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CONTOS PARA A INFNCIA

ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES POR GUERRA JUNQUEIRO


LISBOA

TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOMS QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL

Rua dos Calafates, 110

1877




*A me*


Estava uma me muito aflita, sentada ao p do bero do seu filho, com
medo que lhe morresse. A criancinha plida tinha os olhos fechados.
Respirava com dificuldade, e s vezes to profundamente, que parecia
gemer; mas a me causava ainda mais lstima do que o pequenino
moribundo.

Nisto bateram  porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuado
numa manta de arrieiro. Era no Inverno. L fora estava tudo coberto de
neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha.

O pobre homem tremia de frio; a criana adormecera por alguns instantes,
e a me levantou-se a pr ao lume uma caneca com cerveja. O velho
comeou a embalar a criana, e a me, pegando numa cadeira, sentou-se
ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
vez com mais dificuldade, pegou-lhe na mozinha descarnada e disse para
o velho:

--Oh! Nosso Senhor no mo h-de levar! no  verdade?--

E o velho, que era a Morte, meneou a cabea duma maneira estranha, em
ar de dvida. A me deixou pender a fronte para o cho, e as lgrimas
corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de
cabea; estava sem dormir havia trs dias e trs noites. Passou
ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a
tremer de frio.

--Que  isto! exclamou, lanando  volta de si o olhar alucinado. O
bero estava vazio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a criana.

       *        *        *        *        *

A pobre me saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma
mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. A Morte entrou-te em
casa, disse-lhe ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
depressa que o vento, e o que ela furta nunca o torna a entregar.

--Por onde foi ela? gritou a me. Diz-mo pelo amor de Deus!

--Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de preto.
Mas s to ensino, se me cantares primeiro todas as canes que cantavas
ao teu filho. So lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lgrimas.

--Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a me. Agora no me
demores, porque quero encontrar o meu filho.--

A Noite ficou silenciosa. A me ento, desfeita em lgrimas, comeou a
cantar. Cantou muitas canes, mas as lgrimas foram mais do que as
palavras.

No fim disse-lhe a Noite: Toma  direita, pela floresta escura de
pinheiros. Foi por a que a Morte fugiu com o teu filho.

A me correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e no
sabia que direco havia de seguir. Diante dela havia um matagal,
cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
cristalizada.

       *        *        *        *        *

--No viste a Morte que levava o meu filho? perguntou-lhe a me.

--Vi, respondeu o matagal, mas no te ensino o caminho, seno com a
condio de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.

E a me estreitou o matagal contra o corao; os espinhos
dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se
de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite
de Inverno frigidssima, tal  o calor febricitante do seio d'uma me
angustiosa.

E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
andando, at que chegou  margem dum grande lago, onde no havia nem
barcos, nem navios. No estava suficientemente gelado para se andar por
ele, e era demasiadamente profundo para o passar a vau. Contudo,
querendo encontrar o seu filho, era necessrio atravess-lo. No delrio
do seu amor, atirou-se de bruos a ver se poderia beber toda a gua do
lago. Era impossvel, mas lembrava-se que Deus, por compaixo, faria
talvez um milagre.

--No! no s capaz de me esgotar, disse o lago. Sossega, e entendamo-nos
amigavelmente. Gosto de ver prolas no fundo das minhas guas, e os teus
olhos so dum brilho mais suave do que as prolas mais ricas que eu
tenho possudo. Se queres, arranca-os das rbitas  fora de chorar, e
levar-te-ei  estufa grandiosa, que est do outro lado: essa estufa  a
habitao da Morte; e as flores e as rvores que esto l dentro,  ela
quem as cultiva; cada flor e cada rvore  a vida duma criatura
humana.

--Oh! o que no darei eu, para reaver o meu filho! disse a me. E
apesar de ter j chorado tantas lgrimas, chorou com mais amargura do
que nunca, e os seus olhos destacaram-se das rbitas e caram no fundo
do lago, transformando-se em duas prolas, como ainda as no teve no
mundo uma rainha.

O lago ento ergueu-a, e com um movimento de ondulao depositou-a na
outra margem, aonde havia um maravilhoso edifcio, com mais de uma lgua
de comprido. De longe no se sabia se era uma construo artstica ou
uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre me no podia ver nada;
tinha dado os seus olhos.

--Como hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho! bradou
ela desesperada.

--A Morte ainda no chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava dum
lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
vieste tu aqui parar? Quem te ensinou o caminho?

--Deus auxiliou-me, respondeu ela. Deus  misericordioso. Compadece-te
de mim, e diz-me onde est o meu filho.

--Eu no o conheo, e tu s cega, disse a velha. H aqui muitas plantas
e muitas rvores, que murcharam esta noite: a Morte no tarda a para
as tirar da estufa. Deves saber, que toda a criatura humana tem neste
stio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem
com ela. Parecem plantas como quaisquer outras, mas tocando-lhes,
sente-se bater um corao. Guia-te por isto, e talvez reconheas as
pulsaes do corao de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o
que tens ainda de fazer?

--J no tenho nada que te dar, disse a pobre me. Mas irei at ao fim
do mundo buscar o que tu quiseres.--Fora daqui no preciso de nada,
respondeu a velha. D-me os teus longos cabelos negros; tu sabes que
so belos, e agradam-me. Troc-los-ei pelos meus cabelos
brancos.--No pedes mais nada do que isso? disse a me. A os tens,
dou-tos de boa vontade.

E arrancou os seus magnficos cabelos, que tinham sido outrora o seu
orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e
inteiramente brancos da velha.

Esta levou-a pela mo  grande estufa, onde crescia exuberantemente uma
vegetao maravilhosa. Viam-se debaixo de campnulas de cristal jacintos
mimosssimos ao lado de penias inchadas e ordinrias. Havia tambm plantas
aquticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas razes se
enovelavam cobras asquerosas.

Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e pltanos
frondosos; depois num outro stio isolado havia canteiros de salsa,
tomilho, hortel e outras plantas humildes que representavam o gnero de
utilidade das pessoas que elas simbolizavam.

Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
pareciam rebentar; mas viam-se tambm florzitas insignificantes, em
vasos de porcelana, na melhor terra, circundadas de musgo, tratadas com
esmero delicadssimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a
essa hora existiam no mundo, desde a China at  Groenlndia.

A velha queria mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a me
impacientada pediu-lhe que a levasse ao stio onde estavam as plantas
pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
corao, e, depois de ter tocado em milhares delas, reconheceu as
pulsaes do corao do seu filho.

-- ele! exclamou, lanando a mo a um aafroeiro, que, pendido sobre
a terra, parecia completamente estiolado.

--No lhe toques, disse a velha. Fica neste stio; e quando a Morte
vier, que no tarda, probe-lhe que arranque esta planta; ameaa-a de
arrancar todas as flores que esto aqui. A Morte ter medo, porque tem
de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem o seu
consentimento.

Nisto sentiu-se um vento glacial, e a me adivinhou que era a Morte,
que se aproximava.

--Como  que deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
primeiro do que eu! Como o conseguiste?--Sou me respondeu ela.

E a Morte estendeu a sua mo ganchosa para o pequenino aafroeiro.

Mas a me protegia-o violentamente com ambas as mos, tendo o cuidado de
no ferir uma s das pequeninas ptalas. Ento a Morte soprou-lhe nas
mos, fazendo-lhas cair inanimadas. O hlito da Morte era mais frio do
que os ventos enregelados do Inverno.

--No podes nada comigo! disse a Morte.--Mas Deus tem mais fora do que
tu, respondeu a me.-- verdade, mas eu no fao seno aquilo que
ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, rvores e
arbustos, quando comeam a murchar, transplanto-as para outros jardins,
um dos quais  o grande jardim do Paraso. So regies desconhecidas;
ningum sabe o que se l passa.

--Misericrdia! misericrdia! soluou a me. No me roubem o meu filho,
agora que acabo de o encontrar! Suplicava e gemia. A Morte
conservava-se impassvel; agarrou ento instantaneamente em duas flores
lindssimas e disse  Morte: Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar,
despedaar no s esta, mas todas as flores que esto aqui!

--No as arranques, no as mates, bradou a Morte. Dizes que s
desgraada, e querias ir partir o corao de outra me!--Outra me!
disse a pobre mulher, largando as flores imediatamente.--Toma, aqui
tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam to suavemente que os tirei
do lago. No sabia que eram teus. Mete-os nas rbitas, e olha para o
fundo deste poo; v o que ias destruir, se arrancasses estas flores.
Vers passar nos reflexos da gua, como numa miragem, a sorte destinada
a cada uma dessas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se
porventura vivesse.

Debruou-se no poo, e viu passar imagens de felicidade e alegria,
quadros risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terrveis de
misria, de angstias e de desolao.

--Nisto que eu vejo, disse a me aflitssima, no distingo qual era a
sorte que Deus destinava ao meu filho.

--No posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto
que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu filho.

A me desvairada, lanou-se de joelhos exclamando: Suplico-te, diz-me:
era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? No  verdade! Fala!
No me respondes? Oh! na dvida, leva-o, leva-o, no v ele sofrer
desgraas to horrveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que  minha
vida. As angstias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos cus.
Esquece as minhas lgrimas, as minhas splicas, esquece tudo o que fiz
e tudo o que disse.

--No te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu
filho ou que o leve para a regio desconhecida de que no posso
falar-te! Ento a me alucinada, convulsa, torcendo os braos,
deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: No me ouas,
Senhor, se reclamo no fundo do meu corao contra a tua vontade que 
sempre justa! No me atendas meu Deus!

E deixou cair a cabea sobre o peito, mergulhada na sua agonia
dilacerante.

E a Morte arrancou o pequenino aafroeiro, e foi transplant-lo no
jardim do paraso.





*O ouro*


Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de ouro,
empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o
resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande
fome no pas.

Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com
que ele ficou todo satisfeito, porque no compreendeu ao princpio
qual era o sentido da rainha; mas, vendo que no lhe traziam mais nada
de comer, comeou a zangar-se. Pediu-lhe ento a rainha, que visse bem
que o ouro no era alimento, e que seria melhor empregar os seus
vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
traz-los nas minas  busca do ouro, que no mata a fome nem a sede, e
que no tem outro valor alm da estimao que lhe  dada pelos homens,
estimao que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro
aparecesse em abundncia.

A rainha tinha juzo.




*Doura e bondade*


H entre vs, meus filhos, ndoles violentas, que no sabem dominar-se,
e que so arrastadas pelas primeiras impresses.  uma pssima
disposio, que  necessrio corrigir; d lugar a disputas, e a que se
cometam aces, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.
Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.

Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
dele, volta-se e d-lhe uma bofetada.

--Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num
cego!

Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns
camponeses grosseiros comearam a apup-lo e a bater no burro, para o
fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a
sua perna aleijada, disse-lhes: Se soubsseis que eu era coxo, no
tereis sido to covardes.

Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma
palavra.

Que vos parece estas duas lies? Estou convencido que aproveitaram a
quem as recebeu.





*O malmequer*


Ouvi com ateno esta pequenina histria!

No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
deveis ter visto muitas vezes. H na frente um jardinzinho com flores,
rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no
meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
olhos vistos, graas ao sol, que repartia igualmente a sua luz tanto por
ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela
manh, j inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe dava
que o vissem no meio da erva e no fizessem caso dele, pobre florinha
insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.

Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira,
sentia-se to feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianas
sentadas nos bancos da escola estudavam a lio, ele, sentado na haste
verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
o que sentia misteriosamente, em silncio, julgava ouvi-lo traduzido com
admirvel nitidez nas canes alegres da cotovia. Por isso ps-se a
olhar com uma espcie de respeito, mas sem inveja, para essa avezinha
feliz que cantava e voava.

Eu vejo e oio, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento
acaricia-me. Oh! no tenho razo de me queixar.

Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocrticas; quanto menos
aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dlias inchavam-se para
parecerem maiores do que as rosas; mas no  o tamanho que faz a rosa.
As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se
pretensiosamente. No se dignavam de lanar um olhar para o pequeno
malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: Como so
ricas e bonitas! A cotovia ir certamente visit-las. Graas a Deus,
poderei assistir a este belo espectculo. E no mesmo instante a
cotovia dirigiu o seu voo, no para as dlias e tulipas, mas para a
relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria no sabia o que
havia de pensar.

O passarinho ps-se a saltitar  roda dele, cantando: Como a erva 
macia! oh! que encantadora florinha, com um corao de oiro, vestida de
prata!

No se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com
o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do
firmamento. Durante mais de um quarto de hora no pde o malmequer
reprimir a sua comoo. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou
para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as
tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
pontiaguda manifestava o despeito. As dlias tinham a cabea toda
inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradveis
ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.

Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
uma a uma.

Que desgraa! disse o malmequer suspirando;  horrvel; foram-se
todas.

E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se por
ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando
reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.

No dia seguinte de manh, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao
ar e  luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,
muitssimo triste. A pobre cotovia tinha boas razes para se afligir:
haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela
aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas
antigas viagens atravs do espao ilimitado.

O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
difcil. A compaixo pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe
esquecer inteiramente as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e
a alvura resplandecente das suas prprias folhas.

Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mo
uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que no podia compreender o
que desejavam.

Podemos arrancar daqui um pedao de relva para a cotovia, disse um dos
rapazes, e comeou a fazer um quadrado profundo  volta da florinha.

--Arranca a flor, disse o outro.

A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era
morrer; e nunca tinha abenoado tanto a existncia, como no momento em
que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.

No; deixemo-la, disse o mais velho. Est a muito bem.

Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.

O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia
com as asas nos arames da gaiola. O malmequer no podia, apesar dos seus
desejos, articular-lhe uma palavra de consolao.

Passou-se assim toda a manh.

J no tenho gua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
deixarem ao menos uma gota de gua. A garganta queima-me, tenho uma febre
terrvel, sinto-me abafada! Ai! No h remdio seno morrer, longe do
sol esplndido, longe da fresca verdura e de todas as magnificncias da
criao!

Depois enterrou o bico na relva hmida para se refrescar um pouco. Viu
ento o malmequer; fez-lhe um sinal de cabea amigvel, e disse-lhe,
afagando-o: Tambm tu, pobre florinha, morrers aqui! Em vez do mundo
inteiro, que eu tinha  minha disposio, deram-me um pedacito de relva,
e a ti s por nica companhia. Cada pezinho de relva substitui para mim
uma rvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorfera. Ah!
como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!

--Se eu pudesse consol-la! pensava o malmequer, incapaz de fazer o
mnimo movimento.

Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume;
a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
arrancar a erva, teve todo o cuidado em no tocar nem sequer de leve na
flor.

Caiu a noite; no estava ali ningum, para trazer uma gota de gua 
desditosa cotovia; Estendeu ento as suas belas asas, sacudindo-as
convulsivamente, e ps-se a cantar uma canozinha melanclica; a sua
cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu corao quebrado de desejos e
de angstias cessou de bater. Vendo este triste espectculo, o malmequer
no pde como na vspera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se
para o cho, doente de tristeza.

Os rapazitos s voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
rebentaram-lhe as lgrimas e abriram uma cova. Meteram o cadver dentro
de uma caixa vermelha, lindssima, fizeram-lhe um enterro de prncipe, e
cobriram o tmulo com folhas de rosas.

