The Project Gutenberg EBook of Amor de Perdio, by Camillo Castello Branco

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Title: Amor de Perdio
       Memorias d'uma familia

Author: Camillo Castello Branco

Release Date: August 3, 2005 [EBook #16425]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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AMOR DE PERDIO.




AMOR DE PERDIO


(MEMORIAS D'UMA FAMILIA).


ROMANCE

POR

CAMILLO CASTELLO BRANCO.

       *       *       *       *       *

Quem viu jmais vida amorosa, que no a visse afogada nas lagrimas do
desastre ou do arrependimento?

D. Francisco Manoel, (_Epanaphora amorosa_).

       *       *       *       *       *

PORTO

EM CASA DE N. MOR--EDITOR,

PRAA DE D. PEDRO.

A mesma casa em Coimbra, Rua da Calada.

Casa de Commisses em Paris, 2 bis, Rua d'Arcole.

1862.




PORTO: 1862--TYP. DE SEBASTIO JOS PEREIRA.

Rua do Almada, 641.




AO ILLUSTRISSIMO E EXCELENTISSIMO SENHOR


*ANTONIO MARIA DE FONTES PEREIRA DE MELLO*

DEDICA

O Author.




_Ill.^mo e Ex.^mo Snr.

Ha de pensar muita gente que V. Ex.^a no d valor algum a este livro,
que a minha gratido lhe dedica, porque muita gente est persuadida que
ministros do estado no lem novellas.  um engano. Uma vez ouvi eu um
collega de V. Ex.^a discorrer no parlamento cerca de caminhos de ferro.
Com tanto engenho o fazia, de tantas flres matizra aquella rida
materia, que me deleitou ouvil-o. Na noite d'esse dia encontrei o
collega de V. Ex.^a a lr a Fanny, aquella Fanny, que sabia tanto de
caminhos de ferro como eu.

Que V. Ex.^a tem romances na sua bibliotheca,  convico minha. Que l
tem alguns, que no leu porque o tempo lhe falece, e outros porque no
merecem tempo, tambm o creio. D V. Ex.^a, no lote dos segundos, um
logar a este livro, e ter assim V. Ex.^a significado que o recebe e
aprecia, por levar em si o nome do mais agradecido e respeitador criado
de V. Ex.^a

Na cada da Relao do Porto,

aos 26 de Setembro de 1861.

Camillo Castello Branco_.




PREFACIO.


Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartorio das cadas da
Relao do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a
folhas 232, o seguinte:

     _Simo Antonio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e
     estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa,
     e assistente na occasio de sua priso na cidade de Vizeu, idade de
     dezoito annos, filho de Domingos Jos Correia Botelho e de D. Rita
     Preciosa Caldeiro Castello-Branco, estatura ordinaria, cara
     redonda, olhos castanhos, cabello e barba preta, vestido com
     jaqueta de baeto azul, collte de fusto pintado e cala de panno
     pedrez. E fiz este assento, que assignei.

     Filippe Moreira Dias_.

 margem esquerda d'este assento est escripto:

     _Foi para a India em 17 de Maro de 1807_.

No ser fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o
degredo de um moo de dezoito annos lhe havia de fazer d.

Dezoito annos! O arrebol dourado e escarlate da manh da vida! As
louanias do corao que ainda no sonha em fructos, e todo se embalsama
no perfume das flres! Dezoito annos! O amor d'aquella idade! A passagem
do seio da familia, dos braos de me, dos beijos das irms para as
caricias mais dces da virgem, que se lhe abre ao lado como flr da
mesma sazo e dos mesmos aromas, e  mesma hora da vida! Dezoito
annos!... E degradado da patria, do amor, e da familia! Nunca mais o ceo
de Portugal, nem liberdade, nem irmos, nem me, nem rehabilitao, nem
dignidade, nem um amigo!...  triste!

O leitor de certo se compungia; e a leitora se lhe dissessem, em menos
de uma linha, a historia d'aquelles dezoito annos, choraria! Pois no? A
olhos enchutos poderia ouvil-a a mulher, a creatura mais bem formada das
branduras da piedade, a que por vezes traz comsigo do ceo um reflexo da
divina misericordia, essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos
os infelizes no choraria se lhe dissessem que o pobre moo perdra
honra, rehabilitao, patria, liberdade, irms, me, tudo, por amor da
primeira mulher que o despertou do seu dormir de innocentes desejos?!

Chorava, chorava! Assim eu lhe soubesse dizer o doloroso sobresalto que
me causaram aquellas linhas, de proposito procuradas, e lidas com
amargura e respeito e, ao mesmo tempo, odio. Odio, sim... A tempo vero
se  perdoavel o odio, ou se antes me no fra melhor abrir mo desde j
de uma historia que me pde acarear enojos dos frios julgadores do
corao, e das sentenas que eu aqui lavrar contra a falsa virtude de
homens, feitos barbaros, em nome de sua honra.

       *       *       *       *       *




AMOR DE PERDIO.


PRIMEIRA PARTE.




I.


Domingos Jos Correia Botelho de Mesquita e Menezes, fidalgo de
linhagem, e um dos mais antigos solarengos de Villa Real de
Traz-os-Montes, era, em 1779, juiz de fra de Cascaes, e n'esse mesmo
anno casara com uma dama do pao, D. Rita Thereza Margarida Preciosa da
Veiga Caldeiro Castello-Branco, filha d'um capito de cavallos, e neta
de outro, Antonio de Azevedo Castello-Branco Pereira da Silva, to
notavel por sua jerarchia, como por um, n'aquelle tempo, precioso livro
cerca da Arte da Guerra.

Dez annos de enamorado mal succedido consumira em Lisboa o bacharel
provinciano. Para se fazer amar da formosa dama de D. Maria I
minguavam-lhe dotes physicos: Domingos Botelho era extremamente feio.
Para se inculcar como partido conveniente a uma filha segunda,
faltavam-lhe bens de fortuna: os haveres d'elle no excediam a trinta
mil cruzados em propriedades no Douro. Os dotes de espirito no o
recommendavam tambem: era alcanadissimo de intelligencia, e grangeara
entre os seus condiscipulos da universidade o epitheto de brocas com
que ainda hoje os seus descendentes em Villa Real so conhecidos. Bem ou
mal derivado, o epitheto _brocas_ vem de _bra_. Entenderam os
academicos que a rudeza do seu condiscipulo procedia do muito po de
milho que elle digeria na sua terra.

Domingos Botelho devia ter uma vocao qualquer; e tinha: era excellenle
flautista; foi a primeira flauta do seu tempo; e a tocar flauta se
sustentou dois annos em Coimbra, durante os quaes seu pae lhe suspendeu
as mesadas, porque os rendimentos da casa no bastavam a livrar outro
filho de um crime de morte[1].

Formara-se Domingos Botelho em 1767, e fra para Lisboa lr no
desembargo do pao, iniciao banal dos que aspiravam  carreira da
magistratura. J Ferno Botelho, pae do bacharel, fra bem acceite em
Lisboa, e mrmente ao duque de Aveiro, cuja estima lhe teve a cabea em
risco, na tentativa regicida de 1758. O provinciano sahiu das masmorras
da Junqueira illibado da infamante nodoa, e bem-quisto mesmo do conde de
Oeiras, porque tomara parte na prova que este fizera do primor de sua
genealogia sobre a dos Pintos Coelhos do Bomjardim do Porto: pleito
ridiculo, mas estrondoso, movido pela recusa que o fidalgo portuense
fizera de sua filha ao filho de Sebastio Jos de Carvalho.

As artes com que o bacharel flautista vingou insinuar-se na estima de D.
Maria I e Pedro III no as sei eu.  tradio que o homem fazia rir a
rainha com as suas facecias, e por ventura com os tregeitos de que
tirava o melhor do seu espirito. O certo  que Domingos Botelho
frequentava o pao, e recebia do bolsinho da soberana uma farta penso,
com a qual o aspirante a juiz de fra se esqueceu de si, do futuro, e do
ministro da justia, que muito rogado fiara das suas letras o encargo de
juiz de fra de Cascaes.

J est dito que elle se atreveu aos amores do pao, no poetando como
Luiz de Cames ou Bernardim Ribeiro; mas namorando na sua prosa
provinciana, e captando a bem-querena da rainha para amollecer as
durezas da dama. Devia de ser, a final, feliz o doutor bexiga--que
assim era na crte conhecido--para se no desconcertar a discordia em
que andam rixados o talento e a felicidade. Domingos Botelho casou com
D. Rita Preciosa. Rita era uma formosura que ainda aos cincoenta annos
se podia presar de o ser. E no tinha outro dote, se no  dote uma
serie de avoengos, uns bispos, outros generaes, e entre estes o que
morrra frigido em caldeiro de no sei que terra da mourisma; gloria,
na verdade, um pouco ardente; mas de tal monta que os descendentes do
general frito se assignaram _Caldeires_.

A dama do pao no foi ditosa com o marido. Molestavam-na saudades da
crte, das pompas das camaras reaes, e dos amores de sua feio e molde,
que immolou ao capricho da rainha. Este desgostoso viver, porm, no
impeceu a reproduzirem-se em dois filhos e quatro meninas. O mais velho
era Manoel, o segundo Simo; das meninas uma era Maria, a segunda Anna,
e a ultima tinha o nome de sua me, e alguns traos da belleza d'ella.

O juiz de fra de Cascaes, solicitando logar de mais graduado banco,
demorava em Lisboa, na freguezia da Ajuda em 1784. N'este anno  que
nasceu Simo, o penultimo de seus filhos. Conseguiu elle, sempre
blandiciado da fortuna, transferencia para Villa Real, sua ambio
suprema.

A distancia de uma legua de Villa Real estava a nobreza da villa
esperando o seu conterraneo. Cada familia tinha a sua liteira com o
braso da casa. A dos Correias de Mesquita era a mais antiquada no
feitio, e as librs dos criados as mais surradas e traadas que
figuravam na comitiva.

D. Rita, avistando o prestito das liteiras, ajustou ao olho direito a
sua grande luneta de oiro, e disse:

-- Menezes, aquillo que ?!

--So os nossos amigos e parentes que veem esperar-nos.

--Em que seculo estamos ns n'esta montanha?--tornou a dama do pao.

--Em que seculo?! o seculo tanto  dezoito aqui como em Lisboa.

--Ah! sim? Cuidei que o tempo parra aqui no seculo doze.

O marido achou que devia rir-se do chiste, que o no lisonjera
grandemente.

Ferno Botelho, pae do juiz de fra, sahiu  frente do prestito para dar
a mo  nora, que apeava da liteira, e conduzil-a  de casa. D. Rita,
antes de vr a cara de seu sogro, contemplou-lhe a olho armado as
fivelas de ao, e a bolsa do rabicho. Dizia ella depois que os fidalgos
de Villa Real eram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa. Antes
de entrar na liteira avoenga de seu marido, perguntou, com a mais
refalsada seriedade, se no haveria risco em ir dentro d'aquella
antiguidade. Ferno Botelho asseverou a sua nora que a sua liteira no
tinha ainda cem annos, e que os machos no excediam a trinta.

O modo altivo como ella recebeu as cortezias da nobreza--velha nobreza
que para alli viera em tempo de D. Diniz, fundador da villa--fez que o
mais novo do prestito, que ainda vivia ha doze annos, me dissesse a mim:
Sabiamos que ella era dama da Senhora D. Maria I; porm, da soberba com
que nos tractou, ficamos pensando que seria ella a propria rainha.
Repicaram os sinos da terra quando a comitiva assomou  Senhora de
Almudena. D. Rita disse ao marido que a recepo dos sinos era a mais
estrondosa e barata.

Apearam  porta da velha casa de Ferno Botelho. A aia do pao relanceou
os olhos pela fachada do edificio, e disse de si para si:  uma bonita
vivenda para quem foi criada em Mafra e Cintra, na Bemposta e Queluz.

Decorridos alguns dias, D. Rita disse ao marido que tinha mdo de ser
devorada das ratasanas; que aquella casa era um covil de feras; que os
tectos estavam a desabar; que as paredes no resistiriam ao inverno; que
os preceitos de uniformidade conjugal no obrigavam a morrer de frio uma
esposa delicada e affeita s almofadas do palacio dos reis.

Domingos Botelho conformou-se com a estremecida consorte, e comeou a
fabrica de um palacete. Escassamente lhe chegavam os recursos para os
alicerces: escreveu  rainha, e obteve generoso subsidio com que ultimou
a casa. As varandas das janellas foram a ultima dadiva que a real viuva
fez  sua dama. Quer-nos parecer que a dadiva  um testemunho at agora
inedito da demencia de D. Maria I.

Domingos Botelho mandara esculpir em Lisboa a pedra de armas; D. Rita,
porm, teimara que no escudo se abrisse um emblema das suas; mas era
tarde, porque j a obra tinha vindo do esculptor, e o magistrado no
podia com segunda despeza, nem queria desgostar seu pae, orgulhoso de
seu braso. Resultou d'aqui ficar a casa sem armas, e D. Rita
victoriosa[2].

O juiz de fra tinha alli parentella illustre. O aprumo da fidalga
dobrou-se at aos grandes da provincia, ou antes houve por bem
levantal-os at ella. D. Rita tinha uma crte de primos, uns que se
contentavam de serem primos, outros que invejavam a sorte do marido. O
mais audacioso no ousava fital-a de rosto, quando o ella remirava com a
luneta em geito de tanta altivez e zombaria, que no ser estranha
figura dizer que a luneta de Rita Preciosa era a mais vigilante
sentinella da sua virtude.

Domingos Botelho desconfiava da efficacia dos merecimentos proprios para
cabalmente encher o corao de sua mulher. Inquietava-o o ciume; mas
suffocava os suspiros, receando que Rita se dsse por injuriada da
suspeita. E razo era que se offendesse. A neta do general frigido no
caldeiro sarraceno ria dos primos, que, por amor d'ella, arriavam e
empoavam as cabelleiras com um desgracioso esmero, ou cavalleavam
estrepitosamente na calada os seus ginetes, fingindo que os picadores
da provincia no desconheciam as graas hippicas do marquez de Marialva.

No o cuidava assim, porm, o juiz de fra. O intriguista que lhe trazia
o espirito em ancias era o seu espelho. Via-se sinceramente feio, e
conhecia Rita cada vez mais em flr, e mais enfadada no trato intimo.
Nenhum exemplo da historia antiga, exemplo de amor sem quebra entre o
esposo deforme e a esposa linda, lhe occorria. Um s lhe mortificava a
memoria, e esse, com quanto fosse da fabula, era-lhe avsso, e vinha a
ser o casamento de Venus e Vulcano. Lembravam-lhe as rdes que o
ferreiro coixo fabricra para apanhar os deuses adulteros, e
assombrava-se da paciencia d'aquelle marido. Entre si, dizia elle, que,
erguido o vo da perfidia, nem se queixaria a Jupiter, nem armaria
ratoeiras aos primos. A par do bacamarte de Luiz Botelho, que varra em
terra o alferes, estava uma fileira de bacamartes em que o juiz de fra
era entendido com muito superior intelligencia  que revelava na
comprehenso do Digesto e das Ordenaes do Reino.

Este viver de sobresaltos durou seis annos, ou mais seria. O juiz de
fra empenhra os seus amigos na transferencia, e conseguiu mais do que
ambicionava: foi nomeado provedor para Lamego. Rita Preciosa deixou
saudades em Villa Real, e duradoura memoria da sua soberba, formosura e
graas de espirito. O marido tambem deixou anecdotas que ainda agora se
repetem. Duas contarei smente para no enfadar. Acontecra um lavrador
mandar-lhe o presenle de uma vitella, e mandar com ella a vacca para se
no desgarrar a filha. Domingos Botelho mandou recolher  loja a vitella
e a vacca, dizendo que quem dava a filha dava a me. Outra vez, deu-se o
caso de lhe mandarem um presente de pasteis em rica salva de prata. O
juiz de fra repartiu os pasteis pelos meninos, e mandou guardar a
salva, dizendo que receberia como escarneo um presente de dces, que
valiam dez pataces, sendo que naturalmente os pasteis tinham vindo como
ornato da bandeja. E assim  que ainda hoje, em Villa Real, quando se d
um caso analogo de ficar alguem com o contedo e continente, diz a gente
da terra: Aquelle  como o doutor brocas.

No tenho assumpto de tradio com que possa deter-me em miudezas da
vida do provedor em Lamego. Escassamente sei que D. Rita aborrecia a
comarca, e ameaava o marido de ir com os seus cinco filhos para Lisboa,
se elle no sahisse d'aquella intratavel terra. Parece que a fidalguia
de Lamego, em todo o tempo orgulhosa d'uma antiguidade, que principia na
acclamao de Almacave, desdenhou a philaucia da dama do pao, e
esmerilhou certas vergonteas pdres do tronco dos Botelhos Correias de
Mesquita, desprimorando-lhe as ss com o facto de elle ter vivido dois
annos em Coimbra tocando flauta.

Em 1801 achamos Domingos Jos Correia Botelho de Mesquita corregedor em
Vizeu.

Manoel, o mais velho de seus filhos, tem vinte e dois annos, e frequenta
o segundo anno juridico. Simo, que tem quinze, estuda humanidades em
Coimbra. As tres meninas so o prazer e a vida toda do corao de sua
me.

O filho mais velho escreveu a seu pae queixando-se de no poder viver
com seu irmo, temeroso do genio sanguinario d'elle. Conta que a cada
passo se v ameaado na vida, porque Simo emprega em pistolas o
dinheiro dos livros, e convive com os mais famosos perturbadores da
academia, e corre de noite as ruas insultando os habitantes e
provocando-os  luta com assuadas. O corregedor admira a bravura de seu
filho Simo, e diz  consternada me que o rapaz  a figura e o genio de
seu bisav Paulo Botelho Correia, o mais valente fidalgo que dra
Traz-os-Montes.

Manoel, cada vez mais aterrado das arremettidas de Simo, se de Coimbra
antes de ferias, e vai a Vizeu queixar-se, e pedir que lhe d seu pae
outro destino. D. Rita quer que seu filho seja cadete de cavallaria. De
Vizeu parte para Bragana Manoel Botelho, e justifica-se nobre dos
quatro costados para ser cadete.

No entanto Simo recolhe a Vizeu com os seus exames feitos e approvados.
O pae maravilha-se do talento do filho, e desculpa-o da extravagancia
por amor do talento. Pede-lhe explicaes do seu mau viver com Manoel, e
elle responde que seu irmo o quer forar a viver monasticamente.

Os quinze annos de Simo tem apparencias de vinte.  forte de
compleio; bello homem com as feies de sua me, e a corpolencia
d'ella; mas de todo avsso em genio. Na plebe de Vizeu  que elle
escolhe amigos e companheiros. Se D. Rita lhe censura a indigna eleio
que faz, Simo zomba das genealogias, e mrmente do general Caldeiro
que morreu frito. Isto bastou para elle grangear a mal-querena de sua
me. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher, e tomou parte
no desgosto d'ella, e na averso ao filho. As irms temiam-no, tirante
Rita, a mais nova, com quem elle brincava puerilmente, e a quem
obedecia, se lhe ella pedia, com meiguices de criana, que no andasse
com pessoas mecanicas.

Finalisavam as ferias, quando o corregedor teve um grave dissabor. Um de
seus criados tinha ido levar a beber os machos, e por descuido ou
proposito deixou quebrar algumas vasilhas que estavam  vez no parapeito
do chafariz. Os donos das vazilhas conjuraram contra o criado, e
espancaram-no. Simo passava n'esse ensejo; e, armado d'um fueiro que
descravou d'um carro, partiu muitas cabeas, e rematou o tragico
espectaculo pela fara de quebrar todos os cantaros. O povoleu intacto
fugira espavorido, que ninguem se atrevia ao filho do corregedor; os
feridos, porm, incorporaram-se e foram clamar justia  porta do
magistrado.

Domingos Botelho bramia contra o filho, e ordenava ao meirinho geral que
o prendesse  sua ordem. D. Rita, no menos irritada, mas irritada como
me, mandou, por portas travessas, dinheiro ao filho para que, sem
detena, fugisse para Coimbra, e esperasse l o perdo do pae.

O corregedor, quando soube o expediente de sua mulher, fingiu-se
zangado, e prometteu fazel-o capturar em Coimbra. Como, porm, D. Rita
lhe chamasse brutal nas suas vinganas, e estupido juiz d'uma rapaziada,
o magistrado desenrugou a severidade postia da testa, e confessou
tacitamente que era brutal e estupido juiz.




II.


Simo Botelho levou de Vizeu para Coimbra as arrogantes convices da
sua valentia. Se recordava os chibantes pormenores da derrota em que
pozera trinta aguadeiros, o som cavo das pancadas, a queda atordoada
d'este, o levantar-se d'aquelle ensanguentado, a bordoada que abrangia
tres a um tempo, a que afocinhava dois, a gritaria de todos, e o
estrepito dos cantaros a final, Simo deliciava-se n'estas lembranas,
como ainda no vi n'algum drama, em que o veterano de cem batalhas
relembra os lours de cada uma, e esmorece, a final, estafado de
espantar, quando no  de estafar, os ouvintes.

O academico, porm, com os seus enthusiasmos era incomparavelmente muito
mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de tragedia. As
recordaes esporeavam-no a faanhas novas, e n'aquelle tempo a academia
dava azo a ellas. A mocidade estudiosa, em grande parte, sympathisava
com as balbuciantes theorias da liberdade, mais por presentimento que
por estudo. Os apostolos da revoluo franceza no tinham podido fazer
reboar o trovo dos seus clamores n'este canto do mundo; mas os livros
dos encyclopedistas, as fontes onde a gerao seguinte bebra a peonha
que sahiu no sangue de noventa e tres, no eram de todo ignorados. As
doutrinas da regenerao social pela guilhotina tinham alguns timidos
sectarios em Portugal, e esses de vr  que deviam pertencer  gerao
nova. Alm de que, o rancor a Inglaterra lavrava nas entranhas das
classes manufactureiras, e o desprender-se do jugo aviltador de
estranhos, apertado, desde o principio do seculo anterior, com as sgas
de ruinosos e perfidos tractados, estava no animo de muitos e bons
portuguezes que se queriam antes allianados com a Frana, Estes eram os
pensadores reflexivos; os sectarios da academia, porm, exprimiam mais a
paixo da novidade que as doutrinas do raciocinio.

No anno anterior de 1800 sahira Antonio de Araujo de Azevedo, depois
conde da Barca, a negociar em Madrid e Paris a neutralidade de Portugal.
Rejeitaram-lhe as potencias alliadas as propostas, tendo-lhe em conta de
nada os dezeseis milhes que o diplomata offerecia ao primeiro consul.
Sem delongas, foi o territorio portuguez infestado pelos exercitos de
Hespanha e Frana. As nossas tropas, commandadas pelo duque de Lafes,
no chegaram a travar a lucta desigual, porque, a esse tempo, Luiz Pinto
de Sousa, mais tarde visconde de Balsemo, negociara ignominiosa paz em
Badajoz, com cedencia de Olivena  Hespanha, excluso de inglezes dos
nossos portos, e indemnisao de alguns milhes  Frana.

Estes successos tinham irritado contra Napoleo os animos d'aquelles que
odiavam o aventureiro, e para outros deram causa a congratularem-se do
rompimento com Inglaterra. Entre os d'esta parcialidade, na convulsiva e
irriquieta academia, era voto de grande monta Simo Botelho, apesar dos
seus imberbes dezeseis annos. Mirabeau, Danton, Robespierre, Desmoulins,
e muitos outros algozes e martyres do grande aougue, eram nomes de
soada musical aos ouvidos de Simo. Diffamal-os na sua presena era
affrontarem-no a elle, e bofetada certa, e pistolas engatilhadas  cara
do diffamador. O filho do corregedor de Vizeu defendia que Portugal
devia regenerar-se n'um baptismo de sangue, para que a hydra dos
tyrannos no erguesse mais uma das suas mil cabeas sob a clava do
Hercules popular.

Estes discursos, arremdo d'alguma clandestina objurgatoria de
Saint-Just, afugentavam da sua communho aquelles mesmos que o tinham
applaudido em mais racionaes principios de liberdade. Simo Botelho
tornou-se odioso aos condiscipulos que, para se salvarem pela infamia, o
delataram ao bispo-conde, reitor da universidade.

Um dia proclamava o demagogo academico na praa de Sanso aos poucos
ouvintes que lhe restaram fieis, uns por mdo, outros por analogia de
boas. O discurso ia no mais acrisolado da ideia regicida, quando uma
escolta de verdeaes lhe aguou a escandecencia. Quiz o orador resistir,
aperrando as pistolas, mas de sobra sabiam os braos musculosos da
cohorte do bispo-conde com quem as haviam. O jacobino, desarmado e
cerrado entre a escolta dos archeiros, foi levado ao carcere academico,
d'onde sahiu, seis mezes depois, a grandes instancias dos amigos de seu
pae e dos parentes de D. Rita Preciosa.

Perdido o anno lectivo, foi para Vizeu Simo. O corregedor repelliu-o da
sua presena com ameaas de o expulsar de casa. A me, mais levada do
dever que do corao, intercedeu pelo filho, e conseguiu sental-o  mesa
commum.

No espao de tres mezes fez-se maravilhosa mudana nos costumes de
Simo. As companhias da ral despresou-as. Sahia de casa raras vezes, ou
s, ou com a irm mais nova, sua predilecta. O campo, as arvores, e os
sitios mais sombrios e rmos eram o seu recreio. Nas dces noites de
estio demorava-se por fora at ao repontar da alva; e aquelles que assim
o viam admiravam-lhe o ar scismador e o recolhimento que o sequestrava
da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, e sahia quando o
chamavam para a mesa.

D. Rita pasmava da transfigurao, e o marido, bem convencido d'ella, ao
fim de cinco mezes consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.

Simo Botelho amava. Ahi est uma palavra unica, explicando o que
parecia absurda reforma aos dezesete annos.

Amava Simo uma sua visinha, menina de quinze annos, rica herdeira,
regularmente bonita e bem nascida. Da janella do seu quarto  que elle a
vira a primeira vez para amal-a sempre. No ficara ella incolume da
ferida que fizera no corao do visinho: amou-o tambem, e com mais
seriedade que a usual nos seus annos.

Os poetas cansam-nos a paciencia a fallarem do amor da mulher aos quinze
annos, como paixo perigosa, unica, e inflexivel. Alguns prosadores de
romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze annos  uma
brincadeira;  a ultima manifestao do amor s bonecas;  a tentativa
da avesinha que ensaia o vo fra do ninho, sempre com os olhos fitos na
ave me que a est da fronde proxima chamando: tanto sabe a primeira o
que  amar muito, como a segunda o que  voar para longe.

Thereza de Albuquerque devia ser, por ventura, uma excepo no seu amor.

O magistrado e sua familia eram odiosos ao pae de Thereza, por motivos
de litigios em que Domingos Botelho lhe deu sentenas contra. Afra
isso, ainda no anno anterior dois criados de Thadeu de Albuquerque
tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. Salta aos olhos
que o amor de Thereza, declinando de si o dever de obtemperar e
sacrificar-se ao justo azedume de seu pae, era verdadeiro e forte.

E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e
fallaram-se tres mezes, sem darem rebate  visinhana, e nem sequer
suspeitas s duas familias. O destino, que ambos se promettiam, era o
mais honesto: elle ia formar-se para poder sustental-a, se no tivessem
outros recursos; ella esperava que seu velho pae fallecesse para,
senhora sua, lhe dar com o corao o seu grande patrimonio. Espanta
discrio tamanha na indole de Simo Botelho, e na presumivel ignorancia
de Thereza em coisas materiaes da vida, como so um patrimonio!

Na vespera da sua ida para Coimbra, estava Simo Botelho despedindo-se
da suspirosa menina, quando subitamente ella foi arrancada da janella. O
allucinado moo ouviu gemidos d'aquella voz que, um momento antes,
soluava commovida por lagrimas de saudade. Subiu-lhe o sangue  cabea;
contorceu-se no seu quarto como o tigre contra as grades inflexiveis da
jaula. Teve tentaes de se matar, na impotencia de soccorrl-a. As
restantes horas d'aquella noite passou-as em raivas e projectos de
vingana. Com o amanhecer esfriou-lhe o sangue, e renasceu a esperana
com os calculos.

Quando o chamaram para partir para Coimbra, lanou-se do leito de tal
modo desfigurado, que sua me, avisada do rosto amargurado d'elle, foi
ao quarto interrogal-o e despersuadil-o de ir era quanto assim estivesse
febril. Simo, porm, entre mil projectos, achara melhor o de ir para
Coimbra, e esperar l noticias de Thereza, e vir a Vizeu occultamente
fallar com ella. Ajuizadamente discorrra elle, que a sua demora
aggravaria a situao de Thereza.

Descra o academico ao pteo, depois de abraar a me e irms, e beijar
a mo do pae, que para esta hora reservara uma admoestao severa, a
ponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria se elle recahisse em
novas extravagancias. Quando mettia o p no estribo, viu a seu lado uma
velha mendiga, estendendo-lhe a mo aberta, como quem pede esmola, e, na
palma da mo, um pequeno papel. Sobresaltou-se o moo; e, a poucos
passos distante de sua casa, leu estas linhas:

Meu pae diz que me vai encerrar n'um convento, por tua causa. Soffrerei
tudo por amor de ti. No me esqueas tu, e achar-me-has no convento, ou
no ceo, sempre tua do corao, e sempre leal. Parte para Coimbra. L
iro dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome has de
responder  tua pobre Thereza.

A mudana do estudante maravilhou a academia. Se o no viam nas aulas,
em parte nenhuma o viam. Das antigas relaes restavam-lhe apenas as dos
condiscipulos sensatos que o aconselhavam para bem, e o visitaram no
carcere de seis mezes, dando-lhe alentos e recursos, que seu pae lhe no
dava, e sua me escassamente suppria. Estudava com fervor, como quem j
d'alli formava as bases do futuro renome e da posio por elle merecida,
bastante a sustentar dignamente a esposa. A ninguem confiava o seu
segredo, seno s cartas que enviava a Thereza, longas cartas em que
folgava o espirito da canceira da sciencia. A apaixonada menina
escrevia-lhe a miudo, e j dizia que a ameaa do convento fra mero
terror de que j no tinha mdo, porque seu pae no podia viver sem
ella.

Isto afervorou-lhe para mais o amor ao estudo. Simo, chamado em pontos
difficeis das materias do primeiro anno, tal conta deu de si, que os
lentes e os condiscipulos o houveram como primeiro premiado.

A este tempo, Manoel Botelho, cadete em Bragana, destacado no Porto,
licenciou-se para estudar na universidade as mathematicas. Animou-o a
noticia do reviramento que se dra em seu irmo. Foi viver com elle;
achou-o quieto; mas alheado n'uma ideia que o tornava misanthropo e
intratavel n'outro genero. Pouco tempo conviveram, sendo a causa da
separao um desgraado amor de Manoel Botelho a uma aoriana casada com
um academico. A esposa apaixonada perdeu-se nas illuses do cego amante.
Deixou o marido, e fugiu com elle para Lisboa, e d'ahi para Hespanha. Em
outro relano d'esta narrativa darei conta do remate d'este episodio.

No mez de Fevereiro de 1803 recebeu Simo Botelho uma carta de Thereza.
No seguinte capitulo se diz minuciosamente a peripecia que forra a
filha de Thadeu de Albuquerque a escrever aquella carta de pungentissima
surpreza para o academico, convertido aos deveres,  honra,  sociedade
e a Deus pelo amor.




III.


O pae de Thereza no embicaria na impureza do sangue do corregedor, se o
ajustarem-se os dois filhos em casamento se compadecesse com o odio de
um e o desprso do outro. O magistrado mofava do rancor do seu visinho,
e o visinho malsinava de venalidade a reputao do magistrado. Este
sabia da injuriosa vingana em que o outro se ia despicando; fingia-se
invulneravel  detraco; mas de dia para dia se lhe azedava a bilis; e
 de crr que, se o no contivessem consideraes de familia, soffreria
menos, desabafando pela bca d'um bacamarte, arma da predileco dos
Botelhos Correias de Mesquita. Era obra sobrehumana o reconciliarem-se.
Rita, a filha mais nova, estava um dia na janella do quarto de Simo, e
viu a visinha rente com os vidros e a testa apoiada nas mos. Sabia
Thereza que era aquella menina a mais querida irm de Simo, e a que
mais semelhana de parecer tinha com elle. Sahiu da sua artificial
indifferena, e respondeu ao reparo de Rita, fazendo-lhe com a mo um
gesto e sorrindo para ella. A filha do corregedor sorriu tambem, mas
fugiu logo da janella, porque sua me tinha prohibido s filhas de
trocarem vistas com pessoa d'aquella casa.

No dia seguinte  mesma hora, levada da sympathia que lhe causra
aquelle sorriso e aceno, tornou Rita  janella, e l viu Thereza com os
olhos fitos na sua, como se a estivesse esperando. Sorriram-se com
resguardo, afastando-se, a um tempo, do peitoril das janellas; e assim,
ambas de p, no interior dos quartos, se estavam contemplando. Como a
rua era estreita, podiam ouvir-se fallando baixo. Thereza, mais pelo
movimento dos labios que por palavras, perguntou a Rita se era sua
amiga. A menina respondeu com um gesto affirmativo, e fugiu,
acenando-lhe um adeus. Estes rapidos instantes de se vrem repetiram-se
successivos dias, at que, perdido o maior mdo de ambas, ousaram
demorar-se em palestras a meia voz. Thereza fallava de Simo, contava 
menina de onze annos o segredo do seu amor, e dizia-lhe que ella havia
de ser ainda sua irm, recommendando-lhe muito que no dissesse nada 
sua familia.

N'uma d'essas conversaes, Rita descuidara-se, e levantou de modo a voz
que foi ouvida d'uma irm, que a foi logo accusar ao pae. O corregedor
chamou Rita, e forou-a pelo terror a contar tudo que ouvira  visinha.
Tanta foi sua clera, que, sem attender s razes da esposa, que viera
espavorida dos gritos d'elle, correu ao quarto de Simo, e viu ainda
Thereza  janella.

l!--disse elle  pllida menina--No tenha a confiana de pr olhos em
pessoa de minha casa. Se quer casar, case com um sapateiro, que  um
digno genro de seu pae.

Thereza no ouviu o remate da brutal apostrophe: tinha fugido aturdida e
envergonhada. Porm, como o desabrido ministro ficasse bramindo no
quarto, e Thadeu de Albuquerque sahisse a uma janella, a clera
d'aquelle redobrou, e a torrente das injurias, longo tempo represada,
bateu no rosto do visinho, que no ousou replicar-lhe.

Thadeu interrogou sua fllha, e acreditou que foi causa  sanha de
Domingos Botelho estarem as duas meninas praticando innocentemente, por
tregeitos, em coisas de sua idade. Desculpou o velho a criancice de
Thereza, admoestando-a a que no voltasse quella janella.

Esta mansido do fidalgo, cujo natural era bravio, tem a sua explicao
no projecto de casar em breve a filha com seu primo Balthazar Coutinho,
de Castro-d'Aire, senhor de casa, e egualmenle nobre da mesma prosapia.
Cuidava o velho, presumposo conhecedor do corao das mulheres, que a
brandura seria o mais seguro expediente para levar a filha ao
esquecimento d'aquelle pueril amor a Simo. Era maxima sua que o amor,
aos quinze annos, carece de consistencia para sobreviver a uma ausencia
de seis mezes. No pensava errado o fidalgo, mas o erro existia. As
excepes tem sido o ludibrio dos mais assizados pensadores, tanto no
especulativo como na sciencia positiva. No era muito que Thadeu de
Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e corao de mulher, cujas
variantes so tantas e to caprichosas, que eu no sei se alguma maxima
pde ser-nos guia, a no ser esta: Em cada mulher, quatro mulheres
incomprehensiveis, pensando alternadamente como se ho de desmentir umas
s outras. Isto  o mais seguro; mas no  infallivel. Ahi est Thereza
que parece ser unica em si. Dir-se-ha que as tres da conta, que diz a
sentena, no podem coexistir com a quarta, aos quinze annos? Tambem o
penso assim, posto que a fixidez, a constancia d'aquelle amor, funda em
causa independente do corao:  porque Thereza no vai  sociedade, no
tem um altar em cada noite na sala, no provou o incenso d'outros
galans, nem teve ainda uma hora de comparar a imagem amada, desluzida
pela ausencia, com a imagem amante, amor nos olhos que a fitam, e amor
nas palavras que a convencem de que ha um corao para cada homem, e uma
s mocidade para cada mulher. Quem me diz a mim que Thereza teria em si
as quatro mulheres da maxima, se o vapor de quatro incensorios lhe
estonteasse o espirito? No  facil, nem preciso decidir; e vamos ao
conto.

cerca de Simo Botelho, nunca diante de sua filha Thadeu de Albuquerque
proferiu palavra, nem antes nem depois do disparate do corregedor. O que
elle fez logo foi chamar a Vizeu o sobrinho de Castro d'Aire, e
prevenil-o do seu designio, para que elle em face de Thereza procedesse
como convinha a um enamorado de feio, que mutuamente se apaixonassem e
promettessem auspicioso futuro ao casamento.

Por parte de Balthazar Coutinho a paixo inflammou-se to depressa,
quanto o corao de Thereza se congelou de terror e repugnancia. O
morgado de Castro-d'Aire, attribuindo a frieza de sua prima a modestia,
a innocencia e acanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre d'aquella
alma, e saboreou de antemo o prazer de uma lenta, mas segura conquista.
Verdade  que Balthazar nunca se explicara de modo que Thereza lhe dsse
resposta decisiva; um dia, porm, instigado por seu tio, affoitou-se o
ditoso noivo a fallar assim  melanclica menina:

-- tempo de lhe abrir o meu corao, prima. Est bem disposta a
ouvir-me?

