.
     _Remette o moo logo
     Para onde estava a chaga sem socgo._]
Todas as ed. Mas que he vicio, no ha duvida, porque a chaga devia elle
ter no corpo, e no podia correr para ella: correo para a chamma, isto
he, para a Nympha donde vinha o fogo que o abrasava. Corrigimos

    Para onde estava a chamma sem socgo.




INDEX.


                                                       Pag.
    PREFAO                                           VII
    VIDA DE LUIS DE CAMES                           XXXII

    SONETOS.

                                                       Pag.
    A chaga que, Senhora, me fizestes                   62
    A formosura desta fresca serra                     135
    A morte, que da vida n desata                      68
    A peregrinao d'hum pensamento                    132
    A perfeio, a graa, o doce geito                  46
    A violeta mais bella que amanhece                   60
     la margen del Tajo, en claro dia                  81
    Acho-me da fortuna salteado                        132
    Agora toma a espada, agora a penna[4]               97
    Ah Fortuna cruel! ah duros Fados                    88
    Ah minha Dinamene! assi deixaste                    86
    Ai amiga cruel! que apartamento                     85
    Alegres campos, verdes arvoredos                    21
    Alegres campos, verdes, deleitosos                 104
    Alma gentil que  firme eternidade                 215
    Alma minha gentil que te partiste                   10
    Amor, com a esperana ja perdida                    26
    Amor he hum fogo que arde sem se ver                41
    Amor, que em sonhos vos do pensamento             105
    Amor, que o gesto humano na alma escreve             5
    Aos homens hum s homem poz espanto                123
    Apartava-se Nise de Montano                         27
    Apollo e as nove Musas, descantando                 26
    Aponta a bella Aurora, luz primeira                121
    Aquella fera humana que enriquece                   38
    Aquella que de pura castidade                       48
    Aquella triste e leda madrugada                     13
    Aqui de longos damnos breve historia                92
    Ar, que de meus suspiros vejo cheio                 58
    rvore, cujo pomo bello e brando                    69
    Ay! quien dar  mis ojos una fuente               112
    Aydame, Seora,  hacer venganza                  108
    Bem sei, Amor, que he certo o que receio            40
    Brandas agoas do Tejo que passando[5]               55
    Busque Amor novas artes, novo engenho                8
    Ca nesta Babylonia donde mana                       98
    Campo! nas syrtes deste mar da vida                 85
    Cantando estava hum dia bem seguro                  87
    Chara minha inimiga, em cuja mo                    12
    Chorai, Nymphas, os fados poderosos                139
    Coitado! que em hum tempo chro e rio               76
    Com grandes esperanas ja cantei                     2
    Como fizeste,  Porcia, tal ferida?                 31
    Como louvarei eu, Seraphim santo                   124
    Como podes (oh cego peccador!)                     118
    Como quando do mar tempestuoso                      41
    Con razon os vais, aguas, fatigando                112
    Contente vivi ja vendo-me isento                   125
    Conversao domstica affeioa                      44
    Correm turbas as agoas deste rio                    98
    Crescei, desejo meu, pois que a Ventura             65
    Criou a natureza Damas bellas                       77
    Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste           114
    Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vos           35
    De amor escrevo, de amor trato e vivo               52
    De Babel sbre os rios nos sentamos                119
    De c, donde somente o imaginar-vos                 59
    De frescas belvederes rodeadas                     102
    De mil suspeitas vas se me levanto                61
    De quantas graas tinha a natureza                  66
    De to divino accento em voz humana[6]              32
    De vs me parto,  vida, e em tal mudana           12
    Debaixo desta pedra est metido                     32
    Debaixo desta pedra sepultada                      116
    Deixa, Apollo, o correr to apressado              125
    Desce do ceo, immenso Deos benino                  100
    Despois de haver chorado os meus tormentos         101
    Despois de tantos dias mal gastados[7]              28
    Despois que quiz Amor que eu s passasse             3
    Despois que vio Cibele o corpo humano[8]            96
    Diana prateada esclarecida                         141
    Ditosa pena, como a mo que a guia[9]               94
    Ditosas almas que ambas juntamente                 124
    Ditoso seja aquelle que somente                     38
    Diversos des reparte o ceo benino                  72
    Divina companhia que nos prados                     81
    Dizei, Senhora, da belleza idea                    138
    Doce contentamento ja passado                      133
    Doce sonho, suave e soberano                       140
    Doces e claras agoas do Mondego                     67
    Doces lembranas da passada gloria                  10
    Dos antigos Illustres que deixro                  44
    Dos ceos  terra desce a mor belleza               100
    Dulces engaos de mis ojos tristes                 113
    Em Babylonia sbre os rios quando                  120
    Em flor vos arrancou de ento crescida[10]           7
    Em formosa Lethea se confia                         14
    Em huma lapa toda tenebrosa                        128