Pobre passarinho! Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e
deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto  que o choraram
e lhe fizeram honrarias pomposssimas.

A relva e o malmequer lanaram-nas para a poeira da estrada; daquele
que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ningum se lembrou.





*No quero*


Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito
alto: No, dizia um com voz enrgica, no quero. Parei e
perguntei-lhe:--O que  que tu no queres, meu rapaz?--No quero dizer
 mam que venho da escola, porque  mentira. Sei que me h-de ralhar,
mas antes quero que me ralhe do que mentir.--E tens razo, disse-lhe
eu. s um rapaz como se quer. Apertei-lhe a mo, enquanto que o outro
pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
todo envergonhado.

Da a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de falar com o
professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois
pequenos; o que no quis mentir, sorria-me, enquanto que o outro,
vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro,  um magnfico
estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a
confessar as suas faltas e o que  ainda melhor, a repar-las. O outro
pelo contrrio,  mentiroso, covarde e incorrigvel.--No me espanto,
disse eu, j tinha tirado o horscopo destas duas crianas; e
contei-lhe o que tinha ouvido.




*Piloto*


Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos ces, e o
infatigvel companheiro dos brinquedos das crianas da quinta.

Fazia gosto v-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que Joo lhe
lanava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e
trazia-o  margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irm
Joaninha.

Esta brincadeira recomeava vinte vezes sem cansar nunca a pacincia do
Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, at que o
assobio do criado da quinta chamava o fiel animal s suas obrigaes:
partia ento como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos
pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.

Quando o hortelo ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda
da carroa; e muito atrevido seria quem saltasse  noite a parede da
quinta.

Uma vez deu prova de uma extraordinria sagacidade; um jornaleiro, que se
empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa,
tentou de noite roubar um saco.

Piloto, que o conhecia, no fez a menor demonstrao de hostilidade
em quanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou
tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o
largar.

Era como se dissesse: Onde vais tu com o trigo de meu dono?

O ladro quis pr ento outra vez o saco donde o tinha tirado; Piloto
no consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, at de
manh; o quinteiro foi dar com ele nesta difcil posio,
repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o no
desonrar.

Mas o homem ficou com dio ao co, e muito tempo depois, aproveitando a
ausncia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
ele sem desconfiana; atou-lhe uma corda ao pescoo e arrastou-o at 
margem do ribeiro.

Atou uma grande pedra  outra extremidade da corda e levantando o animal
atirou-o  gua; mas arrastado ele prprio com o peso e com o esforo,
caiu tambm.

Como no sabia nadar, teria sido despedaado pela roda do moinho, se o
corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e
desembaraando-se da pedra mal atada, no tivesse mergulhado duas vezes
e trazido para terra o seu mortal inimigo.

Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o
co que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.

Teve vergonha de seu acto miservel; e desde esse dia, violentou-se a si
mesmo e combateu as suas ms inclinaes.

O exemplo do co corrigiu o homem.




*O rico e o pobre*


Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
deitou-se debaixo de uma rvore,  porta de uma estalagem, junto da
estrada. Estava comendo um bocado de po que tinha trazido para jantar,
quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos
viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que no tinham tempo,
e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
vinho.

Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua
cdea de po, para a sua velha jaqueta, para o seu chapu todo roto, e
suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino to rico,
em vez do desgraado Martinho! Que fortuna se ele estivesse aqui, e eu
dentro daquela carruagem! O preceptor ouviu casualmente o que dizia
Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lanando a cabea fora da
carruagem, chamou Martinho com a mo.

--Ficarias muito contente, no  verdade, meu rapaz, podendo trocar a
minha sorte pela tua?--Peo que me desculpe senhor, replicou Martinho
corando, o que eu disse no foi por mal.--No estou zangado contigo,
replicou o fidalguinho, pelo contrrio, desejo fazer a troca.

--Oh! est a divertir-se comigo! tornou Martinho, ningum quereria estar
no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando
muitas lguas por dia, como po seco e batatas, enquanto que o senhor
anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.--Pois bem,
volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu
no tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo. Martinho
ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
preceptor continuou: Aceitas a troca?--Ora essa! exclamou Martinho,
ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada
de me ver entrar nesta bela carruagem! E Martinho desatou a rir com a
ideia da entrada triunfante na sua aldeia.

O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma
perna de pau e que a outra era to fraca, que se via obrigado a andar em
duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou
que era muito plido e que tinha cara de doente.

Sorriu para o rapazito com ar benvolo, e disse-lhe:--Ento sempre
desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas
valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter uma carruagem e
andar bem vestido?--Oh! no, por coisa nenhuma! replicou
Martinho.--Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
tivesse sade. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e doente, sofro
os meus males com pacincia e fao por ser alegre, dando graas a Deus
pelos bens que me concedeu na sua infinita misericrdia.

Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se s pobre e comes mal,
tens fora e sade, coisas que valem mais que uma carruagem, e que no
podem comprar-se com dinheiro.





*Como um campons aprendeu o Padre Nosso*


Tinha o corao duro, e no dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
confessor deu-lhe por penitncia rezar sete vezes o Padre Nosso.

No o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeo.

Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitncia dar a
crdito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da
minha parte.

No dia seguinte de manh apresentou-se o primeiro pobre.

Como te chamas? perguntou-lhe o campons.

Padre--Nosso--Que--Estais--No--Cu, respondeu o pobre.

E o teu apelido?

Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.

E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.

Ao outro dia chega segundo pobre.

Como te chamas?

Venha--A--Ns--O--Vosso--Reino.

E o teu apelido?

Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.

E partiu com o seu alqueire de trigo.

Veio terceiro pobre.

Como te chamas?

Assim--Na--Terra--Como--No--Cu.

E o teu apelido?

Dai-nos--Hoje--O--Po--Nosso--De--Cada--Dia.

E levou o seu alqueire.

Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma
forma at chegar ao _Amen_.

Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeo.

Ento j sabes o Padre Nosso?

No, sr. cura, sei s os nomes e apelidos dos pobres a quem emprestei
o meu trigo.

Quais so? tornou o padre.

E o aldeo enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
apresentado.

J vs, disse o confessor, que no era muito difcil aprender o Padre
Nosso, porque j o sabes perfeitamente.




*O talism*


Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma indstria, mas
com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
que no era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negcios com
uma actividade infatigvel, enquanto que o segundo, entregue
inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direco da
sua casa.

Explica-me, disse um dia este ltimo ao seu colega, qual  a razo
porque a sorte nos trata de um modo to diferente? Vendemos as mesmas
mercadorias, a minha loja est to bem situada como a tua, e apesar
disso, enquanto tu ganhas, eu no fao seno perder. E no  porque eu
seja estroina; no bebo, nem jogo. J tenho pensado algumas vezes se no
ters tu por acaso algum precioso talism.

Efectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um talism de uma
virtude incomparvel. Trago-o ao pescoo, e ando assim com ele todo o
dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o
celeiro. E o caso  que tudo me corre perfeitamente.

Ol meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa relquia
preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta
restituo.

Pois vem busc-la amanh de manh.

Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
apresentou-lhe este uma avel, atravs da qual tinha passado um
fio de seda.

O nosso homem p-la imediatamente ao pescoo, e comeou a correr toda a
casa com o talism. Observou ento a completa desordem que por toda a
parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
cozinha o po, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o trigo, o
feijo; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjedouras dos
cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
escriturados; viu tudo isto, e que era necessrio dar-lhe remdio,
compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substitudo por
terceira pessoa na direco dos seus negcios.

Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talism,
agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em
segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.




*A alma*


Mam, nem todas as crianas que morrem vo para o Paraso. O outro dia
vi levar para o cemitrio um menino que tinha morrido; o seu pap e as
suas duas irmzinhas acompanhavam o caixo, e choravam tanto que me
fazia pena. Iam a chorar porque aquele menino tinha sido mau, no 
verdade?

No; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, enquanto choravam seus
pais e suas irms, j estava vivendo feliz no Paraso.

A alma? mam; no sei o que ; no compreendo bem.

Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
pequerruchas.

Tive sim, mam, tive muita pena.

Ora bem, o que  que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
braos?

No, mam.

Eram as orelhas?

Oh! no mam, era _c dentro_.

Esse _l dentro_, Maria,  a tua alma que se alegra ou se entristece,
que te repreende quando fazes o mal, e que est satisfeita quando
praticas o bem.




*Alberto*


Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu pai e seus
irmos, que eram activos e laboriosos, plantar rvores e fazer
sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um nico
feijo produzir cem feijes e muitas vezes mais, e de uma talhada de
batata nascerem quarenta batatas magnficas; sabia que a terra pagava
com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
quarto do pai, e foi enterr-la imediatamente no seu jardinzinho. H-de
nascer uma rvore, dizia ele consigo, que dar libras como uma
cerejeira d cerejas, e irei entreg-las ao pap, que ficar muito
contente. Todas as manhs ia ver se a libra tinha nascido, mas no
rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda a parte. Por
fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.

Vi pap; achei-a e fui seme-la.

Como, seme-la? doido! julgas talvez que vai nascer como uma couve?

Mas, pap, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.

 verdade, mas no nasce como uma semente; o oiro no tem vida.

Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
no pertencia.

H contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
produzir os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como
?  dando-o aos pobres. Faz-se no Paraso a colheita dessa sementeira.




*A cano da cerejeira*


Disse Deus na Primavera: Ponham a mesa s lagartas! E a cerejeira
cobriu-se imediatamente de folhas, milhes de folhas, fresquinhas e
verdejantes.

A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiou-se,
abriu a boca, esfregou os olhos e ps-se a comer tranquilamente as
folhinhas tenras, dizendo: No se pode a gente despegar delas. Quem 
que me arranjou este banquete?

Ento Deus disse de novo: Ponham a mesa s abelhas! E a cerejeira
cobriu-se imediatamente de flores, milhes de flores delicadas e
brancas.

E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre elas,
dizendo: Vamos tomar o nosso caf; e que chvenas to bonitas em que o
deitaram!

Provou com a linguita, exclamando: Que deliciosa bebida! No pouparam o
acar!

No Vero disse Deus: Ponham a mesa aos passarinhos! E a cerejeira
cobriu-se de mil frutos apetitosos e vermelhos.

Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasio; temos apetite,
e isto dar-nos- novas foras para podermos cantar uma nova cano. No
Outono disse Deus: Levantai a mesa, j esto satisfeitos. E o vento
frio das montanhas comeou a soprar, e fez estremecer a rvore.

As folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caram uma a uma, e o
vento que as lanou ao cho erguia-as novamente, fazendo-as esvoaar.

Chegou o Inverno e disse Deus: Cobri o resto! E os turbilhes dos
ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descansa.




*Os gigantes da montanha e os anes da plancie*


Era uma vez uma famlia de gigantes, que viviam num castelo na
montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum
lamo. Era curiosa e andava com vontade de descer  plancie a ver o que
faziam l em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anes.
Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido  caa e sua me estava
dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os
jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os
lavradores, coisas inteiramente novas para ela. Oh! que lindos
brinquedos! exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
quase que cobriu o campo. Lanou-lhe dentro os homens, os cavalos, a
charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo,
onde seu pai estava a jantar.

--Que trazes a, minha filha? perguntou ele.

--Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos. So os
mais bonitos que tenho visto.

E p-los em cima da mesa, a um e um,--os cavalos, a charrua e os
trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
tivessem transportado dum formigueiro para um salo. A gigantinha
ps-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
fez-se srio e franziu o sobrolho. Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso
no so brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e pe-no
imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
montanha, morreriam de fome, se os anes da plancie deixassem de lavrar
a terra e de semear o trigo.




*A criana, a anjo e flor*


Quando morre uma criana, desce um anjo do cu, toma-a nos braos, e
desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os stios que
ela amara durante a sua pequenina existncia; o anjo abaixa-se de
quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresam
no paraso ainda mais belas do que tinham sido na terra. Deus recebe
todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os lbios, e a flor
escolhida, adquirindo voz imediatamente, comea a cantar os coros
maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma
criana morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram primeiro
sobre a casa em que a criana brincara, e depois sobre jardins
deliciosos, cobertos de flores.

Qual  a flor que desejas para plantar no paraso? perguntou o anjo.

Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
magnfica; mas quebraram-lhe o p, e todos os seus ramos cheios de
botezinhos lindssimos pendiam estiolados para o cho.

Pobre roseira! disse a criana ao anjo; vamos busc-la para que possa
reflorir no paraso.

O anjo foi busc-la, e abraou a criana. Colheram muitas flores
brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.

A colheita estava terminada, e contudo no voavam ainda para Deus. Caiu
a noite silenciosa, e a criana e o seu guia Divino andavam ainda por
cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
de cacos de loua, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
imundcie. Entre estes destroos distinguiu o anjo um vaso de flores
com a terra pelo cho, onde pendiam as longas razes duma flor dos
campos, j murcha, e que parecia no poder reverdecer: tinham-na
atirado para a rua como intil e morta.

Vale a pena levant-la disse o anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando,
te contarei a histria da florinha. L ao fundo, l ao fundo, naquela
rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criana miservel e
doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear
com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
de Vero os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
Ento a criana sentada  janela, aquecida pelo sol, sem o cansao do
andar, imaginava-se passeando; no conhecia da floresta, da fresca
verdura da primavera, seno o ramo de faia, que uma vez o filho do
vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabea o ramo
verdejante, e, supondo-se debaixo das rvores abrigadas do sol, sonhava
com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe
flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda
razes; o pequerrucho plantou-a num vaso, e p-lo  janela, junto da
cama. A flor plantada por mo abenoada, cresceu, tornou-se grande, e
todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu nico
tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
aproveitar os raios do sol at ao ltimo. A flor aparecia-lhe em
sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e
ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se
voltou.

Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no paraso; a sua querida
flor, esquecida  janela desde ento, murchou, estiolou-se e
atiraram-na  rua finalmente. E contudo esta flor quase seca  o
tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
canteiros dum jardim realengo.

Como sabes tu isso? perguntou a criana, que o anjo levava para o cu.

--Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
em muletas; como no havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!

A criana abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
no cu onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
levou-as ao corao, mas a que ele beijou foi a florinha silvestre,
desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente, ps-se a cantar
com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe,
formando crculos que vo aumentando sucessivamente, multiplicando-se
at ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
harmoniosamente--desde a criana abenoada at  humilde florinha do
campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e
tortuosa.





*Presente por presente*


Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite
 choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda no tinha chegado, foi
a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
pde, desculpando-se da miservel hospitalidade que lhe ia dar, porque
eram batatas cozidas a nica coisa que lhe poderia oferecer; cama no a
tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faises,
e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de prncipes. Ao
outro dia pela manh disse isto mesmo  pobre mulher, gratificando-a ao
despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
dito que a guardasse como uma pequena lembrana, a boa camponesa julgou
que seria uma medalha, e sentiu que no tivesse um buraquito para a
trazer ao pescoo. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:

Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso prncipe!

E o bom do homem no podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
achado as suas batatas melhores do que faises.

 necessrio confessar, disse ele com um ar triunfante, que no h
talvez no mundo um terreno mais favorvel do que este para a cultura das
batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, j que as acha to boas.

E partiu imediatamente para o palcio com uma proviso de batatas
escolhidas.