---Eu estou sempre bem disposta a ouvil-o, primo Balthazar.

A desplicencia enfadosa d'esta resposta abalou algum tanto as convices
do fidalgo, respeito  innocencia, modestia e acanhamento de sua prima.
Ainda assim quiz elle no momento persuadir-se que a boa vontade no
poderia exprimir-se d'outro modo, e continuou:

--Os nossos coraes penso eu que esto unidos; agora  preciso que as
nossas casas se unam.

Thereza impallideceu, e baixou os olhos.

--Acaso lhe diria eu alguma coisa desagradavel?!--proseguiu Balthazar,
rebatido pela desfigurao de Thereza.

--Disse-me o que  impossvel fazer-se--respondeu ella sem turvao--O
primo engana-se: os nossos coraes no esto unidos. Sou muito sua
amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que o primo
pensava em tal.

--Quer dizer que me aborrece, prima Thereza?--atalhou corrido o morgado.

--No, senhor: j lhe disse que o estimava muito, e por isso mesmo no
devo ser esposa d'um amigo a quem no posso amar. A infelicidade no
seria s minha...

--Muito bem... Posso eu saber--tornou com refalsado sorriso o
primo--quem  que me disputa o corao de minha prima?

--Que lucra em o saber?

--Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem... 
exacto?

--.

--E com tamanha paixo que desobedece a seu pae?

--No desobedeo: o corao  mais forte que a submissa vontade de uma
filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pae; mas eu no
disse ao primo Balthazar que casava; disse-lhe unicamente que amava.

--Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de dizer!... quem
pensaria que os seus dezeseis annos estavam to abundantes de
palavras!...

--No so s palavras, primo--retorquiu Thereza com gravidade--so
sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se lhe eu
mentisse ficaria mais bem vista de meu primo?

--No, prima Thereza; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer em tudo.
Ora, olhe, no duvda declarar quem  o ditoso mortal da sua
preferencia?

--Que lhe faz saber isso?

--Muito, prima: todos temos a nossa vaidade, e eu folgaria muito de me
vr vencido por quem tivesse merecimentos que eu no tenho aos seus
olhos. Tem a bondade de me dizer o seu segredo, como o diria a seu primo
Balthazar, se o tivesse em conta do seu amigo intimo?

--N'essa conta  que eu o no posso j ter...--respondeu Thereza,
sorrindo e contando, como elle, as syllabas das palavras.

--Pois nem para amigo me quer?!

--O primo no me perdoa a sinceridade que eu tive, e ser de hoje em
diante meu inimigo.

--Pelo contrario...--tornou elle com mal rebuada ironia--muito pelo
contrario... Eu lhe provarei que sou seu amigo, se alguma vez a vir
casada com algum miseravel indigno de si.

--Casada!...--interrompeu ella; mas Balthazar cortou-lhe logo a rplica
d'este modo:

--Casada com algum famoso brio ou jogador de po, valento de
aguadeiros, e distincto cavalheiro que passa os annos lectivos
encarcerado nas cadas de Coimbra...

Visivel  que Balthazar Coutinho estava senhor do segredo de Thereza.
Seu tio, naturalmente, lhe communicara a criancice da prima, talvez
antes de destinar-lh'a esposa.

Ouvira Thereza o tom sarcastico d'aquellas palavras, e ergura-se
respondendo assim com altivez:

--No tem mais que me diga, primo Balthazar?

--Tenho, prima: queira sentar-se algum tempo mais. No cuide agora que
est fallando com o namorado infeliz: convena-se de que falla com o seu
mais proximo parente e mais sincero amigo, e mais decidido guarda da sua
dignidade e fortuna. Eu sabia que minha prima, contra a expressa vontade
de seu pae, uma ou outra vez conversra da janella com o filho do
corregedor. No dei valor ao successo, e tomei-o como criancice. Como eu
frequentasse o meu ultimo anno em Coimbra, ha dois annos conheci de
sobra Simo Botelho. Quando vim e me contaram a sua affeio ao
academico, pasmei da boa f da priminha; depois entendi que a sua mesma
innocencia devia ser o seu anjo custodio. Agora, como seu amigo,
cumpunjo-me de a vr ainda fascinada pela perversidade do seu visinho.
No se recorda de ter visto Simo Botelho sociando com a infima
vilanagem d'esta terra? No viu os seus criados com as cabeas quebradas
pelo tal varredor de feiras? No lhe constou que elle, em Coimbra,
abarrotado de vinho, andava pelas ruas armado como um salteador de
estradas, proclamando  canalha a guerra aos nobres, e aos reis, e 
religio de nossos paes? A prima ignoraria isto por ventura?

--Ignorava parte d'isso, e no me afflige o sabl-o. Desde que conheci
Simo, no me consta que elle tenha dado o menor desgosto  sua familia,
nem ouo fallar mal d'elle.

--E est por isso persuadida de que Simo deve ao seu amor a reforma de
costumes?

--No sei, nem penso n'isso--replicou com enfado Thereza.

--No se zangue, prima. Vou-lhe dizer as minhas ultimas palavras: eu hei
de, em quanto viver, trabalhar para salval-a das garras de Simo
Botelho. Se seu pae lhe faltar, fico eu. Se as leis a no defenderem dos
ataques do seu demonio, eu farei vr ao valento que a victoria sobre os
aguadeiros no o poupa ao desgosto de ser levado a pontaps para fra da
casa de meu tio Thadeu d'Albuquerque.

--Ento o primo quer-me governar?--atalhou ella com desabrida irritao.

--Quero-a dirigir em quanto a sua razo precisar de auxilio. Tenha
juizo, e eu serei indifferente ao seu destino. No a enfado mais, prima
Thereza.

Balthazar Coutinho foi d'ali procurar seu tio, e contou-lhe o essencial
do dialogo. Thadeu, atonito da coragem da filha, e ferido no corao e
direitos paternaes, correu ao quarto d'ella, disposto a espancal-a.
Reteve-o Balthazar, reflexionando-lhe que a violencia prejudicaria muito
a crise, sendo coisa de esperar que Thereza fugisse de casa. Refreou o
pae a sua ira, e meditou. Horas depois chamou sua filha, mandou-a sentar
ao p de si, e em termos serenos e gesto bem composto, lhe disse que era
sua vontade casal-a com o primo; porm que elle j sabia que a vontade
de sua filha no era essa. Ajuntou que a no violentaria; mas tambem no
consentiria que ella, sovando aos ps o pundonor de seu pae, se dsse de
corao ao filho do seu maior inimigo. Disse mais que estava a resvalar
na sepultura, e mais depressa desceria a ella, perdendo o amor da filha,
que elle j considerava morta. Terminou perguntando a Thereza, se ella
duvidava entrar n'um convento, e ahi esperar que seu pae morresse, para
depois ser desgraada  sua vontade.

Thereza respondeu, chorando, que entraria n'um convento, se essa era a
vontade de seu pae; porm que se no privasse elle de a ter em sua
companhia, nem a privasse a ella dos seus affectos, por mdo de que sua
filha praticasse alguma aco indigna, ou lhe desobedecesse no que era
virtude obedecer. Prometteu-lhe julgar-se morta para todos os homens,
menos para seu pae.

Thadeu ouviu-a, e no lhe replicou.




IV.


O corao de Thereza estava mentindo. Vo l pedir sinceridade ao
corao!

Para finos entendedores, o dialogo do anterior capitulo definiu a filha
de Thadeu de Albuquerque.  mulher varonil, tem fora de caracter,
orgulho fortalecido pelo amor, despgo das vulgares apprehenses, se so
apprehenses a renuncia que uma filha faz de sua vontade s
imprevidentes e caprichosas vontades de seu pae. Diz boa gente que no,
e eu abundo sempre no voto da gente boa. No ser aleive attribuir-lhe
uma pouca de astucia, ou hypocrisia, se quizerem; perspicacia seria mais
correcto dizer. Thereza adivinha que a lealdade tropea a cada passo na
estrada real da vida, e que os melhores fins se attingem por atalhos
onde no cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis so raros na
idade inexperta de Thereza; mas a mulher do romance quasi nunca 
trivial, e esta, de que resam os meus apontamentos, no o era. A mim me
basta para crr em sua distinco a celebridade que ella veio a ganhar 
conta da desgraa.

Da carta que ella escreveu a Simo Botelho, contando as scenas
descriptas, a critica deduz que a menina de Vizeu contemporisava com o
pae, pondo a mira no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem
romper com o velho em manifesta desobediencia. Na narrativa que fez ao
academico omittiu ella as ameaas do primo Balthazar, clausula que, a
ser transmittida, arrebataria de Coimbra o moo, em que sobejavam brios
e ferocidade para mantl-os.

Mas no  esta ainda a carta que surprendeu Simo Botelho.

Parecia bonanoso o ceo de Thereza. Seu pae no fallava em claustro, nem
em casamento. Balthazar Coutinho voltra ao seu solar de Castro-d'Aire.
A tranquilla menina dava semanalmente estas boas novas a Simo, e este,
alliando s venturas do corao as riquezas do espirito, estudava
incessantemente, e desvelava as noites arquitectando o seu edifcio de
futura gloria.

Ao romper d'alva, d'um domingo de Junho de 1803, foi Thereza chamada
para ir com seu pae  primeira missa da igreja parochial. Vestiu-se a
menina assustada, e encontrou o velho na ante-camara a recebl-a com
muito agrado, perguntando-lhe se ella se erguia de bons humores para dar
ao author de seus dias um resto de velhice feliz. O silencio de Thereza
era interrogador.

--Vais hoje dar a mo de esposa a teu primo Ballhazar, minha filha. 
preciso que te deixes cegamente levar pela mo de teu pae. Logo que
dres este passo difficil, conhecers que a tua felicidade  d'aquellas
que precisam ser impostas pela violencia. Mas repara, minha querida
filha, que a violencia de um pae  sempre amor. Amor tem sido a minha
condescendencia e brandura para comtigo. Outro teria subjugado a tua
desobediencia com maus tractos, com os rigores do convento, e talvez com
o desfalque do teu grande patrimonio. Eu, no. Esperei que o tempo te
aclarasse a razo, e felicito-me de te julgar desassombrada do diabolico
prestigio do maldito, que acordou o teu innocente corao. No te
consultei outra vez sobre este casamento, por temer que a reflexo
fizesse mal ao fervor de boa filha com que tu vais abraar teu pae, e
agradecer-lhe a sisudez com que elle respeitou o teu genio, velando
sempre a hora de te encontrar digna do seu amor.

Thereza no desfitou os olhos do pae; mas to abstrahida estava, que
escassamente lhe ouviu as primeiras palavras, e nada das ultimas.

--No me respondes, Thereza?!- tornou Thadeu, tomando-lhe caridosamente
as mos.

--Que hei-de eu responder-lhe, meu pae?--balbuciou ella.

--Ds-me o que te peo? enches de contentamento os poucos dias que me
restam?

--E ser o pae feliz com o meu sacrificio?

--No digas sacrificio, Thereza... A'manh a estas horas vers que
transfigurao se fez na tua alma. Teu primo  um composto de todas as
virtudes; nem a qualidade de ser um gentil moo lhe falta, como se a
riqueza, a sciencia e as virtudes no bastassem a formar um marido
excellente.

--E elle quer-me, depois de eu me ter negado?--disse ella com amargura
ironica.

--Se elle est apaixonado, filha!... e tem bastante confiana em si para
crr que tu has de amal-o muito!...

--E no ser mais certo odial-o eu sempre!? Eu agora mesmo o abomino
como nunca pensei que se podesse abominar! Meu pae...--continuou ella,
chorando, com as mos erguidas--mate-me; mas no me force a casar com
meu primo! E' escusada a violencia, porque eu no caso!..

Thadeu mudou de aspecto, e disse irado:

--Hs de casar! Quero que cases! Quero!... Quando no, amaldioada sers
para sempre, Thereza! Morrers n'um convento! Esta casa ir para teu
primo! Nenhum infame ha de aqui pr um p nas alcatifas de meus avs. Se
s uma alma vil, no me pertences, no s minha filha, no podes herdar
appellidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pae
d'esse miseravel que tu amas! Maldita sejas! Entra n'esse quarto, e
espera que d'ahi te arranquem para outro, onde no vers um raio de sol.

Thereza ergueu-se sem lagrimas, e entrou serenamente no seu quarto.
Thadeu de Albuquerque foi encontrar seu sobrinho, e disse-lhe:

--No te posso dar minha filha, porque j no tenho filha. A miseravel,
a quem dei este nome, perdeu-se para ns e para ella.

Balthazar, que, a juizo de seu tio, era um composto de excellencias,
tinha apenas uma quebra: a absoluta carencia de brios. Malograda a
tentativa do seu amor de emboscada, tornou para a terra o primo de
Thereza, dizendo ao velho que elle o livraria do assedio em que Simo
Botelho lhe tinha o corao da filha. No approvou a recluso no
convento, discorrendo sobre as hypotheses infamantes que a opinio
publica inventaria. Aconselhou que a deixasse estar em casa, e esperasse
que o filho do corregedor viesse de Coimbra.

Ponderaram no animo do velho as razes de Balthazar. Thereza
maravilhou-se da quietao inesperada de seu pae, e desconfiou da
incoherencia. Escreveu a Simo. Nada lhe escondeu do succedido; nem as
ameaas de Balthazar por delicadeza supprimiu. Rematava communicando-lhe
as suas suspeitas de alguma nova traa de violencia melhor agourada.

O academico, chegando ao periodo das ameaas, j no tinha clara luz nos
olhos para decifrar o restante da carta. Tremia sezes, e as artrias
frontaes arfavam-lhe entumecidas. No era sobresalto do corao
apaixonado: era a indole soberba que lhe escaldava o sangue. Ir d'ali a
Castro-d'Aire, e apunhalar o primo de Thereza na sua propria casa, foi o
primeiro conselho, que lhe segredou a furia do odio. N'este proposito
sahiu, alugou cavallo, e recolheu a vestir-se de jornada. J preparado,
a cada minuto de espera assomava-se em frenesis. O cavallo demorou-se
meia hora, e o seu bom anjo, n'este espao, vestido com as galas com que
elle vestia na imaginao Thereza, deu-lhe rebates de saudade d'aquelles
tempos e ainda das horas d'aquelle mesmo dia, em que scismava na
felicidade que o amor lhe promettia, se a elle procurasse no caminho do
trabalho e da honra. Contemplou os seus livros com tanto affecto, como
se em cada um estivesse uma pagina da historia do seu corao. Nenhuma
d'aquellas paginas tinha elle lido, sem que a imagem de Thereza lhe
apparecesse a fortalecl-o para vencer os tdios da continuada
applicaao, e os impetos d'um natural inquieto e ancioso de commoes
desusadas. E ha de tudo acabar assim?--pensava elle, com a face entre
as mos, encostado  sua banca de estudo.--Ainda ha pouco eu era to
feliz!...--Feliz!--repetiu elle erguendo-se de golpe--quem pde ser
feliz com a deshonra d'uma ameaa impune!... Mas eu perco-a! Nunca mais
hei de vl-a... Fugirei como um assassino, e meu pae ser o meu primeiro
inimigo, e ella mesma ha de horrorisar-se da minha vingana... A ameaa
s ella a ouviu; e, se eu tivesse sido aviltado no conceito de Thereza,
pelos insultos do miseravel, talvez que ella os no repetisse...

Simo Botelho releu a carta duas vezes, e  terceira leitura achou menos
affrontosas as bravatas do fidalgo cioso. As linhas finaes desmentiam
formalmente a suspeita do aviltamento, com que o seu orgulho o
atormentava: eram expresses ternas, supplicas ao seu amor como
recompensa dos passados e futuros desgostos, vises encantadoras do
futuro, novos juramentos de constancia, e sentidas phrases de saudade.

Quando o arreeiro bateu  porta, Simo Botelho j no pensava em matar o
homem de Castro-d'Aire; mas resolvra ir a Vizeu, entrar de noite,
esconder-se e vr Thereza. Faltava-lhe, porm, casa de confiana onde se
occultasse. Nas estalagens, seria logo descoberto. Perguntou ao arreeiro
se conhecia alguma casa em Vizeu onde elle podesse estar escondido uma
noite ou duas, sem receio de ser denunciado. O arreeiro respondeu que
tinha a um quarto de legua de Vizeu um primo ferrador; e no conhecia em
Vizeu seno os estalajadeiros. Simo achou de aproveitar o parentesco do
homem, e logo d'alli o presenteou com uma jaqueta de pelles e uma faxa
de sda escarlate,  conta de maiores valores promettidos, se elle o bem
servisse n'uma empreza amorosa.

No dia seguinte chegou o academico a casa do ferrador. O arreeiro deu
conta ao seu parente do que vinha tratado com o estudante.

Foi Simo Botelho cautelosamente hospedado, e o arreeiro abalou no mesmo
ponto para Vizeu, com uma carta destinada a uma mendiga, que morava no
mais impraticavel bcco da terra. A mendiga informou-se miudamente da
pessoa que enviava a carta, e sahiu, mandando esperar o caminheiro.
Pouco depois, voltou ella com a resposta, e o arreeiro partiu a galope.

Era a resposta um grito de alegria. Thereza no reflectiu, respondendo a
Simo, que n'aquella noite se festejavam os annos de seu pae, e se
reuniam em casa os parentes. Disse-lhe que s onze horas em ponto ella
iria ao quintal, e lhe abriria a porta.

No esperava tanto o academico. O que elle pedia era fallar-lhe da rua
para a janella do seu quarto, e receava impossivel este prazer, que elle
avaliava o maximo. Apertar-lhe a mo, sentir-lhe o halito, abraal-a
talvez, commetter a ousadia de um beijo, estas esperanas, to alm de
suas modestas e honestas ambies, egualmente o enlevavam e assustavam.
Enlevo e susto em coraes que se estreiam na comedia humana, so
sentimentos congeniaes.

 hora da partida, Simo tremia, e a si mesmo pedia contas da timidez,
sem saber que os encantos da vida, os mais angelicos momentos da alma,
so esses lances de mysterioso alvoroo que aos mais ricos de corao
succedem em todas as sases da vida, e a todos os homens, uma vez ao
menos.

s onze horas em ponto estava Simo encostado  porta do quintal, e a
distancia convencionada o arreeiro com o cavallo  rdea. A toada da
musica, que vinha das salas remotas alvoroava-o, porque a festa em casa
de Thadeu de Albuquerque o surprendra. No longo termo de tres annos
nunca elle ouvira musica n'aquella casa. Se elle soubesse o dia
natalicio de Thereza, espantra-se menos da estranha alegria d'aquellas
salas, sempre fechadas, como em dias de mortuorio. Simo imaginou
desvairadaraente as chimeras que voejam, ora negras, ora translucidas em
redor da phantasia apaixonada. No ha balisa racional para as bellas,
nem para as horrorosas iluses, quando o amor as inventa. Simo Botelho,
com o ouvido collado  fechadura, ouvia apenas o som das flautas, e as
pancadas do corao sobresaltado.




V


Balthazar Cominho estava na sala, simulando vingativa indifferena por
sua prima. As irms do fidalgo e a de mais parentela da casa no
deixavam respirar Thereza. Moas e velhas, todas  uma, se repetiam,
aconselhando-a a reconciliar-se com seu primo, e dar a seu pae a alegria
que o pobre velho tanto rogava a Deus, antes de fechar os olhos.
Replicava Thereza que no queria mal a seu primo, nem sequer eslava
sentida d'elle; que era sua amiga, e sl-o-ia sempre em quanto lhe elle
deixasse livre o corao.

O velho esperava muito d'aquella noitada de festa. Alguns parentes,
presumidos de prudentes, lhe tinham dito que seria proveitoso regalar a
filha com os prazeres congruentes  sua idade, dando-lhe ensejo a que
ella repartisse o espirito, concentrado n'um s ponto, por diverses em
que a natural vaidade se preoccupa, e a fora do amor contrariado se vai
a pouco e pouco quebrantando. Aconselharam-lhe as reunies amiudadas, j
em sua casa, j na dos seus parentes, para d'este modo Thereza se
mostrar a muitos, ser cortejada de todos, e ter em opinio de menos
valia o unico homem com quem fallava, e a quem julgava superior a todos.
O fidalgo accedeu, mas com difficuldade; porque tinha l um systema seu
de ajuizar das mulheres, e porque vivra trinta annos de vida libertina
e dispendiosa, e se estava agora saboreando na economia e na quietao.
Os annos de Thereza eram pela primeira vez festejados com estrondo. A
morgada viu ento o que era o minuete da crte, e certos jogos de
prendas com que os intervallos n'aquelles tempos, se aligeiravam em
delicias, sem fadiga do corpo, nem desagrado da moral.

Mas, de agitada que estava, Thereza no compartia do gso dos seus
hospedes. Desde que soaram as dez horas d'aquella noite, a rainha da
festa parecia to alheada das finezas com que senhoras e homens 
competncia a lisonjeavam, que Balthazar Coutinho deu f do dessocgo de
sua prima, e teve a modestia de imaginar que ella se offendra da
indifferena d'elle. Generoso at ao perdo, o morgado de Castro-d'Aire,
compondo o rosto com gesto grave e melancolico, dirigiu-se a Thereza, e
pediu-lhe desculpa da frieza que elle disse ser como a das montanhas,
que tem vulces por dentro e neve por fra. Thereza teve a sinceridade
de responder que no tinha reparado na frieza de seu primo, e chamou
para junto d'ella uma menina, para evitar que a montanha se abrisse em
vulces. Pouco depois ergueu-se, e sahiu da sala.

Eram dez horas e tres quartos. Thereza corrra ao fundo do quintal,
abrira a porta, e, como no visse alguem, tornou de corrida para a sala.
No momento, porm, de subir a escada que ligava o jardim  casa,
Balthazar Coutinho, que a espiava desde que ella sahiu da sala, chegou a
uma das janellas sobre o jardim, bem longe de imaginar que a via.
Retirou-se, e entrou com Thereza na sala, ao mesmo tempo, por diversas
portas. Decorridos alguns minutos, a menina sahiu outra vez, e o primo
tambem. Thereza ouviu, a distancia, o estrepito d'um cavallo, quando
passou ao patamar da escada. Balthazar tambem o ouviu, e notou que sua
prima, receosa de ser vista e conhecida pela alvura do vestido, levava
uma capa ou chaile que a envolvia toda. O de Castro-d'Aire fez p atraz
para no ser visto. Thereza, porm, n'um relance de olhar temeroso,
ainda vra um vulto retirar-se. Teve mdo, e retrocedeu a largar a capa,
e entrou na sala, offegante de cansao e pallida de mdo.

--Que tens, minha filha?--disse-lhe o pae--J duas vezes sahisteda sala,
e vens to alvoroada! Tens algum incommodo, Thereza?

--Tenho uma dr: preciso de ir respirar de vez em quando... Nada , meu
pae.

Thadeu acreditou, e disse a toda a gente que a sua filha tinha uma dr;
s o no disse a seu sobrinho, porque o no encontrou, e soube que elle
tinha sahido.

Tambem Thereza dera pela ausencia do primo, e fingiu que o ia procurar,
resoluo de que o velho gostou muito. Desceu ella ao jardim, correu 
porta, onde a esperava Simo, abriu-a, e com a voz cortada pela
anciedade, apenas disse:

--Vai-te embora: vem manh s mesmas horas... Vai, vai!

Simo, quando isto ouvia, tinha os olhos, fitos n'um vulto, que se
approximava d'elle, rente com o muro do quintal. O arreeiro, que
primeiro o vira, dera um signal, e entalara as rdeas do cavallo entre
umas pedras, para ficar desembaraado, se o estudante se no podsse
haver com o inimigo.

Simo Botelho no se moveu do local, e Balthazar Coutinho parou na
distancia de seis passos. O arreeiro tinha lentamente avanado a meio
caminho do patro, quando lhe este disse que no se aproximasse. E,
caminhando para o vulto, aperrou duas pistolas, e disse-lhe:

--Isto aqui no  caminho. Que quer?

O fidalgo no respondeu.

--Parece-me que lhe abro a bca com uma bala!--tornou Simo.

--Que lhe importa o senhor quem est?!--disse Balthazar--Se eu tiver um
segredo, como o senhor parece que tem o seu n'estes sitios, sou obrigado
a confessar-lh'o?!

Simo reflectiu, e replicou:

--Este muro pertence a uma casa onde mora uma s famlia, e uma s
mulher.

--Esto n'essa casa mais de quarenta mulheres esta noite--redarguiu o
primo de Thereza--Se o cavalheiro espera uma, eu posso esperar outra.

--Quem  o senhor?--tornou com arrogancia o filho do corregedor.

--No conheo a pessoa que me interroga, nem quero conhecer. Fiquemos
cada um com o nosso incognito. Boas noites.

Balthazar Coutinho retrocedeu, dizendo entre si: que partido tem uma
espada contra dois homens e duas pistolas?

Simo Botelho cavalgou, e partiu para casa do hospitaleiro ferrador.

O sobrinho de Thadeu de Albuquerque entrou na sala, sem denunciar
levemente alterao de animo. Viu que Thereza o observava de revez, e
soube dissimular-se de modo que a socegou. A pobre menina, cansada de
commoes, viu com prazer erguer-se para sahir a primeira familia, que
deu rebate s outras, menos ao de Castro-d'Aire e suas irms, que
ficaram hospedados em casa de seu tio, com teno de se demorarem oito
dias em Vizeu.

Velou Thereza o restante da noite, escrevendo a Simao a detida historia
dos seus terrores, e pedindo-lhe perdo de o ella no ter advertido do
baile, por fcar doida de alegria com a sua vinda. No tocante ao plano de
se encontrarem na seguinte noite no havia alterao na carta. Isto
espantou o academico. A seu vr, o vulto era Balthazar Coutinho, e o pae
de Thereza devia ser avisado n'aquella mesma noite.

Respondeu elle contando a historia do incidente com o encapelado;
receando, porm, assustar Thereza e gorar a entrevista, escreveu nova
carta, em que no transluzia mdo de ser atacado, nem sequer receio de
marear-lhe a fama. Quiz parecer a Simo Botelho que este era o digno
porte de um amante corajoso.

Passou o estudante aquele dia contando as longas horas, e meditando
instantes nos funestos resultados que podia ter a sua temeraria ida, se
Balthazar Coutinho era aquelle homem, que reservra para melhor relance
a vingana da provocao insolente. Mas de si para si tinha elle que
pensar em tal era mais covardia que prudencia.

O ferrador tinha uma filha, moa de vinte e quatro annos, e formas
bonitas, e um rosto bello e triste. Notou Simo os reparos em que ella
se demorava a contemplal-o, e perguntou-lhe a causa d'aquelle olhar
melancolico com que ella o fitava. Marianna corou, abriu um sorriso
triste, o respondeu:

--No sei o que me adivinha o corao a respeito de v. s.^a Alguma
desgraa est para lhe succeder.

--A menina no dizia isso--replicou Simo--sem saber alguma coisa da
minha vida.

--Alguma coisa sei...--tornou ella.

--Ouviu contar ao arreeiro?

--No, senhor. E' que meu pae conhece o paesinho de v. s.^a, e tambem
conhece o senhor. E ha bocadinho que eu ouvi estar meu pae a dizer a meu
tio, que  o arreeiro que veio com v. s.^a, que tinha suas razes para
saber que alguma desgraa lhe estava para acontecer...

--Porque?

--Pr'amor d'uma fidalga de Vizeu, que tem um primo em Castro-d'Aire.

Simo espantou-se da publicidade do seu segredo, e ia colher pormenores
do que elle julgava mysterio entre duas familias, quando o mestre
ferrador Joo da Cruz entrou no sobrado, onde o precedente dialogo se
passra. A ma, como ouvisse os passos do pae, sahira lestamente por
outra porta.

--Com sua licena--disse mestre Joo.

Dizendo, fechou por dentro ambas as portas, e sentou-se sobre uma arca.

--Ora, meu fidalgo--continuou elle, descendo as mangas arregaadas da
camiza, e apertando-as com difficuldade nos grossos pulsos, como quem
sabe as exigencias da ceremonia--ha de desculpar que eu viesse assim em
mangas de camiza; mas no dei com a jaqueta...

--Est muito bem, senhor Joo--atalhou o academico.

--Pois, senhor, eu devo um favor a seu pae, e um favor d'aquella casta.
Uma vez armou-se aqui  minha porta uma desordem, a trco d'um couce que
um macho d'um almocreve deu n'uma egua, que eu estava ferrando, e em to
hoa hora foi, que lhe partiu rente o jarrte por aqui, salvo tal logar.

Joo da Cruz mostrou na sua perna o ponto por onde fra fracturada a da
egua, e continuou:

--Eu tinha alli  mo o martello, e no me tive que no pregasse com
elle na cabea do macho, que foi logo para a terra. O recoveiro de
Caro, que era chibante, deitou as unhas a um bacamarte, que trazia
entre uma carga, e desfechou comigo, sem mais tirte, nem garte. O' alma
damnada!--disse-lhe eu--pois tu vs que o teu macho me aleijou esta
egua, que custou vinte peas a seu dono, e que eu tenho de pagar, e
ds-me um tiro por eu te atordoar o macho!?

--E o tiro acertou-lhe?--atalhou Simo.

--Acertou; mas saber v. s.^a que me no matou; deu-me aqui por este
brao esquerdo com dois quartos. E vai eu, entro em casa, vou 
cabeceira da cama, e trago uma clavina, e desfecho-lh'a na tboa do
peito. O almocreve cahiu como um trdo, e no tugiu nem mugiu.
Prenderam-me, e fui para Vizeu e j l estava ha tres annos, no anno em
que o paesinho de v. s.^a veio corregedor. Andava muita gente a
trabalhar contra mim, e todos me diziam que eu ia pernear na forca.
Estava l na enxovia comigo um prso a cumprir sentena, e disse-me elle
que o senhor corregedor tinha muita devoo com as sete dres de Nossa
Senhora. Uma vez que elle ia passando com a familia para a missa,
disse-lhe eu senhor Corregedor, peo a v. s.^a pelas sete dres de
Maria Santissima, que me mande ir  sua presena, para eu explicar a
minha culpa a v.s.^a. O paesinho de v. s.^a chamou o meirinho geral, e
mandou tomar o meu nome. Ao outro dia fui chamado ao senhor Corregedor,
e contei-lhe tudo, mostrando-lhe ainda as cicatrizes do brao. Seu pae
ouviu-me, e disse-me. Vai-te embora, que eu farei o que podr. O caso
, meu fidalgo, que eu sahi absolvido, quando muita gente dizia que eu
havia de ser inforcado  minha porta. Faz favor de me dizer se eu no
devo andar com a cara onde o seu paesinho pe os ps!?

--Tem o senhor Joo motivo para lhe ser grato, no ha duvida nenhuma.

--Agora faz favor de ouvir o mais. Eu antes de ser ferrador, fui criado
de farda em casa do fidalgo de Castro-d'Aire, que  o senhor Balthazar.
Conhece-o v. s.^a? Ora, se conhece!...

--Conheo de nome.

--Foi elle que me abonou dez moedas de ouro para me estabelecer; mas
paguei-lh'as, Deus louvado. Ha de haver seis mezes que elle me mandou
chamar a Vizeu, e me disse que tinha trinta peas para me dar, se eu lhe
fizesse um servio. O que v. s.^a quizer, fidalgo. E vai elle disse-me
que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto boliu c por dentro
comigo, porque, a fallar a verdade, um homem que mata outro n'um aprto
no  um matador de officio, acho eu, no  assim?

--De certo...--respondeu Simo, adivinhando o remate da historia--quem
era o homem que elle queria morto?

--Era v. s.^a...  homem!--disse o ferrador com espanto--O senhor nem
sequer mudou de cr!

--Eu no mudo nunca de cr, senhor Joo--disse o academico.

--Estou pasmado!

--E vm.^ce no acceitou a incumbencia, pelo que vejo--tornou Simo.

--No, senhor; e ento logo que elle me disse quem era, a minha vontade
era pregar-lhe com a cabea n'uma esquina.

--E elle disse-lhe a razo porque me mandava matar?

--No, meu fidalgo; eu lhe conto. Na semana adiante, quando soube que o
senhor Balthazar (raios o partam!) tinha sabido de Vizeu, fui fallar com
o senhor Corregedor, e contei-lhe tudo o que se passra. O senhor
corregedor esteve a scismar um pouquinho, e disse-me, e v. s.^a ha de
perdoar por eu lhe dizer o que seu pae me disse tal e qual.

--Diga.

--Seu pae comeou a esfregar o nariz, e disse-me: Eu sei o que  isso.
Se aquelle brjeiro de meu filho Simo tivesse honra, no olharia para a
prima d'esse assassino. Cuida o patife que eu consentia que meu filho se
ligasse a uma filha de Thadeu de Albuquerque!.. Ainda disse mais coisas
que me no lembram; mas eu fiquei sabendo tudo. Ora aqui tem o que
houve. Agora, appareceu-me aqui v. s.^a, e a noite passada foi a Vizeu.
Perdoar a minha confiana; mas v. s.^a foi fallar com a tal menina: e
eu estive vai no vai a seguil-o; mas como ia meu cunhado, que  homem
para tres, fiquei descanado. Elle contou-me um encontro que v. s.^a
teve  porta do quintal da menina. Se l torna, senhor Simo, v
preparado para alguma coisa de maior. Eu bem sei que v. s.^a no 
medroso; mas d'uma traio ninguem se livra. Se quer que eu v tambm,
estou s suas ordens; e a clavina que deu policia ao almocreve ainda
alli est, e d fogo debaixo d'agua, como diz o outro. Mas, se v. s.^a
d licena que eu lhe diga a minha opinio, o melhor  no andar n'essas
encamizadas. Se quer casar com ella, v pedir a seu pae licena, e deixe
o resto c por minha conta; ponto  que ella queira, que eu, n'um abrir
e fechar d'olhos, atiro com ella para cima d'uma gua de chupta, que
alli tenho, e o pae e mais o primo ficam a vr navios.

--Obrigado, meu amigo--disse Simo--Aproveitarei os seus bons servios,
quando me forem necessarios.  noite hei de ir, como fui a noite
passada, a Vizeu. Se houver novidade, ento veremos o que se ha de
fazer. Conto comsigo, e creia que tem em mim um amigo.

Mestre Joo da Cruz no replicou. D'alli foi examinar miudamente a
fecharia da clavina, e entender-se com o cunhado sobre cautelas
necessarias, em quanto descarregava a arma, e a carregava de novo com
uns balotes especiaes que elle denominava amendoas de pimpes.

N'este intervallo, Marianna, a filha do ferrador, entrou no sobrado, e
disse com meiguice a Simo Botelho:

--Ento sempre  certo ir?

--Vou, porque no hei de ir?

--Pois Nossa Senhora v na sua companhia--tornou ella, sahindo logo para
esconder as lagrimas.




VI.


s dez horas e meia da noite d'aquelle dia, tres vultos convergiram para
o local, raro frequentado, em que se abria a porta do quintal de Thadeu
de Albuquerque. Alli se detiveram alguns minutos discutindo e
gesticulando. Dos tres havia um, cujas palavras eram ouvidas em silencio
e sem replica pelos outros: Dizia elle a um dos dois:

--No convm que estejas perto d'esta porta. Se o homem apparecesse aqui
morto, as suspeitas cahiam logo sobre mim ou meu tio. Afastem-se um do
outro, e tenham o ouvido applicado ao tropel do cavallo. Depois apressem
o passo, at o encontrarem de modo que os tiros sejam dados longe
d'aqui.

--Mas...--atalhou um--quem nos diz que elle veio hontem a cavallo, e
hoje vem a p?

--E' verdade! - accrescentou o outro.

--Se elle vier a p, eu lhes darei aviso para o seguirem depois at o
terem a geito de tiro, mas longe d'aqui, percebem vocs?--disse
Balthazar Coutinho.

--Sim, senhor; mas se elle se de casa do pae, e entra sem nos dar
tempo?

--Tenho a certeza de que no est em casa do pae, j lh'o disse. Basta
de palavriado. Vo esconder-se atraz da igreja, e no adormeam.

Debandou o grupo, e Balthazar ficou alguns momentos encostado ao muro.
Soaram os tres quartos depois das dez. O de Castro-d'Aire collou o
ouvido  porta, e retirou-se acceleradamente, ouvindo o rumor da
folhagem scca que Thereza vinha pizando.

Apenas Balthazar, cosido com o muro, desapparecra, um vulto assomou do
outro lado a passo rapido. No parou: foi direito a todos os pontos onde
uma sombra podia figurar um homem. Rodeou a igreja que estava a duzentos
passos de distancia. Viu os dois vultos direitos com o recanto que
formava a junco da capella mr, e sobre o qual cabiam as sombras da
torre. Fitou-os de passagem, e suspeitou; no os conheceu; mas elles
disseram entre si, depois que elle desapparecra:

-- o Joo da Cruz, ferrador, ou o diabo por elle!...

--Que far a esta hora por aqui?!

--Eu sei!

--No desconfias que elle entre n'isto?

--gora! Se entrasse, era por ns. No sabes que elle foi mochila do
nosso amo?

--E tambem sei que pz a loja com dinheiro do nosso amo.

--Pois ento que mdo tens?

--No ha mdo; mas tambem sei que foi o corregedor que o livrou da
forca...

--Isso que tem! O corregedor no se importa com isto, nem sabe que o
filho c est...

--Assim ser; mas no estou muito contente... Elle  homem dos diabos...

--Deixal-o ser... tanto entram as balas n'elle como n'outro...

A discusso continuou sobre varias conjecturas. De tudo o que elles
disseram uma coisa era certissima: ser o vulto o Joo da Cruz, ferrador.

Teria este dado trezentos passos, quando os criados de Balthazar ouviram
o remoto tropel de cavalgadura. Ao tempo que elles sahiam do seu
escondrijo, sabia Joo da Cruz  frente do cavalleiro. Simo aperrou as
pistolas, e o arreeiro uma clavina.