    Em prises baixas fui hum tempo atado                3
    Em quanto Phebo os montes accendia                 141
    Em quanto quiz fortuna que tivesse                   1
    En una selva al dispuntar del dia                   83
    Erros meus, m Fortuna, amor ardente                97
    Esfro grande, igual ao pensamento[11]             45
    Espanta crescer tanto o crocodilo                   95
    Esses cabellos louros e escolhidos                  53
    Est o lascivo e doce passarinho                    16
    Est-se a Primavera trasladando                     15
    Este amor que vos tenho limpo e puro               135
    Este terreste caos com seus vapores                 46
    Eu cantarei de amor to docemente                    2
    Eu cantei ja, e agora vou chorando                  86
    Eu me aparto de vs, Nymphas do Tejo                80
    Eu vivia de lagrimas isento                        137
    Ferido sem ter cura parecia                         35
    Fiou-se o corao de muito isento                  106
    Foi ja n'hum tempo doce cousa amar                  43
    Formosa Beatriz, tendes taes geitos                104
    Formosos olhos, que cuidado dais                   130
    Formosos olhos, que na idade nossa                  20
    Formosura do ceo a ns descida                      34
    Gentil Senhora, se a Fortuna imiga                  72
    Gro tempo ha ja que soube da Ventura               24
    Guardando em mi a sorte o seu direito               86
    He o gozado bem em agoa escrito                     66
    Horas breves de meu contentamento                   91
    Hum firme corao posto em ventura[12]              57
    Hum mover de olhos brando e piedoso                 18
    Huma admiravel herva se conhece                     65
    Illustre e digno ramo dos Menezes[13]                4
    Illustre Garcia, nombre de una moza                129
    Imagens vas me imprime a phantasia                116
    Indo o triste pastor todo embebido                 138
    Ja a roxa e branca Aurora destoucava                36
    Ja cantei, ja chorei a dura guerra                  90
    Ja claro vejo bem, ja bem conheo                   58
    Ja do Mondego as agoas apparecem[14]                56
    Ja he tempo, ja que minha confiana                 25
    Ja me fundei em vos contentamentos                127
    Ja no sinto, Senhora, os desenganos               136
    Julga-me a gente toda por perdido                   76
    Las peas retumbaban al gemdo                      83
    Leda serenidade deleitosa                           40
    Lembranas de meu bem, doces lembranas            130
    Lembranas, que lembrais o bem passado              89
    Lembranas saudosas, se cuidais                     27
    Levantai, minhas Tagides, a frente[15]             114
    Lindo e subtil tranado que ficaste                 22
    Los ojos que con blando movimiento                 107
    Mal, que de tempo em tempo vas crescendo           117
    Males que contra mim vos conjurastes                14
    Mi gusto y tu beldad se desposaron                 110
    Mil veces entre sueos tu figura                   109
    Mil vezes determino no vos ver                     62
    Moradoras gentis e delicadas                        54
    Mudo-se os tempos, mudo-se as vontades            29
    Na desesperao ja repousava                        71
    Na margem de hum ribeiro que fendia                 74
    Na metade do ceo subido ardia                       36
    Naiades, vs que os rios habitais                   29
    Na ribeira do Euphrates assentado                  139
    No ha louvor que arribe  menor parte              59
    No passes, caminhante. Quem me chama?              19
    No vas ao monte, Nise, com teu gado                60
    Nas cidades, nos bosques, nas florestas            126
    Nem o tremendo estrepito da guerra                 106
    N'hum bosque que das Nymphas se habitava            11
    N'hum jardim adornado de verdura                     7
    N'hum to alto lugar de tanto preo                142
    No bastaba que amor puro y ardiente                108
    No mundo poucos annos e cansados                    51
    No mundo quiz o Tempo que se achasse                45
    No regao da me Amor estava                        64
    No tempo que de amor viver sohia                     4
    Nos braos de hum Sylvano adormecendo              103
    Novos casos de Amor, novos enganos[16]              55
    Nunca em amor damnou o atrevimento                  67
    O ceo, a terra, o vento socegado                    87
    O culto divinal se celebrava                        39
    O cysne quando sente ser chegado                    22
    O filho de Latona esclarecido                       69
    O fogo que na branda cera ardia[17]                 20
    O raio crystallino se estendia                      50
    O claras aguas deste blando rio                    109
    Oh arma unicamente s triumphante                  122
    Oh cese ya, Seor, tu dura mano                    113
    Oh como se me alonga de anno em anno                25
    Oh quanto melhor he o supremo dia                  118
    Oh quo caro me custa o entender-te                 49
    Oh rigorosa ausencia desejada                      111
    Olhos, aonde o ceo com luz mais pura                77
    Ondados fios d'ouro onde enlaado                  105
    Ondados fios d'ouro reluzente                       43
    Onde acharei lugar to apartado                     91
    Onde mereci eu tal pensamento                      102
    Onde porei meus olhos que no veja                  56
    Orfeo enamorado que taia                           84