Os lacaios e as sentinelas ao princpio no o queriam deixar entrar;
mas insistiu energicamente, dizendo que no vinha pedir nada, e que pelo
contrrio vinha trazer alguma coisa.

Foi, pois, introduzido na sala da audincia.

Meu senhor, disse ele ao prncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente
pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma pea de ouro, em troca
duma enxerga miservel e de um prato de batatas cosidas. Era pagar
demasiadamente, apesar de serdes um prncipe muito rico e poderoso. Eis
o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faises. Dignai-vos
aceit-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, l
as encontrareis sempre ao vosso dispor.

A honrada simplicidade do campons agradou ao prncipe, e, como estava
num momento de bom humor, fez-lhe doao de uma quinta com trinta
jeiras de terra.

Ora o carvoeiro tinha um irmo muito rico, mas invejoso e avarento, que,
sabendo da fortuna do irmo mais novo, disse consigo: Porque no me h
de suceder a mim outro tanto? O prncipe gosta do meu cavalo, pelo
qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer
presente dele: se deu ao Joo uma quinta com trinta jeiras de terra,
simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me h de
recompensar ainda mais generosamente.

Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
palcio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com ar
altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audincia.

Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; no
tenho querido troc-lo a dinheiro, mas dignai-vos permitir-me que vo-lo
oferea.

O prncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
consigo: Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:

Depois dirigindo-se a ele:

Aceito a tua ddiva, mas no sei como agradecer-ta condignamente. Oh!
espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
faises. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que  um bom
preo para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.

E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.





*O pinheiro ambicioso*


Era uma vez um pinheiro, que no estava contente com a sua sorte. Oh!
dizia ele, como so horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!

O Gnio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manh acordou o
pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
mais sensatos do que ele, no invejavam a sua rpida fortuna.  noite
passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num
saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos ps  cabea.

Oh! disse ele, que doido que eu fui! no me tinha lembrado da cobia
dos homens. Fiquei completamente despido. No h agora em toda a
floresta uma planta to pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
o oiro atrai as ambies.

Ah! se eu arranjasse um vesturio de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
avarento no me teria despido.

No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o cu cobriu-se de
nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as
folhas de cristal.

Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra todo feito em
pedaos o seu manto cristalino. O oiro e o vidro no servem para vestir
as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria
menos brilhante, mas viveria descansado.

Cumpriu-se o seu ltimo desejo, e, apesar de ter renunciado s vaidades
primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
outros pinheiros seus irmos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas
todas sem deixar uma nica.

O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, j queria voltar  sua
forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
sua sorte.





*Perfeio das obras de Deus*


_A filha_.--Oh! mam quebrou-se-me a agulha.

_A me_.--Vou-te dar outra.

_A filha_.--Como se fazem as agulhas, mam?

_A me_.--V se adivinhas.

_A filha_.--No sei, mam.

_A me_.--Conheces os metais?

_A filha_.--Conheo mam; tenho l dentro muitos bocadinhos dentro de
uma caixa.

_A me_.--Ora muito bem, diz-me l, as agulhas so de pau, de pedra, de
mrmore?

_A filha_.--Oh! no; so de metal; mas de que metal?

_A me_.--Antes de perguntar qualquer coisa, v sempre se a adivinhas
primeiro.

_A filha_.--Ora espere!... uma agulha  de metal: no  de prata, porque
no  branca; no  de oiro, porque no  de um lindo amarelo muito
brilhante; no  de cobre, porque no  de um amarelo muito feio, que
cheira mal... Ento  de ferro, mam?

_A me_.--Adivinhaste.

_A filha_.--Mas, mam, o ferro no  liso e brilhante como as agulhas.

_A me_.-- que  primeiro polido e preparado de certo modo, e depois j
se no chama ferro,  ao.

_A filha_.--Bem, as agulhas so de ao. Agora quero adivinhar como  que
as fazem.

_A me_.-- impossvel, no s capaz disso; mas hei de levar-te a uma
fbrica onde se fazem agulhas. Hs-de v-las fazer, e hs-de gostar
muito.

_A filha_.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
nos servimos.

_A me_.--Tens razo;  uma vergonha ignor-lo.

_A filha_.--Mam, deixe-me ver as suas agulhas.

_A me_.--Olha, a tens o meu estojo.

_A filha_.--Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! So to
fininhas, to fininhas!... Muita habilidade h-de ser necessria para
fazer uma coisinha to delicada!

_A me_.--Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?

_A filha_.--Lembro, mam; era to bonito!

_A me_.--Li num jornal alemo que um operrio chamado Nerlinger fez
um copo de um gro de pimenta, e que dentro deste copo havia mais
doze...

_A filha_.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem num
gro de pimenta!

_A me_.--E ainda no  tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas
doiradas, e sustentava-se no p.

_A filha_.--Que vontade eu tinha de ver isso!

_A me_.--Tens razo de te admirares da habilidade dos homens. 
efectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
certas coisas; contudo ainda h outras obras mais dignas de admirao.

_A filha_.--Quais, mam?

_A me_.--J to digo. (_Levanta-se_.)

_A filha_.--Que quer, mam?

_A me_.--Quero que vejas o microscpio de teu pap.

_A filha_.--Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscpio.

_A me_.--Este  magnfico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais
ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como  fina,
lisa e brilhante... Agora olha; o que  que vs?

_A filha_.--Meu Deus, que coisa to feia! Que agulha to grosseira!

_A me_.--Vs-lhe buracos, riscos, asperezas, no  verdade?

_A filha_.--Parece um prego muito grande e muito mal feito.

_A me_.--Pois todas essas imperfeies so verdadeiras, existem na
agulha; a nossa vista, por ser muito fraca,  que no d por elas.

_A filha_.--O operrio que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
visse ao microscpio.

_A me_.--Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.

_A filha_.--O qu, mam?

_A me_.--O aguilhozinho de uma abelha.

_A filha_--Oh! que pequenino, que bonito!... Como  liso, como 
brilhante!... Mas j sei que visto ao microscpio h de acontecer o
mesmo que com a agulha.

_A me_.--Pronto: olha.

_A filha_ (olhando).-- esquisito, mam!

_A me_.--Ento?

_A filha_.--Aumentou, aumentou como a agulha, mas no  spero, pelo
contrario,  perfeitamente liso... A agulha parecia que no tinha ponta,
e o ferrozinho da abelha tem uma ponta to fina como um cabelo. Porque
ser isto, mam?

_A me_.-- porque o operrio que fez este aguilho  muito mais hbil
do que o que fez a agulha.

_A filha_.--Quem  esse operrio to hbil?

_A me_.-- o mesmo que fez o cu, os astros, a terra, as plantas e as
criaturas.

_A filha_.-- Deus.

_A me_.--Exactamente. Pois no  Deus que fez as abelhas e todos os
animais?

_A filha_.--De certo.

_A me_.--Foi ele por conseguinte que fez o aguilho desta abelha; e
a tens porque o aguilho  superior  agulha:  obra de Deus. Mas
continuemos a olhar pelo microscpio. Aqui est um pedacinho de
musselina finssima. Olha pelo microscpio; o que  que vs?

_A filha_.--Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal feita.

_A me_.--Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadssima.

_A filha_,--Essa estou bem certa que h de ser linda, mesmo vista pelo
microscpio.

_A me_.--Ento?

_A filha_.-- horrorosa... Parece feita de pelos grosseiros com grandes
buracos desiguais.

_A me_.--As obras do homem so todas assim.

_A filha_.--Oh! mam, vejamos agora as obras de Deus.

_A me_.--Sabes o que  isto?

_A filha_.--Sei, mam,  um casulo de bicho de seda.

_A me_.--Os fiozinhos que o compem so muito finos, muito lisos; olha
pelo microscpio a ver se te parecem desiguais.

_A filha_ (olhando pelo microscpio).--No, mam; os fios so todos
iguais, e o casulo  sempre muito liso, muito brilhante.

_A me_.-- porque  obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que h
sobre este papel?

_A filha_.--Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas redondas feitas
tambm com tinta.

_A me_.--Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
redondos?

_A filha_.--Sim, mam, perfeitamente redondos.

_A me_.--V-os agora ao microscpio.

_A filha_.--Oh! j no so redondos, so todos desiguais.

_A me_.--Tira o papel; vejamos a obra de Deus.  uma asa de borboleta;
vs que est mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
microscpio; o que  que vs?

_A filha_.--Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, s com a diferena
que agora  maior. Que belas que so as obras de Deus!

_A me_.--Merece bem a pena estud-las.

_A filha_.--De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
dos homens.

_A me_.--E sempre e em tudo hs-de encontrar defeitos nas obras do
homem, enquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
primeira  que Deus merece tanto a nossa admirao como o nosso amor; a
segunda  que os homens orgulhosos so insensatos, porque no podem
fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras
mais primorosas so cheias de imperfeies, se as compararmos com as
obras do Criador.




*Joo e os seus camaradas*


Era uma vez uma viva com um filho nico. Ao cabo dum Inverno rigoroso,
possua apenas um galo, e meio alqueire de farinha. Joo resolveu-se a
correr mundo,  busca de fortuna. A me cozeu o resto da farinha, matou
o galo, e disse-lhe:

O que  que preferes: metade desta merenda com a minha bno, ou toda
com a minha maldio?

Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros h no
mundo eu quereria a tua maldio.

Bem, meu filho, replicou a me carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
abenoe.

E partiu. Foi andando, andando, at que encontrou um jumento, que tinha
cado num atoleiro, donde no podia sair.

Oh! Joo, exclamou o burro, tira-me daqui, que estou quase a
afogar-me.

Espera, respondeu Joo.

E, formando uma ponte com pedras e ramos de rvores, conseguiu tirar o
quadrpede do atoleiro.

Obrigado, disse-lhe ele, aproximando-se de Joo. Se te posso ser til,
aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?

--Vou por esse mundo fora, a ver se ganho a minha vida.

Queres tu que eu te acompanhe?

Anda da.

E puseram-se a caminho.

Ao passarem por uma aldeia, viram um co perseguido pelos rapazes da
escola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
animal correu para Joo que o acariciou, e o jumento ps-se a ornear de
tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.

Obrigado, disse o rafeiro a Joo. Se para alguma coisa te for
prestvel, aqui me tens s tuas ordens. Aonde vais tu?

Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha vida.

Queres que te acompanhe?

Anda da.

Quando saram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno tirou a
merenda do alforge, e repartiu-a com o co. O burro pastou alguma erva
que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato esfaimado a miar
lastimosamente.

Coitado, exclamou Joo! E deu-lhe uma asa do frango.

--Obrigado disse o gato. Oxal que um dia eu te possa ser til. Aonde
vais tu?

--Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.

--De boa vontade.

Os quatro viajantes puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um
grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
galo na boca.

Agarra! agarra! bradou o pequeno ao co.

E no mesmo instante o co atirou-se atrs da raposa, que, vendo-se em
perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando de contente
disse a Joo:

--Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vais tu?

--Arranjar trabalho. Queres vir connosco?

--De boa vontade.

--Ento anda. Se te cansares, empoleira-te no jumento.

Os viajantes continuaram a jornada com o seu novo companheiro.
Sentiram-se todos fatigados e no avistavam  roda nem uma quinta, nem
uma cabana.

--Pacincia, disse Joo, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
hoje a dormir ao ar livre; alm disso a noite est sossegada, e a relva
 macia.

Dito isto estendeu-se no cho; o jumento deitou-se ao lado dele, o co
e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o galo
empoleirou-se numa rvore.

Dormiam todos um sono profundssimo, quando de repente o galo comeou
a cantar.

--Que demnio! disse o jumento acordando todo zangado. Porque  que
ests a gritar?

--Porque j  dia, respondeu o galo. No vs ao longe a luz da
madrugada, que vem rompendo?

--Vejo uma luz, disse Joo, mas no  do sol,  duma lanterna.
Provavelmente h ali alguma casa, onde nos poderamos recolher o resto
da noite.

Foi aceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravs
dos campos, at que parou junto da casa do guarda dum grande castelo,
donde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
blasfmias horrveis.

--Escutem, disse Joo; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
 que est l dentro.

Eram seis ladres armados de pistolas e de punhais, que se banqueteavam
alegremente, sentados a uma mesa principesca.

--Que bom assalto acabmos de dar, disse um deles, ao castelo do
conde, graas ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que  este
porteiro.  sua sade!

-- sade do nosso amigo! repetiram em coro todos os ladres.

E dum trago despejaram os copos.

Joo voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:

--Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa gritaria diablica.

O burro, levantando-se nas patas traseiras, lanou as mos ao peitoril
duma janela, o co trepou-lhe  cabea, o gato  cabea do co e o
galo  cabea do gato. Joo deu o sinal, e estoirou  uma o ornear do
jumento, os latidos do co, o miar do gato e os gritos estridentes do
galo.

--Agora, bradou Joo, fingindo que comandava um destacamento, carregar
armas! Dai-me cabo dos ladres; fogo!

No mesmo instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando
cada vez mais; os ladres atemorizados refugiaram-se no bosque, saindo
precipitadamente por uma porta falsa.

Joo e os seus companheiros penetraram na sala abandonada, comeram um
excelente jantar, e deitaram-se em seguida--Joo numa cama, o burro na
cavalaria, o co numa esteira ao p da porta, o gato junto do fogo e
o galo num poleiro.

Ao principio os ladres ficaram muito contentes, por se verem sos e
salvos na floresta. Mas depois, comearam a reflectir.

--Era bem melhor a minha cama, do que esta erva to hmida, disse um
deles.

--Tenho pena do frango que eu comeava a saborear, disse um outro.

--E que rico vinho aquele! acrescentou o terceiro.

--E o que  mais lamentvel, exclamou um quarto,  ficar-nos l todo o
dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tnhamos tirado das
gavetas.

--Vou ver se torno l a entrar? disse o capito.

--Bravo! exclamaram os ladres.

E ps-se a caminho.

J no havia luz na casa; o capito entrou s apalpadelas, e dirigiu-se
para o fogo; o gato saltou-lhe  cara e esfarrapou-lha com as garras.
Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
rabo do co, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o galo
atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com as unhas.

--Anda o diabo nesta casa! exclamou o capito, como poderei eu sair!

Julgou encontrar refgio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
parelha de coices, que o deitou quase morto ao meio do cho.

Passado algum tempo veio a si; apalpou o corpo, viu que no tinha nem
pernas nem braos partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.

--Ento? ento?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.

--Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma cama para
me deitar e cataplasmas de linhaa para pr neste corpo, que o trago
num feixe. No podeis imaginar o que sofri. Na cozinha fui assaltado
por uma velha que estava a cardar l, e arrumou-me na cara com o
sedeiro, deixando-me neste miservel estado. Quando ia a sair a porta,
um demnio dum remendo atravessou-me as pernas com a sovela. Logo
depois Satans em pessoa atirou-se a mim, despedaando-me com as garras.
Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocs me no
acreditam, vo l, e experimentem.

--Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
ensanguentado: No seremos ns que l tornaremos.

Pela manh, Joo e os seus camaradas almoaram ainda excelentemente, e
partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladres
lhe tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos,
com que carregou o jumento. Foram andando, andando, at que chegaram 
porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do porteiro, com
uma libr esplndida, meias de seda, cales escarlates e cabelo
empoado.

Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a Joo.

--Que vindes aqui buscar? No h lugar para os recolher, vo-se embora?