--No ha novidade--disse o ferrador--mas saiba v. s.^a que j podia
estar em baixo do cavallo com quatro zagalotes no peito.

O arreeiro reconheceu o cunhado, e disse:

--s tu, Joo?

--Sou eu. Vim primeiro que tu.

Simo estendeu a mo ao ferrador, e disse commovido:

---D c a sua mo; quero sentir na minha a mo de urn homem honrado.

--Nas occasies  que se conhecem os homens--redarguiu o ferrador.--Ora
vamos... no ha tempo para fallatorio. O senhor doutor tem uma espera.

--Tenho?--disse Simo.

--Atraz da igreja esto dois homens que eu no pude conhecer; mas no se
me dava de jurar que so criados do senhor Balthazar. Salte abaixo do
cavallo, que ha de haver mostarda. Eu disse-lhe que no viesse; mas v.
s.^a veio, e agora  andar com a cara para a frente.

--Olhe que eu no tremo, mestre Joo--disse o filho do corregedor.

--Bem sei que no; mas,  vista do inimigo, veremos.

Simo tinha apeado. O ferrador tomou as rdeas do cavallo, recuou alguns
passos na rua, e foi prendl-o  argola da parede de uma estalagem.

Voltou, e disse a Simo que o seguisse a elle e ao cunhado na distancia
de vinte passos; e que, se os visse parar perto do quintal de
Albuquerque, no passasse do ponto d'onde os visse.

Quiz o academico protestar contra um plano, que o humilhava como
protegido pela defeza dos dois homens; o ferrador, porm, no admittiu a
rplica.

--Faa o que eu lhe digo, fidalgo--disse elle com energia.

Joo da Cruz e o cunhado, espiando todas as esquinas, chegaram de fronte
do quintal de Thereza, e viram um vulto a sumir-se no angulo da parede.

--Vamos sobre elles--disse o ferrador--que l passaram para o adro da
igreja; n'este entrementes, o doutor chega  porta do quintal e entra;
depois voltaremos para lhe guardar a sahida.

N'este proposito, moveram-se apressados, e Simo Botelho caminhou com as
pistolas aperradas na direco da porta.

Em frente do muro do jardim de Thereza havia uma cascalheira escarpada,
que se esplainava depois n'uma alamda sombria.

Os dois criados de Balthazar, quando o tropel do cavallo parou,
recordaram as ordens do amo, no caso de vir a p Simo. Buscaram sitio
azado para o espreitarem na sahida, e entraram na alamda quando o
academico chegava  porta do quintal.

--Agora est seguro--disse um.

--Se l no ficar dentro....--respondeu o outro, vendo-o entrar, e
fechar-se a porta.

--Mas alm vem dois homens...--disse o mais assustado, olhando para a
outra entrada da alamda.

--E vem direitos a ns... aperra l a clavina...

O melhor  retirarmos. Ns estamos  espera de outro, e no d'estes.
Vamos embora d'aqui...

Este no esperou convencer o companheiro: desceu a ribanceira do
cascalho. O mais intrepido teve tambem a prudencia de todos os
assassinos assalariados: seguiu o assustadio, e deu-lhe razo, quando
ouviu aps de si os passos velozes dos perseguidores. Sahiu-lhes o amo
de frente, quando dobravam a esquina do quintal, e disse-lhes:

--Vocs a que fogem, seus poltres?

Os homens pararam de envergonhados, aperrando os bacamartes.

Joo da Cruz e o arreeiro appareceram, e Balthazar caminhou para elles,
bradando:

--Alto ahi!

O ferrador disse ao cunhado:

--Falla-lhe tu, que eu no quero que elle me conhea.

--Quem manda fazer alto?--disse o arreeiro.

--So tres clavinas--respondeu Balthazar.

--Olha se os demoras a dar tempo que o doutor saia--disse Joo da Cruz
ao ouvido do arreeiro.

--Pois ns c estamos parados--replicou o criado de Simo.--Que nos
querem vocs?

--Quero saber o que tem que fazer n'este sitio.

--E vocs que fazem por c?

--No admitto perguntas--disse o de Castro-d'Aire, aventurando alguns
passos vacilantes para a frente.--Quero saber quem so.

Mestre Joo disse ao ouvido do cunhado:

--Diz-lhe que se d mais um passo que o arrebentas.

O arreeiro repetiu a clausula, e Balthazar parou.

Um dos criados d'este chamou-o ao lado para lhe dizer que aquelle dos
dois, que no fallava, parecia ser o Joo da Cruz. O morgado duvidou, e
quiz esclarecer-se; mas o ferrador ouvira as palavras do criado, e disse
ao cunhado:

--Vem comigo, que elles conhecem-me.

Dizendo, voltou as costas ao grupo, e caminhou ao longo do quintal de
Thadeu de Albuquerque. Os criados de Balthazar, gloriosos da retirada,
como de uma derrota certa, apressaram o passo na cola dos suppostos
fugitivos. O morgado ainda lhes disse que os no seguissem; mas elles,
momentos antes covardes, queriam desforrar-se agora, correndo aps o
inimigo tanto quanto lhe tinham fugido antes.

Simo Botelho ouvira os passos ligeiros dos seus homens, e, compellido
pelo susto de Thereza, abrira a porta do quintal, sem saber ainda quem
elles fossem. Joo da Cruz, com ar galhofeiro, j quando os
perseguidores se viam, disse ao filho do corregedor, se estava ajustado
o casamento, que no havia panno para mangas.

Simo entendeu o perigo, apertou convulsamente a mo de Thereza, e
retirou-se. Queria elle reconhecer os dois vultos parados a distancia;
mas Joo da Cruz, com o tom imperioso de quem obriga  submisso, disse
ao filho do corregedor:

--V por onde veio, e no olhe para traz.

Simo foi indo at encontrar o cavallo. Montou, e esperou os dois
inalteraveis guardas que o seguiam a passo vagaroso. Maravilhara-os o
subito desapparecimento dos criados de Balthazar, e recearam-se de
alguma espera fra da cidade. O ferrador conhecia o atalho que podia
levar os da emboscada ao caminho, e revelou o seu receio a Simo,
dizendo-lhe que picasse a toda a brida, que elle e o cunhado l iriam
ter. O academico recebeu com enfado a advertencia, admoestando-os a que
o no tivessem em to vil preo. E acintemente soffreou as rdeas, para
no forar os homens a aligeirar o passo.

--V como quizer--disse mestre Joo--que ns vamos por fra do caminho.

E subiram a uma rampa de olivaes, para tornarem a descer encubertos por
moitas de giestas, cozendo-se aos torcicolos d'uma parede parallela com
a estrada.

--O atalho vai acol onde a serra faz aquelle cotovllo--disse o
ferrador ao cunhado--ho de alli passar, ou j passaram. A estrada vai
mesmo na quebrada d'aquelle outeirinho. Os homens  d'alli que lhe vo
atirar, encobertos pelos sobreiros. Vamos depressa...

E um pouco descobertos, e outro curvados  sombra das devzas, chegaram
a um vallado d'onde ouviram os passos dos dois homens que atravessavam o
pontilho de um crrego.

--J no vamos a tempo--disse afflicto o Joo da Cruz--os homens vo
atirar-lhe, porque o cavallo trupa c muito atraz.

E corriam j sem temor de serem vistos, porque os outros tinham dobrado
o outeiro, em cujo valle corria a estrada.

--Os homens vo atirar-lhe...--disse o ferrador.

--Gritemos d'aqui ao doutor que no v p'ra diante.

--J no  tempo... Ou o matem ou no matem, quando voltarem so nossos.

Tinham j passado o pontilho, e subiam a ladeira, quando ouviram dois
tiros.

--Arriba!--exclamou Joo da Cruz--que no vo elles metter-se  estrada,
se mataram o fidalgo.

Tinham vencido a ch, esbofados e anciados, com as clavinas aperradas.
Os criados de Balthazar, ao invez da conjectura do ferrador, retrocediam
pelo mesmo atalho, suppondo que os companheiros de Simo iam adiante
batendo os pontos azados  emboscada, ou se tinham retardado.

--Elles ahi vem!--disse o arreeiro.

--Ns c estamos--respondeu o ferrador, sentando-se, a coberto de um
cmoro.--Senta-te tambm que eu no estou p'ra correr atraz d'elles.

Os assassinos, a dez passos, viram de frente erguerem-se os dois vultos,
e ladearam cada qual para seu lado, um galgando os sucalcos de uma
vinha, o outro atirando-se a uns silveiraes.

--Atira ao da esquerda!--disse Joo da Cruz.

Foram simultaneas as exploses. A pontaria do ferrador fez logo um
cadaver. Os balotes do arreeiro no estremaram o outro entre o carrascal
onde se embrenhra.

A este tempo assomava Simo no tezo d'onde lhe tinham atirado, e corria
ao ponto onde ouvira os segundos tiros.

-- v. s.^a, fidalgo?--bradou o ferrador.

--Sou.

--No o mataram?

--Creio que no--respondeu Simo.

--Este desalmado deixou fugir o melro--tornou Joo da Cruz--mas o meu l
est a pernear na vinha. Sempre lhe quero vr as trombas...

O ferrador desceu os trs socalcos da vinha, e curvou-se sobre o
cadaver, dizendo:

--Alma de cantaro, se eu tivesse duas clavinas no ias ssinho para o
inferno!

--Anda d'ahi!--disse o arreeiro--deixa l esse diabo, que o senhor
doutor est ferido n'um hombro. Vamos depressa, que est o sangue a
escorrer-lhe.

--Eu vi duas cabeas a espreitarem-me de cima de uma ribanceira, e
cuidei que eram vocs--disse Simo, em quanto o ferrador, com a destreza
de habil cirurgio, lho enfaixava o brao ferido com lenos.--Parei o
cavallo, e disse: l! ha novidade? Logo que me no responderam,
saltei para terra; mas ainda eu tinha um p no estribo quando me fizeram
fogo. Quiz saltar  ribanceira, mas no pude romper o matto. Dei uma
volta grande para achar subida, e foi ento que dei f de estar
ferido...

--Isto  uma arranhadura--disse Joo da Cruz--olhe que eu sei d'isto,
fidalgo! Estou affeito a curar muitas feridas.

--Nos burros, mestre Joo?--disse o ferido, sorrindo.

--E nos christos tambem, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal um
rei que no queria outro medico seno um alveitar. Hei de mostrar-lhe o
meu corpo que est uma rde de facadas, e nunca fui ao cirurgio. Com
ceroto e vinagre sou capaz de ir resuscitar aquelle alma do diabo que
alli est a escutar a cavallaria.

N'isto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde tinha
saltado o companheiro do morto.

Joo da Cruz, como galgo de fino olfacto, fitou a orelha e resmungou:

--Querem vocs vr que ellas se armam!... Dar-se-ha caso que o outro
ainda esteja por alli a tremer maleitas!...

O rumor continuou, e logo um bando de passaros rompeu d'entre a folhagem
chilreando.

--O homem est alli!--tornou o ferrador.--Passe-me c uma pistola,
senhor Simo!

Correu mestre Joo, e ao mesmo tempo uma grande rostilhada se fez entre
as moitas de codos e urzes.

--Elle estrina lenha como um porco do monte!--exclamou o ferrador.--
cunhado, bate este matto com alguns penedos; quero vr sahir o javali da
moita!...

Para o outro lado da boua estava um plaino cultivado. Simo, rodeando a
sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra d'um agueiro.

--Tenha l mo, mestre; no v voc atirar-me!--bradou Simo ao
ferrador.

--Pois o fidalgo j ahi anda!?. Ento est fechado o crco. Eu c vou
fazer de furo. Se este nos escapa, no ha nada seguro n'este mundo!

No se enganaram. O criado de Balthazar Coutinho, quando se atirra
desamparado  brenha, desnocra um joelho, e cahira atordoado. O
arreeiro no examinou o effeito do tiro, porque atirara  ventura, e
achava natural que o fugitivo se no molestasse. Quando volveu a si do
aturdimento da queda, o homem arrastou-se lentamente at encontrar um
cerrado de arvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os
melros cacarejassem esvoaando, o criado de Balthazar retrocedeu para o
mato, cuidando que ahi escaparia; mas o arreeiro jogava enormes calhaus
em todas as direces, e alguns acertavam mais que as balas do seu
bacamarte. Joo da Cruz tirou do bolo da jaqueta um podo, e comeou a
cortar a selva de carvalhas novas e giestaes que se emmaranhavam em
redor do escondrijo. J cansado, porm, e vendo o pouco luzimento do
trabalho, disse ao arreeiro:

--Petisca lume, vai alli dentro buscar um pouco de restolho scco, e
vamos pegar fogo ao mato, que este ladro ha de morrer assado.

O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para
fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo
de restolho em que o arreeiro andava apanhando palha, e Simo esperava o
desfecho da montaria. Correram a um tempo o arreeiro e o academico sobre
elle. O fugitivo, sentindo-se alcanado, lanou-se de joelhos e mos
erguidas, pedindo perdo, e dizendo que o amo o obrigra quella
desgraa. J a coronha do bacamarte do arreeiro lhe ia direita ao peito,
quando Simo lhe reteve o brao.

--No se bate assim n'um homem!--disse o moo--Levanta-te, rapaz!

--Eu no posso, senhor. Tenho uma perna quebrada, e estou aleijado para
a minha vida.

N'este comenos chegou o ferrador, e exclamou:

--Pois este tratante ainda est vivo!

E correu sobre elle com o podo.

--No mate o homem, senhor Joo!--disse o filho do corregedor.

--Que o no mate! essa  de cabo de esquadra! Com que ento o fidalgo
quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar... eim?

--Com a forca!?--atalhou Simo.

--Podra no! Quer que este homem fique para ir contar a historia? Acha
bonito? L v. s.^a, como  filho de ministro, no ter perigo; mas eu,
que sou ferrador, posso contar que d'esta vez tenho o barao no pescoo.
No me faz geito o negocio. Deixe-me c com o homem...

--No o mate, senhor Joo; peo-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha
no nos pde fazer mal.

--O qu?--redarguiu o ferrador--v. s.^a saber muito, mas de justia no
sabe nada, e ha de perdoar o meu atrevimento. Basta uma s testemunha
para guiar a justia na devassa. s duas por tres, uma testemunha de
vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo de Castro-d'Aire a mexer
os pausinhos,  forca certa, como dois e dois serem quatro.

--Eu no digo nada; no me matem, que eu nem torno a ir para
Castro-d'Aire--exclamou o homem.

--Deixe-o ficar, Joo da Cruz... vamos embora...

--Isso!--acudiu o ferrador--chame-me Joo da Cruz, para este maroto
ficar bem certo de que sou o Joo da Cruz!... Com effeito, no sei o que
me parece v. s.^a querer deixar com vida um alma do diabo que lhe deu um
tiro para o matar!

--Pois sim, tem voc razo; mas eu no sei castigar miseraveis que me
no resistem.

--E se elle o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor
doutor!

--Vamos embora--tornou Simo--deixemos para ahi esse miseravel.

Mestre Joo scismou alguns momentos, coando a cabea, e resmungou com
descontentamento:

--Vamos l... Quem o seu inimigo poupa, nas mos lhe morre.

Tinham j sahido do plaino e saltado a tapada, e iam descendo para a
estrada, quando o ferrador exclamou:

--L me ficou a minha clavina encostada  sebe. Vo indo, que eu venho
j.

O arreeiro conduzia o cavallo, que pacificamente estivera tozando a
relva das paredes marginaes da estrada, quando Simo ouviu gritos.
Conjecturou com certeza o que era.

--O Joo l est a fazer justia!--disse o arreeiro. Deixl-o l, meu
amo, que elle  homem que sabe o que faz.

Joo da Cruz appareceu d'ahi a pouco, limpando com fentos o podo
ensanguentado.

--Voc  cruel, senhor Joo!--disse o academico.

--No sou cruel--disse o ferrador--o fidalgo est enganado comigo;  que
diz l o dictado, morrer por morrer, morra meu pae que  mais velho.
Tanto faz matar um como dois. Quando se est com a mo na massa, tanto
faz amassar um alqueire como tres. As obras devem ser acabadas, ou ento
o melhor  no se metter a gente n'ellas. Agora, levo a minha
consciencia socegada.

A justia que prove, se quizer; mas no ha de ser por que lh'o digam
aquelles dois que eu mandei de presente ao diabo.

Simo teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento de se
ter ligado com tal homem.




VII.


O ferimento de Simo Botelho era melindroso de mais para obedecer
promptamente ao curativo do ferrador, enfronhado em aphorismos de
alveitaria. A bala passra-lhe de revez a poro muscular do brao
esquerdo; mas algum vaso importante rompra, que no bastavam compressas
a vedar-lhe o sangue. Horas depois de ferido, o academico deitou-se
febril, deixando-se medicar pelo ferrador. O arreeiro partiu para
Coimbra, encarregado de espalhar a noticia de ter ficado no Porto Simo
Botelho.

Mais que as dres e os receios da amputao, o mortificava a ancia de
saber novas de Thereza. Joo da Cruz estava sempre de sobre-rolda,
precavido contra algum procedimento judicial por suspeitas d'elle. As
pessoas que vinham de feirar na cidade contavam todas que dois homens
tinham apparecido mortos, e constava serem criados d'um fidalgo de
Gastro-d'Aire. Ninguem, porm, ouvira imputar o assassinio a
determinadas pessoas.

Na tarde d'esse dia recebeu Simo a seguinte carta de Thereza:

Deus permitia que tenhas chegado sem perigo a casa d'essa boa gente. Eu
no sei o que se passa, mas ha coisa mysteriosa que eu no posso
adivinhar. Meu pae tem estado toda a manh fechado com o primo, e a mim
no me deixa sahir do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu
felizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quiz que a pobre
viesse pedir esmola debaixo da janella do meu quarto; seno eu nem tinha
modo de lhe dar signal para ella esperar esta carta. No sei o que ella
me disse. Fallou-me em criados mortos; mas eu no pude entender... Tua
mana Rita est-me acenando por traz dos vidros do teu quarto...

Disse-me tua mana que os moos de meu primo tinham apparecido mortos
perto da estrada. Agora j sei tudo. Estive para lhe dizer que tu ahi
ests; mas no me deram tempo. Meu pae de hora a hora d passeios no
corredor, e solta uns ais muito altos.

 meu querido Simo, que ser feito de ti?... Estars tu ferido? Serei
eu a causa da tua morte?

Diz-me o que souberes. Eu j no peo a Deus seno a tua vida. Foge
d'esses sitios; vai para Coimbra, e espera que o tempo melhore a nossa
situao.

Tem confiana n'esta desgraada, que  digna da tua dedicao.... Chega
a pobre: no quero demoral-a mais... Perguntei-lhe se se dizia de ti
alguma coisa, e ella respondeu que no. Deus o queira.

Respondeu Simo a querer tranquillisar o animo de Thereza. Do seu
ferimento fallava to de passagem, que dava a suppr que nem o curativo
era necessario. Promettia partir para Coimbra logo que o podesse fazer
sem receio de Thereza soffrer na sua ausencia. Animava-a a chamal-o,
assim que as ameaas de convento passassem a ser realisadas.

Entretanto Balthazar Coutinho, chamado s authoridades judiciarias para
esclarecer a devassa instaurada, respondeu que effectivamente os homens
mortos eram seus criados, de quem elle e sua familia se acompanhra de
Castro-d'Aire. Accrescentou que no sabia que elles tivessem inimigos em
Vizeu, nem tinha contra alguem as mais leves presumpes.

Os mais proximos visinhos da localidade, onde os cadaveres tinham
apparecido, apenas depunham que, alta noite, tinham ouvido dois tiros ao
mesmo tempo, e outro, pouco depois. Um apenas adiantava coisa que no
podia alumiar a justia, e vinha a ser que o mato, nas visinhanas do
local, fra chapotado. N'esta escuridade a justia no podia dar passo
algum.

Thadeu de Albuquerque era connivente no attentado contra a vida de Simo
Botelho. Fra seu o alvitre, quando o sobrinho denunciou a causa das
sahidas frequentes de Thereza, na noite do baile. Tanto ao velho como ao
morgado convinha apagar algum indicio que podesse envolvl-os no
mysterio d'aquellas duas mortes. Os criados no mereciam a pena d'um
desforo que implicasse o desdouro de seus amos. Provas contra Simo
Botelho no podiam adduzil-as. quella hora o suppunham elles a caminho
de Coimbra, ou refugiado em casa de seu pae. Restava-lhes ainda a
esperana de que elle tivesse sido ferido, e fosse acabar longe do local
em que o tinham assaltado.

Em quanto a Thereza, resolveu Albuquerque encerral-a n'um convento do
Porto, e escolheu Monchique, onde era prioreza uma sua proxima parenta.
Escreveu  prelada para lhe preparar aposentos, e ao seu procurador para
negociar as licenas ecclesiasticas para a entrada. Todavia, receando o
velho algum incidente no espao de tempo que medeava at se conseguirem
as licenas, resolveu no ter comsigo Thereza, e solicitou a reteno
temporaria d'ella n'um convento de Vizeu.

Acabra Thereza de lr e esconder no seio a resposta de Simo Botelho,
que a pobre lhe envira ao escurecer, pendente de uma linha, quando o
pae entrou no seu quarto, e a mandou vestir-se. A menina obedeceu,
tomando uma capa e um leno.

--Vista-se como quem : lembre-se que ainda tem os meus
appellidos--disse com severidade o velho.

--Cuidei que no era preciso vestir-me melhor para sahir 
noite...--disse Thereza.

--E a senhora sabe para onde vai?

--No sei... meu pae.

--Ento vista-se, e no me d leis.

--Mas, meu pae, attenda-me um momento.

--Diga.

--Se a sua ideia  obrigar-me a casar com meu primo...

--E d'ahi?

--De certo no caso; morro, e morro contente; mas no caso.

--Nem elle a quer. A senhora  indigna de Balthazar Coutinho. Um homem
do meu sangue no aceita para esposa uma mulher que falla de noite aos
amantes nos quintaes. Vista-se depressa, que vai para um convento.

--Promptamente, meu pae. Esse destino lh'o pedi eu muitas vezes.

--No quero reflexes. D'aqui a pouco apparea-me vestida. Suas primas
esperam-a para a acompanharem.

Quando se viu ssinha, Thereza debulhou-se em lagrimas, e quiz escrever
a Simo. quella hora quem lhe levaria a carta? Appellou para o retabulo
da Virgem, que ella fizera confidente do seu amor. Pediu-lhe de joelhos
que a protegesse, e dsse foras a Simo para resistir ao golpe, e
guardar-lhe constancia atravs dos trabalhos que succedessem. Depois
vestiu-se, comprimindo contra o seio um embrulho em que levava o
tinteiro, o papel, e o masste das cartas de Simo. Sahiu do seu quarto,
relanceando os olhos lagrimosos para o painel da Virgem, e encontrando o
pae, pediu-lhe licena para levar comsigo aquella devota imagem.

--L ir ter--respondeu elle.--Se tivesse tanta vergonha como devoo,
seria mais feliz do que ha de ser.

Uma das primas, irms de Balthazar, chamou-a de parte, e segredou-lhe:

-- menina! estava ainda na tua mo dares remedio  desordem d'esta
casa...

--Qual remedio?!--perguntou Thereza com artificial seriedade.

--Diz a teu pae que no duvidas casar com o mano Balthazar.

--O primo Balthazar no me quer--replicou ella, sorrindo.

--Quem te disse isso, Therezinha?

--Disse-m'o meu pae.

--Deixa fallar teu pae, que est desatinado com o amor que te tem.
Queres tu que eu lhe falle?

--Para que?

--Para se remediar d'este modo a desgraa de todos ns.

--Ests a brincar, prima!--redarguiu Thereza.--Eu hei de ser tua
cunhada, quando no tiver corao. Teu mano tem a certeza de que eu amo
outro homem. Queria viver para elle; mas se quizerem que eu morra por
elle, abenoarei todos os meus algozes. Pdes dizer isto ao primo
Balthazar, e diz-lh'o antes que te esquea.

--Ento, vamos?!--disse o velho.

--Estou prompta, meu pae.

Abriu-se a portaria do mosteiro. Thereza entrou sem uma lagrima. Beijou
a mo de seu pae, que elle no ousou recusar-lhe na presena das
freiras. Abraou suas primas, com semblante de regosijo; e, ao fechar-se
a porta, exclamou, com grande espanto das monjas:

--Estou mais livre que nunca. A liberdade do corao  tudo.

As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra corao
uma heresia, uma blasphemia proferida na casa do Senhor.

--Que diz a menina?!--perguntou a prioreza, fitando-a por cima dos
oculos, e apanhando no leno escarlate a distillao do esturrinho.

--Disse eu que me sentia aqui muito bem, minha senhora.

--No diga minha senhora--atalhou a escriv.

--Como hei de dizer?

--Diga nossa madre prioreza.

--Pois sim, nossa madre prioreza, disse eu que me sentia aqui muito bem.

--Mas quem vem para estas casas de Deus no vem para se sentir
bem--tornou a nossa madre prioreza.

--No?!--disse Thereza com sincera admirao.

--Quem para aqui vem, menina, ha de mortificar o espirito, e deixar l
fra as paixes mundanas. Ora pois! Aqui est a nossa madre mestra de
novias, a quem compete encaminhal-a e dirigil-a.

Thereza no redarguiu: fez um gesto de respeito  mestra de novias, e
seguiu o caminho que a prelada lhe ia indicando.

A nossa madre entrou nos seus aposentos, e disse a Thereza que era sua
hospeda em quanto alli estivesse; e ajuntou que no sabia se seu pae
escolheria aquelle convento ou outro.

--Que importa que seja um ou outro?--disse Thereza.

-- conforme. Seu pae pde querer que a menina professe em ordem rica
das bentas ou bernardas.

--Professe!--exclamou Thereza.--Eu no quero ser freira aqui, nem
n'outra parte.

--A senhora ha de ser o que seu pae quizer que seja.

--Freira!? a isso no pde ninguem obrigar-me!--recalcitrou Thereza.

--Isso assim --retorquiu a prioreza--mas como a menina tem de noviciado
um anno, sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida, e ver que no ha
vida mais descansada para o corpo, nem mais saudavel para a alma.

--Mas a nossa madre--tornou Thereza, sorrindo, como se a ironia lhe
fosse habitual--j disse que a estas casas ninguem vem para se sentir
bem...

-- um modo de fallar, menina. Todos temos as nossas mortificaes e
obrigaes de cro e de servios para que nem sempre o espirito est bem
disposto. Ora vs-a-hi. Mas em comparao do que l vai pelo mundo, o
convento  um paraizo. Aqui no ha paixes nem cuidados que tirem o
somno, nem a vontade de comer, bemdito seja o Senhor! Vivemos umas com
as outras, como Deus com os anjos. O que uma quer, querem todas. Ms
linguas  coisa que a menina no ha de achar aqui, nem intriguistas, nem
murmuraes de soalheiro. Emfim, Deus far o que fr servido. Eu vou 
cosinha buscar a ceia da menina, e j volto. Aqui a deixo com a senhora
madre organista, que  uma pomba, e com a nossa mestra de novias, que
sabe dizer melhor que eu o que  a virtude n'estas santas casas.

Apenas a prioreza voltou costas, disse a organista  mestra de novias:

--Que grande impostora!

--E que estupida!--acudiu a outra.--A menina no se fie n'esta
trapalhona, e veja se seu pae lhe d outra companhia em quanto c
estiver, que a prioreza  a maior intriguista do convento. Depois que
fez sessenta annos, falla das paixes do mundo como quem as conhece por
dentro e por fra. Em quanto foi nova, era a freira que mais escandalos
dava na casa; depois de velha era a mais ridicula, porque ainda queria
amar e ser amada; agora, que est decrepita, anda sempre este mostrengo
a fazer misses, e a curar indigestes.

Thereza, apesar de sua dr, no pde reprimir uma risada, lembrando-se
da _vida de Deus com anjos_ que as esposas do Senhor alli viviam, no
dizer da madre prioreza.

Pouco depois entrou a prelada com a ceia, e sahiram as duas freiras.

--Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina?--disse
ella a Thereza.

--Pareceram-me muito bem.

A velha distendeu os beios matizados de meandros de esturrinho liquido,
e regougou:

--_Hum!_... est feito, est feito!... Ainda no so das peores; mas, se
fossem melhores, no se perdia nada... Ora vamos a isto, menina; aqui
tem duas pernas de gallinha, e um caldo que o podem comer os anjos.

--Eu no cmo nada, minha senhora--disse Thereza.

--Ora essa! no come nada!? Ha de comer; sem comer ninguem resiste.
Paixes!... que as leve o porco-sujo!... As mulheres  que ficam
logradas, e elles no tem que perder!... Que eu c de mim, at ao
presente, Deus louvado, no sei o que sejam paixes; mas quem tem
cincoenta e cinco annos de convento, tem muita experiencia do que v
penar s outras doidibanas. E para no ir mais longe, estas duas, que
d'aqui sahiram, tem pagado bem o seu tributo  asneira, Deus me perde
se pcco. A organista tem j os seus quarenta bons, e ainda vai ao
locutorio derreter-se em finezas; a outra, apesar de ser mestra de
novias  falta d'outra que quizesse sl-o, se eu lhe no andasse com o
olho em cima, estragava-me as raparigas...

Este edificante discurso de caridade foi interrompido pela madre escriv
que vinha, palitando os dentes, pedir  prelada um copinho de certo
vinho estomacal com que todas as noites era brindada.

--Estava eu a dizer a esta menina as peas que so a organista e a
mestra--disse a prioreza.

--Oh! so para o que lhe eu prestar! L foram ambas para a cella da
porteira. A esta hora est a menina a ser cortada por aquellas linguas,
que no perdoam a ninguem.

--Vaes tu vr se ouves alguma coisa, minha flr?--disse a prelada.

A escriv, contente da misso, foi imperceptivelmente ao longo dos
dormitorios at parar a uma porta que no vedava o ruido estridente das
risadas.

No entanto dizia a prelada a Thereza:

--Esta escriv no  m rapariga: s tem o defeito de se tomar da
pinguleta; depois no ha quem a ature. Tem uma boa tena, mas gasta tudo
em vinho, e tem occasies de entrar no cro a fazer _ss_, que  mesmo
uma desgraa. No tem outro defeito;  uma alma lavada, e amiga da sua
amiga.  verdade que s vezes... (aqui a prelada ergueu-se a escutar nos
dormitorios, e fechou por dentro a porta)  verdade que, s vezes,
quando anda azuratada, d por paus e por pedras, e descobre os defeitos
das suas amigas. A mim j ella me assacou um aleive, dizendo que eu,
quando sahia a ares, no ia s a ares, e andava por l a fazer o que
fazem as outras. Forte pouca vergonha! L que outra fallasse, v; mas
ella, que tem sempre uns namorados pandilhas que bebem com ella na
grade, isso l me custa; mas, emfim, no ha ninguem perfeito!... Boa
rapariga  ella... Se no fosse aquelle maldito vicio...

Como tocasse ao cro n'esta occasio, a veneranda prioreza bebeu o
segundo calice do vinho estomacal, e disse a Thereza que a esperasse um
quarto de hora, que ella ia ao cro, e pouco se demoraria. Tinha ella
sahido, quando a escriv entrou a tempo que Thereza, com as mos abertas
sobre a face, dizia em si: Um convento, meu Deus! isto  que  um
convento!

--Est ssinha?--disse a escriv.

--Estou, minha senhora.

--Pois aquella grosseira vai-se embora, e deixa uma hospeda ssinha? Bem
se v que  filha de funileiro!... Pois tinha tempo de ter prtica do
mundo, que tem andado por l que farte... Pois eu havia de ir ao cro;
mas no vou para lhe fazer companhia, menina.

--V, v, minha senhora, que eu fico bem ssinha--disse Thereza, com a
esperana de poder desafogar em lagrimas a sua afflico.

--No vou, no!... A menina aqui estarrecia de mdo; mas a prelada no
tarda ahi. Ella, se pde escapar-se do cro, no pra l muito tempo. A
apostar que ella lhe esteve a fallar mal de mim?

--No, minha senhora, pelo contrario...

--Ora diga a verdade, menina! Eu sei que esta cegonha no falla bem de
ninguem. Para ella tudo so libertinas e bebadas.

--Nada, no, minha senhora; nada me disse a respeito d'alguma freira.

--E se disse, deixal-a dizer. Ella o vinho no o bebe, suga-o,  uma
esponja viva. Em quanto a libertinagem, tomra eu tantos mil cruzados
como de amantes ella tem tido! Faz l uma pequena ideia, menina!...

A escriv bebeu um calice de vinho da sua prelada, e continuou:

--Faz l uma pequena ideia! Ella  velhissima como a s. Quando eu
professei j ella era velha como agora, com pouca differena. Ora, eu
sou freira ha vinte e seis annos; calcule a menina quantas arrobas de
esturrinho ella tem atulhado n'aquelles narizes! Pois olhe, quer me
creia, quer no, tenho-lhe conhecido mais de uma duzia de chichisbeos,
no fallando no padre capello, que esse ainda agora lhe fornece a
garrafeira,  nossa custa, entende-se.  uma dissipadora dos rendimentos
da casa. Eu, que sou escriv,  que sei o que ella rouba. Eu tenho
immensa pena de vr a menina hospedada em casa d'esta hypocrita. No se
deixe levar das imposturices d'ella, meu anjinho. Eu sei que seu pae lhe
mandou fallar, e a encarregou de a no deixar escrever, nem receber
cartas; mas olhe, minha filha, se quizer escrever, eu dou-lhe tinteiro,
papel, obreias e o meu quarto, se para l quizer ir escrever. Se tem
alguem que lhe escreva, diga-lhe que mande as cartas em meu nome; eu
chamo-me Dionizia da Immaculada Conceio.

--Muito agradecida, minha senhora--disse Thereza, animada pelo
offerecimento.--Quem me dra poder mandar um recado a uma pobre que mora
no bcco do...

--O que quizer, menina. Eu mando l logo que fr dia. Esteja descansada.
No se fie de alguem, seno de mim. Olhe que a mestra de novias e a
organista so duas falsas. No lhe d trela, que, se as admitte  sua
confiana, est perdida. Ahi vem a lsma... Fallemos n'outra coisa...

A prelada vinha entrando, e a escriv proseguiu assim:

--No ha, no ha nada mais agradavel que a vida do convento, quando se
tem a fortuna de ter uma prelada como a nossa... Ai! eras tu, menina?
Olha, se estivessemos a fallar mal de ti!

--Eu sei que tu nunca fallas mal de mim--disse a prelada, piscando o
olho a Thereza.--Ahi est essa menina que diga o que eu lhe estive a
dizer das tuas boas qualidades...

--Pois o que eu disse de ti--respondeu soror Dionizia da Immaculada
Conceio--no precisas de perguntar, porque felizmente ouviste o que eu
estava dizendo. Oxal que se podesse dizer o mesmo das outras que
deshonram a casa, e trazem aqui tudo intrigado n'uma meada, que  mesmo
coisa de peccado.

--Ento no vaes ao cro, nini?--tornou a prioreza.

--J agora  tarde... Tu absolves-me da falta, sim?

--Absolvo, absolvo; mas dou-te como penitencia beberes um copinho...

--Do estomacal?

--Podra...

Dionizia cumpriu a penitencia, e sahiu para, dizia ella, deixar a
prelada na sua hora de orao.

No delongaremos esta amostra do evangelico e exemplar viver do
convento, onde Thadeu de Albuquerque mandra sua filha a respirar o
purissimo ar dos anjos, em quanto se lhe preparava crysol, mais
depurador dos sedimentos do vicio, no convento de Monchique.

Encheu-se o corao de Thereza de amargura e nojo n'aquellas duas horas
de vida conventual. Ignorava ella que o mundo tinha d'aquillo. Ouvira
fallar dos mosteiros como de um refugio da virtude, da innocencia e das
esperanas immorredoiras. Algumas cartas lra de sua tia, prelada em
Monchique, e por ellas formra conceito do que devia ser uma santa.
D'aquellas mesmas dominicanas, em cuja casa estava, ouvira dizer s
velhas e devotas fidalgas de Vizeu virtudes, maravilhas de caridade, e
at milagres. Que desilluso to triste e ao mesmo tempo que ancia de
fugir d'alli!

A cama de D. Thereza estava na mesma cella da prioreza em alcova
separada, com cortinas de cassa.

Quando a prelada lhe disse que podia deitar-se querendo, perguntou-lhe a
menina se poderia escrever a seu pae. A freira respondeu que no dia
seguinte o faria, posto que o senhor Albuquerque ordenasse que sua filha
no escrevesse: assim mesmo, ajuntou ella, que lh'o no prohibiria, se
tivesse tinteiro e papel na cella.

Thereza deitou-se, e a prelada ajoelhou diante d'um oratorio, rezando a
cora a meia voz. Se o murmurio da orao infadasse a hospeda, no teria
ella muita razo de queixa, por que a devota monja ao segundo
_Padre-Nosso_ cabeceava de modo que j no atinou com a primeira
_ve-Maria_. Levantou-se, cambaleando uma mesura s imagens do
sanctuario, foi deitar-se, e pegou a ressonar.

Thereza afastou subtilmente as cortinas do seu quarto, e tirou de entre
o seu fato o tinteiro de tarraxa e o papel.

A lampada do oratorio lanava um froixo raio sobre a cadeira, em que
Thereza pozera os seus vestidos. Desceu da cama, ajoelhou ao p da
cadeira, e escreveu a Simo, relatando-lhe miudamente os successos
d'aquelle dia. A carta rematava assim:

No receies nada por mim, Simo. Todos estes trabalhos me parecem
leves, se os comparo ao que tens padecido por amor de mim. A desgraa
no abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus projectos. So
alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova resoluo que meu
pae tome, dir-t'a-hei logo podendo, ou quando podr. A falta das minhas
noticias deves attribuil-a sempre ao impossivel. Ama-me assim
desgraada, porque me parece que os desgraados so os que mais precisam
de amor e de conforto. Vou vr se posso esquecer-me dormindo. Como isto
 triste, meu querido amigo!... Adeus.