    Ornou sublime esfro ao grande Atlante[18]         95
    Os meus alegres, venturosos dias                    90
    Os olhos onde o casto amor ardia                    94
    Os Reinos e os Imperios poderosos[19]               11
    Os vestidos Eliza revolvia                          49
    Para se namorar do que criou                        99
    Passo por meus trabalhos to isento                  6
    Pede o desejo, Dama, que vos veja                   16
    Pensamentos que agora novamente                     47
    Pois meus olhos no canso de chorar                34
    Pois torna por seu rei e juntamente[20]             96
    Por cima destas agoas forte e firme                 70
    Por gloria tuve un tiempo el ser perdido            82
    Por os raros extremos que mostrou                   23
    Por sua nympha Cphalo deixava                      92
    Porque a tamanhas penas se offerece                101
    Porque a terra no ceo agasalhasse                  121
    Porque quereis, Senhora, que offerea               17
    Posto me tem fortuna em tal estado                 143
    Presena bella, angelica figura                     94
    Pues lgrimas tratais, mis ojos tristes            143
    Pues siempre sin cesar, mis ojos tristes[21]       131
    Qual tem a borboleta por costume                   129
    Quando a suprema dor muito me aperta                74
    Quando da bella vista e doce riso                    9
    Quando de minhas mgoas a comprida                  37
    Quando o sol encoberto vai mostrando                18
    Quando os olhos emprgo no passado                  89
    Quando se vir com agoa o fogo arder                 73
    Quando, Senhora, quiz Amor que amasse              137
    Quando vejo que meu destino ordena                  28
    Quanta incerta esperana, quanto engano            117
    Quantas penas, Amor, quantos cuidados              142
    Quantas vezes do fuso se esquecia                   21
    Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento           88
    Que doudo pensamento he o que sigo[22]              57
    Que esperais esperana? Desespro                   78
    Que estilla a rvore sacra? Hum licor santo        122
    Que levas, cruel Morte? Hum claro dia[23]           42
    Que me quereis, perptuas saudades?                111
    Que modo to subtil da natureza                     73
    Que pode ja fazer minha ventura                    144
    Que poderei do mundo ja querer                      47
    Que venais no Oriente tantos Reis[24]              33
    Quem diz que Amor he falso, ou enganoso            103
    Quem fosse acompanhando juntamente                  39
    Quem jaz no gro sepulcro, que descreve             30
    Quem pde livre ser, gentil Senhora                 31
    Quem pudera julgar de vs, Senhora                  53
    Quem quizer ver d'amor huma excellencia            107
    Quem, Senhora, presume de louvar-vos                54
    Quem ve, Senhora, claro e manifesto                  9
    Revuelvo en la incesable fantasa                   82
    Se a fortuna inquieta e mal olhada                 134
    Se algum'hora essa vista mais suave                 79
    Se as penas com que Amor to mal me trata           30
    Se com desprezos, Nympha, te parece                 63
    Se como em tudo o mais fostes perfeita              78
    Se da clebre Laura a formosura                     52
    Se despois de esperana to perdida                 50
    Se em mim,  alma, vive mais lembrana             128
    Se lagrimas choradas de verdade                    127
    Se me vem tanta gloria s de olhar-te               75
    Se no que tenho dito vos offendo                   133
    Se pena por amar-vos se merece                      42
    Se quando vos perdi, minha esperana                13
    Se somente hora alguma em vs piedade               24
    Se tanta pena tenho merecida                        17
    Se tomo a minha pena em penitencia                  48
    Seguia aquelle fogo que o guiava                    93
    Sempre a razo vencida foi de amor                  75
    Sempre, cruel Senhora, receei                      134
    Senhor Joo Lopes, o meu baixo estado[25]           68
    Senhora ja desta alma perdoae                      140
    Senhora minha, se eu de vs ausente                 63
    Sentindo-se alcanada a bella esposa                93
    Sete annos de pastor Jacob servia                   15
    Si el fuego que me enciende, consumido             110
    Sbre os rios do Reino escuro, quando              120
    Suspiros inflammados que cantais                    37
    Sustenta meu viver huma esperana                  136
    Tal mostra de si d vossa figura                    71
    Tanto de meu estado me acho incerto                  5
    Tanto se foro, Nympha, costumando                  79
    Tem feito os olhos neste apartamento               131
    Todo animal da calma repousava                       8
    Tomava Daliana por vingana                         23
    Tomou-me vossa vista soberana                       19
    Tornae essa brancura  alva aucena                 64
    Transforma-se o amador na cousa amada                6
    Vencido est de amor Meu pensamento                 80
    Verdade, Amor, Razo, Merecimento                  119
    Vi queixosos de Amor mil namorados                 126
    Vs Nymphas da Gangetica espessura[26]             115
    Vs outros que buscais repouso certo                99
    Vs, que de olhos suaves e serenos                  46
    Vs que escutais em rimas derramado                 51
    Vs s podeis, sagrado Evangelista                 123
    Vossos olhos, Senhora, que competem                 33