--No queremos nada de ti, respondeu Joo. O dono do castelo far-nos-
um bom acolhimento.

--Fora daqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
andar imediatamente, quando no atiro-lhes j s pernas os meus ces de
fila.

--Perdo, s um instante, replicou o galo empoleirado na cabea do
jumento; no me poderias dizer quem  que abriu aos ladres na noite
passada a porta do castelo?

O porteiro corou. O conde que estava  janela, disse-lhe:

-- Bernab, responde ao que esse galo te acaba de perguntar.

--Senhor, replicou Bernab, este galo  um miservel. No fui eu que
abri a porta aos seis ladres.

--Como  ento, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?

Seja como for, disse Joo, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
pedindo-lhe unicamente que nos d de jantar e nos recolha esta noite,
porque vimos cansados do caminho.

--Ficai certos que sereis bem tratados.

O burro, o co e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato ficou na
cozinha. E enquanto a Joo, o conde reconhecido, vestiu-o dos ps 
cabea com um vesturio magnfico, deu-lhe um relgio de ouro, e
disse-lhe:

--Queres ficar comigo? s esperto e honrado, sers o meu intendente.

Joo aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha me para o p de si.
Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicssimo.




*O rabequista*


Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade levantaram uma
igreja magnfica a Santa Ceclia, padroeira dos msicos.

As rosas mais vermelhas e os lrios mais cndidos enfeitavam o altar. O
vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de oiro,
feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava
constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi l em romaria
um pobre rabequista, plido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
sido muito longa, estava cansado, e j no seu alforge no havia po nem
dinheiro no bolso para o comprar.

Assim que entrou na capela, comeou a tocar na sua rabeca com tal
suavidade, com tanta expresso, que a santa ficou enternecida ao v-lo
to pobre e ao escutar aquela msica deliciosa. Quando terminou, Santa
Ceclia abaixou-se, descalou um dos seus ricos sapatos de ouro, e deu-o
ao pobre msico, que tonto de alegria, danando, cantando, chorando,
correu  loja dum ourives para lho vender. O ourives, reconhecendo o
sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o  presena do
juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado  morte.

Chegara o dia da execuo. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
ps-se em marcha ao som dos cnticos dos frades, que ainda assim no
chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como
ltima graa, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca at ao ltimo momento.
O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam
suplicou o triste desgraado, que o levassem l dentro para tocar a sua
derradeira melodia.

Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
ajoelhou aos ps da santa, e debulhado em lgrimas comeou a tocar.
Ento o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Ceclia curvar-se de
novo, descalar o outro sapato e met-lo nas mos do infeliz msico. 
vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o
rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente
prestar-lhe as mais honrosas homenagens.




*Os pssegos*


Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pssegos
magnficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos,
extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria. 
noite o pai perguntou-lhes:

--Ento comeram os pssegos?

--Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroo, e
hei-de plant-lo para nascer uma rvore.

--Fizeste bem, respondeu o pai,  bom ser econmico e pensar no futuro.

--Eu, disse o mais novo, o meu pssego comi-o logo, e a mam ainda me deu
metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.

--Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade no admira;
espero que quando fores maior te hs-de corrigir.

--Pois eu c, disse um terceiro, apanhei o caroo que o meu irmo deitou
fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
o meu pssego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for 
cidade.

O pai meneou a cabea:

--Foi uma ideia engenhosa, mas eu preferia menos clculo.

--E tu, Eduardo, provaste o teu pssego?

--Eu, meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho,
ao Jorge, que est coitadinho com febre. Ele no o queria, mas
deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.

--Ora bem, perguntou o pai, qual de vs  que empregou melhor o pssego
que eu lhe dei?

E os trs pequenos disseram  uma:

--Foi o mano Eduardo.

Este no entanto no dizia palavra, e a me abraou-o com os olhos
arrasados de lgrimas.




*A urna das lgrimas*


Era uma vez uma viva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
adorava sobre todas as coisas. No se separava dela um s momento; mas
um dia a pobre pequerrucha comeou a sofrer, adoeceu e morreu. A
desditosa me, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
momento,  cabeceira da filha, julgou endoidecer de mgoa e de saudades.
No comia, no fazia seno chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
acabrunhada, chorando no mesmo stio em que a filha tinha morrido,
abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua
querida filha, sorrindo com uma expresso anglica e trazendo nas mos
uma urna, que vinha cheia at s bordas.

--Oh! minha querida me, disse-lhe ela, no chores mais. Olha, o anjo
das lgrimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais,
transbordar, e as tuas lgrimas correro sobre mim, inquietando-me no
tmulo e perturbando a minha felicidade no paraso.

A pequenina desapareceu, e a me no tornou a chorar para a no
afligir.




*Reconhecimento e ingratido*


Os vossos filhos sero para vs como vs tiverdes sido para vossos pais.
E  natural. As crianas vem diariamente o que fazem seus pais, e
imitam-nos. Justifica-se desta maneira o provrbio que diz,--que a
bno ou a maldio dum pai cai sobre a cabea de seus filhos,
terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que merecem
ser meditados.

Um prncipe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
satisfeito, a lavrar a terra. Ps-se a conversar com ele. Depois
de algumas perguntas, soube que o campo no pertencia ao homem, mas que
trabalhava nele mediante um salrio de doze vintns por dia. O
prncipe, que para as suas despesas de administrao e representao
necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
como se vivia com doze vintns dirios, andando-se ainda por cima
satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeo, que lhe respondeu:

Gasto diariamente comigo a tera parte dessa quantia; outro tero 
para pagar as minhas dividas; e o resto  para ir juntando algumas
economias.

Era um novo enigma para o prncipe. Mas o alegre campons explicou-lho
deste modo.

Reparto quanto ganho com os meus velhos pais, que j no podem
trabalhar, e com os meus filhos, que ainda no tm fora para isso. Aos
primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
infncia; e espero que os segundos no me abandonem, quando os anos
tiverem pesado sobre mim.

O prncipe, ouvindo isto, quis premiar o honrado campons; encarregou-se
da educao de seus filhos; e a bno que lhe deram os seus velhos
pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua vez, rodeando
igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicao.

Mas posso desgraadamente citar-vos outro filho, que procedeu duma
maneira to indigna com seu velho pai doente e aleijado, que este teve
de pedir que o levassem para o hospital da misericrdia. O filho ingrato
recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde
foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ltima
esmola, um par de lenis, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
O mau filho escolheu os lenis mais usados, e disse ao seu pequeno, de
dez anos de idade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
notou que a criana ao partir tinha escondido um dos lenis a um canto,
atrs da porta.

Quando voltou perguntou-lhe o pai, porque fizera aquilo.

Foi, respondeu a criana desabridamente, para me servir mais tarde
deste lenol, quando pela minha vez te mandar tambm para o hospital.




*O fato novo do sulto*


Era uma vez um sulto, que despendia em vesturio todo o seu rendimento.

Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
teatro, no tinha outro fim seno mostrar os seus fatos novos. Mudava
de traje a todos os instantes, e como se diz dum rei: Est no conselho;
dizia-se dele: Est-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
muito alegre, graas  quantidade de estrangeiros que por ali passavam;
mas chegaram l um dia dois larpios, que, dando-se por teceles,
disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. No
s eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas alm
disso os vesturios feitos com esse estofo, possuam uma qualidade
maravilhosa: tornavam-se invisveis para os idiotas e para todos
aqueles que no exercessem bem o seu emprego.

--So vesturios impagveis, disse consigo o sulto; graas a eles,
saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
dos ministros. Preciso desse estofo!

E mandou em seguida adiantar aos dois charlates uma quantia avultada,
para que pudessem comear os trabalhos imediatamente.

Os homens levantaram com efeito dois teares, e fingiram que
trabalhavam, apesar de no haver absolutamente nada nas lanadeiras.
Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
muito bem guardado, trabalhando at  meia noite com os teares vazios.

--Preciso saber se a obra vai adiantada.

Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo no podia ser visto pelos
idiotas. E, apesar de ter confiana na sua inteligncia, achou prudente
em todo o caso mandar algum adiante.

Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.

--Vou mandar aos teceles o meu velho ministro, pensou o sulto; tem um
grande talento, e por isso ningum pode melhor do que ele avaliar o
estofo.

O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
com os teares vazios.

--Meu Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, no vejo
absolutamente nada! Mas no entanto calou-se. Os dois teceles
convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinio sobre os
desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
olhava, mas no via nada, pela razo simplicssima de nada l existir.

--Meu Deus! pensou ele, serei realmente estpido?  necessrio que
ningum o saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas l
confessar que no vejo nada, isso  que eu no confesso.

Ento que lhe parece? perguntou um dos teceles:

--Encantador, admirvel! respondeu o ministro, pondo os culos. Este
desenho... estas cores... magnfico!... Direi ao sulto que fiquei
completamente satisfeito.

--Muito agradecido, muito agradecido, disseram os teceles; e
mostraram-lhe cores e desenhos imaginrios, fazendo-lhe deles uma
descrio minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir depois
repetir tudo ao sulto.

Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no
bolso,  claro; o tear continuava vazio, e apesar disso trabalhavam
sempre.

Passado algum tempo, mandou o sulto um novo funcionrio, homem
honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu a
este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e no
via nada.

--No acha um tecido admirvel? perguntaram os tratantes, mostrando o
magnfico desenho e as belas cores, que tinham apenas o inconveniente
de no existir.

--Mas que diabo! Eu no sou tolo! dizia o homem consigo. Pois no serei
eu capaz de desempenhar o meu lugar?  esquisito! mas deix-lo, no o
deixo eu.

Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admirao pelo
desenho e o bem combinado das cores.

-- duma magnificncia incomparvel, disse ele ao sulto. E toda a
cidade comeou a falar desse tecido extraordinrio.

Enfim o prprio sulto quis v-lo enquanto estava no tear. Com um grande
acompanhamento de pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois
honrados funcionrios, dirigiu-se para as oficinas, em que os dois
velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de
espcie alguma.

--No acha magnfico? disseram os dois honrados funcionrios. O desenho
e as cores so dignos de vossa alteza.

E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas que ali estavam
pudessem ver alguma coisa.

--Que  isto! disse consigo mesmo o sulto, no vejo nada!  horrvel!
serei eu tolo, incapaz de governar os meus estados? Que desgraa que me
acontece! Depois de repente exclamou:  magnfico! Testemunho-vos a
minha satisfao.

E meneou a cabea com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu squito olharam do
mesmo modo, uns atrs dos outros, mas sem ver coisa alguma, e no entanto
repetiam como o sulto:  magnfico! At lhe aconselharam a que se
apresentasse com o fato novo no dia da grande procisso.  magnfico! 
encantador!  admirvel! exclamavam todas as bocas, e a satisfao era
geral.

Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
teceles.

Na vspera do dia da procisso passaram a noite em claro, trabalhando 
luz de dezasseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
cortaram-no com umas grandes tesouras, coseram-no com uma agulha sem fio,
e declararam, depois disto, que estava o vesturio concludo.

O sulto com os seus ajudantes de campo foi examin-lo, e os impostores
levantando um brao, como para sustentar alguma coisa, disseram:

Eis as calas, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia de aranha;
 a principal virtude deste tecido.

--Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.

--Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larpios,
provar-lhe-amos o fato diante do espelho.

O sulto despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calas,
depois a casaca, depois o manto. O sulto tudo era voltar-se defronte do
espelho.

--Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortesos.
Que desenho! que cores! que vesturio incomparvel!

Nisto entrou o gro-mestre de cerimnias.

--Est  porta o dossel sobre que vossa alteza deve assistir  procisso,
disse ele.

--Bom! estou pronto, respondeu o sulto. Parece-me que no vou mal.

E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem o efeito do
seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, no
querendo confessar que no viam absolutamente nada, fingiam arrega-la.

E, enquanto o sulto caminhava altivo sob um dossel deslumbrante, toda a
gente na rua e s janelas exclamava: Que vesturio magnfico! Que
cauda to graciosa! Que talhe elegante! Ningum queria dar a perceber,
que no via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
Nunca os fatos do sulto tinham sido to admirados.

--Mas parece que vai em cuecas, observou um pequerrucho, ao colo do
pai.

-- a voz da inocncia, disse o pai.

--H ali uma criana que diz que o sulto vai em cuecas.

Vai em cuecas! vai em cuecas! exclamou o povo finalmente.

O sulto ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente era
verdade. Entretanto tomou a enrgica resoluo de ir at ao fim, e os
camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
imaginria.




*Boa sentena*


Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma
quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil ris
de alvssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
campons levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:

--Deviam ser oitocentos mil ris, que foi a quantia que eu perdi; no
alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
adiantados os cem mil ris de alvssaras: estamos pagos por conseguinte.

O bom campons, que nem por sombras tocara no dinheiro, no podia nem
devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
que, vendo a m f do avarento, deu a seguinte sentena:

--Um de vs perdeu oitocentos mil ris; o outro encontrou um alforge
apenas com setecentos: Resulta da claramente que o dinheiro que o
ltimo encontrou no pode ser o mesmo a que o primeiro se julga com
direito. Por consequncia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
encontraste, e guarda-o at que aparea o indivduo que perdeu somente
setecentos mil ris. E tu, o nico conselho que passo a dar-te,  que
tenhas pacincia at que aparea algum que tenha achado os teus
oitocentos mil ris.




*Os animais agradecidos*


Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. Este
respondeu:

--Senhor: eu sou um desgraado, um miservel; nasci no vosso reino, e
chamo-me _Ingratido_.

--Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
servio.

O nosso homem prometeu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
Desde que chegaram a palcio, deu tais provas de habilidade, mostrou-se
to esperto e to solcito, que o rei afeioou-se-lhe de tal modo, que
o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administrao da sua casa.
Deslumbrado por uma fortuna to rpida, o seu orgulho desde ento no
conheceu limites; maltratava os inferiores, e no tinha compaixo dos
desventurados.

Ora, na vizinhana do palcio havia uma floresta cheia de animais
selvagens e perigosssimos. O intendente mandou a fazer por toda a
parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
dentro, pudessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
floresta, ia to absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
precipitou ele mesmo dentro duma das covas.

Passado um instante, caiu um leo dentro do mesmo poo; caiu depois um
lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
governador, ao ver-se em to extraordinria companhia, ficou to
horrorizado, que lhe embranqueceram os cabelos; e toda a esperana de
salvao lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
ningum o vinha socorrer.

Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
chamado Antnio, que todos os dias ia rachar lenha  floresta, para
ganhar o po necessrio  sua mulher e aos seus filhos. Antnio tambm
l foi nesse dia, como de costume, e ps-se a trabalhar no longe da
cova em que cara o intendente, cujos gritos de aflio no tardou a
ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
ali.

--Sou o governador do palcio do rei, e, se me tirares daqui, prometo
encher-te de riquezas; estou em companhia dum leo, dum lobo e duma
enorme serpente.

--Eu, respondeu o lenhador, sou um miservel jornaleiro, no tendo para
sustentar a minha famlia, mais que o produto do meu trabalho; bastava
um dia perdido para me causar um grande desarranjo; v l pois, se
cumpres a tua promessa?

O intendente continuou:

--Pela f que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
cumprirei a minha palavra.

Confiado nisto o rachador de lenha foi  cidade, e voltou com uma corda
muito comprida, que deixou correr dentro do abismo. O leo atirou-se a
ela, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
o intendente.