VIII.


Marianna, a filha de Joo da Cruz, quando viu seu pae pensar a chaga do
brao de Simo, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente da
fraqueza da moa, e o academico achou estranha sensibilidade em mulher
affeita a curar as feridas com que seu pae vinha laureado de todas as
feiras e romarias.

--No ha ainda um anno que me fizeram tres buracos na cabea, quando eu
fui  Senhora dos Remedios a Lamego, e foi ella que me tosqueou e rapou
o casco  navalha--disse o ferrador.--Pelo que vejo o sangue do fidalgo
deu volta ao estomago da rapariga!... Estamos ento bem aviados! Eu
tenho c a minha vida, e queria que ella fosse a enfermeira do meu
doente.... s ou no s, rapariga?--disse elle  filha, quando ella
abriu os olhos, com rosto de corrida da sua fraqueza.

--Serei com muito gosto, se o pae quizer.

--Pois ento, moa, se hs de ir costurar para a varanda, vem aqui para
a beira do senhor Simo. D-lhe caldos a miudo; e trata-lhe da ferida;
vinagre e mais vinagre, quando ella estiver assim a modo de roixa.
Conversa com elle, no o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que
no  bom quando se est fraco do milo. E v. s.^a no tenha aquellas de
ceremonia, nem me diga a Marianna--a menina isto, a menina aquillo.
--rapariga d c um caldo; rapariga, lava-me o brao, d c as
compressas--e nada de politicas. Ella est aqui como sua criada, porque
eu j lhe disse que, se no fosse o pae de v. s.^a, j ella ha muito
tempo que andava por ahi s esmolas, ou peor ainda.  verdade que eu
podia deixar-lhe uns bensinhos, ganhos alli a suar na bigorna ha dez
annos, afra uns quatrocentos mil reis que herdei de minha me, que Deus
haja; mas v. s.^a bem sabe que, se eu fosse  forca ou pela barra fra,
vinha a justia, e tomava conta de tudo para as custas.

--Se vocemec tem uma casinha soffrivel--atalhou Simo--pde, querendo,
casar a sua filha n'uma boa casa de lavoira.

--Assim ella quizesse. Maridos no lhe faltam; at o alferes da igreja a
queria, se eu lhe fizesse doao de tudo, que pouco , mas ainda vale
quatro mil cruzados bons; o caso  que a moa no tem querido casar, e
eu, a fallar a verdade, sou s e mais ella, e tambem no tenho grande
vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se
no fosse ella, fidalgo, muita asneira tinha eu feito! Quando vou s
feiras ou romarias, se a levo comigo, no bato, nem apanho; indo
ssinho,  desordem certa. A rapariga j conhece quando a pinga me sobe
ao capacete do alambique, pucha-me pela jaqueta, e por bons modos pe-me
fra do arraial. Se alguem me chama para beber mais um quartilho, ella
no me deixa ir, e eu acho graa  obediencia com que me deixo guiar
pela moa, que me pede que no v por alma da me. Eu c, em ella me
pedindo por alma da minha santa mulher, j no sei de que freguezia sou.

Marianna ouvia o pae, escondendo meio rosto no seu alvissimo avental de
linho. Simo estava-se gosando na simpleza d'aquelle quadro rustico, mas
sublime de poesia e naturalidade.

Joo da Cruz foi chamado para ferrar um cavallo, e despediu-se n'estes
termos:

--Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o como
quem , e como se fosse teu irmo ou marido.

O rosto de Marianna acerejou-se quando aquella ultima palavra sahiu,
natural como todas, da bca de seu pae.

A moa ficou encostada ao batente da alcova de Simo.

--No foi nada boa esta praga que lhe cahiu em casa, Marianna!--disse o
academico--Fazerem-na enfermeira d'um doente, e privarem-na talvez de ir
costurar na sua varanda, e conversar com as pessoas que passam....

--Que se me d a mim d'isso!--respondeu ella, sacudindo o avental, e
baixando o coz ao logar da cintura com infantil graa.

--Sente-se, Marianna; seu pae disse-lhe que se sentasse... V buscar a
sua costura, e d-me d'alli uma folha de papel e um lapis que est na
carteira.

--Mas o pae tambem me disse que o no deixasse escrever...--replicou
ella, sorrindo.

--Pouco, no faz mal. Eu escrevo apenas algumas linhas.

--Veja l o que faz...--tornou ella, dando-lhe o papel e o lapis--Olhe
se alguma carta se perde, e se descobre tudo...

--Tudo, o qu, Marianna? Pois sabe alguma coisa?!

--Era preciso que eu fosse tola. Eu no lhe disse j que sabia da sua
amizade a uma menina fidalga da cidade?

--Disse; mas que tem isso?

--Aconteceu o que eu receava. V. s.^a est ahi ferido, e toda a gente
falla n'uns homens que appareceram mortos.

--Que tenho eu com os homens que appareceram mortos?

--Para que est a fingir-se de novas?! Pois eu no sei que esses homens
eram criados do primo da tal senhora? Parece que v. s.^a desconfia de
mim, e est a querer guardar um segredo que eu tomra que ninguem
soubesse, para que meu pae e o senhor Simo no tenham alguns maiores
trabalhos...

--Tem razo, Marianna, eu no devia esconder de si o mau encontro que
tivemos...

--E Deus queira que seja o ultimo!... Tanto tenho pedido ao Senhor dos
Passos que lhe d remedio a essa paixo!... O peor futuro eu que ainda
est por passar...

--No, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra, logo que esteja
bom, e a menina da cidade fica em sua casa.

--Se assim fr, j prometti dois arrateis de cra ao Senhor dos Passos;
mas no me diz o corao que v. s.^a faa o que diz...

-Muito agradecido lhe estou-disse Simo commovido--pelo bem que me
deseja. No sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade.

--Basta vr o que seu paesinho fez pelo meu--disse ella, limpando as
lagrimas.--O que seria de mim, se me elle faltasse, e se fosse  forca
como toda a gente dizia!... Eu era ainda muito nova quando elle estava
na enxovia. Teria treze annos; mas estava resolvida a atirar-me ao poo,
se elle fosse condemnado  morte. Se o degradassem, ento ia com elle,
ia morrer onde elle fosse morrer. No ha dia nenhum que eu no pea a
Deus que d a seu pae tantos prazeres como estrellas tem o ceo. Fui de
proposito  cidade para beijar os ps a sua mesinha, e vi suas manas, e
uma, que era a mais nova, deu-me uma saia de lapim, que eu ainda alli
tenho guardada como uma reliquia. Depois, cada vez que ia  feira, dava
uma grande volta para vr se acertava de encontrar a senhora D. Ritinha
 janella; e muitas vezes vi o senhor Simo. E talvez no saiba que eu
estava a beber na fonte, quando v. s.^a, ha dois para tres annos, deu
muita pancada nos criados, que era mesmo um rebolio que parecia o fim
do mundo. Eu vim contar ao pae, e elle at cahiu ao cho a dar risadas
como um doido... Depois nunca mais o vi seno quando v. s.^a entrou com
o tio de Coimbra; mas j sabia que vinha para esta desgraa, porque
tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar,
porque via uma pessoa muito minha amiga a cahir n'uma cova muito
funda...

--Isso so sonhos, Marianna...

--So sonhos, so; mas eu nunca sonhei nada que no acontecesse. Quando
meu pae matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro
n'outro homem; antes de minha me morrer, acordei eu a chorar por ella,
e mais ainda viveu dois mezes... A gente da cidade ri-se dos sonhos; mas
Deus sabe o que isto ... Ahi vem meu pae... Senhor dos Passos! no v
ser alguma m nova!...

Joo da Cruz entrou com uma carta que recebra da pobre do costume. Em
quanto Simo leu a carta escripta do convento, Marianna fitou os seus
grandes olhos azues no rosto do academico, e a cada contraco da fronte
d'elle, angustiava-se-lhe a ella o corao. No teve mo da sua ancia, e
perguntou:

-- noticia m!

--Tu s muito atrevida, rapariga!--disse Joo da Cruz.

--No , no--atalhou o estudante.--No  m a noticia, Marianna. Senhor
Joo, deixe-me ter na sua filha uma amiga, que os desgraados  que
sabem avaliar os amigos.

--Isso  verdade; mas eu no me atrevia a perguntar o que a carta diz.

--Nem eu perguntei, meu pae; foi porque me pareceu que o senhor Simo
estava afflicto quando lia.

--E no se enganou--tornou o doente, voltando-se para o ferrador.--O pae
arrastou Thereza ao convento.

--Sempre  patife d'uma vez!--disse o ferrador, fazendo com os braos
instinctivamente um movimento de quem aperta entre as mos um pescoo.
N'este lance um observador perspicaz veria luzir nos olhos de Marianna
um claro de innocente alegria.

Simo sentou-se, e escreveu sobre uma cadeira, que Thereza
espontaneamente lhe chegou, dizendo:

--Em quanto escreve, vou olhar pelo caldinho, que est a ferver.

 necessrio arrancar-te d'ahi--dizia a carta de Simo.--Esse convento
ha de ter uma evasiva. Procura-a, e diz-me a noite e a hora em que devo
esperar-te. Se no podres fugir, essas portas ho de abrir-se diante da
minha clera. Se d'ahi te mandarem para outro convento mais longe,
avisa-me, que eu irei ssinho, ou acompanhado, roubar-te ao caminho. 
indispensavel que te refaas de animo para te no assustarem os arrojos
da minha paixo. s minha; no sei de que me serve a vida se a no
sacrificar a salvar-te. Creio em ti, Thereza, creio. Ser-me-has fiel na
vida e na morte. No soffras com paciencia; lucta com heroismo. A
submisso  uma ignominia, quando o poder paternal  uma affronta.
Escreve-me a toda a hora que possas. Eu estou quasi bom. Diz-me uma
palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue no diminue as
foras do corao.

Simo pediu a sua carteira, tirou dinheiro em prata, deu-o ao ferrador,
e recommendou-lhe que o entregasse  pobre com a carta.

Depois ficou relendo a de Thereza, e recordando-se da resposta que dra.

Mestre Joo foi  cosinha, e disse a Marianna:

--Desconfio d'uma coisa, rapariga.

--Que , meu pae?

--O nosso doente est sem dinheiro.

--Porqu? o pae como sabe isso?

-- que elle pediu-me a carteira para tirar dinheiro, e ella pezava
tanto como uma bexiga de porco cheia de vento. Isto bole-me c por
dentro! Queria offerecer-lhe dinheiro, e no sei como ha de ser...

--Eu pensarei n'isso, meu pae--disse Marianna reflectindo.

--Pois sim; cogita l tu, que tens melhores ideias que eu.

--E se o pae no quizer bolir nos seus quatrocentos, eu tenho aquelle
dinheiro dos meus bezerros; so onze moedas d'ouro menos um quarto.

--Pois fallaremos: pensa tu no modo de elle aceitar sem _remorsos_.

Remorsos, na linguagem pouco castigada de mestre Joo, era synonimo de
_escrupulos_ ou _repugnancia_.

Foi Marianna levar o caldo a Simo, que lh'o rejeitou como distrahido em
profundo scismar.

--Pois no toma o caldinho?--disse ella com tristeza.

--No posso, no tenho vontade, menina; ser logo. Deixe-me ssinho
algum tempo; v, v; no passe o seu tempo ao p d'um doente aborrecido.

--No me quer aqui? irei, e voltarei quando v. s.^a chamar.

Dissera isto Marianna com os olhos a reverem lagrimas.

Simo notou as lagrimas, e pensou um momento na dedicao da ma; mas
no lhe disse palavra alguma.

E ficou pensando na sua espinhosa situao. Deviam de occorrer-lhe
ideias afflictivas, que os romancistas raras vezes attribuem aos seus
heroes. No romance todas as crises se explicam, menos a crise ignobil da
falta de dinheiro. Entendem os novellistas que a materia  baixa e
plebea. O estylo vai de m vontade para coisas razas. Balzac falla muito
em dinheiro; mas dinheiro a milhes: no conheo, nos cincoenta livros
que tenho d'elle, um gal n'um entre-acto da sua tragedia a scismar no
modo de arranjar uma quantia com que pague ao alfaiate, ou se
desembarace das rdes que um usurario lhe lana, desde a casa do juiz de
paz a todas as esquinas, d'onde o assaltam o capital e juro de oitenta
por cento. D'isto  que os mestres em romances se escapam sempre. Bem
sabem elles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o heroe
se encolhe nas propores d'estes heroesinhos de botequim, de quem o
leitor dinheiroso foge por instincto, e o outro foge tambem, porque no
tem que fazer com elle. A coisa  vilmente prosaica, de todo o meu
corao o confesso. No  bonito o deixar a gente vulgarisar-se o seu
heroe a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois que
escreveu  mulher estremecida uma carta, como aquella de Simo Botelho.
Quem a lsse diria que o rapaz tinha postadas, em differentes estaes
das estradas do paiz, carroas e folgadas parelhas de mulas, para
transportarem a Paris, a Veneza, ou ao Japo a bella fugitiva! As
estradas, n'aquelle tempo, deviam ser boas para isso; mas no tenho a
certeza de que houvessem estradas para o Japo. Agora creio que ha,
porque me dizem que ha tudo.

Pois eu j lhes fiz saber, leitores, pela bca de mestre Joo, que o
filho do corregedor no tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em
dinheiro que elle scismava quando Marianna lhe trouxe o caldo rejeitado.

A meu vr, deviam attribulal-o estes pensamentos:

Como pagaria a hospitalidade de Joo da Cruz?

Com que agradeceria os desvelos de Marianna?

Se Thereza fugisse, com que recursos proveria  subsistencia de ambos!

Ora, Simo Botelho sahira de Coimbra com a sua mesada, que no era
grande, e quasi lh'a absorvra o aluguel da cavalgadura, e a groseta
generosa que dra ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do prestante
ferrador.

As reliquias d'esse dinheiro dra-as elle  portadora da carta n'aquelle
dia. M situao!

Lembrou-se de escrever  me. Que lhe diria elle? Como explicaria a sua
residencia n'aquella casa? D'este modo no iria elle dar indicios da
morte mysteriosa dos dois criados de Balthazar Coutinho?

Alm de que, sobejamente sabia elle que sua me o no amava; e, a
mandar-lhe algum dinheiro em segredo, seria escassamente o necessario
para a jornada at Coimbra. Pssima situao!

Cansado de pensar, favoreceu-o a providencia dos infelizes com um somno
profundo.

E Marianna entrra p ante p na sala, e ouvindo-lhe a respirao alta,
aventurou-se a entrar na alcova. Lanou-lhe um leno de cassa sobre o
rosto, em roda do qual zumbia um enxame de moscas. Viu a carteira sobre
uma banqueta que adornava o quarto, pegou d'ella, e sahiu p ante p.
Abriu a carteira, viu papeis, que no soube lr, e n'um dos
repartimentos duas moedas de seis vintens. Foi restituir a carteira ao
seu logar, e tomou d'um cabide as calas, collte, e jaqueta 
hespanhola, do hospede. Examinou os bolsos, e no encontrou um ceitil.

Retirou-se para um canto escuro do sobrado, e meditou. Esteve meia hora
assim, e meditava angustiada a nobre rapariga. Depois ergueu-se de
golpe, e conversou longo tempo com o pae. Joo da Cruz escutou-a,
contrariou-a; mas ia de vencida sempre pelas replicas da filha; at que,
a final, disse:

--Farei o que dizes, Marianna. D-me c o teu dinheiro, que no vou
agora levantar a pedra da lareira para bolir no caixote dos quatrocentos
mil reis. Tanto faz um como outro: teu  elle todo.

Marianna deu-se pressa em ir  arca, d'onde tirou uma bolsa de linho com
dinheiro em prata, e alguns cordes, anneis e arrecadas. Guardou o seu
oiro n'uma boceta, e deu a bolsa ao pae.

Joo da Cruz apparelhou a egoa, e sahiu. Marianna foi para a sala do
doente.

Acordou Simo.

--No sabe!?--exclamou ella com semblante entre alegre e assustado,
perfeitamente contrafeito.

--Que , Marianna?

--Sua mesinha sabe que v. s.^a aqui est.

--Sabe?! isso  impossivel! quem lh'o disse?

--No sei; o que sei  que ella mandou chamar meu pae.

--Isso espanta-me!... E no me escreveu?

--No, senhor!... Agora me lembro que talvez ella soubesse que o senhor
aqui esteve, e cuide que j no est, e por isso lhe no escreveu...
Poder ser?

--Poder; mas quem lh'o diria!? Se isto se sabe, ento podem suspeitar
da morte dos homens.

--Pde ser que no; e ainda que desconfiem, no ha testemunhas. O pae
disse que no tinha mdo nenhum. O que fr, soar. No esteja agora a
scismar n'isso... Vou-lhe buscar o caldinho, sim?

--V, se quer, Marianna. O ceu deparou-me em si a amizade de uma irm.

No achou a moa na sua alegre alma palavras em resposta  doura que o
rosto do mancebo exprimira.

Veio com o caldinho diminuitivo que a rhetorica d'uma linguagem meiga
approva; mas contra o qual protestava a larga e funda malga branca, a
par da travessa com meia gallinha loira de gorda.

--Tanta coisa!--exclamou, sorrindo, Simo.

--Coma o que podr--disse ella crando.--Eu bem sei que os senhores da
cidade no comem em malgas tamanhas, mas eu no tinha outra mais
pequena, e coma sem nojo, que esta nunca serviu, que a fui eu comprar 
loja, por pensar que v. s.^a no quizera hontem comer por se atrigar da
outra.

--No, Marianna, no seja injusta, eu no comi hontem pela mesma razo
que no cmo agora: no tinha, nem tenho vontade.

--Mas coma por eu lhe pedir... Perde o meu atrevimento... Faa de conta
que  uma sua irm que lhe pede. Ainda agora me disse...

--Que o ceu me dava em si a amizade d'uma irm...

--Pois ahi est...

Simo achou to necessario  sua conservao o sacrificio, como ao
contentamento da carinhosa Marianna. Passou-lhe na mente, sem sombra de
vaidade, a conjectura de que era amado d'aquella dce creatura. Entre si
disse que seria uma crueza mostrar-se conhecedor de tal affeio, quando
no tinha alma para lh'a premiar, nem para lhe mentir. Assim mesmo, bem
longe de se affligir, lisongeavam-o os desvelos da gentil moa. Ninguem
sente em si o pso do amor que inspira e no comparte. Nas maximas
afflices, nas derradeiras horas do corao e da vida,  grato ainda
sentir-se amado quem j no pde achar no amor diverso das penas, nem
soldar o ultimo fio que se est partindo. Orgulho ou insaciabilidade do
corao humano, seja o que fr, no amor, que nos do,  que ns
graduamos o que valemos em nossa consciencia.

No desprazia, portanto, o amor de Marianna ao amante apaixonado de
Thereza. Isto ser culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se
me deixam ter opinio, a culpa de Simo Botelho est na fraca natureza,
que  toda galas no ceu, no mar, e na terra,  toda incoherencias,
absurdezas, e vicios no homem, rei da creao chamado!




IX.


Duas horas se detivera Joo da Cruz fra de casa. Chegou quando a
curiosidade do estudante era j soffrimento.

--Estar seu pae prso?!--dissera elle a Marianna.

--No m'o diz o corao, e o meu corao nunca me engana--respondra
ella.

E Simo replicra:

--E que lhe diz o corao a meu respeito, Marianna? Os meus trabalhos
ficaro aqui?

--Vou-lhe dizer a verdade, senhor Simo... mas no digo...

--Diga, que lh'o peo, porque tenho f no bom anjo que falla em sua
alma. Diga...

--Pois sim... O meu corao diz-me que os seus trabalhos ainda esto no
como...

Simo ouviu-a attentamente, e no respondeu. Assombrou-lhe o animo esta
ideia torva, e affrontosa  singela rapariga:--Pensar ella em me
desviar de Thereza para se fazer amar?

Pensava assim, quando chegou o ferrador.

--Aqui estou de volta--disse elle com semblante festivo--Sua me
mandou-me chamar...

--J sei... E como soube ella que eu estava aqui?

--Ella sabia que o fidalgo estivera c; mas cuidava que v. s.^a j tinha
ido para Coimbra. Quem lh'o disse no sei, nem perguntei; porque a uma
pessoa de respeito no se fazem perguntas, dizia meu pae. Dizia ella que
sabia o fim a que o senhor viera esconder-se aqui. Ralhou alguma coisa;
mas eu, c como pude, accommodei-a, e no ha novidade. Perguntou-me o
que estava o menino fazendo aqui depois que a fidalguinha fra para o
convento. Disse-lhe que v. s.^a estava adoentado d'uma quda que dera do
cavallo abaixo. Tornou ella a perguntar se o senhor tinha dinheiro; e eu
disse que no sabia. E vai ella foi dentro, e voltou d'ahi a pouco com
este embrulho, para eu lhe entregar. Ahi o tem tal e qual; no sei
quanto .

--E no me escreveu?

--Disse que no podia ir  escrivaninha, porque estava l o senhor
corregedor--respondeu com firmeza mestre Joo--e tambem me recommendou
que no lhe escrevesse v. s.^a, seno de Coimbra, porque, se seu pae
soubesse que o menino c estava, ia tudo razo l em casa. Ora ahi est.

--E no lhe fallou nos criados de Balthazar?

--Nem um pio!.. L na cidade ninguem j fallava n'isso hoje.

--E que lhe disse da senhora D. Thereza?

--Nada, seno que ella fra para o convento. Agora, deixe-me ir amantar
a egua, que est a escorrer em fio.  rapariga, traz-me c a manta.

Em quanto Simo contava onze moedas menos um quartinho, maravilhado da
estranha liberalidade, Marianna, abraando o pae no repartimento visinho
da casa, exclamava:

--Arranjou muito bem a mentira!...

-- rapariga, quem mentiu foste tu! Aquillo l o arranjaste tu com essa
tua cabecinha! Mas a coisa sahiu ao pintar, heim? Elle comeu-a que nem
confeitos! Anda l, que ficaste sem os bezerros; mas l vir tempo em
que elle te d bois a troco dos bezerros.

--Eu no fiz isto por interesse, meu pae...--atalhou ella resentida.

--Olha o milagre! isso sei eu; mas, como diz l o dictado, quem semeia
colhe.

Marianna quedou pensativa, e dizendo entre si:--Ainda bem, que elle no
pde pensar de mim o que meu pae pensa. Deus sabe que no tenho
esperanas nenhumas interesseiras no que fiz.

Simo chamou o ferrador, e disse-lhe:

--Meu caro Joo, se eu no tivesse dinheiro, aceitava sem repugnancia os
seus favores, e creio que vocemec m'os faria sem esperana de ganhar
com elles; mas como recebi esta quantia, ha de consentir que eu lhe d
parte d'ella para os meus alimentos. Motivos de gratido a dividas, que
se no pagam, ainda me ficam muitos para nunca me esquecer de si, e da
sua boa filha. Tome este dinheiro.

--As contas fazem-se no fim--respondeu o ferrador, retirando a mo--e
ninguem nos ha de ouvir, se Deus quizer. Precisando eu de dinheiro c
venho. Por ora, ainda est a capoeira cheia de gallinhas, e o po
coze-se todas as semanas.

--Mas aceite--instou Simo--e d-lhe a applicao que quizer.

--Em minha casa ninguem d leis seno eu--replicou o mestre Joo, com
simulado enfadamento--Guarde l o seu dinheiro, fidalgo, e no fallemos
mais n'isso, se quer que o negocio v direito at ao fim. _E
victo-serio_!

Nos cinco subsequentes dias recebeu Simo regularmente cartas de
Thereza, umas resignadas e confortadoras, outras escriptas na violencia
exasperada da saudade. Em uma dizia:

Meu pae deve saber que ests ahi, e em quanto ahi estiveres, de certo
me no tira do convento. Seria bom que fosses para Coimbra, e
deixassemos esquecer a meu pae os ultimos acontecimentos. Seno, meu
querido esposo, nem elle me d liberdade, nem eu sei como hei de fugir
d'este inferno. No fazes ideia do que  um convento! Se eu podesse
fazer do meu corao sacrificio a Deus, teria de procurar uma atmosphera
menos viciosa que esta. Creio que em toda a parte se pde orar e ser
virtuosa, menos n'este convento.

N'outra carta exprimia-se assim: No me desampares, Simo, no vs para
Coimbra. Eu receio que meu pae me queira mudar d'este convento para
outro mais rigoroso. Uma freira me disse que eu no ficava aqui; outra
positivamente me affirmou que o pae diligenceia a minha ida para um
convento do Porto. Sobre tudo, o que me aterra, mas no me dobra, 
saber eu que o intento do pae  fazer-me professar. Por mais que imagine
violencias e tyrannias, nenhuma vejo capaz de me arrancar os votos. Eu
no posso professar sem ser novia um anno, e ir a perguntas tres vezes;
hei de responder sempre que no. Se eu podesse fugir d'aqui!... Hontem
fui  crca, e vi l uma porta de carro que d para o caminho. Soube que
algumas vezes aquella porta se abre para entrarem carros de lenha; mas
infelizmente no se torna a abrir at ao principio do inverno. Se no
poder antes, meu Simo, fugirei n'esse tempo.

Tiveram entretanto bom e prompto exito as diligencias de Thadeu de
Albuquerque. A prelada de Monchique, religiosa de summas virtudes,
cuidando que a filha de seu primo muito de sua devoo e amor a Deus, se
recolhia ao mosteiro, preparou-lhe casa e congratulou-se com a sobrinha
de to piedosa resoluo. A carta congratulatoria no a recebeu Thereza,
porque viera  mo de seu pae. Continha ella reflexes tendentes a
desvanecl-a do proposito, se algum desgosto passageiro a impellia 
imprudencia de procurar um refugio onde as paixes se exacerbavam mais.

Tomadas todas as precaues, Thadeu de Albuquerque fez avisar sua filha
de que sua tia de Monchique a queria ter em sua companhia algum tempo, e
que a partida teria logar na madrugada do seguinte dia.

Thereza, quando recebeu a surprendente nova, j tinha enviado a carta
d'aquelle dia a Simo. Em sua afflictiva perplexidade, resolveu fazer-se
doente, e to febril estava das commoes, que dispensava o artificio. O
velho no queria transigir com a doena; mas o medico do mosteiro reagiu
contra a deshumanidade do pae e da prioreza interessada na violencia.
Quiz Thereza n'essa noite escrever a Simo; mas a criada da prelada,
obedecendo s suspeitas da ama, no desamparou a cabeceira do leito da
enferma. Era causa a esta espionagem ter dito a escriv, n'nma hora de
m digesto d'aquelle vinho estomacal, que Thereza passava as noites em
orao mental, e tinha correspondencia com um anjo do cu por
interveno d'uma mendiga. Algumas religiosas tinham visto a mendiga no
pteo do convento esperando a esmola de Thereza; mas cuidaram que era
aquella pobre uma devoo da menina. As palavras ironicas da escriv
foram commentadas, e a mendiga recebeu ordem de sahir da portaria.
Thereza, n'um impeto de angustia, quando tal soube, correu a uma
janella, e chamou a pobre, que se retirava assustada, e lanou-lhe ao
pateo um bilhete com estas palavras:  impossivel a nossa
correspondencia. Vou ser tirada d'aqui para outro convento. Espera em
Coimbra noticias minhas. Isto foi rapidamente ao conhecimento da
prioreza, e logo, s ordens d'ella, partiu o hortelo no encalo da
pobre. O hortelo seguiu-a at fra de portas, espancou-a, tirou-lhe o
bilhete, e foi do convento apresental-o a Thadeu de Albuquerque. A
mendiga no retrocedeu; caminhou a casa do ferrador, e contou a Simo o
acontecido.

Simo lanou-se fra do leito, e chamou Joo da Cruz. N'aquelle aperto
queria ouvir uma voz, queria poder chamar amigo a um homem, que lhe
estendesse mo capaz de apertar o cabo d'um punhal. O ferrador ouviu a
historia, e deu o seu voto: esperar at vr. Simo repelliu a
prudencial frieza do confidente, e disse que partia para Vizeu
immediatamente.

Marianna estava alli; ouvira a confidencia, e achra acertada a opinio
de seu pae. Vendo, porm, a impaciencia do hospede, pediu licena para
fallar onde no era chamada, e disse:

--Se o senhor Simo quer, eu vou  cidade, e procuro no convento a
Brito, que  uma rapariga minha conhecida, moa d'uma freira, e dou-lhe
uma carta sua para entregar  fidalga.

--Isso  possivel, Marianna?!--exclamou Simo, a ponto de abraar a
moa.

--Pois ento!--disse o ferrador--o que pde fazer-se, faz-se. Vai-te
vestir, rapariga, que eu vou botar o albardo  gua.

Simo sentou-se a escrever. To embaralhadas lhe acudiam as ideias, que
no atinava a formar o designio mais proveitoso  situao de ambos. Ao
cabo de longa vacillao, disse a Thereza que fugisse  hora do dia,
quando a porta estivesse aberta, ou violentasse a porteira a abrir-lh'a.
Dizia-lhe que marcasse ella a hora do dia seguinte em que elle a devia
esperar, com cavalgaduras para a fuga. Em recurso extremo, promettia
assaltar com homens armados o mosteiro, ou incendial-o para se abrirem
as portas. Este programma era o mais parecido com o espirito do
academico: em vivo fogo estava aquella pobre cabea! Fechada a carta,
comeou a passear em torcicolos, como se obedecesse a desencontrados
impulsos. Encravava as unhas na cabea, e arrancava os cabellos n'ellas.
Marrava como cego contra as paredes, e sentava-se um momento para
erguer-se de mais furioso impeto. Machinalmente aferrava das pistolas, e
sacudia os braos vertiginosos. Abria a carta para rell-a, e estava a
ponto de rasgal-a, cuidando que iria tarde, ou no lhe chegaria s mos.
N'este conflicto de contrarios projectos, entrou Marianna, e muito
allucinado devia de estar Simo para lhe no dar f das lagrimas.

O que tu soffrias, nobre corao de mulher pura! Se o que fazes por esse
moo  gratido ao homem que salvou a vida de teu pae, que rara virtude
a tua! Se o amas, se por lhe dar allivio s dres, tu mesma lhe
desempeces o caminho por onde te elle ha de fugir para sempre, que nome
darei  tua virtude! que anjo te fadou o corao para a santidade d'um
obscuro martyrio!

--Estou prompta, disse Marianna.

--Aqui tem a carta, minha boa amiga. Faa muito por no vir sem
resposta--disse Simo, dando-lhe com a carta um embrulho de dinheiro.

--E o dinheiro tambm  para a senhora?--disse ella.

--No,  para si, Marianna: compre um annel.

Marianna tomou a carta, e voltou rapidamente as costas, para que Simo
lhe no visse o gesto de despeito, se no desprso.

O academico no ousou insistir, vendo-a apressar-se na descida para o
quinteiro, onde o ferrador enfreava a egua.

--No lhe chegues muito com a vara--disse Joo da Cruz a Marianna, que,
d'um pulo, se assentou no albardo, coberto d'uma colxa escarlate.--Tu
vaes amarella como cidra, moa!--exclamou elle reparando na pallidez da
moa--Tu que tens?

--Nada; que hei de eu ter?! d-me c a vara, meu pae.

A egua partiu a galope, e o ferrador, no meio da estrada, a rever-se na
filha e na egua, dizia em soliloquio, que Simo ouvira:

--Vales tu mais, rapariga, que quantas fidalgas tem Vizeu! Pela mais
pintada no dava eu a minha egua; e, se c viesse o Mira-Molim de
Marrocos pedir-me a filha, os diabos me levem se eu lh'a dava! Isto 
que so mulheres, e o mais  uma historia!




X.


Apeou Marianna defronte do mosteiro, e foi  portaria chamar a sua amiga
Brito.

--Que boa moa!--disse o padre capello, que estava no raro lateral da
porta, praticando com a prioreza, cerca da salvao das almas, e d'umas
ancoretas de vinho do Pinho, que elle recebra n'aquelle dia, e do qual
j tinha engarrafado um almude para tonisar o estomago da prelada.

--Que boa moa!--tornou elle, com um olho n'ella e outro no raro, onde a
ciumosa prioreza se estava remordendo.

--Deixe l a moa, e diga quando ha de ir a servente buscar o vinho.

--Quando quizer, senhora prioreza; mas repare bem nos olhos, no feitio,
n'aquelle todo da rapariga!

--Pois repare o senhor padre Joo--replicou a freira--que eu tenho mais
que fazer.

E retirou-se com o corao mal-ferido, e o queixo superior escorrendo
lagrimas... de simonte.

--D'onde  vocemec?--disse brandamente o padre capello.

--Sou da aldeia--respondeu Marianna.

--Isso vejo eu; mas de que aldeia ?

--No me confesso agora.

--Mas no faria mal se se confessasse a mim, menina, que sou padre.

--Bem vejo.

--Que mau genio tem!...

-- isto que v.

--Quem procura c no convento?

--J disse l para dentro quem procuro.

--Marianna! s tu?! Anda c!

A moa fez uma cortezia de cabea ao padre capello, e foi ao locutorio
d'onde vinha aquella voz.

--Eu queria fallar comtigo em particular, Joaquina--disse Marianna.

--Eu vou vr se arranjo uma grade: espera ahi.

O padre tinha sahido do pateo, e Marianna, em quanto esperava, examinou,
uma a uma, as janellas do mosteiro. N'uma das janellas, atravs das
rexas de ferro, viu ella uma senhora sem habito.

--Ser aquella?--perguntou Marianna ao seu corao, que palpitava--Se eu
fosse amada como ella!...

--Sobe aquellas escadinhas, Marianna, e entra na primeira porta do
corredor, que eu l vou--disse Joaquina.

Marianna deu alguns passos, olhou novamente para a janella onde vira a
senhora sem habito, e repetiu ainda:

--Se eu fosse amada como ella!...

Mal entrou na grade, disse  sua amiga:

--Olha l, Joaquina, quem  uma menina muito branca, alva como leite,
que estava alli agora n'uma janella?

--Seria alguma novia, que ha duas c muito lindas.

--Mas ella no tinha vestimenta nenhuma de freira.

--Ah! j sei:  a D. Therezinha Albuquerque.

--Ento no me enganei--disse Marianna, pensativa.

--Pois tu conhecel-a?

--No; mas por amor d'ella  que eu c vim fallar comtigo.

--Ento que ?! Que tens tu com a fidalga?

--Eu, c por mim, nada; mas conheo uma pessoa que lhe quer muito.

--O filho do corregedor?

--Esse mesmo.

--Mas esse est em Coimbra.

--No sei se est, nem se no. Fazes-me tu um favor?

--Se eu poder...

--Pdes... Eu queria fallar com ella.

-- dianho! isso no sei se poder ser, porque a trazem as freiras
debaixo d'olho, e ella vai-se embora manh.

--Para onde vai?

--Vai para outro convento, no sei se de Lisboa, se do Porto. Os bahus
j esto preparados, e ella est morta por sahir. E tu que lhe queres?

--No t'o posso dizer, porque no sei... Queria dar-lhe um papel... Faz
com que ella c venha, que eu dou-te chita para um vestido.

--Como tu ests rica, Marianna!...--atalhou, rindo, Joaquina--Eu no
quero a tua chita, rapariga. Se eu podr dizer-lhe que venha, sem que
alguem me oua, digo-lh'o. E agora  boa mar, porque tocou ao cro....
Deixa-me l ir.

Joaquina sahiu-se bem da difficil commisso. Thereza estava ssinha,
absorvida a scismar com os olhos fitos no ponto onde vira Marianna.

--A menina faz favor de vir comigo depressinha?--disse-lhe a criada.

Seguiu-a Thereza, e entrou na grade, que Joaquina fechou, dizendo:

--O mais breve que possa bata por dentro para eu lhe abrir a porta. Se
perguntarem por v. ex.^a, digo-lhe que a menina est no mirante.

A voz de Marianna tremia, quando D. Thereza lhe perguntou quem era.

--Sou uma portadora d'esta carta para v. ex.^a

-- de Simo!--exclamou Thereza.

--Sim, minha senhora.

--A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse:

--Eu no posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro, e ninguem
me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o convento de
Monchique do Porto. Que se no afflija, porque eu sou sempre a mesma.
Que no venha c, porque seria inutil, e muito perigoso. Que v vr-me
ao Porto, que eu hei de arranjar modo de lhe fallar. Diga-lhe isto, sim?

--Sim, minha senhora.

--No se esquea, no? Vir c por modo nenhum.  impossivel fugir, e vou
muito acompanhada. Vai o primo Balthazar e as minhas primas, e meu pae,
e no sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho
 uma loucura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim?

Joaquina disse fra da porta:

--Menina! olhe que a prioreza anda l por dentro a procural-a.

--Adeus, adeus--disse Thereza sobresaltada.--Tome l esta lembrana como
prova da minha gratido.

E tirou do dedo um annel de ouro, que offereceu a Marianna.

--No aceito, minha senhora.

--Porque no aceita?

--Porque no fiz algum favor a v. ex.^a. A receber alguma paga ha de ser
de quem me c mandou. Fique com Deus, minha senhora, e oxal que seja
feliz.

Sahiu Thereza, e Joaquina entrou na grade.

--J te vaes embora, Marianna?

--Vou, que  pressa; um dia virei conversar comtigo muito. Adeus,
Joaquina.

--Pois no me contas o que isto ? O amor da fidalga est perto d'aqui?
Conta, que eu no digo nada, rapariga!...

--Outra vez, outra vez; obrigada, Joaquininha.