    ECLOGAS.
                                                       Pag.
    A quem darei queixumes namorados[27]               201
    A rustica contenda desusada[28]                    212
    Agora, Alcido, emquanto o nosso gado               268
    Agora ja que o Tejo nos rodeia                     279
    Ao longo do sereno                                 160
    Arde por Galatea branca e loura                    240
    As doces cantilenas que cantavo[29]               222
    Cantando por hum valle docemente                   189
    De quanto alento e gsto me causava                288
    Despois que o leve barco ao duro remo              242
    Encheo do mar azul a branca praia                  247
    Parece-me, pastor, se mal no vejo                 252
    Pascei, minhas ovelhas: eu em quanto               275
    Passado ja algum tempo que os amores               179
    Que grande variedade vo fazendo[30]               145

    CANES
                                                       Pag.
    A instabilidade da fortuna                         303
    A vida ja passei assaz contente                    356
    Com fra desusada                                 315
    Formosa e gentil Dama, quando vejo                 300
    Ja a roxa manha clara                             307
    Junto d'hum secco, duro e esteril monte            328
    Manda-me Amor que cante docemente                  318
    Manda-me Amor que cante o que a alma sente         322
    Nem roxa flor d'Abril                              340
    Oh pomar venturoso                                 343
    Por meio de humas serras mui fragosas              352
    Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura           349
    Quem com solido intento                            346
    Se este meu pensamento                             311
    Tornei a triste pena                               326
    Vinde c, meu to certo secretario                 322
    Vo as serenas agoas                               309