Quando chegou acima, o leo agradeceu ao seu salvador com a maior
amabilidade, e foi-se embora  procura de jantar, porque tinha fome.

Antnio deitou outra vez a corda ao fundo do poo, e, julgando tirar o
governador, enganou-se, porque era o lobo;  terceira vez subiu a
serpente; foi necessrio fazer uma quarta tentativa, para sair o
governador. Este no perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
para o palcio. O jornaleiro voltou para casa, e contou  mulher tudo o
que se tinha passado, no lhe esquecendo,  claro, as brilhantes
promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manh, foi o pobre
homem bater  porta do palcio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.

--Faa-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex. o intendente
que o homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja falar.

O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:

--Vai dizer a esse homem, que eu no vi ningum na floresta; que se
ponha a andar, porque o no conheo.

O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.

O pobre homem tornou para casa mui descoroado, e contou  mulher a
odiosa perfdia de que tinha sido vitima.

A mulher disse-lhe:

--Tem pacincia; o sr. intendente estava hoje decerto muito ocupado, e
foi talvez por isso que te no pde receber.

Estas palavras sossegaram o rachador que outra vez nutriu esperanas.

Na manh seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo  porta do palcio.
Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos speros, que no tornasse
ali a aparecer, quando no ver-se-ia obrigado a empregar meios
violentos. A mulher ainda desta vez procurou consol-lo:

--Experimenta terceira e ltima vez, disse-lhe ela, talvez Deus o
inspire melhor. E se assim no for, ainda que te custe, no penses mais
nisso.

No dia seguinte o bom do homem voltou  carga; e tendo o porteiro
consentido  fora de suplicas em anunci-lo ainda ao governador, este
encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre
homem duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do
cho. A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com um
burro, ps-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
levaram-lhe seis meses a curar, estando sempre de cama, vendo-se
obrigado a contrair dividas para pagar ao mdico. Quando finalmente
tinha recobrado algumas foras, voltou ao bosque segundo o costume para
fazer alguma lenha. Apenas l chegou, apareceu-lhe o leo, que ele
tinha ajudado a sair do poo. O leo conduzia um burro diante de si, e
este burro estava carregado de sacos cheios de preciosidades. O leo,
vendo Antnio, parou e inclinou-se diante dele com um ar de respeitoso
agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, fazendo-lhe sinal
de que ficasse com o jumento. Antnio doido de alegria levou o animal
para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.

No dia seguinte, voltando de novo  floresta, apareceu-lhe o lobo, que
o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o quanto
lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluda, e tinha carregado
o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que ele tinha
tirado do fjo, e que trazia na ponta da lngua uma pedra preciosa, em
que brilhavam trs cores,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a
serpente chegou ao p do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
dele, e depois dando um salto desapareceu no matagal. Antnio
levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter com um velho,
afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande quantia.
Antnio respondeu-lhe que a no queria vender, mas simplesmente saber se
seria boa.

O velho respondeu:

--So trs as virtudes desta pedra: abundncia contnua, alegria
imperturbvel e luz sem trevas. Se algum ta comprar por menos dinheiro
do que vale, tornar imediatamente para a tua mo.

Antnio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
cincia maravilhosa, e correu a contar  mulher a sua felicidade. Como
se imagina, graas  virtude da famosa pedra, no lhe faltaram da em
diante, nem honras nem riquezas.

Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas prosperidades, mandou
chamar Antnio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talism.

Antnio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:

--Devo prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me no for paga
pelo que vale, tornar ela mesma para o meu poder.

--Hei de pagar-ta bem, disse o rei.

E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manh,
Antnio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
disse-lhe:

--Torna a lev-la ao rei imediatamente; no v ele persuadir-se que
lha furtaste.

O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou  presena de sua
majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
preciosa.

--Mandei-a meter com todo o cuidado dentro dum cofre de ferro,
fechado com sete chaves, disse o rei.

Antnio mostrou-lhe ento a jia preciosa, e o rei ficou
extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha adquirido
semelhante tesouro.

Antnio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratido do governador e o
reconhecimento dos animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
intendente, e disse-lhe:

--Homem perverso, com justo motivo te puseram o nome de _Ingratido_,
porque s mais falso e mais prfido que os animais ferozes, e pagaste
com o mal o bem que te fizeram. Mas justia ser feita. Dou a Antnio as
tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
enforcado.

Admiraram todos a sentena do rei, e Antnio desempenhou as suas altas
funes com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos
gloriosos.




*O ermito*


Um homem, animado pela mais ardente crena religiosa, deliberou
retirar-se a uma gruta solitria para se consagrar inteiramente ao
trabalho da sua salvao. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
seus pensamentos no se desviavam nunca da ideia de Deus. Depois de ter
assim vivido durante muitos anos, uma noite lembrou-se de que j tinha
merecido um lugar glorioso no paraso, e podia ser contado entre os
santos mais notveis.

Na noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:

--H no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.

O ermito, atnito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
seu bordo, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:

--Irmo, diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que oraes e
penitencias te tornaste agradvel a Deus.

--Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabea, santo padre, no
zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a oraes no as sei,
pobre de mim, que sou um pecador. O que fao  andar de casa em casa a
divertir os outros.

O austero ermito continuou a insistir:

--Estou certo que, no meio da tua existncia vagabunda, praticaste algum
acto de virtude.

--Em verdade no poderia citar nem um s.

--Mas ento como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
loucamente como os que exercem a tua profisso? Dissipaste frivolamente
o teu patrimnio e o produto do teu oficio?

--No; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
filhos tinham sido condenados  escravido para pagar uma divida. Essa
mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa,
protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possua para resgatar a
sua famlia, e levei-a  cidade, onde ela devia encontrar-se com seu
marido e com seus filhos. Mas quem no teria feito outro tanto?

A estas palavras o ermito ps-se a chorar, e exclamou:

--Nos meus setenta anos de solido nunca pratiquei uma obra to
meritria, e apesar disso chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu no
passas dum pobre musico.




*Carlos Magno e o abade de S. Gall*


Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
preguiosamente reclinado sobre almofadas  porta da abadia, fresco,
rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enrgicos e
activos, e o abade era indolente. Alm disso o imperador tinha mais
dum motivo de queixa contra ele.

--Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter 
sua esclarecida razo trs perguntas, s quais ter a bondade de me
responder daqui a trs meses, contados dia a dia, em sesso solene do
nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
rev.^{ma} vier  minha presena, pensamento que deve ser um erro. Trate
de arranjar resposta satisfatria a tudo, alis deixa de ser abade de S.
Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada
para o rabo.

O abade no sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
os doutores mais famosos pela sua cincia, no lhe souberam dar
resposta. No entanto os dias iam correndo, e a poca fatal
aproximava-se; j no faltava seno um ms, j no faltavam seno
semanas, e afinal s dias. O abade, que noutro tempo era gordo e
anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite.
Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraa, quando se
encontrou com o seu pastor.

--Bons dias senhor abade. Parece que est mais magro! Est doente?

--Estou, meu caro Flix, estou muito doente.

--Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.

--Infelizmente no so ervas que eu preciso, mas resposta s minhas trs
perguntas.

-- ento latim?

--No, no  latim, seno os doutores tinham-me arranjado tudo.

--Visto que no  latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que : minha me
era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.

Quando o abade lhe formulou as trs perguntas, o pastor atirou com o
barrete ao ar, e disse-lhe:

--Se  apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
pode continuar a engordar; mas para isso  necessrio que eu vista o seu
habito.

Quando chegou o dia, o pastor disfarado com o hbito do abade de S.
Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
imperial.

--Ento, senhor abade, parece que est mais magro, deu-lhe muito que
pensar a chave do enigma? Vamos l a ver a primeira pergunta: Quanto
valho eu em dinheiro?

--Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por
trinta dinheiros, sua majestade vale  justa vinte e nove, s um
dinheiro menos.

--Bravo, senhor abade, a resposta  hbil, e na realidade no posso
deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos  segunda pergunta, no h de
ser to fcil dar a resposta. Vamos l a ver: quanto tempo levaria eu a
dar a volta ao mundo?

--Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
quatro horas.

--Decididamente, v. rev.^{ma}  um grande finrio, e desta vez,
confesso-me vencido; mas a terceira, no dessas  que se responde com
suposies. Quem lhe h de dizer o que eu estou pensando, e como me h
de provar que este pensamento  um erro? Tem a palavra senhor abade.

--Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; est
enganado, porque eu sou o seu pastor.

--Mas ento tu  que deves ser o abade de S. Gall, e desde j o ficas
sendo.

--No sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor,
peo-lhe outra coisa.

--No tens mais que falar.

--Peo a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.

Carlos Magno no era homem que faltasse  sua palavra.




*A boneca*


Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma histria--a histria duma
boneca!

No h muitos anos, mas ainda no era a cordoaria do Porto o ameno
jardim, onde a infncia folga por entre macios de flores e sob o
sorriso do sol, sem que lhe enegrea o esprito a vista dos dois
monumentos, que a meu ver simbolismo as duas mais horrveis calamidades,
que podem aniquilar um homem--o hospital e a cadeia!--ainda no h
muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
feira, divertindo-me a meu modo.

Cansado das inmeras figuras, que tinha visto passar por aquela
espcie de lanterna mgica, dispunha-me a dar por findo o espectculo,
quando novos personagens me chamaram a ateno.

Eram os meus vizinhos _ricos_.

Aqui  preciso uma rpida explicao.

Das famlias da minha vizinhana, s conheo trs.

Qual destas trs famlias ser mais feliz?...

Pelo que tenho notado, no tm que invejar umas s outras.

So todas felizes; cada qual a seu modo.

Vi, pois, chegar os meus vizinhos _ricos_.

Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapu na mo e
dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou,
tomou nos braos a filhinha e dep-la no cho, e oferecendo, em
seguida, a mo  esposa, para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e
com a menina para a barraca onde eu estava.

No havia ali segredo a surpreender.

Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
parecia agradecer quela formosa criana a manifestao de qualquer
desejo.

No fim de meia hora possua a minha pequena vizinha com que fazer a
felicidade de dez crianas menos abastadas.

Tinha o necessrio para montar completamente a casa duma boneca...
_rica_.

Faltava apenas a dona da casa--a boneca.

Todo risos e atenes, o lojista apresentou o que tinha de melhor.

Depois de muita hesitao e de, j com os olhos, j com a voz, consultar
a mam, a gentil criana acabou por escolher uma magnfica boneca de
dois palmos de altura, com cabelo em _bandeaux_ e olhos azuis.

Uma boneca como as outras: cabea e colo de massa, corpo de pelica
recheada, braos e pernas de pau.

Uma vive na loja da casa, que habito.  uma tribo de crianas, que fazem
o martrio e a alegria da pobre me, e tem por chefe um honrado
sapateiro.

Alguns deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
anjos, cados do cu sobre um monte de lama.

So os meus vizinhos _pobres_.

A segunda compe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a casa
imediata.

 como se costuma dizer, gente _que vai muito bem com a sua vida_.

A filha que ter dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e carnudas,
cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem 
presso.

So os meus vizinhos _remediados_.

A terceira  a dos meus vizinhos _ricos_.

Casa nobre, jardim espaoso, cavalos, criados, nome inscrito nas
listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
estado--nada falta quela ditosa gente!

Compe-se igualmente de marido, mulher e filha.

Que formosa criana!... Ter oito anos.

Franzina e plida, com os cabelos negros, os olhos grandes e
cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mos de dedos compridos e
esguios, terminados por unhas duma cor de rosa transparente, que no
sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a
crescer--que h-de um dia ter o direito de lhas cobrir de beijos.

Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas
aquelas preciosidades de sobre o balco da barraca para dentro do
carro.

A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrtica criana.

Sa dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo at casa variadssimas
consideraes, sugeridas pela quase indiferena, com que aquela menina
recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.

Que contraste com os olhares de cobia, com que outras raparigas da
mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabea de pano, horrvel
artefacto portugus, em que os olhos so representados por dois pontos
de linha azul, o nariz por um alinhavo de retrs cor de rosa, a boca por
outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de l preta!

Quando cheguei a casa, j na dos meus vizinhos remediados no havia luz.

Na dos meus vizinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
trs assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
provocavam os ralhos da me.

Quando, no dia seguinte, cheguei  janela, seriam onze horas da manh.

Na rua agenciavam nova camada de imundcie os filhos do sapateiro; na
casa imediata no se via ningum--estava a pequena na mestra; no
palcio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
divertia-se a minha pequena milionria fazendo rodar, com auxlio duma
linha, uma magnfica _caleche_ descoberta, puxada por cavalos brancos.

Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.

--A est a tua caricatura, minha feiticeira!...--disse eu de mim
para mim. Ensaias nas bonecas o que vs no mundo a que pertences!...
Ests a aprender a copiar... Sempre este mundo!...

Retirei-me da janela.

Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.

A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
vestia trs e quatro vezes!

Ao que eu, porm, achava mais graa, era ao respeito com que a dona a
tratava!

Chamava-lhe sr. D. Lusa; dava-lhe excelncia; sustentava finalmente
com a boneca um destes dilogos de senhoras da alta sociedade, em que
se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.

Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos
_ricos_--ouvi um grito de susto.

Era devido a um acidente, a que est sujeito quem anda de carro.

Voltara-se este, e a boneca cara, ferindo a fronte na pedra da janela.

O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a vtima; vendo,
porm, que a ferida havia forosamente de deixar cicatriz, e
lembrando-se de que s lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
nova, agarrou-a pelos ps e ia atir-la com despeito  rua, quando mais
perto de mim bradou voz tmida e suplicante:

No atire!... D-ma.

Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu no dera f at
ento.

Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
lanou um olhar de rainha para o stio donde vinha a splica.

Vendo uma criana, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
encolhendo os ombros, respondeu:

--J no presta!... Est esmurrada!...

-- o mesmo!... D-ma?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
cobia.

--Dou...--volveu a rica, encolhendo novamente os ombros.

E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mos da
vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse
despedaar-se nas lajes da rua.

Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
outra, para mostrar  me a que ela ainda no podia acreditar, que
fosse sua!

Por espao de meses foi a boneca a principal ocupao da nova dona.

A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro
vezes em quatro horas!... J lhe no davam excelncia! Chamavam-lhe
sr. D. Ana; falavam-lhe de arranjos domsticos, do desmazelo da
criada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
estranhas para ela!

E a desgraada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
se tornava mais escura: parecia uma ndoa, um estigma!

Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
ainda no poderia enganar olhos pouco conhecedores.

No tardou, porm, que arrebiques de mau gosto, fitas velhas, rendas
amareladas, chapus impossveis, viessem contrastar com a elegncia do
vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja duma adeleira.

Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho, e com ele
as ondulaes do _moir_, at que, um belo dia, vi a boneca vestida de
cassa---no Inverno!--chaile e manta na cabea.

Muito mal lhe ficava aquilo!... quela boneca custava-lhe de certo o
ver-se to mal arranjada.

Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:

-- justo!... Cada qual segundo as suas posses.

Por esse tempo, entrei em relaes com o meu vizinho sapateiro.

O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasio, para me
pedir desculpa.

Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
aproximar-se de ns e, desde ento, nunca saio de casa nem entro, sem
grave risco de sofrer as consequncias da sua travessa familiaridade.