Marianna, durante a veloz caminhada, foi repetindo o recado da fidalga,
e, se alguma vez se distrahia d'este exercicio de memoria, era para
pensar nas feies da amada do seu hospede, e dizer, como em segredo, ao
seu corao: No lhe bastava ser fidalga e rica; e, alm de tudo, linda
como nunca vi outra! E o corao da pobre moa, avergando ao que a
consciencia lhe ia dizendo, chorava.

Simo, de uma fresta do postigo do seu quarto, espreitava ao longo do
caminho, ou escutava a estropeada da cavalgadura.

Ao descobrir Marianna, desceu ao quinteiro, despresando cautelas, e
esquecido j do ferimento cuja crise de perigo peorra n'aquelle dia,
que era o oitavo depois do tiro.

A filha do ferrador deu o recado, sem alterao de palavra. Simo
escutra-a placidamente at ao ponto em que lhe ella disse que o primo
Balthazar a acompanhava ao Porto.

--O primo Balthazar!...--murmurou elle com um sorriso sinistro--sempre
este primo Balthazar cavando a sua sepultura e a minha!...

--A sua, fidalgo?!--exclamou Joo da Cruz--morra elle, que o levem
trinta milhes de diabos! mas v. s.^a ha de viver em quanto eu fr Joo.
Deixe-a ir para o Porto, que no tem perigo no convento. D'hora a hora
Deus melhora. O senhor doutor vai para Coimbra, est por l algum tempo,
e s duas por tres, quando o velho mal se precatar, a fidalguinha
engrampa-o, e  sua como dois e dois serem quatro.

--Eu hei de vl-a antes de partir para Coimbra--disse Simo.

--Olhe que ella recommendou-me muito que no fosse l--acudiu Marianna.

--Por causa do primo?--tornou o academico ironicamente.

--Acho que sim, e por talvez no servir de nada l ir v. s.^a--respondeu
timidamente a moa.

--L se quer--bradou mestre Joo--a mulher vai-se-lhe tirar ao caminho.
No tem mais que dizer.

--Meu pae! no metta este senhor em maiores trabalhos!--disse Marianna.

--No tem duvida, menina--atalhou Simo--eu  que no quero metter
ninguem em trabalhos. Com a minha desgraa, por maior que ella seja, hei
de eu luctar ssinho.

Joo da Cruz, assumindo uma gravidade de que a sua figura raras vezes se
ennobrecia, disse:

--Senhor Simo, v. s.^a no sabe nada do mundo. No metta ssinho a
cabea aos trabalhos, que elles, como o outro que diz, quando pegam de
ensarilhar um homem, no lhe deixam tomar flego. Eu sou um rustico;
mas, a bem dizer, estou n'aquella d'aquelle que dizia que o mal dos seus
burrinhos o fizera alveitar. Paixes, que as leve o diabo, e mais quem
com ellas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ella seja filha do
rei, no se ha de um homem botar a perder. Mulheres ha tantas como a
praga, e so como as rs no charco, que mergulha uma, e apparecem quatro
 tona d'agua. Um homem rico e fidalgo como v. s.^a, onde quer topa uma
com um palmo de cara como se quer, e um dote de encher o olho. Deixe-a
ir com Deus ou com a breca, que ella, se tiver de ser sua,  mo lhe ha
de vir dar, e tanto faz andar p'ra traz como p'ra diante,  dictado dos
antigos. Olhe que isto no  mdo, fidalgo; tome sentido, que Joo da
Cruz sabe o que  pr dois homens d'uma feita a olhar o sete-estrello,
mas no sabe o que  mdo. Se o senhor quer sahir  estrada e tirar a
tal pessoa ao pae, ao primo, e a um regimento, se fr necessario, eu vou
montar na egua, e d'aqui a tres horas estou de volta com quatro homens,
que so quatro drages.

Simo fitra os olhos chammejantes nos do ferrador, e Marianna
exclamra, ajuntando as mos sobre o seio:

--Meu pae! no lhe d esses conselhos!...

--Cala-te ah, rapariga!--disse mestre Joo--vai tirar o albardo 
egua, amanta-a, e bota-lhe scco. No s aqui chamada.

--No v afflicta, senhora Marianna--disse Simo  moa, que se retirava
amargurada.--Eu no aproveito algum dos conselhos de seu pae. Ouo-o com
boa vontade, porque sei que quer o meu bem; mas hei de fazer o que a
honra e o corao me aconselhar.

Ao anoitecer, Simo, como estivesse ssinho, escreveu uma longa carta,
da qual extractamos os seguintes periodos:

Considero-te perdida, Thereza. O sol de manh pde ser que eu o no
veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cr de morte. Parece que o frio da
minha sepultura me est passando o sangue e os ossos.

No posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixo no se
conforma com a desgraa. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as
contrariedades me no privavam de ti. S o receio de perder-te me mata.
O que me resta do passado  a coragem de ir buscar uma morte digna de
mim e de ti. Se tens fora para uma agonia lenta, eu no posso com ella.

Poderia viver com a paixo infeliz; mas este rancor sem vingana  um
inferno. No hei de dar barata a vida, no. Ficars sem mim, Thereza;
mas no haver ahi um infame que te persiga depois da minha morte. Tenho
ciumes de todas as tuas horas. Has de pensar com muita saudade no teu
esposo do ceu, e nunca tirars de mim os olhos da tua alma para vres ao
p de ti o miseravel que nos matou a realidade de tantas esperanas
formosas.

Tu vers esta carta quando eu j estiver n'um outro mundo, esperando as
oraes das tuas lagrimas. As oraes! Admiro-me d'esta faisca de f que
me alumia nas minhas trvas!... Tu dras-me com o amor a religio,
Thereza. Ainda creio; no se apaga a luz que  tua; mas a providencia
divina desamparou-me.

Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a
uma sombra, a razo por que me attrahiste a um abysmo. Escutars com
gloria a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim.

 hora em que leres esta carta............

No o deixaram continuar as lagrimas, nem depois a presena de Marianna.
Vinha ella pr a mesa para a ceia, e quando desdobrava a toalha, disse
em voz abafada, como se a si mesma smente o dissesse:

-- a ultima vez que ponho a mesa ao senhor Simo em minha casa!

--Porque diz isso, Marianna?

--Porque m'o diz o corao.

D'esta vez o academico ponderou supersticiosamente os dictames do
corao da moa, e com o silencio meditativo deu-lhe a ella a evidencia
anticipada do vaticinio.

Quando voltou com a travessa da gallinha, vinha chorando a filha de Joo
da Cruz.

--Chora com pena de mim, Marianna?--disse Simo enternecido.

--Choro, porque me parece que o no tornarei a vr; ou, se o vir, ser
de modo que oxal que eu morresse antes de o vr.

--No ser, talvez, assim, minha amiga...

--V. s.^a no me faz-uma coisa que eu lhe peo?...

--Veremos o que pede, menina.

--No saia esta noite, nem manh.

--Pede o impossivel, Marianna. Hei de sahir, porque me mataria se no
sahisse.

--Ento perde a minha ousadia. Deus o tenha de sua mo.

A rapariga foi contar ao pae as intenes do academico. Acudiu logo
mestre Joo combatendo a ideia da sahida, com encarecer os perigos do
ferimento. Depois, como no conseguisse dissuadil-o, resolveu
acompanhal-o. Simo agradeceu a companhia, mas rejeitou-a com deciso. O
ferrador no cedia do proposito, e estava j preparando a clavina, e
arreoando com medida dobrada a egua--para o que dsse e viesse--dizia
elle, quando o estudante lhe disse que, melhor avisado, resolvra no ir
a Vizeu, e seguir Thereza ao Porto, passados os dias da convalescena.
Facilmente o acreditou Joo da Cruz; mas Marianna, submissa sempre ao
que o seu corao lhe bacorejava, duvidou da mudana, e disse ao pae que
vigiasse o fidalgo.

s onze horas da noite ergueu-se o academico, e escutou o movimento
interior da casa: no ouviu o mais ligeiro ruido, a no ser o rangido da
egua na manjedoura. Escorvou de polvora nova as duas pistolas. Escreveu
um bilhete subscriptado a Joo da Cruz, e ajuntou-o  carta que
escrevra a Thereza. Abriu as portadas da janella do seu quarto, e
passou d'alli para a varanda de pau, da qual o salto  estrada era sem
risco. Saltou, e tinha dado alguns passos, quando a fresta, lateral 
porta da varanda, se abriu, e a voz de Marianna lhe disse:

--Ento adeus, senhor Simo. Eu fico pedindo a Nossa Senhora que v na
sua companhia.

O academico parou, e ouviu voz intima que lhe dizia: O teu anjo da
guarda falla pela bca d'aquella mulher, que no tem mais intelligencia
que a do corao alumiado pelo seu amor.

--D um abrao em seu pae, Marianna--disse-lhe Simo--e adeus... at
logo, ou....

--At ao juizo final...--atalhou ella.

--O destino ha de cumprir-se... Seja o que o ceu quizer.

Tinha Simo desapparecido nas trevas, quando Marianna accendeu a lampada
do sanctuario, e ajoelhou orando com o fervor das lagrimas.

Era uma hora, e estava Simo defronte do convento, contemplando uma a
uma as janellas. Em nenhuma vira claro de luz; luz s a do lampadario
do Sacramento se coava baa e pallida na vidraa d'uma fresta do templo.
Sentou-se nas escaleiras da igreja, e ouviu, ali immovel, as quatro
horas. Das mil vises, que lhe relancearam no atribulado espirito, a que
mais a miudo se repetia era a de Marianna supplicante com as mos
postas; mas, ao mesmo tempo, cria elle ouvir os gemidos de Thereza,
torturada pela saudade, pedindo ao ceu que a salvasse das mos de seus
algozes. O vulto de Thadeu de Albuquerque, arrastando a filha a um
convento, no lhe afogueava a sde de vingana; mas cada vez que lhe
acudia  mente a imagem odiosa de Balthazar Coutinho, instinctivamente
as mos do academico se asseguravam da existencia das pistolas.

s quatro horas e um quarto acordou a natureza toda em hymnos e
acclamaes ao radiar da alva. Os passarinhos trinavam na cerca do
mosteiro melodias interrompidas pelo toque solemne das Ave-Marias na
torre. O horisonte passra, de escarlate a alvacento. A purpura da
aurora, como lavareda enorme, desfizera-se em particulas de luz, que
ondeavam no declive das montanhas, e se distendiam nas planicies e nas
varzeas, como se o anjo do Senhor,  voz de Deus, viesse desenrolando
aos olhos da creatura as maravilhas do repontar d'um dia estivo.

E nenhuma d'estas galas do ceu e da terra enlevava os olhos do moo
poeta!

s quatro horas e meia ouviu Simo o tinido de liteiras, dirigindo-se
quelle ponto. Mudou de local, tomando por uma rua estreita, fronteira
ao convento.

Pararam as liteiras vasias na portaria, e logo depois chegaram tres
senhoras vestidas de jornada, que deviam ser as irms de Balthazar,
acompanhadas de dois mochilas com as mulas  rdea. As damas foram
sentar-se nos bancos de pedra, lateraes  portaria. Em seguida abriu-se
a grossa porta, rangendo nos gonzos, e as tres senhoras entraram.

Momentos depois viu Simo chegar  portaria Thadeu de Albuquerque
encostado ao brao de Balthazar Coutinho. O velho denotava quebranto e
desfallecimento a espaos. O de Castro-d'Aire, bem composto de figura e
caprichosamente vestido  castelhana, gesticulava com o aprumo de quem
d as suas irrefutaveis razes, e consola tomando a riso a dr alheia.

--Nada de lamurias, meu tio!--dizia elle--Desgraa seria vl-a casada!
Eu prometto-lhe antes de um anno restituir-lh'a curada. Um anno de
convento  um optimo vomitorio do corao. No ha nada como isso para
limpar o sarro do vicio em coraes de meninas creadas  discrio. Se
meu tio a obrigasse, desde menina, a uma obediencia cega, tl-a-ia agora
submissa, e ella no se julgaria authorisada a escolher marido.

--Era uma filha unica, Balthazar!--dizia o velho, soluando.

--Pois por isso mesmo--replicou o sobrinho--Se tivesse outra, ser-lhe-ia
menos sensivel a perda, e menos funesta a desobediencia. Faria a sua
casa na filha mais querida, embora tivesse de impetrar uma licena regia
para desherdar a primogenita. Assim, agora no lhe vejo outro remedio
seno empregar o cauterio  chaga; com emplastros  que no se faz nada.

Abriu-se novamente a portaria, e sahiram as tres senhoras, e aps ellas
Thereza.

Thadeu enchugou as lagrimas, e deu alguns passos a saudar a filha, que
no ergueu do cho os olhos.

--Thereza...--disse o velho.

--Aqui estou, senhor--respondeu a filha, sem o encarar.

--Ainda  tempo--tornou Albuquerque.

--Tempo de qu?

--Tempo de seres boa filha.

--No me accusa a consciencia de o no ser.

--Ainda mais?!... Queres ir para tua casa, e esqueceres o maldito que
nos faz a todos desgraados?

--No, meu pae. O meu destino  o convento. Esquecl-o nem por morte.
Serei filha desobediente, mas mentirosa  que nunca.

Thereza, circumvagando os olhos, viu Balthazar, e estremeceu,
exclamando:

--Nem aqui!

--Falla comigo, prima Thereza?--disse Balthazar, risonho.

--Comsigo fallo! Nem aqui me deixa a sua odiosa presena?

--Sou um dos criados que minha prima leva em sua companhia. Dois tinha
eu ha dias, dignos de acompanharem a minha prima; mas esses houve ahi um
assassino que m'os matou.  falta d'elles, sou eu que me offereo.

--Dispenso-o da delicadeza--atalhou Thereza com vehemencia.

--Eu  que me no dispenso de a servir,  falta dos meus dois fieis
criados, que um scelerado me matou.

--Assim devia ser--tornou ella tambem ironica--porque os covardes
escondem-se nas costas dos criados, que se deixam matar.

--Ainda se no fizeram as contas finaes..., minha querida
prima--redarguiu o morgado.

Este dialogo correu rapidamente, em quanto Thadeu de Albuquerque
cortejava a prioreza e outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas
de Balthazar, tinham sahido do atrio do convento, e deram de rosto em
Simo Botelho, encostado  esquina da rua fronteira.

Thereza viu-o.... adivinhou-o, primeira de todas, e exclamou:

--Simo!...

O filho do corregedor no se moveu.

Balthazar, espavorido do encontro, fitando os olhos n'elle, duvidava
ainda.

-- crivel que esse infame aqui viesse!--exclamou o de Castro-d'Aire.

Simo deu alguns passos, e disse placidamente:

--_Infame..._ eu! e porqu?

--Infame, e infame assassino!--replicou Balthazar--J fra da minha
presena!

-- parvo este homem!--disse o academico--Eu no discuto com s. s.^a...
Minha senhora--disse elle a Thereza com a voz commovida e o semblante
alterado unicamente dos affectos do corao--Soffra com resignao, da
qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldioar a
violencia, e bem pde ser que a meio caminho do seu calvario a
misericordia divina lhe redobre as foras.

--Que diz este patife?!--exclamou Thadeu.

--Vem aqui insultal-o, meu tio!--respondeu Balthazar--Tem a petulancia
de se apresentar a sua filha a confortal-a na sua malvadez! Isto  de
mais! Olhe que eu esmago-o aqui, su villo!

--Villo  o desgraado, que me ameaa, sem ousar avanar para mim um
passo--redarguiu o filho do corregedor.

--Eu no o tenho feito--exclamou enfurecidamente Balthazar--por entender
que me avilto, castigando-o, na presena de criados de meu tio, que tu
pdes suppr meus defensores, canalha!

--Se assim --tornou Simo, sorrindo--espero nunca me encontrar de rosto
com s. s.^a. Reputo-o to covarde, to sem dignidade, que o hei de
mandar azorragar pelo primeiro ganha-po das esquinas.

Balthazar Coutinho lanou-se de impeto a Simo. Chegou a apertar-lhe a
garganta nas mos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as
damas chegaram a interpr-se entre os dois, Balthazar tinha o alto do
craneo aberto por uma bala, que lhe entrra na fronte. Vacillou um
segundo, e cahiu desamparado aos ps de Thereza.

Thadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteireiros e criados
rodearam Simo, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola.
Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lanar-se ao
homicida, com risco de vida, quando um homem, com um leno pela cara,
correu da rua fronteira, e se collocou, de bacamarte aperrado,  beira
de Simo. Estacaram os homens.

--Fuja, que a gua est ao cabo da rua--disse o ferrador ao seu hospede.

--No fujo... Salve-se, e depressa--respondeu Simo.

--Fuja, que se ajunta o povo, e no tardam ahi soldados.

--J lhe disse que no fujo--replicou o amante de Thereza, com os olhos
postos n'ella, que cahira desfallecida sobre as escadas da igreja.

--Est perdido!--tornou Joo da Cruz.

--J o estava. V-se embora, meu amigo, por sua filha lh'o rogo. Olhe
que pde ser-me util; fuja...

Abriam-se todas as portas e janellas, quando o ferrador se lanou na
fuga, at cavalgar a egua.

Um dos visinhos do mosteiro, que, em razo de seu officio, primeiro
sahiu  rua, era o meirinho geral.

--Prendam-no, prendam-no, que  um matador!--exclamava Thadeu de
Albuquerque.

--Qual?--perguntou o meirinho geral.

--Sou eu--respondeu o filho do corregedor.

--V. s.^a!--disse o meirinho espantado; e, approximando-se, accrescentou
a meia voz--venha, que eu deixo-o fugir.

--Eu no fujo--tornou Simo.--Estou prso. Aqui tem as minhas armas.

E entregou as pistolas.

Thadeu de Albuquerque, quando se recobrou do spasmo, fez transportar a
filha a uma das liteiras, e ordenou que dois criados a acompanhassem ao
Porto.

As irms de Balthazar seguiram o cadaver de seu irmo para casa do tio.




SEGUNDA PARTE.




I.


O corregedor acordara com o grande rebolio que ia na casa, e perguntou
 esposa, que elle suppunha tambem desperta na camara immediata, que
bulha era aquella. Como ninguem lhe respondesse, sacudiu freneticamente
a campainha, e berrou ao mesmo tempo, aterrado pela hypothese de
incendio na casa. Quando D. Rita acudiu, j elle estava enfiando os
cales s avessas.

--Que estrondo  este? quem  que grita?--exclamou Domingos Botelho.

--Quem grita mais  o senhor--respondeu D. Rita.

--Sou eu!? Mas quem  que chora?

--So suas filhas.

--E porqu? Diga n'uma palavra.

--Pois sim, direi: o Simo matou um homem.

--Em Coimbra?... E fazem tanta bulha por isso!

--No foi em Coimbra, foi em Vizeu--tornou D. Rita.

--A senhora manga comigo?! Pois o rapaz est em Coimbra, e mata em
Vizeu! Ahi est um caso para que as ordenaes do reino no
providenciaram.

--Parece que brinca, Menezes! Seu filho matou na madrugada de hoje
Balthazar Coutinho, sobrinho do Thadeu de Albuquerque.

Domingos Botelho mudou inteiramente de aspecto.

--Foi prso?--perguntou o corregedor.

--Est em casa do juiz de fra.

--Mande-me chamar o meirinho geral. Sabe como foi e porque foi essa
morte?!... Mande-me chamar o meirinho, sem demora.

--Porque se no veste o senhor, e vai a casa do juiz?

--Que vou eu fazer a casa do juiz?

--Saber de seu filho como isto foi.

--Eu no sou pae: sou corregedor. No me incumbe a mim interrogal-o,
Senhora D. Rita, eu no quero ouvir choradeiras; diga s meninas que se
calem, ou que vo chorar no quintal.

O meirinho chamado relatou miudamente o que sabia, e disse ter-se
verificado que o amor  filha do Albuquerque fra causa d'aquelle
desastre.

Domingos Botelho, ouvida a historia, disse ao meirinho:

--O juiz de fra que cumpra as leis. Se elle no fr rigoroso, eu o
obrigarei a sl-o.

Ausente o meirinho, disse D. Rita Preciosa ao marido:

--Que significa esse modo de fallar de seu filho?

--Significa que sou corregedor d'esta comarca, e que no protejo
assassinos por ciumes, e ciumes da filha de um homem, que eu detesto. Eu
antes queria vr mil vezes morto Simo, que ligado a essa familia.
Escrevi-lhe muitas vezes dizendo-lhe que o expulsava de minha casa, se
alguem me dsse a certeza de que elle tinha correspondencia com tal
mulher. No ha de querer a senhora que eu v sacrificar a minha
integridade a um filho desobediente, e de mais a mais homicida.

D. Rita, algum tanto por affecto maternal e bastante por espirito de
contradico, contendeu largo espao; mas desistiu, obrigada pela
insolita pertinacia e clera do marido. To iracundo e aspero em
palavras nunca o ella vira. Quando lhe elle disse: Senhora, em coisas
de pouca monta o seu dominio era toleravel; em questes de honra, o seu
dominio acabou: Deixe-me!--D. Rita, quando tal ouviu, e reparou na
physionomia de Domingos Botelho, sentiu-se mulher, e retirou-se.

A ponto foi isto de entrar o juiz de fra na sala de espera. O
corregedor foi recebel-o, no com o semblante affectuoso de quem vai
agradecer a delicadeza e implorar indulgencia, seno que de carrancudo
que ia, mais parecra ir elle reprehender o juiz por vir n'aquella
visita dar a crer que a balana da justia na sua mo tremia algumas
vezes.

--Comeo por dar a v. s.^a os pezames--disse o juiz de fra--da desgraa
de seu filho.

--Obrigado a v. s.^a Sei tudo. Est instaurado o processo?

--No podia deixar eu de acceitar a querella.

--Se a no acceitasse, obrigal-o-ia eu ao cumprimento dos seus deveres.

--A situao do senhor Simo Botelho  pessima. Confessa tudo. Diz que
matou o algoz da mulher que elle amava...

--Fez muito bem--interrompeu o corregedor, soltando uma casquinada secca
e rouca.

--Perguntei-lhe se foi em defeza, e fiz-lhe signal que respondesse
affirmativamente. Respondeu que no; que, a defender-se, o faria com a
ponta da bota, e no com um tiro. Busquei todos os modos honestos de o
levar a dar algumas respostas, que denotassem allucinao ou demencia;
elle, porm, responde e replca com tanta egualdade e presena de
espirito, que  impossivel suppor que o assassinio no foi perpetrado
muito intencionalmente e de claro juizo. Aqui tem v. s.^a uma
especialissima e triste posio. Queria valer-lhe, e no posso.

--E eu no posso nem quero, senhor doutor juiz de fra. Est na cada?

--Ainda no: est em minha casa. Venho saber se v. s.^a determina que
lhe seja preparada com decencia a priso.

--Eu no determino nada. Faa de conta que o prso Simo no tem aqui
parente algum.

--Mas, senhor doutor corregedor--disse o juiz de fra com tristeza e
compunco--v. s.^a  pae.

--Sou um magistrado.

-- demasiada a severidade, perde-me a reflexo que  amiga. L est a
lei para o castigar; no o castigue v. ex.^a com o seu odio. A desgraa
quebranta o odio de estranhos, quanto mais o affectuoso resentimento de
um pae!

--Eu no odeio, senhor doutor; desconheo esse homem em que me falla.
Cumpra os seus deveres, que lh'o ordena o corregedor, e o amigo mais
tarde lhe agradecer a delicadeza.

Sahiu o juiz de fra, e foi encontrar Simo na mesma serenidade em que o
deixra.

--Venho de fallar com seu pae;--disse o juiz--encontrei-o mais irado do
que era natural calcular. Penso que por em quanto naaa pde esperar da
influencia ou patrocinio d'elle.

--Isso que importa?--respondeu socegadamente Simo.

--Importa muito, senhor Botelho. Se seu pae quizesse, haveria meios de
mais tarde lhe adoar a sentena.

--Que me importa a mim a sentena?--replicou o filho do corregedor.

--Pelo que vejo no lhe importa ao senhor ir a uma forca?

--No, senhor.

--Que diz, senhor Simo!--redarguiu espantado o interrogador.

--Digo que o meu corao  indifferente ao destino da minha cabea.

--E sabe que seu pae no lhe d mesmo proteco, a proteco das
primeiras necessidades na cada?

--No sabia; que tem isso? Que importa morrer de fome, ou morrer no
patibulo?

--Porque no escreve a sua me? Pea-lhe que...

--Que hei de eu pedir a minha me?--atalhou Simo.

--Peca-lhe, que amacie a clera de seu pae, seno o senhor Botelho no
tem quem o alimente.

--V. s.^a est-me julgando um miseravel, a quem d cuidado saber onde ha
de almoar hoje. Penso que no incumbem ao senhor juiz de fra essas
miudezas de estomago.

--De certo no--redarguiu irritado o juiz---Faa o que quizer.

E, chamando o meirinho geral, entregou-lhe o ro, dispensando o aguazil
de pedir fora para acompanhal-o.

O carcereiro recebeu respeitosamente o prso, e alojou-o n'um dos
quartos melhores do carcere; mas n e desprovido de tudo o carcere.

Um outro prso emprestou-lhe uma cadeira de pau. Simo sentou-se, cruzou
os braos, e meditou.

Pouco depois, um criado de seu pae conduziu-lhe o almoo, dizendo-lhe
que sua me lh'o mandava a occultas, e entregando-lhe uma carta d'ella,
cujo contedo importa saber. Simo, antes de tocar no almoo, cujo cabaz
estava-no pavimento, leu o seguinte:

Desgraado, que ests perdido!

Eu no te posso valer, porque teu pae est inexoravel. A occultas d'elle
 que te mando o almoo, e no sei se poderei mandar-te o jantar!

Que destino o teu! Oxal que tivesses morrido ao nascer!

Morto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino no quiz
largar a victima [3].

Para que sahiste de Coimbra? a que vieste, infeliz? Agora sei que tens
vivido fra de Coimbra ha quinze dias, e nunca tiveste uma palavra que
dissesses a tua me!...

Simo suspendeu a leitura, e disse entre si:

--Como se intende isto?! Pois minha me no mandou chamar Joo da Cruz!
E no foi ella quem me mandou o dinheiro?

--Olhe que o almoo arrefece, menino!--disse o criado.

Simo continuou a ler, sem ouvir o criado:

Deves estar sem dinheiro; e eu desgraadamente no posso hoje enviar-te
um pinto. Teu irmo Manoel, desde que fugiu para Hespanha, absorve-me
todas as economias. Veremos, passado algum tempo, o que posso fazer; mas
receio bem que teu pae saia de Vizeu, e nos leve para Villa Real, para
abandonar de todo o teu julgamento  severidade das leis.

Meu pobre Simo! Onde estarias tu escondido quinze dias?! Hoje mesmo 
que teu pae teve carta d'um lente, participando-lhe a tua falta nas
aulas, e sahida para o Porto, segundo dizia o arreeiro que te
acompanhou.

No posso mais. Teu pae j espancou a Ritinha, por ella querer ir 
cada.

Conta com o pouco valor de tua pobre me ao p d'um homem infurecido
como est teu pae.

Simo Botelho reflectiu alguns minutos, e convenceu-se de que o dinheiro
recebido era de Joo da Cruz. Quando sahiu com o espirito d'esta
meditao, tinha os olhos marejados de lagrimas.

--No chore, menino;--disse o criado--os trabalhos so para os homens, e
Deus ha de fazer tudo pelo melhor. Almoce, senhor Simo.

--Leva o almoo--disse elle.

--Pois no quer almoar?!

--No. Nem voltes aqui. Eu no tenho familia. No quero absolutamente
nada da casa de meus paes. Diz a minha me que eu estou socegado, bem
alojado, e feliz, e orgulhoso da minha sorte. Vai-te embora j.

O criado sahiu, e disse ao carcereiro que o seu infeliz amo estava
doudo. D. Rita achou provavel a suspeita do servo e viu a evidencia da
loucura nas palavras do filho.

Quando o o carcereiro voltou ao quarto de Simo, entrou acompanhado
d'uma rapariga camponeza: era Marianna. A filha de Joo da Cruz que, at
quelle momento no apertava sequer a mo do hospede, correu a elle com
os braos abertos, e o rosto banhado de lagrimas. O carcereiro
retirou-se, dizendo comsigo: Esta  bem mais bonita que a fidalga!

--No quero ver lagrimas, Marianna--disse Simo--Aqui, se alguem deve
chorar sou eu; mas lagrimas dignas de mim, lagrimas de gratido aos
favores que tenho recebido de si e de seu pae. Acabo de saber que minha
me nunca me mandou dinheiro algum. Era de seu pae aquelle dinheiro, que
recebi.

Marianna escondeu o rosto no avental com que enxugava o pranto.

--Seu pae teve algum perigo?--tornou Simo em voz s perceptivel d'ella.

--No, senhor.

--Est em casa?

--Est; e parece furioso. Queria vir aqui; mas eu no o deixei.

--Perseguiu-o alguem?

--No, senhor.

--Diga-lhe que no se assuste, e v depressa socegal-o.

--Eu no posso ir sem fazer o que elle me disse. Eu vou sahir, e volto
d'aqui a pouco.

--Mande-me comprar uma banca, uma cadeira, e um tinteiro e papel--disse
Simo, dando-lhe dinheiro.

--Ha de vir logo tudo; j c podia estar; mas o pae disse-me que no
comprasse nada sem saber se sua familia lhe mandava o necessario.

--Eu no tenho familia, Marianna. Tome o dinheiro.

--No recebo dinheiro, sem licena de meu pae. Para essas compras trouxe
eu de mais. E a sua ferida como estar?

--Ainda agora me lembro que tenho uma ferida!--disse Simo,
sorrindo--Deve estar boa, que no me de.... Soube alguma coisa da D.
Thereza?

--Soube que foi para o Porto. Estavam alli a contar que o pae a mandra
metter sem sentidos na liteira, e est muito povo  porta do fidalgo.

--Est bom, Marianna... No ha desgraado sem amparo. V, pense no seu
hospede, seja o seu anjo de misericordia.

Saltaram de novo as lagrimas dos olhos da moa; e por entre soluos,
estas palavras:

--Tenha paciencia. No ha de morrer ao desamparo. Faa de conta que lhe
appareceu hoje uma irm.

E, dizendo, tirou das amplas algibeiras um embrulho de biscoutos e uma
garrafa de licor de canella, que depz sobre a cadeira.

--Mau almoo ; mas no achei outra coisa prompta--disse ella, e sahiu
apressada, como para poupar ao infeliz palavras de gratido.




II.


O corregedor, n'esse mesmo dia, ordenou que se preparassem mulher e
filhas para no dia immediato sahirem de Vizeu, com tudo que podesse ser
transportado em cavalgaduras.

Vou transcrever a singela e dorida reminiscencia d'uma senhora d'aquella
familia, como a tenho em carta, recebida ha mezes:

J l vo cincoenta e sete annos, e ainda me lembro, como se fossem
hontem passados os tristes acontecimentos da minha mocidade. No sei
como  que tenho hoje mais clara a memoria das coisas da infancia.
Parece-me que, h trinta annos, me no lembravam com tantas
circumstancias e promenores.

Quando a me disse a mim e a minhas irms que preparassemos os nossos
bahus, rompemos todas n'um chro, que irritou a ira do pae. As manas,
como mais velhas ou mais affeitas ao castigo, calaram-se logo: eu,
porm, que s uma vez e unicamente por causa de Simo, tinha sido
castigada, continuei a chorar, e tive o innocente valor de pedir ao pae
que me deixasse ir vr o mano  cada antes de sahirmos de Vizeu.

Ento fui castigada pela segunda vez e asperamente.

O criado, que levou o jantar  cada, voltou com elle e contou-nos que
Simo j tinha alguns moveis no seu quarto, e estava jantando com
exterior socegado. quella hora todos os sinos de Vizeu estavam dobrando
a finados por alma de Balthazar.

Ao p d'elle, disse o criado que estava uma formosa rapariga da aldeia,
triste e coberta de lagrimas. Apontando-a ao criado que a observava,
disse Simo:--A minha famlia  esta.

No dia seguinte, ao romper da manh, partimos para Villa Real. A me
chorava sempre; o pae, encolerisado por isso, sahiu da liteira em que
vinha com ella, fez que eu passasse para o seu logar, e fez toda a
jornada na minha cavalgadura.

Logo que chegamos a Villa Real, eram to frequentes as desordens em
casa,  conta do Simo, que meu pae abandonou a familia, e foi ssinho
para a quinta de Montezellos. A me quiz tambem abandonar-nos, e ir para
os primos de Lisboa, a fim de solicitar o livramento do mano. Mas o pae,
que fizera uma espantosa mudana de genio, quando tal soube, ameaou
minha me de a obrigar judicialmente a no sahir da casa de seu marido e
filhas.

Escrevia a me a Simo, e no recebia resposta. Pensava ella que o filho
no respondia: annos depois vimos entre os papeis de meu pae todas as
cartas que ella escrevra. Ja se v que o pae as fazia tirar no correio.

Uma senhora de Vizeu escreveu  me, louvando-a pelo muito amor e
caridade com que ella acudia s necessidades de seu infeliz filho. Esta
carta foi-lhe entregue por um almocreve, seno teria o destino das
outras. Espantou-se minha me do conceito em que a tinha a sua amiga, e
confessou lhe que no o tinha soccorrido, porque o filho rejeitra o
pouco que ella quizera fazer em seu bem. A isto respondeu a senhora de
Vizeu que uma rapariga, filha d'um ferrador, estava vivendo nas
visinhanas da cada, e cuidava do prso com abundancia e limpeza, e a
todos dizia que ali estava por ordem e  custa da senhora D. Rita
Preciosa. Accrescentava a amiga de minha me, que algumas vezes mandra
chamar a bella moa e lhe quizera dar alguns cosinhados mais exquisitos
para Simo, os quaes ella rejeitava, dizendo que o senhor Simo no
aceitava nada.

De tempos a tempos recebiamos estas novas, sempre tristes, porque, na
ausencia de meu pae, conspiraram, como era de esperar, quasi todas as
pessoas distinctas de Vizeu contra o meu desgraado irmo.

A me escrevia aos seus parentes da capital, implorando graa regia para
o filho; mas aquellas cartas no sahiam do correio, e iam dar todas 
mo de meu pae.

E que fazia este, entretanto, na quinta, sem familia, sem gloria, nem
recompensa alguma a tantas faltas? Rodeado de jornaleiros, cultivava
aquelle grande montado, onde ainda hoje por entre os tojos e urzes que
voltaram com o abandono, se podem vr reliquias das cpas plantadas por
elle. A me escrevia-lhe lastimando o filho; meu pae apenas respondia
que a justia no era uma brincadeira, e que na antiguidade os proprios
paes condemnavam os filhos criminosos.

Teve minha me a affoiteza de se lhe apresentar um dia, pedindo licena
para ir a Vizeu. Meu inexoravel pae negou-lh'a, e invectivou-a
furiosamente.

Passados sete mezes, soubemos que Simo tinha sido condemnado a morrer
na forca, levantada no local onde fizera a morte. Fecharam-se as
janellas por oito dias; vestimos todas de lucto, e minha me cahiu
doente.

Quando se isto soube em Villa Real, todas as pessoas illustres da terra
foram a Montezellos, a fim de obrigarem brandamente o pae a empregar o
seu valimento na salvao do filho condemnado. De Lisboa vieram alguns
parentes protestar contra a infamia que tamanha ignominia faria recahir
sobre a familia. Meu pae a todos respondia com estas palavras: A forca
no foi inventada somente para os que no sabem o nome do seu av. A
ignominia das familias so as ms aces. A justia no infama seno
aquelle que castiga.

Tinhamos ns um tio-av muito velho e venerando, chamado Antonio da
Veiga. Foi este quem fez o milagre, e foi assim. Apresentou-se a meu pae
e disse-lhe: Guardou-me Deus a vida at aos oitenta e tres annos.
Poderei viver mais dous ou tres? Isto nem j  vida; mas foi-o, e
honrada, e sem mancha at agora, e j agora ha de assim acabar; meus
olhos no ho de vr a deshonra de sua familia. Domingos Botelho, ou tu
me promettes aqui de salvar teu filho da forca, ou eu na tua presena me
mato.--E dizendo isto, apontava ao pescoo uma navalha de barba. Meu pae
teve-lhe mo do brao, e disse que Simo no seria enforcado.

No dia seguinte, foi meu pae para o Porto, onde tinha muitos amigos na
Relao, e de l para Lisboa[4].

Em principio de Maro de 1805 soube minha me com grande prazer que
Simo fra removido para as cadas da Relao do Porto, vencendo os
grandes obstaculos que oppozera a essa mudana dos queixosos, que eram
Thadeu de Albuquerque, e as irms do morto.

Depois......

Suspendemos aqui o extracto da carta, para no anticiparmos a narrativa
de successos, que importa, em respeito  arte, atar no fio cortado.

Simo Botelho vira imperturbavel chegar o dia do julgamento. Sentou-se
no banco dos homicidas sem patrono, nem testemunhas de defeza. s
perguntas respondeu com o mesmo animo frio d'aquellas respostas ao
interrogatorio do juiz. Obrigado a explicar a causa do crime, deu-a com
toda a lealdade sem articular o nome de Thereza Clementina de
Albuquerque. Quando o advogado da accusao proferiu aquelle nome, Simo
Botelho ergueu-se de golpe, e exclamou:

--Que vem aqui fazer o nome de uma senhora a este antro de infamia e
sangue? Que miseravel accusador est ahi, que no sabe com a confisso
do ro provar a necessidade do carrasco sem enlamear a reputao d'uma
mulher? A minha accusao est feita: eu a fiz: agora a lei que falle, e
cale-se o villo que no sabe accusar sem infamar.

O juiz impz-lhe silencio. Simo sentou-se, murmurando:

--Miseraveis todos!