    ODES.
                                                       Pag.
    A quem daro do Pindo as moradoras                 376
    Aquelle moo fero                                  383
    Aquelle unico exemplo[31]                          378
    Detem hum pouco, Musa, o largo pranto              360
    Fogem as neves frias                               381
    Formosa fera humana                                368
    Ja a calma nos deixou                              389
    Naquelle tempo brando                              386
    Nunca manha suave                                 371
    Pde hum desejo immenso                            373
    Se de meu pensamento                               365
    To suave, to fresca e to formosa                363

    NOTAS                                              395




    [1] A ma intelligencia que Faria e Sousa deo a este verso, o fez
    duvidar se este naufragio foi antes ou depois do desterro, porque
    diz elle: _Deste modo de hablar parece que se infiere que  este
    naufragio sucedi el destierro; pues dice que  aquella fortuna
    suceder el ejecutar-se en l un injusto mandato... Mas los poetas
    en sus clusulas suelen mudar los tiempos: y asi aquello de ser
    ejecutado puede estar por fu ejecutado. Y si no es esto, quedar
    sin poder averiguarlo_. Mas nem he isto por certo, nem de o no ser
    se segue que ao naufragio succedesse o desterro, antes se confirma
    que o precedeo; porque ainda os pouco versados na lingua Portugueza
    no ignoro que o verbo _ser_ tem duas accepes; a de _ser_ e a de
    _estar_: e se na significao propria de _ser_ denotaria, neste
    lugar, o principio da aco, na de _estar_, em que o tomou o poeta,
    denota o complemento e termo della. E sendo este uso to frequente
    ainda nos melhores prosadores, he para admirar que a um homem to
    lido, como Faria e Sousa, podesse causar estranheza ou novidade. Mas
    nem tudo occorre a todos. E para que no succeda o mesmo a alguns
    leitores, julgmos conveniente deixar aqui esta advertencia.

    [2] Os dous irmos Jesuitas, Luis e Martim Gonalves da Camara,
    aquelle confessor, este escrivo da puridade, ou secretario intimo
    de ElRei, que tyrannizavo o reino, e de longe io preparando o
    jugo, que por sessenta annos depois pesou sobre o collo da infeliz
    nao: aos quaes o Bispo Ozorio, indignado de taes escandalos,
    dirigio uma carta, onde se lia o seguinte:

    "Somente lembro a V. R. e ao Sr. Martim Gonalves seu irmo, hajo
    de sustentar esta grandeza, em que os pz a fortuna, como o mundo
    cuida, ou o bem commum como Vossas Mercs dizem; pois nunca vi maior
    esquecimento, que tratarem-se as cousas como nunca se tratro, e
    fazerem a si e a pessoa de um Rei (que naturalmente he amavel) os
    mais aborrecidos, os mais odiosos que nunca houve, antes e depois de
    Dom Pedro o Cru; em tanto que a gente em todolos estados e
    qualidades falla sem medo, e juro os Portuguezes que tomro antes
    ser governados por dous Turcos, que os tratassem com amor e
    prudencia, que do modo que agora o so: que nenhum mal tamanho pde
    vir a este Reino, nem a pessoa propria de ElRei (que o nosso Senhor
    guarde) que no houvessem por grandissima dita, se com isso se
    houvessem de ver livres do estado em que se vem."

    [3] _Esta Cano e a precedente so feitas ao mesmo assumpto; e em
    sentena e dico pouco differem. Quer Faria e Sousa que esta fosse
    a primeira que o poeta escreveo, e que, desgostoso della, passra a
    escrever segunda. Mas para ns no he lquido qual fosse a elegida
    pelo autor, porque, sendo ambas admiraveis, em alguns lugares se
    vencem uma  outra. E no podemos persuadir-nos que ao remate da
    ultima Estancia desta:_

        _E porque no cabia dentro nella
        De bens tamanhos tanto,
        Sahe por a boca convertido em canto_

    _preferisse o poeta o daquell'outra:_

        _Se bem a declarei,
        Eu no a escrevo, da alma a trasladei._

    _por ser este um pensamento, inda que delicado e sublime, por elle ja
    repisado em varios lugares das suas Rimas, e aquelle inteiramente novo
    e peregrino._

                                                      _Nota dos editores._

    [4] Conjectura Faria e Sousa que este Soneto fosse feito a seu av
    Estacio de Faria, amigo de Cames, e como elle poeta e soldado.