Entre os filhos do sapateiro, porm, h uma pequenita de onze anos, com
quem simpatizei logo  primeira vista.

Chama-se Maria.

Por um destes acasos da Providencia, que parece s vezes comprazer-se
em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmos.

Acostumado s travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.

E bem verdade que ele conhecia o valor daquela criana, porque havia
verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: Esta  a
minha Maria!

E tinha razo!

No podia ser mais discreta do que j nesse tempo era.

-- quem vale  me!...--acrescentou o velho.--Ali, onde a v, faz o
servio duma mulher!... H seis meses, quando a minha santa esteve
doente--bem pensei que no arribasse!--a pequena era quem cozinhava e
olhava pelos irmos!... E caridade como ela tem!?... Olhe que aquela
pequena esteve trs dias sem se deitar... ali... ao p da me! Foi
preciso eu obrig-la, que ela no a queria deixar!...

E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lgrima, que,
havia muito, hesitava sobre se sim ou no se devia despenhar.

Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
cabea coberta por um leno branco.

Desde que o pai me deu to boas informaes da rapariga, nunca mais
passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias 
pequena.

Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
deitada nos joelhos.

--Eu conheo aquela boneca!...--disse eu de mim para mim.

E, no podendo resistir  curiosidade, bradei:

-- Maricas!... Quem te deu a boneca?...

Foi ali a menina da vizinha!--respondeu a pequenita, corando de prazer.

Era escusado dizer-mo.

Maria pegara na boneca e voltara-a de face para mim. No podia
duvidar... Era ela; l estava a mancha, o estigma cada vez mais visvel
na fronte.

De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com
ela.

--Quem te viu e quem te v!...--pensava eu.

s vezes, se Maria se descuidava e os irmos lha podiam apanhar, que
tratos que sofria a desgraada!

Roada por aquelas mos, de que um carvoeiro se envergonharia,
empregada como pla, submetida a torturas, era, ainda assim,
singularssimo o aspecto da triste!

Dava ares duma duquesa que, por necessidade, houve sido levada a
fraternizar com o povo.

A msera mudara mais uma vez de nome!...

De sr. D. Ana passara a ser sr. Rosinha e tratavam-na por vossemec.

Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e leno na cabea.

Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
a boneca.

Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre
boneca a lastimar-se por estar tudo to caro, por haver falta de
trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que
mais familiares eram  pequena.

Outra vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na,
mandavam-na buscar gua  fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
acabavam por a despedir.

J o leitor v que, apesar da bondade Maria, deixara de ser feliz.

Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no palcio vizinho!

Desmaiada de cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos,
desfeito o carmim dos lbios, a boneca no prometia longa durao.

Foi este pelo menos, o prognstico que fiz a ltima vez que a vi,
tentando em vo agradar  ltima dona que o seu destino lhe dera.

Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!

Um dia chovia a cntaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
espadanava em cacho para cima dos passeios, arrastando na passagem mil
imundcies.

Eu estava  porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
melancolicamente para a gua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um objecto,
arremessado de dentro da loja, atravessou o espao voando, e foi cair no
leito do enxurro...

Olhei... Era a boneca!...

A msera, arrastada pela gua, vogou rua abaixo at esbarrar numa
pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar trs ou
quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traado entre a pedra e
o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, at ir sumir-se nas
profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!

Ser pieguice, ser o que o leitor quiser; mas, confesso-lhe, que me
impressionou o fim da pobre boneca.

Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado  vidraa do
sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:

--Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?

--No fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...

--E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...

--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e
feia!...

Curvei a cabea ante aquela razo, e segui o meu caminho.

Pobre boneca!




*Inconveniente da riqueza*


Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alscia, foi
surpreendido pela noite  entrada duma aldeia. Procurou dum lado para
outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas estavam j
todas fechadas, no se via nem um raio de luz atravs das janelas, tudo
estava adormecido. Apenas no fim dum beco se ouvia o barulho do mangual
com que se bate o trigo, e nesse stio havia uma pequena luz. Nosso
Senhor dirigiu-se para l, chegou ao p do muro duma quinta, e bateu 
porta. Foi um campons que lha veio abrir.

--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
No se havia de arrepender.

E acrescentou:

--Visto que j todos esto deitados, para que  que voc est ainda a
trabalhar?

--Ora, respondeu o campons, soube ontem  noite que ia ser perseguido
por um credor desapiedado, se lhe no pagasse amanh o que lhe devo,
portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
o vender no mercado, e pagar a minha dvida. Depois disto no nos fica
nada, e no sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que Deus
quiser!

Ao dizer isto o campons limpava o suor da testa, e passava a mo pelos
olhos arrasados de lgrimas. O Senhor teve d dele, e disse-lhe:

--No desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que no te
havias de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.

Pegou na candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e
aproximou-a do trigo.

--Que vai fazer? disseram assustados os trabalhadores, vai deitar fogo a
tudo!

Mas no mesmo instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se,
de cada espiga, desceu uma chuva de gros prodigiosa.  vista dum tal
milagre os camponeses maravilhados caram de joelhos.

--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, sers
recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda,  Deus que te
enriquece.

Dito isto desapareceu.

E a chuva dos gros no parou em toda a noite, e fez um monte to alto
como a igreja.

O campons pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bela
casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Ele e
seus filhos adquiriram costumes perdulrios, tanto e tanto fizeram, que
se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
ningum os ajudou na sua misria. Uma noite o velho campons, que bebera
enormemente, entrou no celeiro, e, recordando-se do milagre que o
enriquecera, imaginou que tambm ele o poderia fazer. Agarrou na
candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a
casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na misria mais
absoluta.




*Querer  poder*


--Quem procura sempre encontra, diz um velho provrbio; quero ver por
experincia, disse um dia um rapaz, se esta mxima  verdadeira.

Ps-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador duma grande cidade.

--Senhor, disse-lhe ele, h muitos anos que vivo tranquilo e
solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caa_. Tomei
uma grande resoluo. Quero casar com a filha do rei.

O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.

O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
semana, sempre com a mesma vontade inabalvel, at que o rei ouviu
falar o rapaz da sua louca pretenso. Surpreendido com uma ideia to
extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:

--Que um homem distinto pela hierarquia, pela coragem, pela cincia,
pensasse em casar com uma princesa, nada mais natural. Mas tu, quais so
os teus ttulos? Para seres o marido de minha filha  necessrio que te
distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
extraordinrio. Ouve. Perdi h muito tempo no rio um diamante dum valor
incalculvel. Aquele que o encontrar obter a mo de minha filha.

O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
rio; logo de manh comeava a tirar gua com um balde pequeno, e
deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
horas, punha-se a rezar.

Os peixes inquietos ao verem to grande tenacidade, e receando que
chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.

--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.

--Encontrar um diamante que caiu ao rio.

--Ento, respondeu o velho rei, sou de opinio que lho entreguem, porque
vejo qual  a tmpera da vontade deste rapaz; mais fcil seria esgotar
as ltimas gotas do rio, do que desistir da sua empresa.

Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
do rei.




*Qual ser rei?*


Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia pertencer,
no ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.

Resolveram alm disso que o cadver do rei fosse posto de p contra um
muro, e que o prncipe que acertasse melhor com uma flecha naquele
alvo, seria o escolhido para sucessor.

Comeou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
tempo, e a flecha foi atravessar a mo esquerda do defunto. O prncipe
soltou grito de alegria, cuidando que seus irmos atirariam pior, e que
por conseguinte seria ele quem viria a reinar.

O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
alegre do que o outro prncipe.

O terceiro varou o corao de seu pai, e os seus gritos de triunfo
quase que chegavam ao cu, porque lhe parecia impossvel acertar melhor.

Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe meter nas mos as
flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
longe de si, e desatou a chorar:

--Oh! meu pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu jamais
consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mo de teus
prprios filhos!

Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no rei, como sendo o mais
digno.




*Os trs vus de Maria*


O primeiro vu de Maria era dum linho mais alvo do que a neve.
Bordara-o com as suas mos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
seda to bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham pousar-lhe em
cima.

Este vu branco s o trouxe uma vez, no dia da sua primeira comunho.

O segundo vu de Maria era de l negra. Principiou-o no mesmo dia em que
sua me lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa triste e
abandonada. Era bordado de perptuas roxas, como as dos sepulcros de
mrmore, e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas as suas
lgrimas.

O vu negro s o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de
Jesus no convento da Av-Maria.

O terceiro vu era feito dum retalho do azul celeste, bordado
de estrelas, e perfumado com aromas suavssimos.

Foi o seu anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou
no paraso.




*Os pequenos no bosque*


Um dia trs pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
outros, que no havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: Vamos
para o bosque que encontremos l toda a espcie de lindos bichinhos, que
no fazem outra coisa seno brincar, e ns brincaremos com eles.

Foram logo, e passaram sem fazer caso ao p da activa formiga e da
abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar,
disse-lhes:

--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
outra j no est slida.

--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provises para o Inverno.

--Eu, disse dali a pomba, tenho muitas coisas que levar para o meu
ninho.

--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocs, mas ainda
hoje no lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
minha _toilette_.

E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
a saltar e a tagarelar, tambm no queres brincar connosco?

--Estes pequenos so tolos, disse o regato. Como? Vocs ento imaginam
que eu no tenho que fazer? De noite ou de dia, no descanso nem um
momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animais, s colinas,
aos vales, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incndios,
tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralharias. Nem hoje
acabara, se lhes quisesse contar o que tenho que fazer. No posso perder
um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.

Os pequenos, desconcertados, puseram-se a olhar para o ar, e viram um
pintassilgo, em cima dum ramo.

--Olha! tu, que no tens nada que fazer, queres brincar connosco?

--Nada que fazer? vocs esto a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo
o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho alm disso que tomar
parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operrio com o
meu chilrear, e tenho que adormecer as crianas com uma outra cantiga,
que  noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. Ide-vos embora,
preguiosos, ide cumprir o vosso dever, e no tornem a vir incomodar os
habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.

Os pequenos aproveitaram a lio, e compreenderam que o prazer s 
legtimo, quando  a recompensa do trabalho.




*O chapelinho encarnado*


Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
me e sua av adoravam extremosamente. A boa da avozinha, que passava o
tempo a imaginar o que poderia agradar  neta, deu-lhe um dia um chapu
de veludo vermelho. A pequenita andava to contente com o seu chapu
novo, que j no queria pr outro, e comearam a chamar-lhe a menina do
chapelinho encarnado.

A me e a av moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
lgua de comprido. Uma manh a me disse  pequenita:

--Tua av est doente, e no pde vir ver-nos. Eu fiz estes doces, vai
levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado no quebres a
garrafa, no andes a correr, vai devagarinho e volta logo.

--Sim, mam, respondeu ela, hei-de fazer tudo como deseja.

Atou o seu avental, meteu num cestinho a garrafa e os doces, e ps-se
a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita,
que nunca vira lobos, olhou para ele sem medo algum.

--Bons dias, chapelinho encarnado.

--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.

--Onde vais to cedo?

--A casa da minha av que est doente.

--E levas-lhe alguma coisa?

--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
dar foras.

Diz-me onde mora a tua, av, que tambm a quero ir ver.

-- perto, aqui no fim da floresta. H ao p uns carvalhos muito
grandes, e no jardim h muitas nozes.

--Ah! tu  que s uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu gostava
de te comer. Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas rvores e
que lindos passarinhos. Como  bom passear nas florestas, e ento que
quantidade de plantas medicinais que se encontram!

--O senhor,  com certeza um mdico, respondeu a inocente pequenita,
visto que conhece as ervas medicinais. Talvez me pudesse indicar alguma
que fizesse bem a minha av.

--Com certeza, minha filha, olha, aqui est uma, e esta tambm, e
aquela. Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas
venenosas. A pobre criana, queria-as apanhar para as levar a sua av.

--Adeus, meu lindo chapelinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.

E ps-se a correr em direco da casa da av, enquanto que a pequerrucha
se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.

Quando o lobo chegou  porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
av no se podia levantar da cama, e perguntou: Quem est a?

-- o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da
pequerrucha. A mam manda-te bolos e uma garrafa de vinho.

--Procura debaixo da porta disse a av, que encontrars a chave.

Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada a pobre velha inteira,
e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, deitou-se na cama.

Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada de encontrar a
porta aberta, porque sabia o cuidado com que a av a costumava ter
fechada.

O lobo tinha posto uma touca na cabea, que lhe escondia uma parte do
focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrvel.

--Ai! avozinha, disse a criana, porque tens tu as orelhas to grandes?

-- para te ouvir melhor, minha filha.

--E porque ests com uns olhos to grandes?

-- para te ver melhor.

--E para que ests com os braos to grandes?

-- para te poder abraar melhor.

--E Jesus! para que tens hoje uma boca to grande e uns dentes to
agudos?

-- para te comer melhor. A estas palavras o lobo arremessou-se  pobre
pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e comeou a
ressonar muito alto. Um caador que passava por acaso, perto da casa, e
que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre velha est com um
pesadelo, est pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa. Entra, e
v o lobo estendido na cama.

--Ol, meu menino, diz ele: h muito tempo que te procuro.

Armou a sua espingarda, mas parando logo: No, disse ele, no vejo a
dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o
animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
cuidadosamente a barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e
saltou para o cho, gritando:

--Ai! que stio medonho onde eu estive fechada!

A av saiu tambm contentssima por ver outra vez a luz do dia.

O lobo continuava a dormir profundamente, e o caador meteu-lhe ento
duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a av e a
neta para verem o que se ia passar.

Decorrido um instante o lobo acordou, e como tinha sede, levantou-se
para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
no podia compreender o que aquilo era; com o peso, caiu no lago, e
afogou-se.

O caador tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha
e a sua neta. A velha sentia-se remoar, e o chapelinho encarnado
prometeu no tornar a passar na floresta, quando sua me lho
proibisse.




*Os cinco sonhos*


Andando um dia Carlos Magno  caa com uma comitiva numerosa, perseguiu
um veado, que dava tais saltos, e corria por tal forma, que, apesar da
ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi s
ento que viu que estava s, tendo a sua corte ficado muito para traz;
sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite numa choupana solitria
no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladres.
Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
entrada do viajante; cada um deles tinha tido um sonho, que lhe
quiseram logo contar.

O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:

--No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro  pessoa que acaba de entrar
aqui, e punha-o na minha cabea.

--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraa.

--E eu que estava pondo o seu manto.

--E eu, disse o quarto ladro, para lhe fazer favor, passava em roda do
meu pescoo aquela pesada cadeia de ouro, da qual est pendurada a sua
trompa de caa.

--Vejo bem, disse o imperador, que tm teno de me roubar tudo, e
mesmo a vida. Reconheo que estou em poder de vocs, e que toda e
qualquer resistncia seria intil. No lhes peo seno uma coisa,  que
me deixem tocar pela ltima vez na minha trompa de caa.

Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ltimo pedido
dum moribundo deve ser respeitado.

Carlos Magno levou  boca a sua magnfica trompa de marfim, e tirou
dela sons to fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos todos os
seus companheiros de caa e a sua comitiva estavam ao p dele.

--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambm
eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocs todos iam ser
enforcados diante deste casebre.

E o sonho realizou-se imediatamente.