Ouviu o ro a sentena de morte natural para sempre na forca arvorada no
local do delicto. E ao mesmo tempo sahiram d'entre a multido uns gritos
dilacerantes. Simo voltou a face para as turbas, e disse:

--Ides ter um bello espectaculo, senhores! A forca  a unica festa do
povo! Levai d'ahi essa pobre mulher que chora: essa  a creatura unica
para quem o meu supplicio no ser um passatempo.

Marianna foi transportada em braos  sua casinha, na visinhana da
cada. Os robustos braos que a levaram eram os de seu pae.

Simo Botelho, quando, em toda a agilidade e fora dos dezoito annos, ia
do tribunal ao carcere, ouviu algumas vozes que se alternavam d'este
modo:

--Quando vai elle a padecer?

-- bem feito! vai pagar pelos innocentes que o pae mandou enforcar.

--Queria apanhar a morgada  fora de balas!

--No que estes fidalgos cuidam que no  mais seno matar!...

--Matasse elle um pobre, e tu verias como elle estava em casa!

--Tambem  verdade!

--E como elle vai de cara no ar!

--Deixa ir, que no tarda quem lh'a faa cahir ao cho!...

--Dizem que o carrasco j vem pelo caminho.

--J chegou de noite, e trazia dous cutlos n'uma coifa.

--Tu viste-o?

--No; mas disse a minha comadre que lh'o dissera a visinha do cunhado
da irm, e que o carrasco est escondido n'uma enxovia.

--Tu has de levar os teus pequenos a vr o padecente?

--Podra no! Estes exemplos no se devem perder.

--Eu c de mim j vi enforcar tres, que me lembre, todos por matadores.

--Por isso tu ha dois annos no atiraste com a vida do Amaro Lampreia a
casa do diabo!...

--Assim foi; mas, se eu o no matasse, matava-me elle.

--Ento de que voga o exemplo?!

--Eu sei c de que voga? O frei Anselmo dos franciscanos  que prga aos
paes que levem os filhos a vrem os enforcados.

--Isso ha de ser para o no esfolarem a elle, quando elle nos esfola com
os peditorios.

To desassombrado ia o espirito de Simo, que algumas vezes lhe esvoaou
nos labios ura sorriso, desafiado pela philosophia do povo, cerca da
forca.

Recolhido ao seu quarto, foi intimado para appellar dentro do prazo
legal. Respondeu que no appellava, que estava contente da sua sorte, e
de boas avenas com a justia.

Perguntou por Marianna, e o carcereiro lhe disse que a mandava chamar.
Veio Joo da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque a
via delirante a fallar em forca, e a pedir que a matassem primeiro.
Agudissima foi ento a dr do academico ao comprehender, como se
instantaneamente lhe fulgurasse a verdade, que Marianna o amava at
morrer. Por momentos se lhe esvaiu do corao a imagem de Thereza, se 
possivel assim pensal-o. Vl-a-ia por ventura como um anjo redemido em
serena contemplao do seu creador; e veria Marianna como o symbolo da
tortura, morrendo a pedaos, sem instantes de amor remunerado que lhe
dessem a gloria do martyrio. Uma, morrendo amada; outra, agonisando, sem
ter ouvido a palavra amor dos labios que escassamente balbuciavam
frias palavras de gratido.

E chorou ento aquelle homem de ferro. Chorou lagrimas que valiam bem as
amarguras de Marianna.

--Cuide de sua filha, senhor Cruz!--disse Simo com fervente supplica ao
ferrador.--Deixe-me a mim, que estou vigoroso e bom. V consolar essa
creatura, que nasceu debaixo da minha m estrella. Tire-a de Vizeu:
leve-a para sua casa. Salve-a, para que n'este mundo fiquem duas irms
que me chorem. Os favores que me tem feito, j agora dispensa-os a
brevidade da minha vida. D'aqui a dias mandam-me recolher ao oratorio:
bom ser que sua filha ignore.

De volta, Joo da Cruz achou a filha prostrada no pavimento, ferida no
rosto, chorando e rindo, demente em summa. Levou-a amarrada para sua
casa, e deixou a cargo d'outra pessoa a sustentao do condemnado.

Terribilissimas foram ento as horas solitarias do infeliz. At quelle
dia, Marianna, bem quista do carcereiro e protegida pela amiga de D.
Rita Preciosa, tinha franca entrada no carcere a toda a hora do dia, e
raras horas deixava ssinho o prso. Costurava, em quanto elle escrevia,
ou cuidava do amanho e limpeza do quarto. Se Simo estava no leito
doente ou prostrado, Marianna, que tivera alguns principios de escripta,
sentava-se  banca, e escrevia cem vezes o nome _Simo_, que muitas
vezes as lagrimas diliam. E isto assim, durante sete mezes, sem nunca
proferir nem ouvir a palavra amor. Isto assim, depois das vigilias
nocturnas, ora em preces, ora em trabalho, ora no caminho de sua casa,
onde ia visitar o pae a deshoras.

Nunca mais o prso, na perspectiva da forca, viu entrar aquella doce
creatura o limiar da ferrada porta, que lhe graduava o ar medido e
calculado para que as honras da asphyxia as gozasse o cordel do
patibulo. Nunca mais!

E, quando elle avocava a imagem de Thereza, um capricho dos olhos
quebrantados lhe affigurava a viso de Marianna ao par da outra. E
lagrimosas via as duas. Saltava ento do leito, fincava os dedos nos
espssos ferros da janella, e pensava em partir o craneo contra as
grades.

No o sostinha a esperana na terra nem no ceu. Raio de luz divina
jmais penetrou no seu ergastulo. O anjo da piedade incarnra n'aquella
creatura celestial, que enlouquecra, ou voltara para o ceu com o
espirito d'ella. O que o salvava do suicidio no era, pois, esperana em
Deus, nem nos homens: era este pensamento: A final, _covarde_! Que
bravura  morrer quando no ha esperana de vida!? A forca  um
triumpho, quando se encontra ao cabo do caminho da honra!




III.


E Thereza?


Perguntam a tempo, minhas senhoras, e no me hei de queixar se me
arguirem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menos porte.

Esquecido, no. Muito ha que me reluz e voeja, alada como o ideal
cherubim dos santos, n'esta minha quasi escuridade[5], aquella ave do
ceu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o rastilho de sangue que
ella deixou na terra. Mais lagrimas que sangue deixaste,  filha da
amargura! Flores so tuas lagrimas, e do ceu me diz se os perfumes
d'ellas no valem mais aos ps do teu Deus que as preces de muita
devota, que morre canonisada, e cujo cheiro de santidade no passa do
olfacto hypocrita ou estupido dos mortaes.

Thereza Clementina bem a viram transportada da escadaria do templo, onde
cabira,  liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu
defronte de si uma criada, que lhe dizia banaes e frias expresses de
allivio. Se alguma criada de seu pae lhe era amiga, de certo no
aquella, acintemente escolhida pelo velho. Nem ao menos a confiana para
a expanso em gritos restava  affligida menina.

Perguntava-se a si mesma Thereza se aquella horrorosa situao, seria um
sonho! Sentia-se de novo fallecer de foras, e voltava  vida, sacudida
pela consciencia da sua desgraa. Condoeu-se a criada, e incitou-a a
respirar, chorando com ella, e dizendo-lhe:

--Pde fallar, menina, que ninguem nos segue.

--Ninguem?!

--As suas primas ficaram: apenas vem os dois lacaios.

--E meu pae no?

--No, fidalga... Pde chorar e fallar  sua vontade.

--E eu vou para o Porto?

--Vamos, sim, minha senhora.

--E tu viste tudo como foi, Constana?

--Desgraadamente vi....

--Como foi? conta-me tudo.

--A menina bem sabe que seu primo morreu.

--Morreu?! Vi-o cahir quasi aos meus ps; mas....

--Morreu logo, e depois quizeram os criados,  voz de seu pae, prender o
senhor Simo; mas elle com outra pistola....

--E fugiu?--atalhou Thereza com vehemencia e alegria.

--A final foi elle que se deu  priso.

--Est prso?!

E suffocada pelos soluos, com o rosto no leno, no ouvia as palavras
confortadoras de Constana.

Serenado algum tanto o violento accesso de gemidos e choro, Thereza
suggeriu  criada o louco plano de a deixar fugir da primeira estalagem
onde pousassem, para ella ir a Vizeu dar o ultimo adeus a Simo.

A criada a custo a despersuadiu do intento, pintando-lhe os novos
perigos que ia accumular  desgraa do seu amante, e animando-a com a
esperana de livrar-se Simo do crime, com a influencia do pae, apesar
da perseguio do fidalgo.

Calaram lentamente estas razes no espirito de Thereza, apesar dos
estorvos do corao.

Chorosa, doente, a revezes desfallecida, foi Thereza vencendo a
distancia que a separava de Monchique, onde chegou ao quinto dia de
jornada.

A prelada j estava sabedora dos successos, por emissarios que se
adiantaram ao moroso caminhar da liteira.

Foi Thereza recebida com brandura por sua tia, posto que as
recommendaes de Thadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa, e
absoluta privao de meios de escrever a quem quer que fosse.

Ouviu a prelada da bca de sua sobrinha a fiel historia dos
acontecimentos, e mostrou-lhe uma a uma as cartas de Simo Botelho.
Choraram abraadas; mas a prelada, enxugadas as lagrimas de mulher ao
fogo da austeridade religiosa, fallou e aconselhou como freira, e freira
que ciliciava o corpo com as rozetas, e o corao com as privaes
tormentosas de quarenta annos.

Thereza carecia de foras para a rebellio. Deixou a sua tia a santa
vaidade de exorcismar o demonio das paixes, e deu um sorriso ao anjo da
morte, que, de permeio ao seu amor e  esperana, lhe interpunha a aza
negra, que to de luz refulgente rebrilha s vezes em coraes
infelizes.

Quiz Thereza escrever.

--A quem, minha filha?--perguntou a prelada.

No respondeu Thereza.

--Escrever-lhe para que?--tornou a religiosa--Cuidas tu, menina, que as
tuas cartas lhe chegam  mo? Que vaes tu fazer seno redobrar a ira de
teu pae contra ti e contra o infeliz prso! Se o amas, como creio,
apesar de tudo, cuida em salval-o. Se no ouves a minha razo, finge-te
esquecida. Se pdes violentar a tua dr, dissimula, faz muito por que a
teu pae chegue a noticia de que lhe sers obediente em tudo, se elle
tiver piedade do teu pobre amigo.

No recalcitrou Thereza. Deu outro sorriso ao anjo da morte, e pediu-lhe
que a envolvesse a ella, e ao seu amor, e  sua esperana, de todo, na
negrura de suas azas.

De mez a mez recebia a abbadessa de Monchique uma carta de seu primo.
Eram estas cartas um respiradouro da vingana. Em todas dizia o velho
que o assassino iria ao patibulo irremediavelmente. A sobrinha no via
as cartas; mas reparava nas lagrimas da compassiva freira.

A debil compleio de Thereza deprecia acceleradamente. A sciencia
condemnou-a a morte breve. D'isto foi informado Thadeu de Albuquerque, e
respondeu: Que a no desejava morta; mas, se Deus a levasse, morreria
mais tranquillo, e com a sua honra sem mancha. Era assim immaculada a
honra do fidalgo de Vizeu!... a HONRA, que dizem proceder em linha recta
da virtude de Socrates, da virtude de Jesus Christo, e da virtude de
milhes de martyres, que se deram s garras das feras, quando predicavam
a caridade e o perdo aos homens!

Quantas caricias inventou a sympathia e a piedade, todos, por ministerio
das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar o
ardor, que consumia rapidamente a reclusa. Inutil tudo. Thereza
reconhecia com lagrimas a compaixo, e ao mesmo tempo alegrava-se,
tirando das caricias a certeza de que os mdicos a julgavam incuravel.

Alguma freira inadvertida lhe disse um dia que uma sua amiga do convento
dos Remedios de Lamego lhe dissera que Simo tinha sido condemnado 
morte.

Thereza estremeceu e murmurou, sem foras j para a exclamao:

--E eu vivo ainda!

Depois orou, e chorou; mas os habitos da sua vida em paroxismos
continuaram inalteraveis.

Perguntou  senhora, que lhe dera a noticia, se a sua amiga do convento
dos Remedios lhe faria a esmola de fazer chegar s mos de Simo uma
carta. Promptificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada.
Entendeu esta religiosa que o derradeiro colloquio entre dous moribundos
no podia damnifical-os na vida temporal nem na vida eterna.

Esta  a carta, que leu Simo, quinze dias depois do seu julgamento:

Simo, meu esposo. Sei tudo... Est comnosco a morte. Olha que te
escrevo sem lagrimas. A minha agonia comeou ha sete mezes. Deus  bom,
que me poupou ao crime. Ouvi a noticia da tua proxima morte, e ento
soube por que estou morrendo hora a hora. Aqui est o nosso fim,
Simo!.. Olha as nossas esperanas! Quando tu me dizias os teus sonhos
de felicidade, e eu te dizia os meus!... Que mal fariam a Deus os nossos
innocentes desejos!... Porque no merecemos ns o que tanta gente
tem!... Assim acabaria tudo, Simo? No posso crl-o! A eternidade
apresenta-se-me tenebrosa, porque a esperana era a luz, que me guiava
de ti para a f. Mas no pde findar assim o nosso destino. V se podes
segurar o ultimo fio da tua vida a uma esperana qualquer. Ver-nos-hemos
n'um outro mundo, Simo? Terei eu merecido a Deus contemplar-te? Eu
rezo, supplco; mas desfalleo na f, quando me lembram as ultimas
agonias do teu martyrio. As minhas so suaves, quasi que as no sinto.
No deve custar a morte a quem tiver o corao tranquillo. O peor  a
saudade, saudade d'aquellas esperanas que tu achavas no meu corao
adivinhando as tuas. No importa, se nada ha alm d'esta vida. Ao menos,
morrer  esquecer. Se tu podesses viver agora, de que te serviria? Eu
tambem estou condemnada, e sem remedio. Segue-me, Simo! no tenhas
saudades da vida, no tenhas, ainda que a razo te diga que podias ser
feliz se me no tivesses encontrado no caminho por onde te levei 
morte... E que morte, meu Deus!... Aceita-a! no te arrependas. Se houve
crime, a justia de Deus te perdoar pelas angustias que tens de soffrer
no carcere... e nos ultimos dias, e na presena da...

Thereza ia escrever uma palavra, quando a penna lhe cahiu da mo, e uma
convulso lhe vibrou todo o corpo por largo espao. No escreveu a
palavra; mas a ideia de _forca_ parou-lhe a vida. A freira entrou na
cella a pedir-lhe a carta, porque o correio ia partir. Thereza,
indicando-lh'a, disse:

--Leia, se quizer, e feche-a, por caridade, que eu no posso.

Nos tres dias seguintes Thereza no sahiu do leito. A cada hora, as
religiosas assistentes esperavam que ella fechasse os olhos.

--Custa muito morrer!--dizia algumas vezes a enferma.

No faltavam piedosos discursos a divertirem-lhe o esprito do mundo.

Thereza ouvia-os, e dizia com ancia:

--Mas a esperana do ceu, sem elle!... que  o ceu, meu Deus?

E o apostolico capello do mosteiro no sabia dizer se os bens do ceu
tinham commum com os do mundo as delicias que falsamente na terra se
chamam assim.

Aquellas subtilezas espirituaes, que vem com algumas especies de tisica,
assim  maneira dos ultimos lampejos da vital flamma, tinha-as a
enferma, quando acontecia fallarem-lhe as religiosas na bemaventurana.
s vezes, se o capello, convidado pela lucidez de Thereza, entrava os
dominios da philosophia, tratando como problema a immortalidade da alma,
a inculta senhora argumentava em breves termos, mas com razes to
claras a favor da unio eterna das almas, j d'este mundo esposas, que o
padre ficava em duvida se seria heretico contestar uma clausula no
inscripta em algum dos quatro evangelhos.

Maravilhava-se j a medicina da pertinacia d'aquella vida. Tinha a
abbadessa escripto a seu primo Thadeu, apressurando-o a ir vr o anjo ao
despedir-se da terra. O velho, tocado de piedade, e por ventura de amor
paternal, deliberou tirar do convento a filha na esperana de salval-a
ainda. Uma forte razo accrescia quella: era a mudana do condemnado
para os carceres do Porto. Deu-se pressa, pois, o fidalgo, e chegou ao
Porto a tempo que a religiosa, amiga da outra de Lamego, entregava 
doente esta carta de Simo:

No me fujas ainda, Thereza. J no vejo a forca, nem a morte. Meu pae
protege-me, e a salvao  possivel. Prende ao corao os ultimos fios
da tua vida. Prolonga a tua agonia, em quanto eu te disser que espero.
manh vou para as cadas do Porto, e hei de ali esperar a absolvio ou
commutao da sentena. A vida  tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda
a parte ha ceu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia sers livre; a
pedra do sepulcro  que nunca se levanta. Vive, Thereza, vive! Ha dias
lembrava-me que as tuas lagrimas lavariam da minha face as ndoas do
sangue do enforcado. Esse pesadlo atroz passou. Agora, n'este inferno
respira-se; o esparto do carrasco j me no aperta em sonhos a garganta.
J fito os olhos no ceu, e reconheo a providencia dos infelizes. Hontem
vi as nossas estrellas, aquellas dos nossos segredos nas noites da
ausencia. Volvi  vida, e tenho o corao cheio de esperanas. No
morras, filha da minha alma!

Ia alta a noite, quando Thereza, sentada no seu leito, leu esta carta.
Chamou a criada para ajudal-a a vestir. Mandou abrir a janella do seu
quarto, e encostou a face s rexas de ferro. Esta janella olhava para o
mar; e o mar era n'essa noite uma immensa flamma de prata; e a lua
esplendidissima eclipsava o fulgor d'umas estrellas, que Thereza
procurava no ceu.

--So aquellas!--exclamou ella.

--Aquellas qu, minha senhora?--disse Constana.

--As minhas estrellas!... pallidas como eu... A vida! ai! a
vida!--clamou ella, erguendo-se, e passando pela fronte as mos
cadavericas--Quero viver! Deixai-me viver,  Senhor!

--Ha de viver, menina! ha de viver, que Deus  piedoso!--disse a
criada--mas no tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe grande
mal.

--Deixa-me, deixa-me, que tudo isto  viver... No vejo o ceu ha tanto
tempo! Sinto-me resuscitar aqui, Constana! Porque no tenho eu
respirado todas as noites este ar?! Eu poderei viver alguns annos?
poderei, minha Constana? Pede tu, pede muito  minha Virgem Santissima!
Vamos orar ambas!... Vamos, que o Simo no morre... O meu Simo vive e
quer que eu viva. Est no Porto amanh; e talvez j esteja...

--Quem, minha senhora?!

--Simo, o Simo vem para o Porto.

A criada julgou que sua ama delirava; mas no a contrariou.

--Teve carta d'elle a fidalga?--tornou ella, cuidando que assim lhe
alimentava aquelle instante de febril contentamento.

--Tive... queres ouvir?... eu leio...

E leu a carta, com grande pasmo de Constana, que se convenceu.

Agora vamos rezar, sim?... Tu no s inimiga d'elle, no? Olha,
Constana, se eu casar com elle, tu vaes para a nossa companhia. Vers
como s feliz. Queres ir, no queres?

--Sim, minha senhora, vou; mas elle conseguir livrar-se da morte?

--Livra; tu vers que livra; o pae d'elle ha de livral-o... e a Virgem
Santissima  que nos ha de unir. Mas se eu morro... se eu morro, meu
Deus!

E com as mos convusamente enlaadas sobre o seio, Thereza archejava em
pranto.

--Se eu no tenho j foras!... todos dizem que eu morro, e o medico j
nem me receita!... Ento melhor me fra ter acabado antes d'esta hora!
Morrer com esperanas,  me de Deus!...

E ajoelhou ante o retabulo devoto, que trouxera do seu quarto de Vizeu,
ao qual sua me e av j tinham orado, e em cujo rosto compassivo os
olhos das duas senhoras moribundas tinham fixado os seus ultimos raios
de luz.




IV.


Annuncira-se Thadeu de Albuquerque na portaria de Monchique, ao dia
seguinte dos anteriores successos.

Sua prima, primeira senhora que lhe sahiu ao locutorio, vinha enxugando
lagrimas de alegria.

--No cuide que eu choro de afflicta, meu primo--disse ella--O nosso
anjo, se Deus quizer, pode salvar-se. Logo de manh a vi a passear por
seu p nos dormitorios. Que differena de semblante ella tem hoje! Isto,
meu primo,  milagre de duas santas, que temos inteiras na claustra, e
com as quaes algumas perfeitas creaturas d'esta casa se apegaram. Se as
melhoras continuarem assim, temos Thereza; o ceu consente que esteja
entre ns aquelle anjo mais alguns annos...

--Muito folgo com o que me diz, minha boa prima--atalhou o fidalgo--A
minha resoluo  leval-a j para Vizeu, e l se restabelecer com os
ares patrios, que so muito mais sadios que os do Porto.

-- ainda cdo para to longa e custosa jornada, meu primo. No v o
senhor cuidar que ella est capaz de se metter ao caminho. Lembre-se que
ainda hontem pensamos em encontral-a hoje morta. Deixe-a estar mais
alguns mezes; e depois no digo que a no leve; mas por em quanto no
consinto semelhante imprudencia.

--Maior imprudencia--replicou o velho-- conserval-a no Porto, onde a
estas horas deve estar o malvado matador de meu sobrinho. Talvez no
saiba a prima?... Pois  verdade: o patife do corregedor sahiu a campo
em defeza d'elle, e conseguiu que o tribunal da Relao lhe aceitasse a
appellao da sentena, passado o prazo da lei; e, no contente com
isto, fez que o filho fosse removido para as cadas do Porto. Eu agora
trabalho para que a sentena seja confirmada, e espero conseguil-o; mas,
em quanto o assassino aqui estiver, no quero que minha filha esteja no
Porto.

--O primo  pae, e eu sou apenas uma parenta---disse a
abbadessa--cumpra-se a sua vontade. Quer vr a menina, no  assim?

--Quero, se  possvel.

--Pois bem, em quanto eu vou chamal-a, queira entrar na primeira grade 
sua mo direita, que Thereza l vai ter.

Avisada Thereza de que seu pae a esperava, instantaneamente a cr sadia,
que alegrava as senhoras religiosas, se demudou na lividez costumada.
Quiz a tia, vendo-a assim, que ella no sahisse do seu quarto, e
encarregava-se de espaar a visita do pae.

--Tem de ser--disse Thereza--Eu vou, minha tia.

O pae, ao vl-a, estremeceu e enfiou. Esperava mudana, mas no tamanha.
Pensou que a no conheceria, sem o prevenirem de que ia vr sua filha.

--Como eu te encontro, Thereza!--exclamou elle commovido--Por que me no
disseste ha mais tempo o teu estado?

Thereza sorriu-se, e disse:

--Eu no estou to mal como as minhas amigas imaginam.

--Ters tu foras para ir comigo para Vizeu?

--No, meu pae; no tenho mesmo foras para lhe dizer em poucas palavras
que no torno a Vizeu.

--Porque no?! Se a tua saude depender d'isso!...

--A minha saude depende do contrario. Aqui viverei ou morrerei.

--No  tanto assim, Thereza--replicou Thadeu com simulada brandura--Se
eu entender que estes ares so nocivos  tua saude, has de ir, porque 
obrigao minha conduzir e corrigir a tua m sina.

--Est corrigida, meu pae. A morte emenda todos os erros da vida.

--Bem sei: mas eu quero-te viva, e portanto recobra foras para o
caminho. Logo que tiveres meio dia de jornada, vers como a saude volta
como por milagre.

--No vou, meu pae.

--No vaes?!--exclamou irritado o velho, lanando s grades as mos
trementes de ira.

--Separam-nos esses ferros a que meu pae se encosta, e para sempre nos
separam.

--E as leis? cuidas tu que eu no tenho direitos legitimos para te
obrigar a sahir do convento? No sabes que tens apenas dezoito annos?

--Sei que tenho dezoito annos; as leis no sei quaes so, nem me
incommoda a minha ignorancia. Se pde ser que mo violenta venha
arrancar-me d'aqui, convena-se meu pae de que essa mo ha de encontrar
um cadaver. Depois o que quizerem de mim. Em quanto, porm, eu podr
dizer que no vou, juro-lhe que no vou, meu pae.

--Sei o que !--bramiu o velho--J sabes que o assassino est no Porto?

--Sei, sim, senhor.

--Ainda o dizes sem vergonha, nem horror de ti mesma! Ainda...

--Meu pae--interrompeu Thereza--no posso continuar a ouvil-o, porque me
sinto mal. D-me licena... e vingue-se como podr. A minha gloria
n'este longo martyrio seria uma forca levantada a par da do assassino.

Thereza sahiu da grade, deu alguns passos na direco da sua cella, e
encostou-se esvada  parede. Correram a amparal-a sua tia e criada; mas
ella, afastando-as suavemente de si, murmurou:

--No  preciso... Estou boa... Estes golpes do vida, minha tia.

E caminhou ssinha a passos vacillantes.

Thadeu batia  porta do mosteiro com irrisorio enfurecimento pancadas,
umas aps outras, com grande mdo da porteira e outras madres,
espantadas do insolito desproposito.

--Que  isso, primo?--disse a prelada com severidade.

--Quero c fra Thereza.

--Como fra? Quem ha de lanal-a fra?!

--A senhora, que no pde aqui reter uma filha contra a vontade de seu
pae.

--Isso assim ; mas tenha prudencia, primo.

--No ha prudencia, nem meia prudencia. Quero minha filha c fra.

--Pois ella no quer ir?

--No, senhora.

--Ento espere que por bons modos a convenamos a sahir, porque no
havemos trazer-lh'a a rastos.

--Eu vou buscal-a, sendo preciso--redarguiu em crescente
furia.--Abram-me estas portas, que eu a trarei!

--Estas portas no se abrem assim, meu primo, sem licena superior. A
Regra do mosteiro no pde ser quebrantada para servir uma paixo
rancorosa. Tranquillise-se, senhor! V descanar d'esse frenesi, e venha
n'outra hora combinar comigo o que fr digno de todos ns.

--Tenho entendido!--exclamou o velho, gesticulando contra o ralo do
locutorio--Conspiram todas contra mim! Ora descancem, que eu lhes darei
uma boa lio. Fique a senhora abbadessa sabendo que eu no quero que
minha filha receba mais cartas do matador, percebeu?

--Eu creio que Thereza nunca recebeu cartas de matadores, nem supponho
que as receba d'ora em diante.

--No sei se sabe, nem seno. Eu vigiarei o convento. A criada, que est
com ella, ponham-na fra, percebeu?

--Porqu?--redarguiu a prelada com enfado.

--Porque a encarreguei de me avisar de tudo, e ella nada me tem contado.

--Se no tinha que lhe dizer, senhor!

--No me conte historias, prima! A criada quero vl-a sahir do convento,
e j!

--Eu no lhe posso fazer a vontade, porque no fao injustias. Se v.
s.^a quizer que sua filha tenha outra criada, mande-lh'a; mas a que ella
tem, logo que deixe de a servir, ha muitas senhoras n'esta casa que a
desejam, e ella mesma deseja aqui ficar.

--Tenho entendido!---bradou elle--querem-me matar! Pois no matam;
primeiro ha de o diabo dar um estoiro!

Thadeu de Albuquerque sahiu em corcovos do atrio do mosteiro. Era
hedionda aquella raiva que lhe contrahia as faces incorreadas, revendo
suor e sangue aos olhos acovados.

Apresentou-se ao intendente da policia, pedindo providencias para que se
lhe entregasse sua filha. O intendente respondeu que no solicitava
competentemente taes providencias. Instou para que o carcereiro da cada
no deixasse sahir alguma carta de um assassino, vindo da comarca de
Vizeu, por nome Simo Botelho. O intendente disse que no podia, sem
motivos concernentes a devassas, obstar a que o prso escrevesse a quem
quer que fosse.

Reduplicada a furia, foi d'ali ao corregedor do Porto, com os mesmos
requerimentos em tom arrogante. O corregedor, particular amigo de
Domingos Botelho, despediu com enfado o importuno, dizendo-lhe que a
velhice sem juizo era coisa to de riso como de lastima. Esteve ento a
pique de perder-se a cabea de Thadeu de Albuquerque. Andava e desandava
as ruas do Porto, sem atinar com uma sahida digna da sua prosapia e
vingana. No dia seguinte bateu  porta d'alguns desembargadores, e
achava-os mais inclinados  clemencia, que  justia, a respeito de
Simo Botelho. Um d'elles, amigo de infancia de D. Rita Preciosa, e
implorado por ella, fallou assim ao sanhudo fidalgo:

--Em pouco est o ser homicida, senhor Albuquerque. Quantas mortes teria
v. s.^a hoje feito, se alguns adversarios se oppozessem  sua clera?
Esse infeliz moo, contra quem o senhor solicita desvariadas violencias,
conserva a honra na altura da sua immensa desgraa. Abandonou-o o pae,
deixando-o condemnar  forca; e elle da sua extrema degradao nunca fez
sahir um grito supplicante de misericordia. Um estranho lhe esmolou a
subsistencia de oito mezes de carcere, e elle aceitou a esmola, que era
honra para si e para quem lh'a dava. Hoje fui eu vr esse desgraado
filho de uma senhora que conheci no pao, sentada ao lado dos reis.
Achei-o vestido de baeto e panno pedrez. Perguntei-lhe se assim estava
desprovido de fato. Respondeu-me que se vestira  proporo dos seus
meios, e que devia  caridade d'um ferrador aquellas calas e jaqueta.
Repliquei-lhe eu que escrevesse a seu pae para o vestir decentemente.
Disse-me que no pedia nada a quem consentiu que os delictos de seu
corao e da sua dignidade e do pundonor do seu nome fossem expiados
n'um patibulo. Ha grandeza n'este homem de dezoito annos, senhor
Albuquerque. Se v. s.^a tivesse consentido que sua filha amasse Simo
Botelho Castello-Branco, teria poupado a vida ao homem sem honra que se
lhe atravessou com insultos e offensas corporaes de tal affronta, que
deshonrado ficaria Simo se as no repellisse como homem de alma e
brios. Se v. s.^a se no tivesse opposto s honestissimas e innocentes
affeies de sua filha, a justia no teria mandado arvorar uma forca,
nem a vida de seu sobrinho teria sido immolada aos seus caprichos de mau
pae. E se sua filha casasse com o filho do corregedor de Vizeu, pensa
acaso v. s.^a que os seus brases soffriam desdouro? No sei de que
seculo data a nobreza do senhor Thadeu de Albuquerque; mas do braso de
D. Rita Thereza Margarida Preciosa Caldeiro Castello-Branco posso
dar-lhe informaes sobre as paginas das mais veridicas e illustres
genealogias do reino. Por parte de seu pae, Simo Botelho tem do melhor
sangue de Traz-os-Montes, e no se temer de entrar em competencias com
o dos Albuquerques de Vizeu, que no  de certo o dos _Albuquerques
terriveis_ de que resa Luiz de Cames...

Offendido at ao amago pela derradeira ironia, Thadeu ergueu-se de
impeto, tomou o chapo e a enorme bengala de casto d'ouro, e fez a
cortezia da despedida.

--So amargas as verdades, no  assim?--disse-lhe, sorrindo, o
desembargador Mouro Mosqueira.

--V. ex.^a l sabe o que diz, e eu c sei no que hei de ficar--respondeu
com tom ironico o fidalgo, alanceado na sua honra, e na dos seus quinze
avs.

O desembargador retorquiu:

--Fique no que quizer; mas v na certeza, se isso lhe serve d'alguma
coisa, que Simo Botelho no vai  forca.

--Veremos...--resmoneou o velho.




V.


So treze dias corridos do mez de Maro de 1805.

Est Simo n'um quarto de malta das cadas da Relao. Um catre de
tboas, um colcho de embarque, uma banca e cadeira de pinho, e um
pequeno pacote de roupa, collocado no logar do travesseiro, so a sua
mobilia. Sobre a mesa tem um caixote de pau preto, que contm as cartas
de Thereza, ramilhetes sccos, os seus manuscriptos do carcere de Vizeu,
e um avental de Marianna, o ultimo com que ella enxugra lagrimas, e
arrancra de si no primeiro instante de demencia.

Simo rel as cartas de Thereza, abre os envoltorios de papel que
encerram as flres resequidas, contempla o avental de linho, procurando
os visiveis vestigios das lagrimas. Depois encosta a face e o peito aos
ferros da sua janella, e avista os horisontes boleados pelas serras de
Vallongo e Gralheira, e cortados pelas ribas pittorescas de Gaya, do
Candal, de Oliveira, e do mosteiro da serra do Pilar.  um dia lindo.
Reflectem-se do azul do ceu os mil matizes da primavera. Tem aromas o
ar, e a virao, fugitiva dos jardins, derrama no ether as urnas que
roubou aos canteiros. Aquella indefinida alegria, que parece reluzir nas
legies de espiritos, que se geram ao sol de Maro, rejubila a natureza,
que toda pompas de luz e flres se est namorando do calor que a vai
fecundando.

Dia de amor e de esperanas era aquelle que o Senhor mandava  choa
encravada na garganta da serra, ao palacio esplendoroso que reverberava
ao sol os seus espiraculos, ao opulento que passeava as suas molles
equipagens, bafejado pelo respiro acre das aras, e ao mendigo que
desentorpecia os membros encostado s columnas dos templos.

E Simo Botelho, fugindo a claridade da luz, e o voejar das aves,
meditando, chorava e escrevia assim as suas meditaes:

O po do trabalho de cada dia, e o teu seio para repousar uma hora a
face, pura de manchas. No pedi mais ao ceu.

Achei-me homem aos dezeseis annos. Vi a virtude  luz do teu amor.
Cuidei que era santa a paixo que absorvia todas as outras, ou as
depurava com o seu fogo sagrado.

Nunca os meus pensamentos foram denegridos por um desejo, que eu no
possa confessar alto diante de todo o mundo. Diz tu, Thereza, se os meus
labios profanaram a pureza de teus ouvidos. Pergunta a Deus quando quiz
eu fazer do meu amor o teu opprobrio.

Nunca, Thereza! Nunca,  mundo que me condemnas!

Se teu pae quizesse que eu me arrastasse a seus ps para te merecer,
beijar-lh'os-ia. Se tu me mandasses morrer para te no privar de ser
feliz com outro homem, morreria, Thereza!

Mas tu eras ssinha e infeliz, e eu cuidei que o teu algoz no devia
sobreviver-te. Eis-me aqui homicida, e sem remorsos. A insania do crime
aturde a consciencia; no a minha, que se no temia das escadas da
forca, nos dias em que o meu despertar era sempre o estrebuxamento da
suffocao.

Eu esperava a cada hora o chamamento para o oratorio, e dizia comigo:
Fallarei a Jesus Christo.

Sem pavor, premeditava nas setenta horas d'essa agonia moral, e antevia
consolaes que o crime no ousa esperar sem injuria da justia de Deus.

Mas chorava por ti, Thereza! O travor do meu calix tinha sobre a sua
amargura as mil amarguras das tuas lagrimas.

Gemias aos meus ouvidos, martyr! Vr-me-ias sacudido nas convulses da
morte, em teus delirios. A mesma morte tem terror da suprema desgraa.
Tarde morrerias. A minha imagem, em vez de te acenar com a sua palma de
martyrio, te seria um fantasma levantado das tboas d'um cadafalso.

Que morte a tua,  minha santa amiga!

E proseguiu at ao momento em que Joo da Cruz, com ordem do intendente
geral da policia, entrou no quarto.

--Aqui!--exclamou Simo, abraando-o--E Marianna? deixou-a ssinha?!
morta, talvez?!

--Nem ssinha, nem morta, fidalgo! O diabo nem sempre est atraz da
porta... Marianna voltou ao seu juizo.

--Falla a verdade, senhor Joo?

--Podra mentir!... Aquillo foi coisa de bruxaria em quanto a mim...
Sangrias, sedenhos, agua fria na cabea, e exorcismos do missionario,
no lhe digo nada, a rapariga est escorreita, e assim que tiver um
todonada de foras bota-se ao caminho.

--Bemdito seja Deus!--exclamou Simo.

--_Amen_--accrescentou o ferrador--Ento que arranjo  este de casa? Que
breca de tarimba  esta?! Quer-se aqui uma cama de gente, e alguma coisa
em que um christo se possa sentar.

--Isto assim est excellente.

--Bem vejo... E de barriga? como vamos ns de barriga?

--Ainda tenho dinheiro, meu amigo.

--Ha de ter muito, no tem duvida: mas eu tenho mais, e v. s.^a tem
ordem franca. Veja l esse papel.

Simo leu uma carta de D. Rita Preciosa, escripta ao ferrador, em que o
authorisava a soccorrer seu filho com as necessarias despezas,
promptificando-se a pagar todas as ordens que lhe fossem apresentadas
com a sua assignatura.

-- justo--disse Simo, restituindo a carta--porque eu devo ter uma
legitima.

--Ento j v que no tem mais que pedir por bca. Eu vou comprar-lhe
arranjos...

--Abra-me o seu nobre corao para outro servio mais valioso--atalhou o
prso.

--Diga l, fidalgo.

Simo pediu-lhe a entrega de uma carta em Monchique a Thereza de
Albuquerque.

--O berzabum parece-me que as arma!--disse o ferrador--Venha de l a
carta. O pae d'ella est c, j sabia?

--No.

--Pois est; e, se o diabo o traz  minha beira, no sei se lhe darei
com a cabea n'uma esquina. J me lembrou de o esperar no caminho, e
pendural-o pelo gasnete no galho d'um sobreiro... A carta tem resposta?

--Se lh'a derem, meu bom amigo.

Chegou o ferrador a Monehique, a tempo que um official de justia, dois
medicos, e Thadeu de Albuquerque entravam no pteo do convento.