    [5] Este Soneto anda impresso nas Rimas de Diogo Bernardes, que o deu
    por seu.

    [6] Em resposta ao Soneto: "Quem he este que na harpa Lusitana."

    [7] Bernardes imprimio este Soneto como seu e  o 77 nas suas Rimas,
    aindaque os seus mesmos contemporaneos o julgavo de Cames,
    imprimindo-o na primeira ed. de suas Rimas.

    [8] A D. Rodrigo Pinheiro, que foi Bispo do Porto, segundo
    conjectura Faria.

    [9] A Manuel Barata, famoso professor de Calligraphia no seculo XVI,
    publicando a sua Arte de escrever em 1572.

    [10]  morte de D. Antonio de Noronha, morto em hum recontro com os
    Mouros, junto a Ceuta em 1553.

    [11] A sepultura de D. Henrique de Menezes, septimo Governador da
    India, fallecido em Goa no anno de 1526.

    [12] Este he tambem hum dos Sonetos que Bernardes publicou por seus,
    e que Faria achou nos M. S. que continho obras de Cames.

    [13] Diversos foro os cavalleiros deste apellido que servro com
    distinco na India no tempo de Cames. Suppomos que o Soneto foi
    feito a D. Fernando de Menezes Baroche, que passou  India com seu
    Pae o Viso-Rei D. Affonso de Noronha, na mesma nao em que ia Cames,
    onde naturalmente contrahro amizade; pois este fidalgo foi
    encarregado por seu pae no anno de 1554 de ir curzar com uma armada
    no Estreito.

    [14] Tambem este Soneto anda nas Rimas de Bernardes.

    [15] A D. Theodosio de Bragana.

    [16] Tambem impresso entre os de Bernardes.

    [17] A D. Guiomar de Blasfet, Dama da Rainha D. Catherina, tendo
    cahido de hum castial uma vela accesa que lhe queimou o rosto.

    [18] A D. Joo de Castro.

    [19] A D. Theodosio de Bragana.

    [20] A D. Luis de Atade, voltando pela segunda vez a governar a
    India, no anno de 1577. Bernardes tambem metteu este Soneto entre os
    seus.

    [21] Em um M. S. foi achado este Soneto com este titulo: _De Luis de
    Cames a uma Dama que lhe enviou uma lagrima entre dous pratos._
    Thomaz d'Aquino.

    [22] Este Soneto, diz Faria e Sousa, em um M. S. se enttula do
    Conde de Vimioso; e anda tambem impresso entre os de Bernardes e he
    o 79.

    [23] Na morte da Infanta D. Maria filha d'ElRei D. Manuel e de sua
    terceira Rainha D. Leonor.

    [24] Ao Viso-Rei D. Luis d'Atade.

    [25] A Joo Lopes Leito, a quem se attribue o Soneto em louvor de
    Cames: "Quem he este que na harpa Lusitana."

    [26] A D. Leoniz Pereira, defendendo valerosamente a praa de Malaca
    de que era Capito, contra o formidavel poder do Achem, em 1568.

    [27] A D. Antonio de Noronha.

    [28] A D. Joo de Lencastro, Duque de Aveiro, neto de D. Joo II.

    [29] A D. Antonio de Noronha.

    [30]  morte de D. Antonio de Noronha e do Principe D. Joo, pae
    d'ElRei D. Sebastio.

    [31] A D. Francisco Coutinho, Conde do Redondo, Viso-Rei da India,
    por occasio de haver Garcia da Orta, famoso Medico Portuguez,
    publicado em Goa em 1563 uma obra intitulada: _Colloquio dos
    Simples, e cousas medicinaes da India_.






End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Cames,
Tomo II, by Lus de Cames

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     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

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1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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