*A igreja do rei*


Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnfica em honra da
Virgem, decretando que ningum nos seus estados pudesse contribuir para
a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edifcio se
concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar numa pedra do
mrmore uma inscrio em letras de ouro, que dizia que s ele, e mais
ningum, tinha levado a cabo aquela obra monumental. Mas na noite
seguinte o nome do rei foi apagado da inscrio, e substitudo por o
duma pobre mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
pr o seu nome na inscrio, e de novo foi substitudo pelo da pobre
mulher;  terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de clera, ordenou
ento que lhe trouxessem a mulher  sua presena:

--Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que contribussem
fosse com o que fosse para a edificao desta igreja; vejo que no
cumpriste as minhas ordens.

--Senhor, respondeu a velhinha toda trmula, eu respeitei as vossas
ordens, apesar da mgoa que sentia por no poder oferecer o meu
pequenino bolo em honra da Virgem; mas julguei no desobedecer a vossa
majestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
que eu levava s escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas
 construo da igreja.

--O teu nome  mais digno do que o meu de figurar em letras de ouro na
inscrio do monumento, disse-lhe o rei.

Mas na noite seguinte uma mo invisvel restabeleceu na lpide da igreja
o nome do rei, que desde ento l se conserva ainda.




*O valente soldado de chumbo*


Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmos, por todos
terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude marcial,
de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e vermelhos!
A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a tampa da
caixa em que eles estavam, foi este grito: Olha soldados de chumbo!
que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. Tinham-lhos dado
de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era form-los sobre a
mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
menos, porque o tinham deitado na forma em ltimo lugar, e j no havia
chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros no estavam mais
firmes nas duas pernas do que ele na sua nica, e  este o que
precisamente nos interessa.

Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindssimo castelo de
papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe o interior dos sales.
 volta era circundado duma floresta em miniatura, que se reflectia
poeticamente num pedao de espelho que fingia um lago, onde nadavam
pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era encantador, mas no tanto como
uma menina que estava  porta, e que era tambm de papel, vestida com um
lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
tinha os braos arqueados, porque era danarina, e tinha uma perninha
levantada a tal altura, que o soldado de chumbo no a podia ver, e
imaginou que, como ele, no tinha seno uma perna.

--Ali est a mulher que me convm, pensou ele, mas  uma grande
fidalga. Mora num palcio, eu numa caixa em companhia de vinte e
quatro camaradas, e no haveria c lugar para ela. No entanto
preciso conhec-la.

Deitou-se atrs duma caixa de tabaco, e dali podia ver  sua vontade a
elegante danarina, que estava sempre num p s, sem perder o
equilbrio.

 noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e as pessoas
da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, comearam
a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de
chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam l ir; mas
como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes comeou a dar cabriolas
e saltos mortais, o lpis traou mil arabescos fantsticos numa lousa,
enfim o barulho tornou-se tal que o canrio acordou, e ps-se a cantar.
Os nicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a
danarinazinha. Ela no bico do p, e ele numa perna s, a
espreit-la.

Deu meia noite, e zs, a tampa da caixa de rap levanta-se, e em lugar
de rap, saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de surpresa.

--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
stio.

Mas o soldado fez que no ouvia.

--Espera at amanh, e vers o que te acontece, continuou o feiticeiro.

No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de
chumbo  janela, mas de repente ou por influncia do feiticeiro ou por
causa do vento caiu  rua de cabea para baixo. Que tombo! Ficou com a
perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a baioneta
enterrada entre duas lajes.

A criada e o rapazito foram l abaixo procur-lo, mas estiveram quase a
esmag-lo, sem darem por ele. Se o soldado tivesse gritado: Cautela!
te-lo-am achado, mas ele julgou que seria desonrar a farda. A chuva
comeou a cair em torrentes, e tornou-se num verdadeiro dilvio. Depois
do aguaceiro passaram dois garotos.

--Ol! disse um deles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos faz-lo
navegar.

Construram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o soldado de
chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois
garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
Que fora de corrente! Mas tambm tinha chovido tanto! O barco jogava
duma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
impassvel, com os olhos fixos e a espingarda ao ombro.

De repente o barco foi levado para um cano, onde era to grande a
escurido como na caixa dos soldados.

--Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante do feiticeiro que me
meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela linda menina
estivesse no barco, no importava, ainda que a escurido fosse duas
vezes maior.

Dali a pouco apresentou-se um enorme rato de gua; era um habitante do
cano.

--Venha o teu passaporte.

Mas o soldado de chumbo no disse nada, e agarrou com mais fora na
espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
rangendo os dentes, e gritando s palhas, e aos cavacos:--Faam-no
parar, faam-no parar! No pagou a passagem, no mostrou o passaporte.

Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via j a luz do dia, e
sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais valente.
Havia na extremidade do cano uma queda de gua to perigosa para ele,
como  para ns uma catarata. Aproximava-se dela cada vez mais, sem
poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lanou-se sobre a
queda de gua, e o pobre soldado firmava-se o mais possvel, e ningum se
atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.

O barco, depois de ter andado  roda durante muito tempo, encheu-se
de gua, e estava a ponto de naufragar. A gua j chegava ao pescoo do
soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
gua passou por cima da cabea do nosso heri. Nesse momento supremo,
pensou na gentil danarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:

--Soldado: o perigo  enorme, a morte espera-te.

O papel rasgou-se, e o soldado passou atravs dele. Nesse momento foi
devorado por um grande peixe.

L  que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E alm disso, que
talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrpido, o soldado
estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.

O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, at que enfim
parou, e pareceu que o atravessava um relmpago. Apareceu a luz do dia,
e algum exclamou:

--Olha um soldado de chumbo!

O peixe tinha sido pescado, exposto na praa, vendido, e levado para a
cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
gente quis admirar esse homem extraordinrio, que tinha viajado na
barriga dum peixe. No entretanto o soldado no se sentia orgulhoso.
Colocaram-no em cima da mesa, e ali--tanto  verdade que acontecem
coisas extraordinrias neste mundo--achou-se na mesma sala, de cuja
janela tinha cado. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam
em cima da mesa, o lindo palcio, e a adorvel danarina sempre de perna
no ar. O soldado de chumbo ficou to comovido, que de boa vontade teria
derramado lgrimas de chumbo, mas no era conveniente. Olhou para ela,
ela olhou para ele, mas no disseram uma palavra um ao outro.

De repente um dos pequenos pegou nele, e sem motivo algum deitou-o no
fogo; eram obras do feiticeiro da caixa do rap.

O soldado de chumbo l estava perfilado, alumiado por um claro
sinistro, e sofrendo um calor terrvel. Todas as cores lhe tinham
desaparecido, sem que se pudesse dizer, se era por causa das suas
viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
danarina, que tambm olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre
intrpido, conservava a espingarda ao ombro. De repente abriu-se uma
porta, o vento arremessou a danarina ao fogo para junto do soldado, que
desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, j no era mais
que uma pequena massa informe.

No dia seguinte, quando a criada veio tirar a cinza, encontrou um
objecto que tinha o feitio dum pequeno corao de chumbo, e tudo o que
restava da danarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha
enegrecido.




*Joo Pateta*


Joo era filho duma pobre viva, bom rapaz, mas um pouco simplrio. A
gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira Joo Pateta. Um dia sua me
mandou-o  feira comprar uma foice.  volta, comeou a andar com a foice
 roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e matou-a.

--Pateta, disse-lhe sua me, o que deverias ter feito era pr a foice em
um dos carros de palha ou de feno dalgum dos vizinhos.

--Perdo, me, respondeu humildemente Joo, para a outra vez serei mais
esperto.

Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que
as no perdesse.

--Fique descansada. E voltou todo orgulhoso.

--Ento, Joo, onde esto as agulhas?

--Ah! esto em lugar seguro. Quando sa da loja em que as comprei, ia a
passar o carro do vizinho carregado de palha; meti l as agulhas, no
podem estar em stio melhor.

--De certo, esto em lugar de tal modo seguro, que no h meio de as
tornar a ver. Devias t-las espetado no chapu.

--Perdo, respondeu Joo, para a outra vez, hei-de ser mais esperto.

Na outra semana, por um dia de calor, Joo foi dali uma lgua comprar
uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ltimo conselho de sua me, ps a
manteiga dentro do chapu e o chapu na cabea. Imagine-se o estado em
que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.

A me j tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia
resolveu-se a mand-lo  feira vender duas galinhas.

--Ouve bem, no vendas pelo primeiro preo. Espera que te ofeream
outro.

--Est entendido, respondeu Joo.

Foi para a feira. Um fregus chegou-se a ele.

--Queres seis tostes por essas galinhas?

--Ora adeus! minha me recomendou-me, que no aceitasse o primeiro
preo, mas que esperasse o segundo.

--E tens muita razo. Dou-te um cruzado.

--Est bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o primeiro,
mas, como cumpro as ordens de minha me, ela no tem que me ralhar.

Depois disto, Joo foi condenado a ficar em casa. Sua me sabia que
mangavam com ele, e se riam dela. Uma manh quis fazer uma
experincia, e disse-lhe:

--Vai vender este carneiro  feira. Mas no te deixes enganar. No o
entregues seno a quem te der o preo mais elevado.

--Est bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.

--Quanto queres por esse carneiro?

--Minha me disse-me que o no vendesse seno pelo preo mais elevado.

--Quatro mil ris?

-- o preo mais elevado?

--Pouco mais ou menos.

-- minha a l e o carneiro, disse um rapaz que trepara a uma escada.

--Quanto?

--Dez tostes:

-- menos, respondeu timidamente o Joo.

--Sim, mas vs at onde chega esta escada. Em toda a feira no h um
preo mais elevado.

--Tem razo.  seu o carneiro.

Desde esse dia o Joo Pateta no tornou a ser encarregado de vender ou
comprar coisa alguma.




*Branca de Neve*


Era uma vez uma rainha, que se lastimava por no ter filhos. Um dia
de Inverno, enquanto bordava num bastidor de bano olhando de vez em
quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no cho,
distrada, picou-se num dedo e saiu uma gota de sangue.

--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beios to vermelhos
como este sangue, uma pele branca como esta neve, e uns cabelos negros
como este bano.

Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu  luz uma filha,
que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo to branco,
que lhe chamavam Branca de Neve. Porm esta feliz me no gozou muito
tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
duma grande beleza, e dum orgulho no menos extraordinrio. Era to
formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
vezes fechava-se no seu quarto, e colocando-se diante dum espelho
magico dizia-lhe:

--Meu fiel espelho, responde-me: qual  a mulher mais linda que h no
mundo?

--s tu, respondia o espelho.

No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
formosa. Tinha apenas sete anos, e j ningum a podia ver sem ficar
maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
espelho, disse-lhe:

--Meu fiel espelho, responde-me: qual  a mulher mais linda que h no
mundo?

--No s tu, no s tu. Branca de Neve  mais linda.

A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no corao uma dor aguda,
como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um dio mortal pela
inocente Branca. No podia sossegar nem de dia, nem de noite. Para
satisfazer o seu dio, chamou um criado, e disse-lhe:

--Quero que Branca desaparea. Conduze-la  floresta, mata-a, e, para me
provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traz-me o
corao.

O criado levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e
dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre criana chorava e
lamentava-se, e pedia-lhe que a no matasse, porque ela no tinha feito
mal a ningum, e queria viver. O criado, comovido com aquelas
lgrimas, no teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se
as feras a devorassem a culpa no era dele, mas sim da rainha. Assim
fez, e para mostrar o corao de Branca  rainha, matou um cabrito, e
tirou-lhe o corao. A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou
contentssima, e disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma
mulher no mundo  to bela como eu.

A pobre Branca, abandonada na floresta, no tinha morrido, mas estava
cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os ps nas pedras, e
andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
tambm via animais ferozes. Mas as feras no lhe faziam mal algum, o
deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.

 noite chegou ao p duma casinha muito pequenina. Estava morta de fome
e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a mesa, coberta com uma toalha de
brancura irrepreensvel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,
e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
deitou-se na cama, rezou, e adormeceu profundamente.

Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
que tinham gente em casa. Um deles disse:

--Quem comeu o meu po?

E os outros sucessivamente:

--Quem pegou no meu garfo?

--Quem comeu o meu caldo?

--Quem bebeu o meu vinho?

E enfim um deles:

--Quem est a deitado na minha cama?

Reuniram-se todos  roda do pequeno leito em que dormia Branca.  luz
das lanternas viram o doce rosto da criana, que dormia tranquilamente,
e afastaram-se sem fazer bulha, para a no acordar. Branca no dia
seguinte de manh ficou um pouco assustada, quando viu perto de si
aqueles sete anes das montanhas. Mas eles disseram-lhe com brandura,
que no tivesse medo, e perguntaram-lhe donde vinha, e como se chamava.
Branca contou a sua triste histria, e os anes disseram-lhe:

--Queres tu ficar connosco, para tomar conta da nossa casa?

--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada.

Comeou logo o seu servio, e continuou-o regularmente todos os dias.
Limpava os mveis, e fazia o jantar. Os anes iam trabalhar para as
minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.

Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que j no
tinha que recear uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
e disse-lhe:

--Meu fiel espelho, no  verdade que eu sou agora a mulher mais linda
que h no mundo?

E o espelho respondeu:

--Sim, nos teus palcios e nos teus castelos, mas Branca est nas sete
montanhas, e Branca  mais linda do que tu.

Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,
e determinou tornar a fazer desaparecer a inocente Branca. Mas de que
modo? Uma manh partiu disfarada em vendedeira ambulante, com um cesto
cheio de objectos de fantasia. Foi direita s sete montanhas, e bateu 
porta da casinha, gritando: Quem quer comprar bonitas jias?

Os anes tinham recomendado a Branca que desconfiasse das caras
estranhas, receando os emissrios da rainha, e ela tinha prometido ser
prudente. Mas, quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no
cesto, esqueceu-se das suas promessas.

--Veja este rico colar, minha menina, eu mesmo lho vou pr ao
pescoo.

Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
anes voltaram, viram a infeliz Branca estendida no cho e completamente
inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lbios algumas
gotas dum licor amarelo. Branca comeou a respirar, voltou a si pouco
a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.

--Podes estar certa, disseram-lhe eles, que essa vendedeira no era
outra pessoa, seno a tua inimiga, a rainha. Toma cautela, no deixes
entrar aqui ningum, quando no estivermos em casa.

Ao entrar no seu palcio toda contente, colocou-se a rainha diante do
espelho, e disse-lhe:

--Meu fiel espelho: Qual  agora a mulher mais linda que h no mundo?
Responde.

E o espelho respondeu:

--s tu nos teus grandes palcios e nos teus castelos, mas Branca est
nas sete montanhas, e Branca  mais linda do que tu.

A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
infeliz Branca. Tornou-se a disfarar em vendedeira. Chegou s sete
montanhas, e bateu  porta da cabana.

--Quem quer comprar lindas jias? Branca veio  janela, e respondeu:

--V-se embora, aqui no entra ningum.

--Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de ouro. J
viu outro to bonito?

Branca no pde resistir ao desejo de possuir aquela jia. Abriu a
porta.

--Oh! minha linda menina, deixe-me pr-lho na cabea.

Ao dizer isto enterrou-lhe na cabea o pente, que estava envenenado, e
Branca caiu morta.

 noite quando regressaram os anes, acharam-na plida e fria.
Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e
tornaram a recomendar-lhe que fosse prudente.