Fallou o aguazil  prelada, exigindo em nome do juiz de fra, que dois
medicos entrassem no convento a examinar a doente D. Thereza Clementina
de Albuquerque, a requerimento de seu pae.

Perguntou a prelada aos medicos se elles tinham a necessaria licena
ecclesiastica para entrarem em Monchique.  resposta negativa redarguiu
a abbadessa que as portas do convento no se abriam. Disseram os medicos
de Thadeu de Albuquerque que era aquelle o estylo dos mosteiros, e no
houve que redarguir  rigorosa prelada.

Sahiram, e o ferrador s ento reflectiu no modo de entregar a carta, A
primeira ideia pareceu-lhe a melhor. Chegou ao ralo, e disse:

-- senhora freira!

--Que quer vocemec?--disse a prelada.

--A senhora faz favor de dizer  senhora D. Therezinha de Vizeu, que
est aqui o pae d'aquella rapariga da aldeia, que ella sabe?

--E quem  vocemec?

--Sou o pae da tal rapariga que ella sabe.

--J sei!--exclamou de dentro a voz de Thereza, correndo ao locutorio.

A prelada retirou-se a um lado, e disse:

--V l o que fazes, minha filha...

--A sua filha escreveu-me?--disse Thereza a Joo da Cruz.

--Sim, senhora, aqui est a carta.

E depositou na roda a carta, em que a abbadessa reparou, e disse
sorrindo:

--Muito engenhoso  o amor, Therezinha... Permitta Deus que as noticias
da rapariga da aldeia te alegrem o corao; mas olha, filhinha, no
cuides que a tua velha tia  menos esperta que o _pae da rapariga da
aldeia_.

Thereza respondeu com beijos s jovialidades carinhosas da santa
senhora, e sumiu-se a lr a carta, e a responder-lhe. Entregando a
resposta, disse ella ao ferrador:

--No v ahi sentada n'aquella escadinha uma pobre?

--Vejo, sim, senhora, e conheo-a. Como diabo veio aqui parar esta
mulher? Cuidei que depois da esfrega, que lhe deu o hortelo, a
pobresita no tinha pernas que a c trouxessem! A mulher pelos modos tem
fibras d'aquella casta!

--Falle baixo--tornou Thereza--Pois olhe... quando trouxer as cartas,
entregue-lh'as a ella, sim? Eu j a mandei  cada; mas no a deixaram
l entrar.

--Bem est, e o arranjo no  mau assim. Fique com Deus, menina.

Esta boa nova alegrou Simo. A Providencia divina apiedra-se d'elle
n'aquelle dia. O restaurar-se o juizo de Marianna, e a possibilidade de
corresponder-se com Thereza, eram as maximas alegrias, que podiam baixar
do ceu ao seu cerrado infortunio.

Exaltra-se Simo em graas a Deus, na presena de Joo da Cruz, que
arrumava no quarto uns moveis que comprra em segunda mo, quando este,
suspendendo o trabalho, exclamou:

--Ento vou-lhe dizer outra coisa, que no tinha teno de lhe dizer,
para o apanhar de _speto_.

--Que ?

--A minha Marianna veio comigo, e ficou na estalagem, porque no se
podia bolir com dres; mas manh ella c est para lhe fazer a cozinha
e varrer a casa.

Simo, reconcentrando o indefinivel sentimento que esta noticia lhe
causra, disse com melancolica pausa:

-- pois certo que a minha m estrella arrasta a sua desgraada filha a
todos os meus abysmos! Pobre anjo de caridade, que digna tu s do ceu!

--Que est o senhor ahi a prgar?--interrompeu o ferrador--Parece que
ficou a modo de tristonho com a noticia!...

--Senhor Joo--tornou solemnemente o prso--no deixe aqui a sua querida
filha, Deixe-m'a vr, traga-a comsigo uma vez a esta casa; mas no a
deixe c, porque eu no posso tolher o destino de Marianna. Como ha de
ella viver no Porto, ssinha, sem conhecer ninguem, bella como ella , e
perseguida como tem de ser!?...

--Perseguida! _T carocha_! No que ella  mesmo de se lhe dar de que a
persigam!... Que vo para l, mas que deixem as ventas em casa. Meu
amigo, as mulheres so como as pras verdes; um homem apalpa-as, e, se o
dedo acha duro, deixa-as, e no as come.  como . A rapariga se  me.
Minha mulher, que Deus haja, quando eu lhe andava rentando, dei-lhe um
dia um belisco n'uma perna. E vai ella pe-se direita comigo, e deu-me
dois cascudos nas trombas, que ainda agora os sinto. A Marianna!...
aquillo  da pelle de satanaz! Pergunte o senhor, se algum dia fallar
com aquelle fidalguinho Mendes de Vizeu, a troada que elle levou com as
rdeas da egua, s por lhe bolir na chinela, quando ella estava em cima
da burra!

Simo sorriu ao rasgado panegyrico da bravura da moa, e orgulhou-se
secretamente dos brandos affagos com que o ella desvelra em oito mezes
de quasi continuada convivencia.

--E vocemec ha de privar-se da companhia de sua filha?--insistiu o
prso.

--Eu l me arranjarei como podr. Tenho um cunhada velha, e levo-a para
mim para me arranjar o caldo. E v. s.^a pouco tempo aqui estar.... O
senhor corregedor l anda a tratar de o pr na rua, e que o senhor se
c para mim so favas contadas. E assim com'assim, vou dizer-lhe tudo
d'uma feita: a rapariga, se eu a no deixasse vir para o Porto, dava um
estoiro como uma castanha. Olhe que eu no sou tolo, fidalgo. Que ella
tem paixo d'alma por v. s.^a isso  to certo como eu ser; Joo.  a
sua sina; que hei de eu fazer-lhe? Deixl-a, que pelo senhor Simo no
lhe ha de vir mal, ou ento j no ha honra n'este mundo.

Simo lanou-se aos braos do ferrador, exclamando:

--Podsse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!

--Qual marido!...--disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras
lagrimas que Simo lhe vira--Eu nunca me lembrei d'isso, nem ella!... Eu
sei que sou um ferrador, e ella sabe que pde ser sua criada, e mais
nada, senhor Simo; mas, sabe que mais, eu no desejo que os meus amigos
sejam desgraados como havia de ser o senhor se casasse com a pobre
rapariga! No fallemos n'isto, que eu por milagre choro; mas quando pego
a chorar sou um chafariz... Vamos ao arranjo: a mesa deve aqui ficar; a
commoda ali; duas cadeiras d'este lado, e duas d'aquelle. A barra acol.
O bahu debaixo da cama. A bacia e a bilha da agua sobre esta coisa, que
no sei como se chama. Os lenoes e o mais bragal tem-os l a rapariga.
manh  que o quarto ha de ficar que nem uma capella. Olhe que a
Marianna j me disse que comprasse duas aquellas... como se chamam
aquellas invasilhas de pr ramos?

--Jarras.

-- como diz, duas jarras para flres; mas eu no sei onde se vende
isso. Agora vou buscar o jantar, que a moa ha de cuidar que me no
deixam sahir da cada. Ainda lhe no disse que no me deixaram c entrar
hontem  tarde; mas eu, como trouxe uma cartinha de sua me para um
senhor desembargador, fui onde a elle, e hoje de manh j l tinha na
estalagem a ordem do senhor intendente geral da policia. At logo.




VI.


Um incidente agora me occorre, no muito concertado com o seguimento da
historia, mas a proposito vindo para demonstrar uma face da indole do
ex-corregedor de Vizeu, j ento exonerado do cargo.

Sabido  que Manoel Botelho, o primogenito, voltando a frequentar
mathematicas em Coimbra, fugira d'ali para Hespanha com uma dama desleal
a seu marido, estudante aoriano que cursava medicina.

Um anno demorra na Corunha Manoel Botelho com a fugitiva,
alimentando-se dos recursos que sua me, extremosa por elle, lhe
remettia vendendo a pouco e pouco as suas joias, e privando as filhas
dos adornos proprios dos annos e da qualidade.

Seccaram-se estas fontes, e no restavam outras. D. Rita disse a final
ao filho que deixra de soccorrer Simo por no ter meios; e agora das
escassas economias que fazia, nada podia enviar-lhe, porque estava em
obrigao de pagar os alimentos de Simo  pessoa que por compaixo
lh'os dra em Vizeu, e lh'os estava dando no Porto. Ajuntava ella, para
consolao do filho, que viesse elle para Villa Real, e trouxesse
comsigo a infeliz senhora; que fosse elle para casa, e a deixasse a ella
n'uma estalagem at se lhe arranjar habitao; que o ensejo era
opportuno, por estar na quinta de Montezellos o pae, quasi divorciado da
familia.

Voltou pelo Minho Manoel Botelho, e chegou com a dama ao Porto quinze
dias depois que Simo entrra no carcere.

J n'outro ponto deixamos dito que nunca os dois irmos se deram nem
estimaram; mas o infortunio de Simo remia as culpas do genio fatal que
o orphanra de pae e me, e s da irm Rita lhe deixra uma lembrana
saudosa.

Foi Manoel  cada, e abrindo os braos ao irmo, teve um glacial
acolhimento.

Perguntou-lhe Manoel a historia do seu desastre.

--Consta do processo--respondeu Simo.

--E tem esperanas de liberdade?--replicou Manoel.

--No penso n'isso.

--Eu pouco posso offerecer-lhe, porque vou para casa forado pela falta
de recursos; mas, se precisa de roupa, repartirei comsigo da minha.

--No preciso nada. Esmolas s as recebo d'aquella mulher.

J Manoel tinha reparado em Marianna, e da belleza da moa inferira
concluses para formar falsos juizos.

--E quem  esta menina?--tornou Manoel.

-- um anjo... No lhe sei dizer mais nada.

Marianna sorriu-se, e disse:

--Sou uma criada do senhor Simo, e de v. s.^a

-- c do Porto?

--No, meu senhor, sou dos arrabaldes de Vizeu.

--E tem feito sempre companhia a meu mano?

Simo atalhou assim  resposta balbuciante de Marianna:

--A sua curiosidade incommoda-me, mano Manoel.

--Cuidei que no era offensiva--replicou o outro, tomando o
chapo.--Quer alguma coisa para a me?

--Nada.

Estando Manoel Botelho, na tarde d'esse dia, fechando as malas para
seguir jornada para Villa Real, foi visitado pelo desembargador Mouro
Mosqueira, e pelo corregedor do crime.

--Devemos  espionagem da policia--disse o corregedor--a novidade de
estar n'esta estalagem; um filho do meu antigo amigo, condiscipulo e
collega Domingos Correia Botelho. Aqui vimos dar-lhe um abrao, e
offerecer o nosso prestimo. Esta senhora  sua esposa?--continuou o
magistrado, reparando na aoriana.

--No  minha esposa...--balbuciou Manoel--... minha irm.

--Sua irm!...--disse Mosqueira--qual das tres? Ha cinco annos que as vi
em Vizeu, e grande mudana fez esta senhora, que no me recordo das suas
feies absolutamente coisa nenhuma!  a senhora D. Anna Amalia?

--Justamente--disse Manoel.

--Bella, lhe affirmo eu que est, minha senhora; mas fez-se um rosto
muito outro do que era!...

--Vieram vr o infeliz Simo?--atalhou o corregedor.

--Sim, senhor... viemos vr meu pobre irmo.

--Foi um raio que cahiu na familia aquelle rapaz!...-- ajuntou
Mosqueira--mas pde estar na certeza que a sentena no se executa; diga
a sua me que m'o ouviu da minha bca. O meu tribunal est preparado
para lhe minorar a pena em dez annos de degredo para a India, e seu pae,
segundo me disse na passagem para Villa Real, j preparou as coisas na
supplicao e no desembargo do pao, no obstante o morto l ter
parentes poderosos nas duas instancias. Quizeramos absolvl-o, e
restituil-o  sua famlia; mas tanto  impossvel. Simo matou, e
confessa soberbamente que matou. No consente mesmo que se diga que em
defeza o fez.  um doido desgraado com sentimentos nobilissimos! Chovem
cartas de empenho a favor do Albuquerque. Pedem a cabea do pobre rapaz
com uma sem-ceremonia que indigna o animo.

--E essa menina que foi a causa da desgraa?--perguntou Manoel.

--Isso  uma heroina!--respondeu o corregedor do crime--Davam-na j por
morta quando Simo chegou aqui. Desde que soube das probabilidades da
commutao da pena, deu um pontap na morte, e est salva, segundo me
disse o medico.

--Conhece-a muito bem, minha senhora?--disse o desembargador  dama,
supposta irm de Manoel.

--Muito bem--respondeu ella, relanceando os olhos ao amante.

--Dizem que  formosissima!

--De certo--acudiu Manoel-- formosissima.

--Muito bem--disse o corregedor, erguendo-se.--Leve este abrao ao pae,
e diga-lhe que o condiscipulo c est leal e dedicado como sempre. Eu
tenho de lhe escrever brevemente.

--E outro abrao a sua virtuosa me--acerescentou o desembargador.

--Vou desconfiado!--disse o Mosqueira ao collega--Manoel Botelho tinha,
ha coisa d'um anno, fugido para Hespanha com uma senhora casada. Aquella
mulher, que vimos, no  irm d'elle.

--Pois se nos mentiu  mariola, por nos obrigar a cortejar uma
concubina!... Eu me informarei...--disse o corregedor, offendido no seu
austero pundonor.

E no proximo correio, escrevendo a Domingos Botelho, dizia no periodo
final: Tive o gosto de conhecer teu filho Manoel, e uma de tuas filhas;
por elle te mandei um abrao, e por ella te mandaria outro, se fosse
modo ensinarem velhos a meninas bonitas como se do os abraos nos
paes.

Estava j Manoel em casa de seus avs, e cuidava em trastejar uma
modesta casa para a aoriana, auxiliado por sua bondosa e indulgente
me. O pae fra informado da vinda, e dissera que no queria vr o
filho, avisando-o de que era considerado desertor de cavallaria seis,
desde que abandonra os estudos, onde estava com licena.

Recebeu depois a carta do corregedor do crime, e mandou immediata e
secretamente devassar se em Villa Real estava a senhora que indicava a
carta. A espionagem deu-a como certa na estalagem, em quanto Manoel
Botelho cuidava nos adornos de uma casa. Escreveu o magistrado ao juiz
de fra, e este mandou chamar  sua presena a mulher suspeita, e ouviu
d'ella a sua historia sincera e lagrimosamente contada. Condoeu-se o
juiz, e revelou ao collega as suas averiguaes. Domingos Botelho foi a
Villa Real, e hospedou-se em casa do juiz de fra, onde a senhora foi
novamente chamada, sendo que ao mesmo tempo o general da provinda
lavrava ordem de priso para o cadete desertor de cavallaria de
Bragana.

A aoriana, em vez do juiz, encontrou um feio homem, de carrancuda
sombra, e apparencias de intenes sinistras.

--Eu sou pae de Manoel--disse Domingos Botelho--Sei a historia da
senhora. O infame  elle. V. s.^a  a victima. O castigo da senhora
principiou desde o momento em que a sua consciencia lhe disse que
praticou uma aco indigna. Se a consciencia lh'o no disse ainda, ella
lh'o dir. D'onde ?

--Da ilha do Fayal--respondeu tremula a dama.

--Tem familia?

--Tenho me e irms.

--Sua me aceital-a-ia se a senhora lhe pedisse abrigo?

--Creio que sim.

--Sabe que Manoel  um desertor, que a estas horas est prso ou
fugitivo?

--No sabia...

--Quer isto dizer que a senhora no tem proteco de alguem.

A pobre mulher soluava, abafada por ancias, e debulhada em lagrimas.

--Porque no vai para sua me?

--No tenho recursos alguns--respondeu ella.

--Quer partir hoje mesmo?  porta da estalagem encontrar uma liteira, e
uma criada para acompanhal-a at ao Porto. L entregar uma carta. A
pessoa a quem escrevo lhe cuidar da passagem para Lisboa. Em Lisboa
outra pessoa a levar a bordo da primeira embarcao que sahir para os
Aores. Estamos combinados? Aceita?

--E beijo as mos de v. s.^a... Uma desgraada como eu no podia esperar
tanta caridade.

Poucas horas depois a esposa do medico....

--Que tinha morrido de paixo e vergonha, talvez!--exclama uma leitora
sensivel.

No, minha senhora; o estudante continuava n'esse anno a frequentar a
Universidade; e como tinha j vasta instruco em pathologia, poupou-se
 morte da vergonha, que  uma morte inventada pelo visconde de A.
Garrett no _Fr. Luiz de Souza_, e  morte de paixo, que  outra morte
inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que no pega nos
maridos a quem o seculo dotou d'uns longes de philosophia, philosophia
grega e romana, porque bem sabem que os philosophos da antiguidade davam
por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor
lh'as no tiravam. E esta philosophia, hoje ento...[6] Pois o medico
no morreu, nem sequer desmedrou, ou levou _r_ significativo de
preoccupao do animo insensivel s amenidades da therapeutica.

A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinaria que
seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem
esperanas, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou
ao Porto, onde procurou o corregedor do crime para entregar-lhe uma
carta do doutor Domingos Botelho. Um periodo d'esta carta dizia assim:

Dste-me noticia d'uma filha, que eu no conhecia, nem reconheo. A me
d'esta senhora est no Fayal, para onde ella vai. Cuida tu, ou manda
cuidar no seu transporte para Lisboa, e encarrega ali alguem de correr
com a passagem d'ella para os Aores no primeiro navio. A mim me dars
conta das despezas. Meu filho Manoel teve ao menos a virtude de no
matar ninguem para se constituir amante. Do modo como correm os tempos,
muito virtuoso  um rapaz que no mata o marido da mulher que ama. V se
consegues do general, que est ahi, perdo para o rapaz, que  desertor
de cavallaria seis, e me consta que est escondido em casa de um
parente. Em quanto a Simo, creio que no  possivel salval-o do degredo
temporario...  uma lana em Africa livral-o da forca. Em Lisboa
movem-se grandes potencias contra o desgraado, e eu estou malvisto do
intendente geral por abandonar o logar... etc.

Partiu para Lisboa a aoriana, e d'ali para a sua terra, e para o abrigo
de sua me, que a julgra morta, e lhe deu annos de vida, se no ditosa,
socegada e desilludida de chimeras.

Manoel Botelho, obtido o perdo pela preponderancia do corregedor do
crime, mudou de regimento para Lisboa, e ahi permaneceu at que,
fallecido seu pae, pediu a baixa, e voltou  provincia.




VII.


Joo da Cruz, no dia 4 de Agosto de 1805, sentou-se  mesa com triste
aspecto e nenhum appetite do almoo.

--No comes, Joo?--disse-lhe a cunhada.

--No passa d'aqui o bocado--respondeu elle, pondo o dedo nos
gorgomilos.

--Que tens tu?

--Tenho saudades da rapariga... Dava agora tudo quanto tenho para a vr
aqui ao p de mim com aquelles olhos que pareciam ir direitos aos
desgostos que um homem tem no seu interior. Mal hajam as desgraas da
minha vida que m'a fizeram perder, Deus sabe se para pouco, se para
sempre!... Se eu no tivesse dado o tiro no almocreve, no vinha a ficar
em obrigao ao corregedor, e no se me dava que o filho vivesse ou
morresse...

--Mas se tens saudades--atalhou a senhora Josefa--manda buscar a
rapariga, tem-l'a c algum tempo, e torna depois para onde ao senhor
Simo.

--Isso no  d'homem que pe navalha na cara, Josefa. O rapaz, se ella
lhe falta, morre de pasmo dentro d'aquelles ferros. Isto  venta que me
deu hoje... Sabes que mais? leve a breca o dinheiro: manh vou ao
Porto.

--Pois isso  o que tu deves fazer.

--Est dito! Quem c ficar que o ganhe. Vo-se os anneis e fiquem os
dedos. Por ora tem-se resistido a tudo com o meu brao. A rapariga, se
ficar com menos, l se avenha. Assim o quer, assim o tenha.

Reanimou-se a physionomia do mestre ferrador, e como que os impeos da
garganta se iam removendo  medida que planisava a sua ida ao Porto.

Acabra de almoar, e ficra scismatico, encostado  mesa do escano.

--Ainda ests malucando?!--tornou Josefa.

--Parece coisa do demonio, mulher!... A rapariga estar doente ou morta?

--Anjo bento da Santssima Trindade!--exclamou a cunhada, erguendo as
mos--que dizes tu, Joo!

--Estou c por dentro negro como aquella sart!

--Isso  flato, homem! vai tomar ar, trabalha um poucaxinho para
espaireceres.

Joo da Cruz passou ao coberto onde tinha o armario da ferragem e a
bigorna, e comeou a atarracar cravos.

Alguns conhecidos tinham passado, palavreando com elle consoante
costumavam, e achavam-no taciturno e nada para graas.

--Que tens tu, Joo?--dizia um.

--No tenho nada. Vai  tua vida, e deixa-me, que no estou para lrias.

Outro parava e dizia:

--Guarde-o Deus, senhor Joo.

--E a vocemec tambem. Que novidade ha?

--No sei nada.

--Pois ento v com nossa Senhora, que eu estou c de candeias s
avessas.

O ferrador largava o martello; sentava-se aos poucos no tronco, e coava
a cabea com frenesi. Depois recomeava novamente, e to alheado o
fazia, que estragava o cravo, ou martellava os dedos.

--Isto  coisa do diabo!--exclamou elle; e foi  cosinha procurar a
pichorra, que emborcou como qualquer elegante de paixes ethereas se
aturde com absyntho--Hei de afogar-te, coisa m, que me ests apertando
a alma!--continuou o ferrador, sacudindo os braos, e batendo o p no
soalho.

Voltou ao coberto a tempo que um viandante ia passando sobre a sua
possante mula. Envolvia-se o cavalleiro n'um amplo capote  moda
hespanhola, sem embargo da calma que fazia. Viam-se-lhe as botas de
coiro cru com esporas amarellas afiveladas, e o chapo derrubado sobre
os olhos.

--Ora viva!--disse o passageiro.

--Viva!--respondeu mestre Joo, relanceando os olhos pelas quatro patas
da mula, a vr se tinha obra em que entreter o espirito--A mula  de
ropia e chibana!

--No  m. Vocemec  que  o senhor Joo da Cruz?

--Para o servir.

--Venho aqui pagar-lhe uma divida.

--A mim? o senhor no me deve nada que eu saiba.

--No sou eu que devo;  meu pae, e elle foi que me encarregou de lhe
pagar.

--E quem  seu pae?

--Meu pae era um recoveiro de Garo, chamado Bento Machado.

Proferida metade d'estas palavras, o cavalleiro afastou rapidamente as
bandas do capote, e desfechou um bacamarte no peito do ferrador. O
ferido recuou, exclamando:

--Mataram-me!... Marianna, no te vejo mais!...

O assassino teria dado cincoenta passos a todo o galope da espantada
mula, quando Joo da Cruz, debruado sobre o banco, arrancava o ultimo
suspiro com a cara posta no cho, d'onde apontra ao peito do almocreve
dez annos antes.

Os caminheiros, que perpassaram pelo cavalleiro inadvertidamente,
ajuntaram-se em redor do cadaver. Josefa acudiu ao estrondo do tiro e j
no ouviu as ultimas palavras de seu cunhado. Quiz transportal-o para
dentro, e correr a chamar cirurgio; mas um cirurgio estava no
ajuntamento, e declarou morto o homem.

--Quem o matou?--exclamavam trinta vozes a um tempo.

N'esse mesmo dia vieram justias de Vizeu lavrar auto e devassar: nenhum
indicio lhes deu o fio do mysterioso assassinio. O escrivo dos orphos
inventariou os objectos encontrados, e fechou as portas quando os sinos
corriam o derradeiro dobre ao cahir da lousa sobre Joo da Cruz.

Deus ter descontado, nos instinctos sanguinarios do teu temperamento, a
nobreza de tua alma! Pensando nas incoherencias da tua indole, homem que
me explicas a providencia, assombra-me as caprichosas anttheses que a
mo de Deus infunde em alentos na creatura. Dorme o teu somno infinito,
se nenhum outro tribunal te cita a responder pelas vidas que tiraste, e
pelo uso que fizeste da tua. Mas se ha estancia de castigo e de
misericordia, as lagrimas de tua filha tero sido, na presena do Juiz
Supremo, os teus merecimentos.

Fez Josefa escrever a Marianna, noticiando-lhe a morte de seu pae, mas
sobrescriptou a carta a Simo Botelho, para maior segurana. Estava
Marianna no quarto do prso, quando a carta lhe foi entregue.

--No conheo a letra, Marianna... E a obreia  preta...

Marianna examinou o sobrescripto, e empallideceu.

--Eu conheo a letra--disse ella-- do Joaquim da loja.

--Abra depressa, senhor Simo... Meu pae morreria?

--Que lembrana! Pois no teve ha tres dias carta d'elle? E no lhe
disse que estava bom?

--Isso que tem?... Veja quem assigna.

Simo buscou a assignatura, e disse:

--_Josefa Maria_...  sua tia que lhe escreve.

--Leia... leia... que diz ella?

O prso lia mentalmente, e Marianna instou:

--Leia alto, por quem , senhor Simo, que estou a tremer... e v. s.^a
descora... que , meu Deus?

Simo deixou cahir a carta, e sentou-se prostrado de animo. Marianna
correu a levantar a carta, e elle, tomando-lhe a mo, murmurou:

--Pobre amigo!... choremol-o ambos... choremol-o, Marianna, que o
amavamos como filhos...

--Pois morreu?--bradou ella.

--Morreu... mataram-no!...

A moa expediu um grito estridulo, e foi com o rosto contra os ferros
das grades. Simo inclinou-a para o seio, e disse-lhe com muita ternura
e vehemencia:

--Marianna, lembre-se que  o meu amparo. Lembre-se de que as ultimas
palavras de seu pae deviam ser a recommendar-lhe o desgraado que recebe
das suas mos bemfeitoras o po da vida. Marianna, minha querida irm,
vena a dr que pde matal-a, e vena-a por amor de mim. Ouve-me, amiga
da minha alma?

Marianna exclamou:

--Deixe-me chorar, por caridade!... Ai! meu Deus, se eu torno a
endoidecer!

--Que seria de mim!--atalhou Simo--A quem deixaria Marianna o seu nobre
corao para me suavisar este martyrio? Quem me levaria ao desterro uma
palavra amiga que me animasse a crr em Deus!... No ha de enlouquecer,
Marianna, porque eu sei que me estima, que me ama, e que affrontar com
coragem a maior desgraa, que ainda pde suggerir-me o inferno! Chore,
minha irm, chore; mas veja-me atravs das suas lagrimas!




VIII.


Marianna, decorridos dias, foi a Vizeu recolher a herana paterna. Em
proporo com o seu nascimento bem dotada a deixra o laborioso
ferrador. Afra os campos, cujo rendimento bastaria  sustentao
d'ella, Marianna levantou a lage conhecida da lareira, e achou os
quatrocentos mil ris com que Joo da Cruz contava para alimentar as
regalias da sua decrepitude inerte. Vendeu Marianna as terras, e deixou
a casa a sua tia, que nascra n'ella, e onde seu pae casra.

Liquidada a herana tornou para o Porto, e depositou o seu cabedal nas
mos de Simo Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha em que
vivia, fronteira  Relao, na rua de S. Bento.

--Porque vendeu as suas terras, Marianna?--perguntou o prso.

--Vendi-as, porque no fao teno de l voltar.

--No faz?... Para onde ha de ir Marianna, indo eu degredado? Fica no
Porto?

--No, senhor, no fico--balbuciou ella como admirada d'esta pergunta, 
qual o seu corao julgava ter respondido de muito.

--Pois ento!

--Vou para o degredo, se v. s.^a me quizer na sua companhia.

Fingindo-se surprendido, Simo seria ridiculo aos seus proprios olhos.

--Esperava essa resposta, Marianna, e sabia que me no dava outra. Mas
sabe o que  o degredo, minha amiga?

--Tenho ouvido dizer muitas vezes o que , senhor Simo...  uma terra
mais quente que a nossa; mas tambem l ha po, e vive-se...

--E morre-se abrazado ao sol doentio d'aquelle ceu, morre-se de saudades
da patria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores das
gals, que tem um condemnado na conta de fra.

--No ha de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso  mulher
d'um prso que cumpriu dez annos de sentena na India, e viveu muito bem
em uma terra chamada Solor, onde teve uma loja; e, se no fossem as
saudades, diz ella que no vinha, porque lhe corria melhor por l a vida
que por c. Eu, se fr por vontade do senhor Simo, vou pr uma lojinha
tambem. Ver como eu amenho a vida. Affeita ao calor estou eu; v. s.^a
no est; mas no ha de ter preciso, se Deus quizer, de andar ao tempo.

--E supponha, Marianna, que eu morro apenas chegar ao degredo?

--No fallemos n'isso, senhor Simo...

--Fallemos, minha amiga, porque eu hei de sentir  hora da morte a
pesar-me na alma a responsabilidade do seu destino... Se eu morrer?

--Se o senhor morrer, eu saberei morrer tambem.

--Ninguem morre quando quer, Marianna...

--Oh! se morre!... e vive tambem quando quer... No m'o disse j a
senhora D. Thereza?

--Que lhe disse ella?

--Que estava a passar quando v. s.^a chegou ao Porto, e que a sua
chegada lhe dera vida. Pois ha muita gente assim, senhor Simo... E mais
a fidalga  fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos os
trabalhos; e, se fosse preciso metter uma lanceta no brao e deixar
correr o sangue at morrer, fazia-o como quem o diz.

--Oia-me, Marianna, que espera de mim?

--Que hei de eu esperar!... Porque me diz isso o senhor Simo?

--Os sacrificios que Marianna tem feito e quer fazer por mim s podiam
ter uma paga, embora m'os no faa esperando recompensa. Abre-me o seu
corao, Marianna?

--Que quer que eu lhe diga?

--Conhece a minha vida to bem como eu, no  verdade?

--Conheo, e que tem isso?

--Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte quella desgraada
senhora?

--E d'ahi? quem lhe diz menos d'isso?!

--Os sentimentos do corao s os posso agradecer com amizade.

--E eu j lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simo?!

--Nada me pediu, Marianna; mas obriga-me tanto, que me faz mais infeliz
o pso da obrigao.

Marianna no respondeu, chorou.

--E porque chora?--tornou Simo carinhosamente.

--Isso  ingratido.... e eu no mereo que me diga que o fao infeliz.

--No me comprehendeu... Sou infeliz por no poder fazl-a minha mulher.
Eu queria que Marianna podsse dizer: Sacrifiquei-me por meu marido; no
dia em que o vi ferido em casa de meu pae, velei as noites ao seu lado;
quando a desgraa o encerrou entre ferros, dei-lhe o po, que nem seus
ricos paes lhe davam; quando o vi sentenciado  forca, endoideci; quando
a luz da minha razo me tornou n'um raio de compaixo divina, corri ao
segundo carcere, alimentei-o, vesti-o, e adornei-lhe as paredes nuas do
seu antro; quando o desterraram, acompanhei-o, fiz-me a patria d'aquelle
pobre corao, trabalhei  luz do sol homicida para elle se resguardar
do clima, do trabalho, e do desamparo, que o matariam...

O espirito de Marianna no podia altear-se  expresso do prso; mas o
corao sinil, esse adivinhava-lhe as ideias. E a pobre moa sorria e
chorava a um tempo. Simo continuou:

--Tem vinte e seis annos, Marianna. Viva, que esta sua existencia no
pde ser seno um supplicio occulto. Viva, que no deve dar tudo a quem
lhe no pde restituir seno as lagrimas que lhe eu tenho custado. O
tempo do meu desterro no pde estar longe; esperar outro melhor destino
seria uma loucura. Se eu ficasse na patria, livre ou prso, pediria a
minha irm que completasse a obra generosa da sua compaixo, esperando
que eu lhe dsse a ultima palavra da minha vida. Mas no v comigo 
frica ou  India, que sei que voltar ssinha  ptria depois que eu
fechar os olhos. Se o meu degredo fr temporario, e a morte me guardar
para maiores naufragios, voltarei  patria um dia. E preciso que
Marianna aqui esteja para eu poder dizer que venho para a minha familia,
que tenho aqui uma alma extremosa que me espera. Se a encontrar com
marido e filhos, a sua familia ser a a minha. Se a vir livre e s, irei
para a companhia de minha irm. Que me responde, Marianna?

A filha de Joo da Cruz, erguendo o olhos do pavimento, disse:

--Eu verei o que hei de fazer quando o senhor Simo partir para o
degredo....

--Pense desde j, Marianna.

--No tenho que pensar... A minha teno est feita...

--Falle, minha amiga, diga qual  a sua teno.

Marianna hesitou alguns segundos, e respondeu serenamente:

--Quando eu vir que no lhe sou precisa, acabo com a vida. Cuida que eu
ponho muito em me matar? No tenho pae, no tenho ninguem, a minha vida
no faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Simo pde viver sem mim?
paciencia!... eu  que no posso...

Sosteve o complemento da ideia como quem se peja d'uma ousadia. O prso
apertou-a nos braos estremecidamente, e disse:

--Ir, ir comigo, minha irm. Pense muito no infortunio de ns ambos
d'ora em diante, que elle  commum,  um veneno que havemos de tragar
unidos, e l teremos uma sepultura de terra to pesada como a da patria.

Desde este dia, um secreto jubilo endoidecia o corao de Marianna. No
inventemos maravilhas de abnegao. Era de mulher o corao de Marianna.
Amava como a fantasia se compraz de idear o amor d'uns anjos que batem
as azas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se
fazerem vr e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha
ciumes de Thereza, no ciumes que se refrigeram na expanso ou no
despeito, mas infernos surdos, que no rompiam em lavareda aos labios,
porque os olhos se abriam promptos em lagrimas para apagal-a. Sonhava
com as delicias do desterro, porque voz humana alguma no iria l gemer
 cabeceira do desgraado. Se a forassem a resignar a sua ingloria
misso de irm d'aquelle homem, resignal-a-ia, dizendo: Ninguem o amar
como eu; ningum lhe adoar as penas to desinteresseiramente como o eu
fiz.

E, comtudo, nunca vacillou em aceitar da mo de Thereza ou da mendiga as
cartas para Simo. A cada vinco de dr que a leitura d'aquellas cartas
sulcava na fronte do prso, Marianna, que o espreitava disfarada,
tremia em todas as fibras do seu corao, e dizia entre si: para que ha
de aquella senhora amargurar-lhe a vida!

E amargurava acerbamente a desditosa menina!

Resurgiram n'aquella alma esperanas, que no deviam durar alm do tempo
necessario para que a desilluso lhe acrisolasse o infortunio. Imaginara
ella a liberdade, o perdo, o casamento, a ventura, a cora do seu
martyrio. As suas amigas matizavam-lhe a tela da fantasia, umas porque
no conheciam a atroz realidade das coisas, outras porque fiavam em
demasia nas oraes das virtuosas do mosteiro. Se os vaticinios das
prophetisas se realisassem, Simo sahiria da cada, Thadeu de
Albuquerque morreria de velhice e de raiva, o casamento seria um acto
indisputavel, e o ceu dos desgraados principiaria n'este mundo.

Porm Simo Botelho, ao cabo de cinco mezes de carcere, j sabia o seu
destino, e achra util prevenir Thereza, para no succumbir ao
inevitavel golpe da separao. Bem queria elle alumiar com esperanas a
perspectiva negra do degredo; mas froixos e frios eram os allivios em
que no era parte a convico nem o sentimento. Thereza no podia sequer
illudir-se, porque tinha no peito um despertador que a estava acordando
sempre para a hora final, embora o semblante enganasse a condolencia dos
estranhos.

E ento era o expandir-se em lastimas nas cartas que escrevia ao seu
amigo; invocaes a Deus, e sacrilegas apostrophes ao destino; branduras
de paciencia e impetos de clera contra o pae; o afferro  vida que lhe
foge, e spplicas  morte, que a no livra das torturas da alma e do
corpo.

No termo de sete mezes o tribunal de segunda instancia commutou a pena
ultima em dez annos de degredo para a India. Thadeu de Albuquerque
acompanhou a Lisboa a appellao, e offereceu a sua casa a quem
mantivesse de p a forca de Simo Botelho. O pae do condemnado, segundo
o assustador aviso que seu filho Manoel lhe dera, foi para Lisboa luctar
com o dinheiro e as ponderosas influencias que Thadeu de Albuquerque
grangera na casa da supplicao e no desembargo do pao. Venceu
Domingos Botelho, e instigado mais do seu capricho, que do amor
paternal, alcanou do principe regente a graa de cumprir o condemnado a
sua sentena na priso de Villa Real.

Quando intimaram a Simo Botelho a deciso do recurso e a graa do
regente, o prso respondeu que no aceitava a graa; que queria a
liberdade do degredo; que protestaria perante os poderes judiciarios
contra um favor que no implorra, e que reputava mais atroz que a
morte.

Domingos Botelho, avisado da rejeio do filho, respondeu que fizesse
elle a sua vontade; mas que a sua victoria d'elle, sobre os protectores
e os corrompidos pelo ouro do fidalgo de Vizeu, estava plenamente
obtida.

Foi aviso ao intendente geral da policia, e o nome de Simo Botelho foi
inscripto no catalogo dos degredados para a India.




IX.


A verdade  algumas vezes o escolho de um romance.

Na vida real, recebemol-a como ella se dos encontrados acasos, ou da
logica implacavel das coisas; mas, na novella, custa-nos a soffrer que o
author, se inventa, no invente melhor; e, se copa, no minta por amor
da arte.

Um romance, que estriba na verdade o seu merecimento,  frio, 
impertinente,  uma coisa que no sacode os nervos, nem tira a gente,
sequer uma temporada, em quanto elle nos lembra, d'este jogo de nora,
cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela
manivella do egoismo.

A verdade! se ella  feia, para que offerecl-a em paineis ao publico!?