No entanto a cruel rainha voltava contentssima para o seu palcio.
Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que
o espelho respondeu como antecedentemente.

--Ah!  preciso que ela morra, ainda que para isso eu tenha de me
sacrificar.

Vestiu-se de camponesa com um cesto de mas. Entre elas havia uma que
estava envenenada dum lado. Foi, e bateu  porta da cabana.

--Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?

--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, no deixo entrar
ningum, nem compro coisa alguma.

--Est bem, no faltar quem compre estas ricas mas. Mas por ser to
bonita, quero dar-lhe uma.

--Obrigada, no posso aceitar.

--Imagina que est envenenada. Olhe, eu vou comer um pedao. Ah! que boa
que ! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora
mordia no lado da ma, que no estava envenenado. Branca deixou-se
tentar, levou  boca o outro pedao, e caiu fulminada.

--A tens, para castigo da tua formosura.

Quando chegou ao palcio a rainha foi direita ao espelho, e
perguntou-lhe:

--Meu fiel espelho, quem  agora a mulher mais linda?

E o espelho respondeu:

--s tu, s tu.

--At que enfim!

Os anes estavam inconsolveis. Debalde tinham tentado reanim-la com o
licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
fria e inanimada. Choraram por ela durante trs dias, e os passarinhos
da floresta choraram tambm. No entanto as boas avezinhas no podiam
acreditar que ela estivesse morta, e vendo o seu rosto to tranquilo,
as suas faces to frescas, parecia que estava a dormir. No quiseram
enterr-la. Meteram-na num caixo de cristal, e escreveram em cima.
Aqui jaz a filha dum rei; puseram o caixo numa das sete montanhas,
e um deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
assim durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais
pequena alterao.

Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar 
caa, viu o caixo, e pediu aos anes que lho cedessem, fosse por preo
que fosse.

--Somos muito ricos, e por nada deste mundo venderemos este caixo, que
 o nosso tesouro.

--Ento dem-mo, j no posso viver sem contemplar este rosto de
mulher. Guard-lo-ei na melhor sala do meu palcio. Peo-lhes que me
faam isto.

Os anes, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixo para
o levarem. Um deles tropeou numa raiz, e o caixo sofreu um
balano, que fez cair o bocado da ma envenenada, que Branca no tinha
engolido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O
jovem prncipe levou-a para o seu castelo, e casou com ela. O
casamento fez-se com grande pompa. O prncipe convidou todos os reis e
rainhas dos diferentes pases, e entre elas a rainha inimiga de
Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia atrair todos
os olhares, ps-se diante do espelho, e disse a rainha:

--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que h do mundo?

E o espelho respondeu:

--Branca  mais formosa que tu.

A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes
fossem descobertos, que morreu de repente.

Branca viveu muitos anos, adorada de todos, e no seu palcio de
princesa no se esqueceu dos anes que tinham sido os seus benfeitores.




*A rapariguinha e os fsforos*


Que frio! a neve caa, e a noite aproximava-se; era o ltimo de
Dezembro, vspera de Ano Bom. No meio deste frio e desta escurido
passou na rua uma desgraada pequerrucha, com a cabea descoberta e os
ps descalos.  verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas
tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua me j
tinha usado, to grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua
a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
quanto ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a inteno de fazer
dele um bero para o seu primeiro filho.

A pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha
no seu velho avental uma grande quantidade de fsforos, e levava na
mo um mao deles. O dia correra-lhe mal; no tinha havido
compradores, e por isso no apurara cinco ris.

Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do pescoo; mas
pensava ela porventura nos seus cabelos anelados?

As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se na rua o cheiro dos
manjares; era a vspera de dia de Ano Bom: eis no que ela pensava.

Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
vez mais, mas no se atrevia a voltar para casa: o pai bater-lhe-ia,
porque no tinha vendido os seus fsforos. Alm disso em sua casa
fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento
atravessava, apesar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
mozinhas j quase que as no sentia. Ai! como um fosforozinho aceso
lhe faria bem! Se tirasse do mao apenas um, um nico, e ascendendo-o
aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como
ardeu! Era uma chama tpida e clara, como uma pequena lamparina. Que
luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme braseiro
de ferro, cujo lume magnfico aquecia to suavemente, que era um regalo.

A pequerrucha ia j a estender os pezitos para os aquecer tambm, quando
a chama se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mo uma
pontita de fsforo consumido.

Acendeu segundo fsforo, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu
a sua chama tornou-se transparente como vidro. Olhando atravs desse
muro, a pequerrucha viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha
alvssima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma galinha
assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exalando um perfume
delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a galinha saltou do
prato, e caiu no cho ao p da pequerrucha, com o garfo e a faca
espetada no lombo. Nisto apagou-se o fsforo, e viu apenas diante de
si a parede fria e tenebrosa.

Acendeu terceiro fsforo, e achou-se imediatamente sentada debaixo
de uma magnfica rvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a
que tinha visto no ano passado atravs dos vidros de um armazm
sumptuoso.

Nos ramos verdes brilhavam centenares de bales acesos, e as estampas
coloridas, como as que h s portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.
Quando ia agarr-las com as duas mos, apagou-se o fsforo; todos os
bales da rvore do Natal comearam a subir, a subir, e viu ento que se
tinha enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no cu
um longo rasto de fogo.

-- algum que est a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua av, que
lhe queria tanto, mas que j morrera, dissera-lhe muitas vezes: Quando
cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.

Acendeu ainda outro fsforo: deu uma grande luz, no meio da qual lhe
apareceu sua av, de p, com um ar radioso e suavssimo.

--Minha av, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu sei que te vais
embora quando se apagar o fsforo. Desaparecers como a panela de
ferro, a galinha assada, e a bela rvore do Natal.

Acendeu o rosto do mao, porque no queria que sua av lhe fugisse, e
os fsforos espalharam um claro mais vivo que a luz do dia. Nunca sua
av tinha sido to formosa. Ps ao colo a pequerruchinha, e ambas
alegres, no meio deste deslumbramento, voaram to alto, to alto, que
j no tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraso.

Mas quando rompeu a fria madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os
dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos lbios...
morta, morta de frio na ltima noite do ano. O dia de Ano Bom veio
alumiar o pequenino cadver, sentado ali com os seus fsforos, a que
faltava um mao, que tinha ardido quase inteiramente.--Quis aquecer-se,
disse um homem que passou. E ningum soube nunca as lindas coisas que
ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
velha av no dia do Ano Novo.




*O primeiro pecado de Margarida*


Chamava-se Margarida, e estavam  espera dela no cu, porque Deus
tinha dito:-- uma boa alma, e, como l em baixo no mundo lhe pode
acontecer alguma desgraa, vou traz-la um destes dias para o paraso.

Margarida era uma virgem cndida, matinal como a aurora, fresca como
ela; todos os dias ao acordar rezava as oraes, que sua me lhe tinha
ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como no tinha
jias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.

Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.

E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela cano
de amor e de glria, que j embalara muitos beros, e que podia
sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.

Numa tarde de Vero, estava ela sentada  porta de casa fiando linho,
 hora em que as estrelas comeam a aparecer, uma a uma no firmamento.

Estava Margarida cantando a sua cano, quando passou por ali uma das
suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um vestido novo.
Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
colar de ouro que levava ao pescoo; apertou-lhe a mo para que visse
bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que
inquietou no paraso o seu anjo da guarda.

O fio de linho j no passava to rapidamente entre os dedos de
Margarida, a roda cessara o seu barulho montono, e o fuso cara-lhe das
mos.

Ao cair o fuso despertou do xtase, abriu os olhos, e viu diante de si
um cavaleiro magnificamente vestido, tendo na mo um gorro de veludo
preto, com uma pluma vermelha, da cor do fogo. O cavaleiro saudou-a
respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
perguntou-lhe:

--Qual  o caminho da cidade?

Margarida estendeu a mo para lho indicar, e o forasteiro inclinando-se
tirou do dedo um anel de ouro com um diamante, que brilhava como uma
estrela, e meteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais belo do que
o anel da sua companheira. O rosto do cavaleiro alumiou-se ento com
um sorriso estranho e diablico.

Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
Margarida, e pediu-lhe uma esmola.

Margarida tirou do dedo o anel, e ofereceu-o ao pobre desgraado.

O cavaleiro ento, soltando um grito de clera, ia lanar-se sobre
Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda
disfarado--cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, isto  Satans, que
tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do esprito celeste.




*Um nome inscrito no cu*


Era uma vez um pobre mendigo, que bateu  porta duma humilde cabana a
pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas no vendo, nem
ouvindo ningum, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu
ento uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:

--Ai! no te posso dar nada, porque nada tenho.

E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater  mesma
porta.

--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, j te disse que no tenho nada
que te dar.

--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.

E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
cima da mesa, muitos bocados de po e algumas moedas de dez ris, que
lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.

--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe ele afectuosamente, indo-se
embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.

No sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrev-lo-o no
Paraso, e mais tarde ns o viremos a saber.




*O linho*


O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais delicadas e
transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre
ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, como o
dum filho quando a me o lava e lhe d um beijo.

--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
e serei brevemente uma rica pea de pano. Sinto-me feliz. No h
ningum que seja mais feliz do que eu sou. Tenho sade e um belo
futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
feliz, feliz a mais no poder ser!

--Como s ingnuo! disseram as silvas do valado; tu no conheces o
mundo, de que ns outras temos uma larga experincia.

E rangendo lastimosamente, cantaram:

    --Cric, crac! cric, crac! crac!
    --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

--No to cedo como vocs imaginam, respondeu o linho; est uma bela
manh, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
florir. Sou muitssimo feliz.

Mas um belo dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
cabeleira, arrancaram-no com razes e tudo, e deram-lhe tratos de
pol. Primeiro mergulharam-no em gua, como se o quisessem afog-lo, e
depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!

--No se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si;  necessrio
sofrer, o sofrimento  a me da experincia.

Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no,
cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois,
puseram-no numa roca, e ento perdeu a cabea inteiramente.

--Era feliz de mais, pensava o desgraado linho no meio daquelas
torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades perdidas.

E ainda estava dizendo--perdidas, e j o estavam a meter no tear e a
transform-lo numa pea de pano.

--Isto  extraordinrio, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que
grandes tolas aquelas silvas quando cantavam:

    Cric, crac! cric, crac! crac!
    Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

Agora  que eu principio a viver. Padeci muito,  verdade, mas por isso
tambm agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me to forte, to alto,
to macio! Ah! isto  bem melhor do que ser planta, mesmo florida,
ningum trata da gente, e no bebemos outra gua a no ser a da chuva.
Agora  o contrrio: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as
manhs, e  noite tomo o meu banho com um regador. A criada do sr. cura
fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
melhor pea da parquia. No posso ser mais feliz.

Levaram o pano para casa, e entregaram-no s tesouras. Cortaram-no e
picaram-no com uma agulha. No era l muito agradvel, mas em
compensao fizeram dele uma dzia de camisas magnficas.

--Agora decididamente comeo a valer alguma coisa. O meu destino 
abenoado, porque sou til neste mundo.  preciso isso para se viver em
paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaos,  verdade, mas formamos um
s grupo, uma dzia. Que incomparvel felicidade!

O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.

--Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, mas no
se fazem impossveis.

E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem
adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel
branco magnfico.

--Oh que agradvel surpresa! exclamou o papel, agora sou muito mais fino
do que dantes, e vo cobrir-me de letras. O que no escrevero em cima
de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!

E escreveram nele as mais belas histrias, que foram lidas diante de
inmeros ouvintes, e os tornaram mais sbios e melhores.

--Ora aqui est uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! No sei
explicar o que me est acontecendo, mas  verdade. Deus sabe
perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
sorte; foi Ele que gradualmente me elevou, at chegar  maior glria.
Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: Acabou-se, acabou-se
tudo pelo contrrio se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou
viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; agora
as minhas flores so os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,
imensamente feliz!

Mas o papel no foi viajar; entregaram-no ao tipgrafo, e tudo que l
estava escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
que recrearam e instruram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
papel no teria prestado o mesmo servio, ainda que desse a volta  roda
do mundo. A meio caminho j estaria gasto.

-- justo, disse o papel, no tinha pensado nisso. Fico em casa, e vou
ser considerado como um velho av! fui eu que recebi as letras, as
palavras caram directamente da pena sobre mim, fico no meu lugar, e os
livros vo por esse mundo fora. A sua misso  realmente bela, e eu
estou contente, e julgo-me feliz.

O papel foi empacotado, e lanado para uma estante.

--Depois do trabalho  agradvel o descanso, pensou ele.  neste
isolamento que a gente aprende a conhecer-se. S de hoje em diante  que
eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a ns mesmo  a verdadeira
perfeio. Que me ir ainda acontecer? Progredir, est claro.

Passados tempos, o papel foi atirado ao fogo para o queimarem, porque o
que o no queriam vender ao merceeiro para embrulhar acar. E todas as
crianas da casa se puseram  roda; queriam v-lo arder, e ver tambm,
depois da labareda, as milhares de fascas vermelhas, que parecem fugir,
e se apagam instantaneamente uma aps outra. O mao inteiro de papel
foi atirado ao lume. Oh! como ele ardia! Tornara-se numa grande
chama, que se erguia to alto, to alto como o linho nunca erguera as
suas flores azuis; a pea de pano nunca tinha tido um brilho
semelhante.

Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
palavras, todas as ideias desapareceram em lnguas de fogo.

--Vou subir at ao sol; dizia uma voz no meio da labareda, que
pareciam mil vozes reunidas numa s. A chama saiu pela chamin, e no
meio dela volteavam pequeninos seres invisveis para os olhos do
homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.
Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se extinguiu,
quando no restava do papel seno a cinza negra, ainda eles danavam
sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas centelhas
encarnadas.

As crianas cantavam  roda da cinza inanimada:

    Cric, crac! cric, crac! crac!
    Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

Mas cada um dos pequeninos seres dizia: No, no se acabou; agora  que
 o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.

As crianas no puderam ouvir, nem compreender estas palavras; mas
tambm no era necessrio, porque as crianas no devem saber tudo.


FIM.




*INDICE*


A me
O ouro
Doura e bondade
O malmequer
No quero
Piloto
O rico e o pobre
Como um campons aprendeu o Padre Nosso
O talism
A alma
Alberto
A cano da cerejeira
Os gigantes da montanha e os anes da plancie
A criana, o anjo e flor
Presente por presente
O pinheiro ambicioso
Perfeio das obras de Deus
Joo e os seus camaradas
O rabequista
Os pssegos
A urna das lgrimas
Reconhecimento e ingratido
O fato novo do sulto
Boa sentena
Os animais agradecidos
O ermito
Carlos Magno e o abade de S. Gall
A boneca
Inconveniente da riqueza
Querer  poder
Qual ser rei?
Os trs vus de Maria
Os pequenos no bosque
O chapelinho encarnado
Os cinco sonhos
A igreja do rei
O valente soldado de chumbo
Joo Pateta
Branca de Neve
A rapariguinha e os fsforos
O primeiro pecado de Margarida
Um nome inscrito no cu
O linho


[A propriedade deste livro pertence no Brasil ao sr. Lus de Andrade,
residente no Rio de Janeiro.]