A verdade do corao humano! Se o corao humano tem filamentos de
ferro, que o prendem ao barro d'onde sahiu, ou pezam n'elle e o
submergem no charco da culpa primitiva, para que  emergil-o,
retratal-o, e dal-o  venda!?

Os reparos so de quem tem o juizo no seu logar; mas eu que perdi o meu
a estudar a verdade, j agora a desforra que tenho  pintal-a, como ella
, feia e repugnante.

A desgraa afervora ou quebranta o amor?

Isso  que eu submetto  deciso do leitor intelligente. Factos e no
theses  que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e no
explica as funces opticas do apparelho visual.

Ao cabo de dezenove mezes de carcere, Simo Botelho almejava um raio de
sol, uma lufada de ar no coada por ferros, o pavimento do ceu, que o da
abobada do seu cubiculo pesava-lhe sobre o peito.

Ancia de viver era a sua; no era j ancia de amar.

Seis mezes de sobresaltos diante da forca deviam distender-lhe as fibras
do corao; e o corao, para o amor, quer-se forte e tenso de uma certa
rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anceios das esperanas, e
com as alegrias que o enchem e reforam para os revezes.

Cahiu a forca pavorosa aos olhas de Simo; mas os pulsos ficaram em
ferros, o pulmo ao ar mortal das cadas, o espirito intanguido na
glacial estupidez d'umas paredes salitrosas, e d'um pavimento, que resa
os derradeiros passos do ultimo padecente, e d'um tecto que filtra a
morte a gottas d'agua.

O que  o corao, o corao dos dezoito annos, o corao sem remorsos,
o espirito anhelante de glorias, ao cabo de dezoito mezes de estagnao
da vida?

O corao  a viscera, ferida de paralysia, a primeira que fallece
suffocada pelas rebellies da alma que se identifica  natureza, e a
quer, e se devora na ancia d'ella, e se estorce nas agonias da
amputao, para as quaes a saudade da felicidade extincta  um cauterio
em braza, e o amor que leva ao abysmo pelo caminho da sonhada
felicidade, no  sequer um refrigerio.

Ao deslaar da garganta a corda da justia, Simo Botelho teve uma hora
de desafgo, como que sentia o patibulo lascar entre os seus braos, e
ento convidou o corao da mulher, que o perdra, a assistir s
segundas nupcias da sua vida com a esperana.

Depois, a passo igual, a esperana fugia-lhe para as areias da Asia, e o
corao intumecia-se de fel, o amor afogava-se n'elle, morte inevitavel,
quando no ha abertura por onde a esperana entre a luzir na escurido
intima.

Esperana, para Simo Botelho, qual?

A India, a humilhao, a miseria, a indigencia.

E os anhelos d'aquella alma tinham mirado a ambies de um nome. Para a
felicidade do amor invidava as foras do talento; mas, alm do amor,
estava a gloria, o renome, e a v immortalidade, que s no  demencia
nas grandes almas, e nos genios que se presentem viver nas geraes
vindouras, e se preluzem n'ellas. Mas grinaldas de amor a escorrerem
sangue dos espinhos, essas instillam veneno corrosivo no pensamento,
apagam no seio a faisca das nobres affoitezas, apoucam a ideia que
abrangra mundos, e paralysam de mortal spasmo os estos do corao.

Assim te sentias tu, infeliz, quando dezoito mezes de carcere, com o
patibulo ou o degredo na linha do teu porvir, te haviam matado o melhor
da alma.

A ti mesmo perguntavas pelo teu passado, e o corao, se ousava
responder, retrahia-se recriminado pelos dictames da razo.

D'alm, d'aquelle convento onde outra existencia agonisava, gementes
queixas te vinham espremer fel na chaga; e tu, que no sabias, nem
podias consolar, pedias palavras ao anjo da compaixo para ella, e
recebias as do demonio do desespro para ti.

Os dez annos de ferros, era que lhe quizeram minorar a pena, eram-lhe
mais horrorosos que o patibulo. E aceital-o-ias, por ventura, se amasse
o ceu, onde Thereza bebia o ar, que nos pulmes se lhe formava em
peonha? Creio:--antes a masmorra, onde pde ouvir-se o som abafado de
uma voz amiga; antes os paroxismos de dez annos sobre as lages humidas
d'uma enxovia, se, na hora extrema, a ultima faisca da paixo, ao
bruxolear para morrer, nos alumia o caminho do ceu por onde o anjo do
amor desditoso se levantou a dar conta de si a Deus, e a pedir a alma do
que ficou.

Thereza pedira a Simo Botelho que aceitasse dez annos de cada, e
esperasse ahi a sua redempo por ella.

Dez annos!--dizia-lhe a inclausurada de Monchique--Em dez annos ter
morrido meu pae, e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te
perde, se no tiveres cumprido a sentena. Se vaes ao degredo, para
sempre te perdi, Simo, porque morrers, ou no achars memoria de mim
quando voltares.

Como a pobre se illudia nas horas em que as debeis foras de sua vida se
lhe concentravam no corao!

As ancias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que
crera novo, j lhe sahia em golfadas com a tosse.

Se por amor ou piedade o condemnado aceitasse os ferrolhos tres mil
seiscentas e cincoenta vezes corridos sobre as suas longas noites
solitarias, nem assim Thereza sosteria a pedra sepulcral que a vergava
d'hora a hora.

No esperes nada, martyr--escrevia-lhe elle.--A lucta com a desgraa 
inutil, e eu no posso j luctar. Foi um atroz engano o nosso encontro.
No temos nada n'este mundo. Caminhemos ao encontro da morte... Ha um
segredo que s no sepulcro se sabe. Vr-nos-hemos?

Vou. Abomino a patria, abomino a minha familia, todo este solo est aos
meus olhos coberto de forcas, e quantos homens fallam a minha lingua,
creio que os ouo vociferar as imprecaes do carrasco. Em Portugal, nem
a liberdade com a opulencia; nem j agora a realisao da esperanas que
me dava o teu amor, Thereza!

Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas no
aqui. Apague-se a luz de meus olhos; mas a luz do ceu, quero-a! quero
vr o ceu no meu ultimo olhar.

No me peas que aceite dez annos de priso. Tu no sabes o que  a
liberdade captiva dez annos! No comprehendes a tortura dos meus vinte
mezes. A voz unica que tenho ouvido  a da mulher piedosa que me esmola
o po de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarcastica boa-nova
de uma graa real que me commuta o morrer instantaneo da forca pelas
agonias de dez annos de carcere.

Salva-te, se pdes, Thereza. Renuncia ao prestigio d'um grande
desgraado. Se teu pae te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma
aurora de paz, vive para a felicidade d'esse dia. E seno, morre,
Thereza, morre, que a felicidade  a morte,  o desfazerem-se em p as
fibras laceradas pela dr,  o esquecimento que salva das injurias a
memoria dos padecentes.

As palavras unicas de Thereza, em resposta quella carta, significativa
da turvao do infeliz, foram estas: Morrerei, Simo, morrerei. Perda
tu ao meu destino... Perdi-te... bem sabes que sorte eu queria dar-te...
e morro, porque no posso, nem poderei jmais resgatar-te. Se pdes,
vive; no te peo que morras, Simo; quero que vivas para me chorares.
Consolar-te-ha o meu espirito... Estou tranquilla... Vejo a aurora da
paz... Adeus at ao ceu, Simo.

Seguiram-se a esta carta muitos dias de terrvel taciturnidade. Simo
Botelho no respondia s perguntas de Marianna. Dil-o-ieis arrobado nas
voluptuosas angustias do seu proprio aniquilamento. A creatura, posta
por Deus ao lado d'aquelles dezoito annos to attribulados, chorava; mas
as lagrimas, se Simo as via, tiravam-no da mudez socegada para impetos
de afflico, que a final o extenuavam  fora de convulses.

Decorreram seis mezes ainda.

E Thereza vivia, dizendo s suas consternadas companheiras, que sabia ao
certo o dia do seu trespasse.

Duas primaveras vira Simo Botelho pelas grades do seu carcere. A
terceira j inflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal.

Era em Maro de 1807.

No dia 10 d'esse mez recebeu o condemnado intimao para sahir na
primeira embarcao que levava ancora do Douro para a India. N'esse
tempo vinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em Lisboa
os que tinham igual destino.

Nenhum estorvo impedia o embarque de Marianna, que se apresentou ao
corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga por seu
amo.

--E a passagem vale-a bem!--disse o galhofeiro magistrado.

Simo assistiu no encaixotar de sua bagagem, n'uma quietao terrivel,
como se ignorasse o seu destino.

Quiz muitas vezes escrever a derradeira carta  moribunda Thereza, e nem
signaes de lagrimas podia j enviar-lhe no papel.

--Que trevas, meu Deus!--exclamava elle, e arrancava a mos cheias os
cabellos--Dai-me lagrimas, Senhor! deixai-me chorar, ou matai-me, que
este soffrimento  insupportavel!

Marianna contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura, ou os
no menos medonhos da lethargia.

--E Thereza!--bradava elle, surgindo subitamente do seu spasmo--E
aquella infeliz menina, que eu matei! No hei de vl-a mais, nunca mais!
Ninguem me levar ao degredo a noticia da sua morte! E quando a eu
chamar para que me veja morrer digno d'ella, quem te dir que eu morri,
 martyr!




X.


A 17 de Maro de 1807 sahiu dos carceres da Relao Simo Antonio
Botelho, e embarcou no caes da Ribeira, com setenta e cinco
companheiros. O filho do ex-corregedor de Vizeu, a pedido do
desembargador Mouro Mosqueira, e por ordem do regedor das justias, no
ia amarrado com cordas ao brao d'algum companheiro. Desceu da cada ao
embarque, ao lado de um meirinho, e seguido de Marianna, que vigiava os
caixes da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a
bordo da nau, e recommendou ao commandante que distinguisse o degredado
Simo, consentindo-o na tolda, e sentando-o  sua mesa. Chamou Simo de
parte, e deu-lhe um cartuxo de dinheiro em ouro, que sua me lhe
enviava. Simo Botelho aceitou o dinheiro, e na presena de Mouro
Mosqueira pediu ao commandante que fizesse distribuir pelos seus
companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.

-- demente o senhor Simo?!--disse o desembargador.

--Tenho a demencia da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi:
quero agora vr a que extremo de infortunio ella pde levar os seus
amantes. A caridade s me no humilha, quando parte do corao e no do
dever. No conheo a pessoa, que me remetteu este dinheiro.

-- sua me--tornou Mosqueira.

--No tenho me. Quer v. ex.^a remetter-lhe esta esmola rejeitada?

--No, senhor.

--Ento, senhor commandante, cumpra o que lhe peo, ou eu atiro com isto
ao rio.

O commandante aceitou o dinheiro, e o desembargador sahiu de bordo como
espantado da sinistra condio do moo.

--Onde  Monchique?--pergutou Simo a Marianna.

-- acol, senhor Simo--respondeu, indicando-lhe o mosteiro, que se
debrua sobre a margem do Douro, em Miragaya.

Cruzou os braos Simo, e viu atravs do gradeamento do mirante um
vulto.

Era Thereza.

Na vespera recebra ella o adeus de Simo, e respondra enviando-lhe a
trana dos seus cabellos.

Ao anoitecer d'aquelle dia, pediu Thereza os sacramentos, e commungou 
grade do cro, onde se foi amparando  sua criada. Parte das horas da
noite passou-as sentada ao p do sanctuario de sua tia, que toda a noite
orou. Algumas vezes pediu que a levassem  janella que se abria para o
mar, e no sentia ali a frialdade da virao. Conversava serenamente com
as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo, por seu p, s
cellas das senhoras entrevadas, para lhes dar o beijo da despedida.

Todas cuidavam em reanimal-a, e Thereza sorria, sem responder aos
piedosos artificios com que as boas almas a si mesmas queriam simular
esperanas. Ao abrir da manh, Thereza leu uma a uma as cartas de Simo
Botelho. As que tinham sido escriptas nas margens do Mondego,
enterneciam-na a copiosas lagrimas. Eram hymnos  felicidade prevista:
eram tudo que mais formoso pde dar o corao humano, quando a poesia da
paixo d cr ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe
empresta os seus esmaltes. Ento lhe acudiam vivas reminiscencias
d'aquelles dias: a sua alegria doida, as suas dces tristezas,
esperanas a desvanecerem saudades, os mudos colloquios com a irm
querida de Simo, o ceu aromatico que se lhe ampliava  aspirao
sfrega de vagos desejos, tudo, emfim, que lembra a desgraados.

Emmassou depois as cartas, e cintou-as com fitas de sda desenlaadas de
raminhos de flres murchas, que Simo, dois annos antes, lhe atirra da
sua janella ao quarto d'ella.

As petalas das flres soltas quasi todas se desfizeram, e Thereza,
contemplando-as, disse: Como a minha vida... e chorou, beijando os
calices desfolhados das primeiras que recebra.

Deu as cartas a Constana, e encarregou-a de uma ordem, a respeito
d'ellas, que logo veremos cumprida.

Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo reclinado
sobre uma cadeira. Erguendo-se, quasi tirada pela violencia, aceitou uma
chicara de caldo, e murmurou com um sorriso: Para a viagem...

s nove horas da manh pediu a Constana que a acompanhasse ao mirante
e, sentando-se em ancias mortaes, nunca mais desfitou os olhos da nau,
que j estava de verga alta, esperando a leva dos degredados.

Quando viu, a dois a dois, entrarem amarrados, no tombadilho, os
condemnados, Thereza teve um breve accidente, em que a j froixa
claridade dos olhos se lhe apagou, e as mos convulsas pareciam querer
aferrar a luz fugitiva.

Foi ento que Simo Botelho a viu.

E ao mesmo tempo atracou  nau um bote, em que vinha a pobre de Vizeu
chamando Simo. Foi elle ao portal, e estendendo o brao  mendiga,
recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu elle que a primeira no
era sua, pela lizura do papel; mas no a abriu.

Ouviu-se a voz de levar ancora, e largar amarras. Simo encostou-se 
amurada da nau, com os olhos fitos no mirante.

Viu agitar-se um leno, e elle respondeu com o seu quelle aceno. Desceu
a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distinctamente Simo viu
um rosto e uns braos suspensos das rxas de ferro; mas no era de
Thereza aquelle rosto: seria antes um cadaver que subiu da claustra ao
mirante, com os ossos da cara inados ainda das herpes da sepultura.

-- Thereza?--perguntou Simo a Marianna.

--, senhor,  ella--disse n'um afogado gemido a generosa creatura,
ouvindo o seu corao dizer-lhe que a alma do condemnado iria breve no
seguimento d'aquella por quem se perdra.

De repente aquietou o leno que se agitava no mirante, e avistou Simo
um movimento impetuoso de alguns braos, e o desapparecimento de Thereza
e do vulto de Constana, que elle entre-vira mais tarde.

A nau parou de fronte de Sobreiras. Uma nuvem no horisonte da barra, e o
subito encapellamento das ondas, causra a suspenso por ordem do
commandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia, com o piloto mr,
que mandava lanar ferro, at novas ordens. Mais tarde, deferiu-se a
sahida para o dia seguinte.

E, no entanto, Simo Botelho, como o cadaver embalsamado, cujos olhos
reluzentes se cravam n'um ponto immoveis, l tinha os seus immersos na
interior escuridade do miradouro. Nenhum signal de vida, e as horas
passaram at que o derradeiro raio do sol se apagou nas grades do
mosteiro.

Ao escurecer voltou de terra o commandante, e contemplou, com os olhos
embaciados de lagrimas, o desterrado, que contemplava as primeiras
estrellas, eminentes ao mirante.

--Procura-a no ceu?--disse o nauta.

--Se a procuro no ceu!--repetiu machinalmente Simo.

--Sim!... no ceu deve ella estar.

--Quem, senhor?

--Thereza.

--Thereza!... Morreu?!

--Morreu, lem, no mirante, d'onde lhe estava acenando.

Simo curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O
commandante lanou-lhe os braos e disse:

--Coragem, grande desgraado, coragem! os homens do mar crem em Deus!
Espere que o ceu se abra para si pelas supplicas d'aquelle anjo!

Marianna estava um passo atraz de Simo, e tinha as mos erguidas.

--Acabou-se tudo!...--murmurou Simo-- Eis-me livre... para a morte...
Senhor commandante--continuou elie energicamente--eu no me suicido.
Pde deixar-me.

--Peo-lhe que se recolha  camara. O seu beliche est ao p do meu.

-- obrigatorio recolher-me?

--Para v. s.^a no ha obrigaes; ha rogos: peo-lh'o no mando.

--Vou, e agradeo a compaixo.

Marianna seguiu-o com aquelle olhar quebrado e mavioso do jo, quando o
poeta desembarcava, segundo a ideia apaixonada do cantor de Cames.

Encarou n'ella Simo, e disse ao commandante:

--E esta infeliz?

--Que o siga...--respondeu o compassivo homem do mar, que cria em Deus.

Simo recolheu-se ao beliche, e o commandante sentou-se em frente
d'elle, e Marianna ficou no escuro da camera a chorar.

--Falle, senhor Simo!--disse o commandante--desafogue e chore.

--Chorei, senhor!

--Eu no tinha imaginado uma angustia igual  sua. A inveno humana no
creou ainda um quadro to atroz. Arripiam-se-me os cabellos, e tenho
visto espectaculos horriveis na terra e no mar.

Acintemente, o commandante estava provocando Simo ao desabafo. No
respondia o degredado. Ouvia os soluos de Marianna, e tinha os olhos
postos no masso das cartas, que pozera sobre uma banqueta.

O capito proseguiu:

--Quando em Miragaya me contaram a morte d'aquella senhora, pedi a uma
pessoa relacionada no convento, que me levasse a ouvir d'alguma freira a
triste historia. Uma religiosa m'a contou; mas eram mais os gemidos que
as palavras. Soube que ella, quando desciamos na altura do Oiro,
proferira em alta voz: Simo, adeus at  eternidade! e cahiu nos
braos d'uma criada. A criada gritou, e outras foram ao mirante, e a
trouxeram meia-morta para baixo, ou morta, melhor direi, que nenhuma
palavra mais lhe ouviram. Depois contaram-me o que ella penra em dois
annos e nove mezes n'aquelle mosteiro. O amor que ella lhe tinha, e as
mil mortes que ella ali padeceu, de cada vez que a esperana lhe morria,
Que desgraada menina, e que desgraado moo o senhor !

--Por pouco tempo...-- disse Simo, como se o dissesse a si proprio, ou
a propria imaginao o estivesse dialogando comsigo.

--Creio, creio, por pouco tempo--proseguiu o capito;--mas se os amigos
podessem salval-o, senhor, eu dar-lh'os-ia na India mais fieis que em
Portugal. Prometto-lhe, sob minha palavra de honra, alcanar do visorei
a sua residncia em Ga. Prometto segurar-lhe um decente principio de
vida, e as commodidades que fazem a existencia to saudavel como ella 
na Asia. No o intimide a ideia do degredo, senhor Simo. Viva, faa por
vencer-se, e ser feliz!

--O seu silencio, por piedade, senhor...--atalhou o degredado.

--Bem sei que  cdo ainda para planisar futuros. Desculpe  sympathia,
que me inspira, a indiscrio. Mas aceite um amigo n'esta hora
atribulada.

--Aceito, e preciso d'elle.... Marianna!--chamou Simo--Venha aqui, se
este cavalheiro o permitte.

Marianna entrou no quarto.

--Esta mulher tem sido a minha providencia--disse Simo--Porque ella me
valeu, no senti a fome em dois annos e nove mezes de carcere. Tudo que
tinha vendeu para me sustentar e vestir. Aqui vai comigo esta creatura.
Seja respeitavel aos seus olhos, senhor, porque ella  to pura como a
verdade o deve ser nos labios d'um moribundo. Se eu morrer, senhor
commandante, aceite o legado de a amparar com a sua caridade como se
ella fosse minha irm. Se ella quizer voltar  patria, seja o seu
protector na passagem.--E estendendo-lhe a mo, disse com
transporte:--Promette-me isto, senhor?

--Juro-lh'o.

O commandante, obrigado a subir ao tombadilho, deixou Simo com
Marianna.

--Estou tranquillo pelo seu futuro, minha amiga.

--Eu j o estava, senhor Simo--respondeu ella.

No se trocaram palavra por largo espao. Simo apoiou a face sobre a
mesa, e apertou com as mos as fontes archejantes. Marianna, de p, ao
lado d'elle, fitava os olhos na luz mortia da lampada oscillante, e
scismava, como elle, na morte.

E o nordeste sibilava, como um gemido, nas gveas da nau.




CONCLUSO.


s onze horas da noite o commandante recolhra-se n'um beliche de
passageiro, e Marianna, sentada no pavimento, com o rosto sobre os
joelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e afflictivas
horas d'aquelle dia.

Simo Botelho velava prostrado no camarote, com os braos cruzados sobre
o peito, e os olhos fitos na luz que balanava, pendente d'um arame. O
ouvido tl-o-ia talvez attento ao assovio da ventania: devia de soar-lhe
como um ai plangente aquelle silvo agudo, voz unica no silencio da terra
e do ceu.

 meia noite estendeu Simo o brao tremulo ao masso das cartas que
Thereza lhe envira, e contemplou um pouco a que estava ao de cima, que
era d'ella. Rompeu a obreia, e dispz-se no camarote para alcanar o
bao claro da lampada.

Dizia assim a carta:

 j o meu espirito que te falla, Simo. A tua amiga morreu. A tua
pobre Thereza,  hora em que leres esta carta, se me Deus no engana,
est em descanso.

Eu devia poupar-te a esta ultima tortura; no devia escrever-te; mas
perda  tua esposa do ceu a culpa pela consolao que sinto em
conversar comtigo a esta hora, hora final da noite da minha vida.

Quem te diria que eu morri, se no fosse eu mesma, Simo? D'aqui a pouco
perders da vista este mosteiro; corrers milhares de leguas, e no
achars, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga: A infeliz
espera-te n'outro mundo, e pede ao Senhor que te resgate.

Se te podesses illudir, meu amigo, quererias antes pensar que eu ficava
com vida e com esperana de vr-te na volta do degredo? Assim pde ser,
mas ainda agora, n'este solemne momento, me domina a vontade de fazer-te
sentir que eu no podia viver. Parece que a mesma infelicidade tem s
vezes vaidade de mostrar que o , at no podl-o ser mais! Quero que
digas: Est morta, e morreu quando lhe eu tirei a ultima esperana.

Isto no  queixar-me, Simo, no . Talvez que eu podesse alguns dias
resistir  morte, se tu ficasses; mas, d'um modo ou d'outro, era
inevitavel fechar os olhos quando se rompesse o ultimo fio, este ultimo
que se est partindo, e eu mesma o oio partir.

No vo estas palavras accrescentar a tua pena. Deus me livre de ajuntar
um remorso injusto  tua saudade.

Se eu podesse ainda vr-te feliz n'este mundo; se Deus permittisse 
minha alma esta viso!... _Feliz_, tu, meu pobre condemnado!... Sem o
querer, o meu amor agora te fazia injuria, julgando-te capaz de
felicidade! Tu morrers de saudade, se o clima do desterro te no matar
ainda antes de succumbires  dr do espirito.

A vida era bella, era, Simo, se a tivessemos como tu m'a pintavas nas
tuas cartas, que li ha pouco. Estou vendo a casinha que tu descrevias
defronte de Coimbra, cercada de arvores, flres e aves. A tua imaginao
passeava comigo s margens do Mondego,  hora pensativa do escurecer.
Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a
mudez do corao ao teu silencio, e animada por teu sorriso inclinava a
face ao teu seio, como se fosse ao de minha me. Tudo isto li nas tuas
cartas; e parece que cessa o despedaar da agonia em quanto a alma se
esta recordando. N'outra carta me fallavas em triumphos e glorias e
immortalidade do teu nome. Tambm eu ia aps da tua aspirao, ou
adiante d'ella, porque o maior quinho dos teus prazeres de espirito
queria eu que fosse meu. Era criana ha tres annos, Simo, e j entendia
os teus anhelos de gloria, e imaginava-os realisados como obra minha, se
me tu dizias, como disseste muitas vezes, que no serias nada sem o
estimulo do meu amor.

 Simo, de que ceu to lindo cahimos!  hora que te escrevo ests tu
para entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura.

Que importa morrer, se no podemos jmais ter n'esta vida a nossa
esperana de ha tres annos?! Poderias tu com a desesperana e com a
vida, Simo? Eu no podia. Os instantes do dormir eram os escassos
beneficios que Deus me concedia; a morte  mais que uma necessidade, 
uma misericordia divina, uma bemaventurana para mim.

E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio? Onde irs tu
aviventar o corao que a desgraa te esmagou, sem poder esmagar a
imagem d'esta docil mulher, que seguiu cegamente a estrella da tua
malfadada sorte?

Tu nunca hs de amar, no, meu esposo? Terias pejo de ti mesmo, se uma
vez visses passar rapidamente a minha imagem por diante dos teus olhos
enxutos? Soffre, soffre ao corao da tua amiga estas derradeiras
perguntas, a que tu responders, no alto mar, quando esta carta lres.

Rompe a manh. Vou vr a minha ultima aurora... a ultima dos meus
dezoito annos!

Abenoado sejas, Simo! Deus te proteja, e te livre d'uma agonia longa.
Todas as minhas angustias lhe offereo em desconto das tuas culpas. Se
algumas impaciencias a justia divina me condemna, offerece tu a Deus,
meu amigo, os teus padecimentos para que eu seja perdoada.

Adeus;  luz da eternidade parece-me que j te vejo, Simo.

Erguei-se Simo Botelho, olhou em redor de si, e fitou com spasmo
Marianna, que levantava a cabea ao menor movimento d'elle.

--Que tem, senhor Simo?--disse ella, erguendo-se.

--Estava aqui, Marianna?... no se vai deitar?!

--No vou: o commandante deu-me licena de ficar aqui.

--Mas ha de assim passar a noite?! Rogo-lhe que v, porque no 
necessario o seu sacrificio.

--Se o no incommodo, deixe-me aqui estar, senhor Simo.

--Esteja, minha amiga, esteja... Poderei subir ao convez?

--Quer ir ao convez, senhor Botelho?--disse o commandante lanando-se do
beliche.

--Queria, senhor commandante.

--Iremos juntos.

Simo ajuntou a carta de Thereza ao mao das suas, e subiu cambaleando.
No convz sentou-se n'um monte de cordame, e contemplou o mirante de
Monchique, que avultava negro ao sop da serra penhascosa em que
actualmente vai a rua da Restaurao.

O capito passeava da pra  r; mas com o ouvido fito aos movimentos do
degredado. Recera elle o proposito do suicidio, porque Marianna lhe
incutira semelhante suspeita. Queria o maritimo fallar-lhe palavras
consoladoras, mas pensava comsigo: O que ha de dizer-se a um homem que
soffre assim? E parava junto d'elle algumas vezes, como para
desviar-lhe o espirito d'aquelle mirante.

--Eu no me suicido!--exclamou abruptamente Simo Botelho--Se a sua
generosidade, senhor capito, se interessa em que eu viva, pde dormir
descansado a sua noite, que eu no me suicido.

--Mas mereo-lhe eu a condescendencia de descer comigo  camara?

--Irei; mas eu l soffro mais, senhor.

No replicou o commandante, e continuou a passear no convez, apesar das
rajadas de vento.

Marianna estava agachada, entre os pacotes da carga, a pouca distancia
de Simo. O commandante viu-a, fallou-lhe, e retirou-se.

s tres horas da manh Simo Botelho segurou entre as mos a testa que
se lhe abria abrazada pela febre.

No pde ter-se sentado, e deixou cahir meio corpo. A cabea, ao
declinar, pousou no seio de Marianna.

--O anjo da compaixo sempre comigo!--murmurou elle--Thereza foi muito
mais desgraada...

--Quer descer ao camarote?--disse ella.

--No poderei... Ampare-me, minha irm.

Deu alguns passos para o alapo, e olhou ainda para o mirante. Desceu a
ingreme escada, apegando-se s cordas. Lanou-se sobre o colcho, e
pediu agua, que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o
estorcimento, e as ancias, com intervallos de delirio.

De manh veio a bordo um facultativo, por convite do capito. Examinando
o condemnado, disse que era maligna a doena, e que bem podia ser que
elle achasse a sepultura no caminho da India.

Marianna ouviu o prognostico, e no chorou.

s onze horas sahiu barra fra a nau. s ancias da doena accresceram as
do enjoo. A pedido do commandante, Simo bebia remedios, que bolsava
logo, revoltos pelas contraces do vomito.

Ao segundo dia de viagem Marianna disse a Simo:

--Se o meu irmo morrer, que hei de eu fazer quellas cartas que vo na
caixa?

Pasmosa serenidade a d'esta pergunta!

--Se eu morrer no mar--disse elle--Marianna atire ao mar todos os meus
papeis; todos; e estas cartas que esto debaixo do meu travesseiro
tambem.

Passada uma ancia, que lhe embargara a voz, Simo continuou:

--Se eu morrer, que tenciona fazer, Marianna!

--Morrerei, senhor Simo.

--Morrer?!.. Tanta gente desgraada que eu fiz!...

A febre augmentava. Os symptomas da morte eram visiveis aos olhos do
capito, que tinha sobeja experiencia de vr morrerem centenares de
condemnados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algum
medicamento.

Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascaes,
sobreveio tormenta subita. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e
perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado para o sul. Ao sexto dia
de navegao incerta, por entre espssas brumas, partiu-se o leme
defronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as refegas,
desencapellaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do dia seguinte, um
formoso dia de primavera. Era o dia 27 de Maro, o nono da enfermidade
de Simo Botelho.

Marianna tinha envilhecido. O commandante, encarando n'ella, exclamou:

--Parece que volta da India com os dez annos de trabalhos j
passados!...

--J acabados... de certo...--disse ella.

Ao anoitecer d'esse dia o condemnado delirou pela ultima vez, e dizia
assim no seu delirio:

A casinha, defronte de Coimbra, cercada de arvores, flres e aves.
Passeavas comigo  margem do Mondego,  hora pensativa do escurecer.
Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a
mudez do corao ao teu silencio, e, animada por teu sorriso, inclinava
a face ao teu seio como se fosse o de minha me... De que ceu to lindo
cahimos... A tua amiga morreu... A tua pobre
Thereza.............................

E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio?... Onde irs
tu aviventar o corao que a desgraa te esmagou... Rompe a manh... Vou
vr a minha ultima aurora... a ultima dos meus dezoitos annos. Offerece
a Deus os teus padecimentos para que eu seja perdoada... Marianna...

Marianna collou os ouvidos aos labios roixos do moribundo, quando cuidou
ouvir o seu nome.

Tu virs ter comnosco; ser-te-hemos irmos no ceu... O mais puro anjo
sers tu... se s d'este mundo, irm; se s d'este mundo, Marianna...

A transio do delirio para a lethargia completa era o annuncio
infallivel do trespasse.

Ao romper da manh apagra-se a lampada. Marianna sahira a pedir luz, e
ouvira um gemido estorturoso. Voltando s escuras, com os braos
estendidos para tactear a face do agonisante, encontrou a mo convulsa,
que lhe apertou uma das suas, e relaxou de subito a presso dos dedos.

Entrou o commandante com uma lampada, e approximou-lh'a da respirao,
que no embaciou levemente o vidro.

--Est morto!...-- disse elle.

Marianna curvou-se sobre o cadaver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro
beijo. Ajoelhou depois ao p do camarote com as mos erguidas, e no
orava nem chorava.

Algumas horas depois, o commandante disse a Marianna:

--Agora  tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo ...  ventura
morrer quando se vem a este mundo com tal estrella... Passe a senhora
Marianna ali para a camara, que vai ser levado d'aqui o defuncto.

Marianna tirou o masso das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma
caixa buscar os papeis de Simo. Atou o rolo no avental, que elle tinha
d'aquellas lagrimas d'ella choradas no dia da sua demencia, e cingiu o
embrulho  cintura.

Foi o cadaver envolto n'um lenol, e transportado ao convez.

Marianna seguiu-o.

Do poro da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou s pernas
com um pedao de cabo. O commandante contemplava a scena triste com os
olhos humidos, e os soldados, que guarneciam a nau, to funeral respeito
os acurvava, que insensivelmente se descobriram.

Marianna estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia
estupidamente encarar aquelles empuxes, que o marujo dava ao cadaver
para segurar a pedra na cintura.

Dois homens ergueram o cadaver ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o
balano para o arremessarem longe. E antes que o baque do morto se
fizesse ouvir na agua, todos viram, e ningum j pde segurar Marianna,
que se atirra ao mar.

 voz do commandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens
para salvar Marianna.

Salval-a!...

Viram-na, um momento, bracejar, no para resistir  morte, mas para
abraar-se ao cadver de Simo, que uma onda lhe atirou aos braos. O
commandante olhou para o sitio d'onde Marianna se atirra, e viu,
enleado no cordame, o avental, e  flor d'agua um rolo de papeis que os
marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondencia de
Thereza e Simo.

       *       *       *       *       *

Da familia de Simo Botelho vive ainda, em Villa Real de Traz-os-Montes,
a senhora D. Rita Emilia da Veiga Castello Branco, a irm predilecta
d'elle. A ultima pessoa fallecida, ha vinte e seis annos, foi Manoel
Botelho, pae do author d'este livro.


FIM.

       *       *       *       *       *

[1] Ha vinte annos que eu ouvi d'um coevo do facto a historia do
assassinio assim contada: Era em quinta Feira santa. Marcos Botelho,
irmo de Domingos, estava na festa de endoenas, em S. Francsco,
defrontando com uma dama, namorada sua, e desleal dama que ella era.
N'outro ponto da igreja estava, apontado em olhos e corao  mesma
mulher, um alferes de infanteria. Marcos enfreou o seu ciume at ao
final do officio da paixo.  sahida do templo encarou no militar, e
provocou-o. O alferes tirou da espada, e o fidalgo do espadim. Teraram
as armas longo tempo sem desaire nem sangue. Amigos de ambos tinham
conseguido aplacal-os, quando Luiz Botelho, outro irmo de Marcos,
desfechou uma clavina no peito do alferes, e alli  entrada da rua do
Jogo da Bola o derribou morto. O homicida foi livre por graa regia.

[2]  a casa-palacete da rua da Piedade, hoje pertencente ao doutor
Antonio Girardo Monteiro.

[3] Esclarece este dizer de D. Rita a certido de idade de Simo, a qual
tenho presente, e  extrahida por Herculano Henrique Garcia Camillo
Galhardo, reitor da real Igreja da Senhora da Ajuda, do livro 14, a
folhas 159 v. Reza assim:

Aos dois dias do mez de maio de 1784, pz os santos oleos o reverendo
padre cura Joo Domingues Chaves a Simo, o qual foi _baptisado em casa
em perigo de vida_ pelo Reverendo Frei Antonio de S. Pelagio, etc.

[4] N'alguns papeis que possuimos do corregedor de Vizeu achamos esta
carta: Meu amigo, collega e senhor. Entregar, ao portador d'esta, que
 o senhor padre Manoel de Oliveira, as cincoenta moedas em que lhe
fallei na sua passagem para Lisboa. A appellao de seu filho est a meu
cuidado, e est segura, apesar das grandes foras contrarias. Seu
amigo--O desembargador _Antonio Jos Dias Mouro Mosqueira_. Porto 11 de
fevereiro de 1805.--Sobrescripto: Ill.^mo Snr. D.^or Domingos Jos
Correia Botelho de Mesquita e Menezes.--Lisboa.

(_Nota do auctor_).

[5] Este romance foi escripto n'um dos cubiculos-carceres da Relao do
Porto, a uma luz coada por entre ferros, e abafada pelas sombras das
abobadas. Anno da Graa de 1861.

[6] _Hoje ento!..._ Vou-lhes contar um lance memorando d'um philosopho
da actualidade, lance unico pelo qual eu fiquei conhecendo a pessoa.
Hoje (21 de Setembro de 1861) estava eu no escriptorio do illustre
advogado Joaquim Marcellino de Mattos, e um cliente entrou contando o
seguinte:--Senhor doutor, eu sou um lojista da rua de ***; e fui
roubado em oitocentos mil reis por minha mulher, que fugiu com um amante
para Vianna. Venho saber se posso querelar, e receber o meu dinheiro.
--Pde querelar, respondeu o advogado, se tiver testemunhas. O senhor
quer querelar por adulterio?--Responde o queixoso: O que eu quero  o
meu dinheiro.--Mas, redargue o consultor, o senhor pde querelar de
ambos, d'ella por adultera, e d'elle como receptador do furto.--E
receberei o meu dinheiro?--Conforme. Eu sei c se elle tem o seu
dinheiro?! O que sei  que no pde pronuncial-a a ella como
ladra.--Mas os meus oitocentos mil reis?!--Ah! o senhor no se lhe d
que sua mulher fuja e no volte?--No, senhor doutor, que a leve o
diabo; o que eu quero  o meu dinheiro.--Pois querele d'ambos, o
veremos depois.--Mas no  certo receber eu o meu dinheiro?!--Certo
no ; veremos se depois de pronunciado as authoridades administrativas
capturam o ladro com o seu dinheiro.--E, se elle o no tiver
j?--redargue o marido consternado.--Se o no tiver j, o senhor
vinga-se na querela por adulterio.--E gasta-se alguma coisa?--Gasta,
sim; mas vinga-se.--O que eu queria era o meu dinheiro, senhor doutor:
a mulher deixal-a ir, que tem cincoenta annos.--Cincoenta
annos!--acudiu o doutor--o senhor est vingado do amante. V para casa,
deixe-se de querelas, que o mais desgraado  elle.


Encadernao N. 2465

FAUSTO FERNANDES

ENCADERNOU

Patio de D. Fradique, 1--LISBOA





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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
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DAMAGE.

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law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.

Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.net

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.

*** END: FULL LICENSE ***

